segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Fotos e fatos das Assembleias de Deus - Pernambuco

Quando surgiu no final do século XIX, muitos acreditaram que a fotografia seria o “espelho do real”. Hoje a conceituação mudou. A fotografia congela um momento do tempo e espaço, mas é sujeita a interpretações e manipulações por parte de diversas mídias. Ela (a foto) pode reforçar ou mascarar realidades. A proposta nessa postagem é analisar algumas fotos históricas e refletir sobre os bastidores e desdobramentos históricos das mesmas.

A imagem abaixo é o registro do culto fúnebre do pastor José Amaro da Silva, que liderou a AD em Pernambuco de 1956 a 1977. José Amaro era um obreiro respeitado e dinâmico e seu desaparecimento repentino, em 14 de abril de 1977, além da grande comoção entre os assembleianos, causou, segundo Moisés Germano, uma "divisão branca" na igreja pernambucana.




Em reunião convocada no dia 04 de julho de 1977, sob a mediação do missionário Eurico Bergstén, a Convenção da Assembleia de Deus no Estado de Pernambuco (CONADEPE) teve que escolher entre três candidatos, o novo líder da AD. Vale lembrar que o pastor da AD no Recife é também o líder das ADs em Pernambuco.

Para a vacância de Amaro concorreram, a princípio, os pastores José Leôncio da Silva, Issac Martins Rodrigues e José Severino de Oliveira. Por razões desconhecidas, Oliveira foi impedido de concorrer e a disputa ficou entre José Leôncio e Issac Martins. Através de votação aberta, o pastor Leôncio venceu o pleito com 18 votos contra apenas 6 indicações do pastor Issac.

Diante do resultado, Issac Martins Rodrigues resolveu reivindicar autonomia para a CGADB. Criou-se assim o "Ministério" de Abreu e Lima, nomenclatura usada para nomear divisões entre as igrejas em determinadas regiões. Contornava-se, assim, o racha na denominação, sem afrontar a igreja principal do estado. O reconhecimento do novo ministério veio em 1981, por decisão da mesa diretora da CGADB.

Portanto, o registro do pastor José Leôncio conduzindo a liturgia do culto fúnebre do pastor José Amaro é emblemática. Leôncio estava cercado pelos principais líderes das ADs nordestinas. Eurico Bergsten, João Batista da Silva/RN, Rodrigo Santana/BA e Emiliano Ferreira da Costa/CE rodeavam o futuro líder.

À esquerda, o pastor Issac assistia a condução do ato. A foto em si é uma antevisão do que ocorreria nos próximos dias. O líder de Abreu e Lima ao não conseguir emplacar seu nome para a presidência das ADs pernambucana, transformou a igreja do município da região metropolitana do Recife num ministério autônomo.

Porém, longe de estar à margem dentro da denominação, o pastor de Abreu e Lima conseguiu destaque nas CGADBs e no Conselho Administrativo da CPAD, do qual foi presidente. Assim, o Mensageiro da Paz noticiava  as celebrações da AD em Abreu e Lima com o mesmo destaque recebido pela AD no Recife.

Portanto, os conflitos em Pernambuco já possuem mais de quatro décadas de duração e não têm previsão para acabarem. Mas são todos assembleianos...

Fontes:

ANDRADE, Moisés Germano de. "Uma história social" da Assembleia de Deus: a conversão religiosa como forma de ressocializar pessoas oriundas da criminalidade. Dissertação (Mestrado) - Universidade católica de Pernambuco. Pró-reitoria Acadêmica. Curso de Mestrado em Ciências da religião, 2010.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

* Com informações de fragmentos do livro do Centenário das ADs no estado de Pernambuco.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

As ADs e o problema educacional (2ª parte)

Como observou-se na última postagem, antes do editorial escrito na revista A SEARA, em 1956, pelo pastor João Pereira de Andrade e Silva, intitulado "As Assembleias de Deus e o problema educacional", alguns Ministérios já tinham tomado algumas iniciativas nessa área.

A Escola São Paulo, em Madureira/RJ, já era uma realidade, assim como a Escola Primária Nels Nelson, em Manaus/AM. Naquele mesmo ano de 1956, no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo, o pastor Alfredo Reikdal fundou uma escola primária e, em 1957, um concorrido curso de datilografia. Há também o registro fotográfico de 1956 de um educandário em Dourados no atual Mato Grosso do Sul.

Em 1959, o pastor Alcebiades Vasconcelos, ao dar autonomia as congregações da AD em São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, criou o Instituto Filantrópico Evangélico para gerenciar as 07 escolas de nível primário com mais 780 crianças matriculadas. Era um número expressivo de estudantes na rede de ensino da igreja carioca.

Em 1961, A SEARA (maio/junho) também informou que a AD em Belém mantinha as Escolas Primárias Celina Albuquerque com 200 alunos matriculados no bairro da Condor, a Escola José Bezerra no bairro da Pedreira com 84 estudantes, e por último a Escola Plácido Aristóteles no bairro Sacramento com mais 300 crianças matriculadas.

Escola Primária da AD em Dourados/MS em 1956

Com a grandiosidade do trabalho escolar, segundo a matéria, estava sendo construído um prédio muito maior para não somente abrigar as instituições já em funcionamento, como também se projetava "cursos do ciclo ginasial e colegial, além de cursos de Instituto Bíblico para os vocacionados para a Seara do Senhor".

Verdadeiramente um projeto arrojado. Um avanço dentro da denominação, não só pelo notável número de alunos nas escolas, mas também por pensar em instituir, quando a denominação estava no auge dos debates sobre a criação de escolas teológicas, um instituto bíblico.

A AD em Recife/PE, também mantinha uma expressiva rede de 31 escolas primárias. Como aponta as matérias do Mensageiro da Paz de 1964, havia preocupação devido aos "vergonhosos índices de analfabetismo que cobre a Pátria". Alfabetizar para leitura da Bíblia.

Nessa mesma época, o pastor Antonieto Grangeiro Sobrinho, durante sua administração na AD em Joinville/SC, fundou em 1961, a Escola Primária Florianópolis, no antigo templo da congregação do bairro Itaum, a qual era mantida em convênio com poder municipal. 

Esse breve apanhado das escolas criadas por igrejas variadas, mostra como a AD ao longo de sua história não pensou um projeto educacional maior. Aliás, alguns líderes assembleianos pensavam que certas ações sociais não deveriam ser desenvolvidas pela igreja. 

João Pereira, no editorial de 1956, comentou: "Alguns achavam e ainda consideram ser o problema único a pregação do Evangelho para salvação das almas, e que a fundação de Escolas, Institutos ou Ginásios, é questão secundária". 

Infelizmente, ainda é um pensamento corrente entre muitos líderes.

Fontes:

COHEN, Eliezer. E Deus confirmou os seus passos: biografia do pastor Alfredo Reikdal. São Paulo: s/e, 2006.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

A SEARA (novembro/dezembro) de 1956.

A SEARA (maio/junho) de 1961

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1946.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1948.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1949.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de maio de 1951.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1958

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959.

Mensageiro da Paz, 1ª e 2ª quinzenas de dezembro de 1964.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

As ADs e o problema educacional (1ª parte)

Durante a 8ª Assembleia Geral Extraordinária (AGE) realizada em Ananindeua, na região metropolitana de Belém (PA), a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) tomou uma decisão histórica ao aprovar a criação da Rede Assembleiana de Ensino (RAE). A proposta, visa criar instituições de ensino de nível fundamental, médio e superior dentro das ADs seguindo o exemplo de igrejas evangélicas históricas.

A preocupação com a criação de instituições escolares dentro das ADs não é nova. Em 1956, a revista A SEARA (novembro/dezembro), no seu editorial, reconhecia o crescimento e os avanços da denominação nas questões sociais com a criação de asilos e orfanatos, mas apontava que pouco havia feito até então na questão escolar.

Segundo A SEARA, algumas igrejas mantinham educandários em funcionamento, mas outras de elevado número de membros, infelizmente, não possuíam nem mesmo escolas primárias ou ginásios (nome dado ao antigamente ao atual ensino fundamental). A preocupação com o bem estar e formação dos filhos de crentes em instituições escolares "ostensivamente contrários aos princípios evangélicos" era evidente.

Como se pode perceber, as preocupações e as críticas sobre o tema dispensado pela denominação é antiga. Alguns educandários foram criados como bem apontou o pastor João Pereira de Andrade e Silva, mas dentro da história das ADs, nunca se chegou a propor uma rede escolar idêntica a de outras igrejas evangélicas.

Entretanto, algumas medidas estavam sendo tomadas para amenizar a situação. Uma década antes do editorial, o Mensageiro da Paz da 1ª quinzena de maio de 1946, informou que a AD em Belém/PA, "conseguiu nomear professores e professoras para todas as Escolas Públicas da Capital, onde centenas de alunos ouvem o Evangelho e ficam no abrigo da intolerância de certos religiosos". O ambiente nas escolas seculares era realmente problemático para os pentecostais. A fé dos crentes chocava-se ante a "intolerância" da religião dominante.

Outra ação conhecida foi a criação pela a AD, em Manaus/AM em 1951, da Escola Primária "Nels Nelson", que contava na época, com o número de 176 alunos matriculados de ambos os sexos. Descrita como "uma grande vitória" resultante das "orações fervorosas" dos crentes, a instituição foi criada justamente com a intenção de "atender as crianças da igreja".

MP sobre a Escola São Paulo em Madureira no RJ

Nesse mesmo período, o jornal Mensageiro da Paz trazia uma matéria intitulada "Grande vitória para o Evangelho", onde relatava a inauguração das novas instalações da Escola São Paulo na AD em Madureira (RJ). Segundo o informativo, o pastor Paulo Macalão "há muitos anos desejava fundar uma escola, para beneficiar os filhos dos crentes em Cristo". 

Porém, detalhes da matéria sobre a Escola São Paulo chamam a atenção para o pioneirismo de Madureira nessa área. Segundo o relato do diretor da escola Geraldo Batista de Araújo, a instituição já funcionava sob sua responsabilidade há três anos, ou seja, desde 1948. Foi também amplamente destacado a transferência da instituição para sua nova sede e a visita de um conhecido e polêmico político paulista: Adhemar de Barros.

A Escola São Paulo, além de ser uma instituição pioneira dentro das ADs, era gratuita, mas com aceitação de ajuda espontânea por parte dos alunos. Também foi destacado o projeto do pastor Macalão de "abrir várias escolas, onde existam igrejas sob sua direção para instruir os filhos dos crentes, dentro das normas do cristianismo ...".

Saído de um contexto social privilegiado, Paulo Leivas sabia o valor da boa educação. Em sua biografia consta passagens por tradicionais colégios do Rio de Janeiro. Com a expansão do Ministério de Madureira e sua gradativa institucionalização, os planos de expandir a rede de ensino seria uma das formas de legitimar e de dar visibilidade social à igreja. Suas ligações com políticos conhecidos possivelmente seriam também uma forma de angariar recursos para outros projetos sociais em andamento.

Todavia, por motivos que serão apontados à frente, Macalão e outros líderes não criaram uma rede escolar e o editorial da revista A SEARA ficou como testemunho histórico da antiga preocupação de alguns líderes.

Fontes:

A SEARA (novembro/dezembro) de 1956.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1946.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1948.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1949.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de maio  de 1951.

sábado, 29 de junho de 2019

Silas Malafaia - a contradição gospel (2ª parte)

Silas Lima Malafaia desperta sentimentos contraditórios e as redes sociais estão ai para provar isso. Herdou, do pai e dos tios, o temperamento forte e do sogro recebeu a AD na Penha, bairro de classe média da cidade do Rio de Janeiro. No começo da década de 1980, o jovem pregador começou o seu programa na televisão, quando o aparelho ainda era um tabu na denominação.

Quando fundou a Central Gospel em 1999, o contexto da economia internacional favorecia os países emergentes como o Brasil. A alta das commodities (mercadorias produzidas em larga escala e que podem ser estocados sem perda de qualidade, como petróleo, suco de laranja congelado, boi gordo, café, soja e ouro) gerava caixa para o governo federal investir em obras públicas e programas sociais. Houve uma enorme expansão do consumo através do acesso ao microcrédito a pessoas físicas.


Nesse ambiente favorável aos negócios, a empresa de Malafaia prosperou. Seu programa ganhou mais audiência e ajudava na divulgação dos produtos da Central Gospel. Com suas pregações eloquentes e incisivas na defesa dos valores tradicionais, o famoso filho do pastor Gilberto, consolidou-se como um dos principais líderes evangélicos.

Em setembro de 2011, a revista Piauí traçou um interessante perfil do pastor Silas Malafaia. Registrou a rotina do televangelista e suas justificativas para as escandalosas campanhas de arrecadação de fundos: “Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangelísticas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim.”

A revista também destacou as atividades da Associação Vitória em Cristo. Com uma "área de 40 mil metros quadrados no bairro de Jacarepaguá, Zona Norte do Rio", a entidade sem fins lucrativos, financiava projetos sociais em favelas, cruzadas evangelísticas, congressos, encontros para a formação de líderes. Faturava, na época, 40 milhões de reais, através de ofertas e doações.

Com tantos compromissos, Silas transformou suas pregações. Se antes combatia a teologia da prosperidade, tornou-se um dos maiores defensores do ensino importado dos EUA. Aliás, ele mesmo era o principal beneficiário das bençãos divinas. Acumulou patrimônio e prestígio e, ao mesmo tempo, mais críticos e opositores.

Porém, a crise veio e abateu os projetos do famoso pregador. Lojas foram fechadas causando demissões de vários funcionários. Reconheceu o momento desfavorável: “É lamentável. As pessoas não estão consumindo. Estão ficando desempregadas e, como outras empresas, sentimos a crise. O sol se levanta e a chuva cai para o justo e o injusto. Veio para todos”.

No vídeo divulgado nas redes sociais, Silas procura deixar claro a separação que há entre seus negócios e o ministério herdado por ele com a morte do sogro em 2010. Contudo, não há como evitar a ironia: a teologia por ele defendida não o salvou da realidade imposta pela História. É um duro golpe para quem parecia ameaçar a CPAD ou que tinha a segunda maior editora do país.

Nos bastidores murmura-se outras causas para a decadência. Parece que as palavras de William Shakespeare se encaixam nesse drama: "Há algo de podre no reino da Dinamarca".

Só a eternidade revelará...

Fontes:

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vitoria-em-cristo/


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Silas Malafaia - a contradição gospel (1ª parte)

Criada em 1999, a Central Gospel, empresa controlada pelo pastor Silas Malafaia "comemora" de forma amarga esse ano seu 20º aniversário de fundação ao pedir recuperação judicial. Um duro revés para uma família que tem uma longa trajetória de influência na área editorial.

O pai de Silas, o pastor Gilberto Malafaia por muitos anos exerceu cargos da CGADB e na CPAD. A mãe, por sua vez, a professora Albertina Malafaia, colaborou na estruturação pedagógica das revistas da escola dominical, principal produto da editora. Atribui-se a Malafaia pai, o desligamento em 1989, do então diretor de publicações da CPAD, Nemuel Kessler devido a séria divergências envolvendo Albertina.

O poderio dos Malafaia na CPAD, demonstrava-se não só na blindagem dos seus membros na empresa, o que causou a demissão de Kessler, mas no fato de alguns interesses familiares serem contemplados. Exemplo disso, eram as compras que a Casa fazia dos livros da JUERP, na época patrocinadora do programa televisivo Renascer (antigo nome do Vitória em Cristo) apresentado por Silas.

Silas entre Albertina e Gilberto Malafaia

Num tempo de inflação galopante (fim da década de 1980), a JUERP com problemas financeiros, pagava seu patrocínio com livros por ela publicados. Silas revendia o material para a CPAD recebendo à vista pelos produtos, deixando para a editora assembleiana o problema de correr atrás do lucro (ou prejuízo) a longo prazo. Um negócio de pai pra filho sem dúvida. Convém lembrar, que Sérgio Malafaia, irmão de Silas, atuava como gerente comercial na editora.

Porém, a partir de 1993, com a gestão de Ronaldo Rodrigues de Souza, a influência dos Malafaia na editora foi contida. Ironicamente, o pastor Gilberto apoiou José Wellington em sua ascensão à presidência da CGADB e o desligamento do Ministério de Madureira da Convenção Geral. Talvez não imaginasse as surpresas do projeto do líder do Belenzinho.

Afastados da editora das ADs, da qual foram decisivos em momentos críticos, os Malafaia voltaram ao mercado editorial evangélico através da Central Gospel, ou seja, viraram concorrentes diretos da CPAD. Algo impensável em tempos antigos, quando a Casa Publicadora detinha o monopólio de publicações e vendas dentro da denominação.

Portanto, as críticas de Silas em rede nacional ao status quo da CGADB nunca foram gratuitas. A acirrada disputa pela presidência da Convenção Geral entre outras coisas, sempre envolveu o controle da CPAD. Malafaia sabia que a capacidade logística da editora seria de fundamental importância para seus negócios empresariais.

Mas Silas com sua postura incisiva, sempre apregoava o enorme crescimento da sua empresa. Expansão essa que teve um contexto econômico favorável. Nessas circunstâncias, a Central Gospel firmou-se ancorada no carisma do seu fundador e na gradual transformação teológica.

Todavia, a realidade se impôs, os recursos secaram e a crise abateu aparentemente o discurso da prosperidade. Assunto para a próxima postagem...

Fontes:

 ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

sábado, 8 de junho de 2019

Assembleia de Deus em Mato Grosso - contra o aggiornamento

Causou espanto e, em muitos casos, indignação para muitos evangélicos, a divulgação da resolução da Mesa Diretora da Convenção de Ministros das Assembleias de Deus do Estado no Mato Grosso (COMADEMAT), na qual reafirma "o seu ponto de vista no tocante aos sadios princípios" implantados pelas Assembleias de Deus no Brasil.

O documento é praticamente a cópia de outras normativas muito conhecidas pelos estudiosos assembleianos,  mas que gradativamente estão sendo relaxadas ou até mesmo abandonadas por muitas igrejas e ministérios. As igrejas do Mato Grosso, assim, pretendem ir na contramão do "aggiornamento" do pentecostalismo brasileiro, conceito trabalhado pela historiador Moab César Carvalho em seu livro "O Aggiornamento do Pentecostalismo Brasileiro".


Uma rápida pesquisa nos acervos do Mensageiro da Paz apontam para a persistente postura tradicional do pastor Sebastião Rodrigues de Souza. Eleito presidente da CGADB para o biênio 1993/95, o informativo assembleiano de março de 1993, celebrou a eleição do líder de Cuiabá como a afirmação do "perfil conservador da igreja".

Em outros textos no Mensageiro da Paz, o então presidente da Convenção Geral falou das suas experiências com a igreja e sobre a televisão, o qual segundo ele, era para Deus era um "aparelho maldito". O ancião não admitia que um crente salvo pudesse ter esse tipo de mídia e discorria sobre os trajes femininos, maquiagens, jóias, anéis e correntes, considerados "vaidades" abomináveis diante de Deus. O futebol do mesmo modo era alvo de críticas por parte do líder da CGADB.

No Encontro Nacional de Líderes das Assembleias de Deus (ELAD) em janeiro de 1994 como presidente da CGADB, o pastor Sebastião debateu com os demais líderes sobre o uso da televisão. Afirmou ter "recebido determinação divina" para alertar os pastores sobre o aparelho".

Entre as propostas de renúncia da TV e de suas programações ou o uso da mídia para evangelização, os debates foram intensos. Algumas igrejas estavam com projetos em andamento na área televisiva e a Rede Boas Novas em Manaus/AM já era uma realidade. A contradição naquele momento era visível e forte acerca do assunto.

No final das contas, ninguém pode negar que o pastor Sebastião foi coerente com suas pregações, mas fica a dúvida: as normas do documento serão de fato obedecidas sempre, mesmo depois da morte ou jubilação do líder de Cuiabá? A determinação draconiana será respeitada por todos os membros independente da sua posição social?

Assembleianos observadores e críticos sabem que, muitas vezes a severidade, a "doutrina" e os sacrifícios de "santidade", quase sempre é imposta para as ovelhas das periferias. E que nem mesmo a família e os auxiliares mais próximos da liderança conservadora se submete a tamanho fardo por eles defendido.

Em resumo: usos e costumes nas ADs é um assunto que nunca sai de moda e ainda vai render muito na denominação.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COSTA, Moab César Carvalho. O Aggiornamento do Pentecostalismo Brasileiro: as Assembleias de Deus e o processo de acomodação à sociedade de consumidores. São Paulo: Editora Recriar, 2019.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Irmã Wanda - o adeus da matriarca do Belenzinho

Partiu para a eternidade, a irmã Wanda Freire da Costa, esposa do pastor José Wellington Bezerra da Costa. Nascida em Fortaleza/CE, no dia 22 de setembro de 1934, ela era filha de comerciantes e a mais velha das mulheres num total de nove irmãos. Começou a frequentar a Assembleia de Deus ainda criança e participava ativamente dos departamentos da igreja.

Nesse contexto, Wanda conheceu José Wellington. Os dois começaram a se aproximar na adolescência e para ser notado pela moça, ele ficava na porta saudá-la com a "Paz do Senhor". Numa viagem de evangelização promovida pela juventude da igreja os dois iniciaram a aproximação. Estavam com 15 anos de idade e Wellington brincava de desamarrar as tranças do cabelo dela cuidadosamente presas com fitinhas. 

No dia 14 de janeiro de 1950, o convite para o namoro foi feito na Praça da Lagoinha depois da saída dela do colégio. Sentado no banco da praça ao lado do jardim, o jovem Costa arriscou o pedido. Wanda queria ainda pensar um pouco, José Wellington mais impaciente queria namorar logo. 

No começo as famílias viram com receio e desconfiança o precoce relacionamento de dois adolescentes de 15 anos. Por conta do trabalho e dos estudos, o enamorado José só ia encontrar-se com sua amada aos sábados e vez por outra em algum dia da semana. Como era normal para aquela época, o tempo de namoro era rigidamente controlado.

Wanda e José Wellington: mais de seis décadas de união

Depois de muito trabalho e espera, Wanda Freire e José Wellington casaram-se no dia 14 de janeiro de 1953, numa simples cerimônia civil e religiosa, exatamente três anos depois do pedido de namoro na Praça da Lagoinha. O primeiro filho (José Wellington Costa Junior) nasceu nove meses depois da união em 15 de outubro de 1953.

A mudança da família Costa para São Paulo se deu em 1954. Na metrópole paulista o casal teve seus outros rebentos e prosperou na área do comércio. Paralelamente, Wellington começava sua carreira ministerial e se destacava na liderança do Belenzinho. Assim com as intensas ocupações e viagens do esposo como líder do Ministério do Belenzinho, Wanda cuidava da casa, dos filhos e dos negócios da família.

Para os assembleianos em geral, Wanda Freire Costa começou a ser apresentada a partir de 1988, com a ascensão do esposo a presidência da CGADB. Enquanto o pastor Costa conseguia suas sucessivas reeleições, Wanda organizava a União Nacional de Esposas de Ministros das Assembleias de Deus (UNEMAD).

Wanda teve a evidência que muitas esposas de ex-presidentes da CGADB não tiveram. Sua liderança à frente da UNEMAD e o enorme destaque que a CPAD deu a ela nesses últimos 30 anos, inclusive com o lançamento de um livro, ajudou muito a torna-lá conhecida. Nas fotos dos periódicos da Casa Publicadora, ela praticamente é onipresente ao lado do seu "Dedé" - apelido carinhoso dado ao esposo.

Sobre a polêmica e proverbial personalidade de Wanda Freire, o próprio marido deu uma pista sobre o assunto em sua biografia: segundo ele, a esposa não aceitava nada "enrolado", ou seja, não havia para ela meio termo, "verdade é verdade, e o que não é verdade, é mentira" - concluiu ele.

Conta-se nos bastidores sobre a influência da senhora Costa no Ministério. Enquanto seu esposo parecia agir com mais diplomacia, Wanda, muitas vezes passava a imagem de prepotência por seu jeito direto de ser. Muitos pastores tinham receio das impressões que a primeira-dama do Belenzinho pudesse ter sobre eles e alguns até a evitavam.

Da mesma forma, as visitas dela na CPAD provocavam movimentações inusitadas na editora. Sabendo do perfil conservador da esposa de José Wellington, as funcionárias cuidavam na discrição das vestes e na estética. Ninguém queria desagradar ou chamar a atenção negativamente da filha da "Irmã Francisquinha".

Sua morte abre uma lacuna na família e no Belenzinho. Foram 66 anos de casamento e outros tantos de dedicação ao ministério. Ficará seu legado e sua memória entre os assembleianos de todo o Brasil.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Igrejas e Ministérios - a busca pela legitimidade


As Assembleias de Deus no Brasil vivem nos últimos anos, uma intensa fragmentação ministerial. CGADB, CONAMAD, CADB e outras convenções menores disputam espaço e representatividade no mundo eclesiástico e, principalmente, no político.

Na última postagem do blog, refletiu-se sobre a importância e utilização da história e memória na busca pela legitimação institucional, pois diante da cada vez mais acirrada concorrência ninguém quer ficar à margem da história ou parecer um simples genérico dentro do sistema.

Por esse motivo, entre as igrejas cresceu a valorização e a utilização de substantivos que reforçam suas origens. Exemplo disso é a valorização que a AD em Belém/PA dá cada vez mais ao título Igreja-Mãe. As ADs em Santos/SP e em Macapá/AP também enfatizam sua primazia em seus estados com a nomenclatura "a pioneira".

Mas há casos inusitados. Em Manaus/AM, nos anos 2000, uma cisão gerou a AD Tradicional. Nascida em oposição aos métodos controversos da AD liderada por Jonatas Câmara, o novo ministério procurou resgatar no nome, àquilo que supostamente se perdeu no pentecostalismo local: as tradições legadas pelos pioneiros.

Daniel Berg em frente ao antigo templo da AD em SP: a pioneira

Essa situação no Amazonas não deixa de ser irônica do ponto de vista da história. Nos primórdios, as ADs com sua ênfase nos dons e manifestações carismáticas procurava se diferenciar das denominações históricas, também chamadas de tradicionais. Em Manaus, o termo "tradicional", no novo ministério, tem agora novo sentido.

Porém esse tipo de recurso não é novo dentro das ADs. A busca pela legitimidade vinculada ao pioneirismo é antiga. Paulo Macalão, tantas vezes citado na história pela postura independe em relação aos suecos (citação essa pinçada diretamente do diário de Vingren), na CGADB de 1951, diante da discussão sobre o uso de métodos para se manter um avivamento, afirmou que usava alguns aprendidos com Gunnar Vingren.

Cícero Canuto de Lima foi mais longe. Por ocasião dos 50 anos de seu ministério em 1974, declarou ao Mensageiro da Paz, ser desejoso de perseverar na doutrina e nos costumes dos missionários suecos. Anos depois, em declaração à Folha de São Paulo, em janeiro de 1982, afirmava no fim da vida ainda pertencer ao "tronco principal", ou seja, da ramificação fundada pelos escandinavos.

Por esse motivo, as notícias sobre os trabalhos da AD do Belenzinho/SP enviadas ao Mensageiro da Paz, sempre intitulava a igreja de "pioneira" e "Igreja Mãe" em São Paulo em oposição a outros ministérios tidos como ilegítimos. Há sempre um tom nada cordial em relação aos outros grupos da AD implantados na pauliceia.
...a Assembleia de Deus, no Belém, é a igreja pioneira do Trabalho Pentecostal no Estado de São Paulo, isto é das Assembleias de Deus no Brasil. Ela é a mesma iniciada pelo Pioneiro Missionário Daniel Berg que começou este abençoado trabalho, em um dos bairros desta capital... Da igreja Assembleia de Deus no Belém, saíram quase todas as outras que tem prosperado. Umas saíram legalmente, outras de forma que não desejamos ventilar... A Assembleia de Deus no Belém, é de certo modo a "Igreja Mãe" de quase todas as demais Assembleias de Deus em São Paulo.
Se naquela época esse tipo de autorreferência era importante, pode-se imaginar o quanto nos dias de hoje esse recurso é vital. Diante de tantos Ministérios, alguns até com nomes folclóricos, a indicação de pioneirismo e tradição pode ser um atrativo maior aos crentes e futuros membros. Todos querem ser a verdadeira Assembleia de Deus.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1ª quinzena de abril de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de agosto de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

CGADB, CONAMAD, CADB - memórias e símbolos em disputa

A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), a Convenção Nacional das Assembleias de Deus Madureira (CONAMAD) e a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB) são instituições congêneres que competem entre si na grande comunidade assembleiana.

A rivalidade entre as convenções não se dá somente na área dos poderes terrenos e eclesiásticos. Há também uma intensa disputa pela memória assembleiana e os símbolos que a representam. Nos últimos anos, essa rivalidade ficou mais explícita, principalmente entre as lideranças da CGADB e da recém-criada CADB.

A saída da CONAMAD da CGADB em 1989 também gerou turbulências. Mas, no campo da memória, o Ministério de Madureira é muito mais direcionado para o mito do pastor Paulo Leivas Macalão, seu fundador e líder por mais de cinco décadas.

Painel colocado no aeroporto de Belém: disputa pela memória 

Todavia, na década de 1990, Madureira quase sofreu um abalo, quando o pastor da AD em Bangu, Ades dos Santos, procurou desvincular-se da CONAMAD. A manobra, na época, recebeu o incentivo da CGADB, mas foi revertida graças à intervenção do Bispo Manoel Ferreira. Caso o desligamento do campo eclesiástico de Bangu se concretizasse, a CONAMAD perderia a igreja que lhe deu origem num golpe histórico pela perda da primeira congregação de Madureira.

Porém, o caso CGADB e CADB traz muito mais rivalidades no campo da memória. A CGADB é a convenção original fundada em 1930, na esteira do processo de institucionalização das ADs. Mas em Belém/PA está a Igreja-Mãe e o slogan da CADB valoriza (e muito) a história de pioneirismo da AD belenense: "De volta ao lar".

Aliás, o discurso de a AD em Belém ser a Igreja-Mãe foi continuamente ignorado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) desde o início da polarização política entre os pastores José Wellington e Samuel Câmara. Nos periódicos da editora, a AD em Belém praticamente não existia mais.

É significativo que com a saída definitiva das principais igrejas do norte da Convenção Geral em 2017, para formar a CADB, a primeira CGADB tenha sido realizada em Ananindeua, cidade da região metropolitana de Belém/PA. E para não ficar atrás em termos de pioneirismo, um painel da Convenção Estadual das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus do Pará (COMIEADEPA) destacava a primazia da instituição fundada em 1921, com a frase "berço do pentecoste no Brasil".

Nesse processo, a busca por apoios simbólicos é fundamental. Na convenção em Ananindeua, a presença do pastor Firmino Gouveia, presidente emérito da Igreja-Mãe, foi marcante para dar maior legitimidade ao grupo da CGADB, pois é símbolo vivo de um período áureo da AD em Belém.

É bom frisar que as duas convenções mantêm acervos e museus. A CGADB faz uso da CPAD em prol de uma produção historiográfica que beneficie os atuais detentores do poder e sustente o programa Movimento Pentecostal. No caso da CADB, a Rede Boas Novas é o principal instrumento para divulgação da CADB.

Que os estudiosos fiquem alertas: a seletividade histórica e seus mitos (Vingren, Berg, Frida e os demais pioneiros) será muito bem instrumentalizada. Engana-se, porém, que essa retórica é nova. Como diz o livro de Eclesiastes "não há nada novo debaixo do sol".

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

domingo, 21 de abril de 2019

Matheus Iensen - chegou a hora de partir (2ª parte)

Matheus Iensen já era conhecidíssimo por sua atuação no rádio e pelo ministério de louvor, quando foi apoiado pela Convenção das Igrejas Assembleias de Deus do Estado do Paraná (CIEADEP) para concorrer a uma vaga de deputado federal e participar da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), a qual elaboraria no processo de redemocratização, uma nova Constituição para o país.

Segundo Paul Freston e seu livro "Evangélicos na Política Brasileira", a escolha do nome de Iensen encaixava-se no perfil de muitos outros candidatos apoiados pelas ADs: a do cantor ou pregador conhecido e detentor de capital político para alavancar uma candidatura e a do empreendedor bem sucedido; sinal da benção de Deus sobre seus negócios.

Freston também salienta, que a mística da ANC ajudou na mobilização das minorias na defesa de seus valores. Assim, o discurso dos candidatos evangélicos em defesa da família ou sobre a suposta ameaça a liberdade de culto era a tônica das campanhas pentecostais e evangélicas em geral.

Não por acaso, na biografia de Iensen destaca-se que o cantor-deputado "contribuiu muito para mudar o quadro caótico que se visualizava após o período ditatorial" e que "promoveu, com destaque, a defesa dos ideais cristãos". Com esse discurso amplificado pelo Sistema Iensen de Comunicações, o apresentador e dono da rádio Marumby conseguiu dois mantados seguidos na Câmara Federal (1987-1995)


Porém, há um fato da história familiar dos Iensen que é desconhecida do grande público evangélico. Na década de 1950, um ex-cunhado de Matheus, Mamédio Seme Scaff foi vereador e prefeito em Marilândia do Sul, no interior do Paraná. Em 1962, Scaff teve apoio das ADs no Paraná para concorrer a deputado estadual e Iensen trabalhou na campanha vitoriosa do cunhado. Em Curitiba, Matheus tentou, sem sucesso, uma vaga de vereador antes de 1986.

Eleito para na ANC, Iensen apresentou 180 emendas, das quais 46 foram aprovadas. A mais famosa delas foi a emenda que garantiu cinco anos de mandato para o então presidente da República José Sarney. Oficialmente, em sua biografia, Matheus justifica a emenda dos cinco anos como necessária para garantir a transição democrática e o término da Constituinte sem sobressaltos que uma campanha presidencial ainda em 1988 poderia gerar.

Freston, porém, destaca que a aprovação da emenda dos cinco anos para Sarney, foi resultado do "toma lá, da cá" da política brasileira. Vários deputados (evangélicos ou não), inclusive o autor da proposta, ganharam concessões de rádio e televisão. Tempos depois, um deputado estadual da AD no Paraná afirmou, que a concessão da rádio seria para a igreja e não para o deputado governista.

Outro projeto de Iensen muito controverso, foi o de abolir os direitos autorais sobre músicas sacras com base em textos bíblicos reproduzidas em rádio. O Mensageiro da Paz (edição de agosto de 1988) informa, que "Matheus Iensen foi sensível aos apelos" da liderança evangélica. Freston por sua vez, indica que a emenda lhe "trouxe desgaste".

Em 1990, Matheus fez dobradinha com o seu filho João Falavinha Iensen, que conseguiu uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná. Nas eleições de 1994, João elegeu-se deputado federal e seu irmão, Vanderlei Falavinha Iensen foi eleito deputado estadual em 2002. Nas últimas eleições municipais, o seu neto João Rafael Iensen tentou uma vaga para vereador em Curitiba.

Nos últimos anos, Iensen estava aposentado e recolhido em seu apartamento em Curitiba. Recebia visitas e participava dos cultos da AD na cidade. Um dos sobrinhos do cantor sacro resumiu nas redes sociais de forma exata quem foi Matheus Iensen:
O cantor evangélico, pastor, ex-deputado federal constituinte, mas principalmente, meu querido tio Matheus nos deixou na madrugada deste dia para voar rumo ao horizonte da glória eterna, silenciando sua bela voz na face da terra até aquele dia. Homem rígido, venceu dificuldades extremas durante toda a sua jornada neste mundo, ultrapassou seus próprios limites, construiu um ministério radiofônico que abençoou tantas vidas que nunca saberemos enumerar, mas que o Senhor conhece. Sofreu muitas batalhas, algumas calado, outras como um guerreiro indomável, mas sempre no temor do Senhor. Não foi perfeito, como ninguém o é, mas uma coisa eu sei: Tio Matheus combateu o bom combate, acabou a carreira e guardou a fé. Que suas obras o sigam e que o grande nome do Senhor Jesus Cristo que sempre foi glorificado na sua vida, também o seja na sua morte. O Senhor deu, o Senhor tirou. 
BENDITO SEJA O NOME DO SENHOR!
Fontes:

CARVALHO, Roberto de. IENSEN, Andréa. Matheus Iensen: minha vida, minha história. Curitiba, 2001.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Matheus Iensen - chegou a hora de partir (1ª parte)

Faleceu no dia 18 de abril de 2019, um dos ícones do evangelismo radiofônico e da música sacra evangélica: o empresário, cantor, pastor e ex-deputado federal pelo estado do Paraná, Matheus Iensen, aos 82 anos de idade.

Segundo sua biografia, Matheus nasceu na madrugada do dia 07 de janeiro de 1937, na pequena Imbituva, na época distrito de Guamiranga, na região sudeste do Paraná e a 136 quilômetros de Curitiba. Era o sexto filho de uma família de sete irmãos de família humilde e pobre.

Como a maioria das crianças de famílias do interior, Iensen conheceu cedo o trabalho na lavoura e na criação de animais. Na adolescência foi ajudar o pai em uma ferraria no distrito de Três Vendas em Faxinal. Infelizmente, a ferraria foi consumida num incêndio e, despertados por Matheus na madrugada, a família Iensen conseguiu sair da casa anexa ao local de trabalho e se salvar de uma grande tragédia.

Da perca total da ferraria, os Iensen foram trabalhar numa serraria e posteriormente começaram a investir no transporte de madeira e café. Naquela época, a região vivia a grande expansão das plantações de café, grande riqueza de exportação do Paraná.

 A Seara de 1970: Iensen e irmãs Falavinha um sucesso absoluto

Em Faxinal, os Iensen converteram-se na Assembleia de Deus. Matheus então conheceu a jovem Mercedes Falavinha e com ela se casou no dia 31 de março de 1956. O celebrante da união foi o diretor da CPAD, o pastor João Pereira de Andrade e Silva.

Ainda em Faxinal, o jovem casal inciou seu ministério de louvor, quando Iensen comprou com muito esforço um acordeon de 48 baixos e formou dupla com sua esposa Mercedes. Cantavam principalmente os hinos "Seguindo Jesus" e "Dia glorioso". Ao mudar-se para Marilândia do Sul juntou-se ao casal a cunhada Raquel Falavinha Scaff.

Com o tempo vieram os convites para cantar nas igrejas e as primeiras gravações de compactos e LPs. Em 1964, Matheus aventurou-se no rádio com o programa "Musical Evangélico" na cidade de Apucarana. A audiência do programa aumentou com a mudança da família para Curitiba. Na "Cidade Sorriso", Iensen montou sua gravadora própria, a "Estrela da Manhã" e adquiriu suas estações de rádio (Marumby) na capital do Paraná e em Florianópolis, Santa Catarina.

Em meio ao progresso material veio o duro golpe familiar: dois dos seus filhos morreram num acidente automobilístico em 1979. Conta-se, que o velório dos filhos foi marcado pelo perdão de discórdias antigas geradas por desencontros entre irmãos de fé.

Conhecido em todo o Brasil como cantor e comunicador cristão, na década de 1980, Matheus Iensen foi escolhido para representar a sua igreja em outra área: a política partidária.

Assunto da próxima postagem...

CARVALHO, Roberto de. IENSEN, Andréa. Matheus Iensen: minha vida, minha história. Curitiba, 2001.

sábado, 13 de abril de 2019

As Assembleias de Deus e a geopolítica das convenções

Gedeon Alencar, em sua obra “Matriz Pentecostal Brasileira”, afirma que relacionar as cidades ou igrejas hospedeiras da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) seria uma "forma didática de entender os sistemas geopolíticos das entranhas dessa igreja". Receber uma CGADB é sinal de poder econômico e político da liderança da igreja escolhida.

Alencar observa que a "politização geográfica" da Convenção Geral nasceu em 1930, em Natal/RN, com a intimação feita pelos pastores da região Norte/Nordeste para resolver problemas que atrapalhavam o "progresso e harmonia da causa do Senhor" - conforme a convocação publicada no Boa Semente.

O sociólogo também chama a atenção para o fato de que nenhuma CGADB foi realizada no Ministério de Madureira. Paulo Macalão até tentou hospedar a Convenção Geral de 1971, no templo da Rua Carolina Machado, mas a Junta Executiva resolveu escolher a cidade de Niterói/RJ.

A CGADB de 1971 não foi realizada em Madureira, porém, o pastor Alípio da Silva, vice de Macalão no Ministério, foi eleito presidente da Mesa Diretora da Convenção Geral. Compensação pela perda da oportunidade de hospedar o encontro nacional?

Curiosamente, quando a liderança das ADs resolveu realizar a CGADB na região Centro-Oeste, escolheu-se o estado de Goiás, onde o Ministério de Madureira era (e ainda é) hegemônico, para sediar o evento em 1985. Todavia, a igreja que recebeu a convenção foi justamente a AD Ministério de Anápolis, cujo líder, o pastor Antônio Alves Carneiro, era um dissidente de Madureira há muitos anos.

Com a ascensão do pastor José Wellington Bezerra da Costa à presidência da CGADB, as reuniões convencionais estrategicamente foram organizadas nas igrejas dos líderes aliados. Mesmo na época do centenário da denominação, a proposta das duas convenções assembleianas no Pará ligadas à Convenção Geral para sediar o evento foi negada.

CGADB no Pará em 2019: imagem do blog do Tiago Bertulino

Com a criação em 2017 da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), novas estratégias surgem. A última vez que a cidade de Belém/PA recebeu a CGADB foi em 1955. Com a disposição nos últimos anos do pastor Samuel Câmara em fazer oposição ao atual status quo da Convenção Geral, nem se cogitava escolher Belém do Pará ou Manaus/AM para as reuniões nacionais. Os Câmaras, suas igrejas e convenções, praticamente inexistiam para o Mensageiro da Paz.

Agora, mais de 60 anos depois, a cidade de Ananindeua na região metropolitana de Belém do Pará, próxima ao berço do pentecostalismo assembleiano no Brasil recebe a CGADB em 2019. Ironicamente, a CADB fará em junho sua convenção na cidade de São Paulo/SP no distrito e na igreja de Santo Amaro ligada a nova entidade. Como se sabe, São Paulo é a base do Ministério do Belenzinho comandado pela família Bezerra da Costa.

Percebe-se nas escolhas dos locais para sediar as convenções concorrentes uma "guerra fria" versão assembleiana. Um conflito de interesses, de busca de legitimação pela história e símbolos caros aos crentes mais antigos. Assunto para a próxima postagem...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

IEADJO - primórdios da igreja na década de 1930


"Joinville, a mais importante cidade onde as indústrias em atividade (dia e noite) e o povo ordeiro procura a paz e o trabalho, não poderia ficar sem a visitação da fé pentecostal."  (Albert Widmer)

Foi com essas palavras escritas ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de março de 1938) que o missionário suíço Albert Widmer abriu o seu relatório na seção "Na Seara do Senhor" sobre os trabalhos da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO). Na época, a "Cidade dos Príncipes" contava em média com 30 mil habitantes e um promissor parque industrial e comercial.

Quando os leitores de todo o Brasil leram as informações divulgadas por Widmer, a IEADJO já possuía cinco anos de atividades na "Manchester Catarinense". Fundada em 1933, por Manoel Germano de Miranda, a congregação reunia-se primeiramente na região do atual bairro Itaum e, posteriormente, devido às perseguições, alugou uma casa na antiga Katharinenstrasse, nome original da Avenida Getúlio Vargas, usado até os anos 1940.

Mesmo sendo uma congregação jovem, Widmer descreve o núcleo pentecostal na cidade como "uma igreja forte e próspera". Aliás, o missionário suíço já considerava o rebanho joinvilense, entre as Assembleias de Deus (ADs) abertas em Santa Catarina, como "a maior igreja evangélica do Estado", devido aos constantes batismos nas águas e adesão de crentes das denominações evangélicas tradicionais.

Crentes e obreiros na terceira Convenção Regional das ADs em Santa Catarina

Portanto, nesse clima de otimismo e expansão, que a IEADJO sediou a terceira Convenção Regional das ADs catarinenses. Para abrilhantar o evento, os irmãos pioneiros tiveram o privilégio de receber os conferencistas Howard Carter (Inglaterra) e Lester Sumrall (EUA). Nas palavras de Albert, as pregações "despertaram, quer nos crentes como nos descrentes, o mais vivo interesse, de modo que os pecadores buscaram a salvação e os crentes resolveram consagrar suas vidas, mas a Cristo."

Pode-se imaginar o que para muitos daqueles irmãos significou aquela experiência de receber e ouvir os dois pregadores internacionais. Lester Sumrall era pastor e radialista. Viajou pelo mundo pregando a mensagem pentecostal e passou muitos anos na Ásia desenvolvendo seu ministério. Nos anos de 1940, Lester voltou novamente ao Brasil, pregando nas igrejas da Assembleia de Deus em Belém, Rio de Janeiro, Recife e Campina Grande.

Howard Carter por sua vez, era um dos membros fundadores das Assembleias de Deus na Grã-Bretanha e Irlanda. Escritor e famoso artista plástico, Howard costumava desenhar os temas que abordava nas preleções. É provável que os irmãos pioneiros tenham tido essa oportunidade única de ouvir e ver as mensagens ilustradas por ele.

Carter e Sumrall haviam participado da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), realizada entre 3 a 17 de outubro de 1937, na cidade de São Paulo. Nota-se as boas relações de Widmer no contexto do pentecostalismo internacional ao trazer os visitantes para a Convenção Regional.

Na sequência da matéria, Widmer expressa sua gratidão a "todos os amados irmãos, em Joinville, os quais hospedaram os delegados das outras Assembleias deste Estado, que vieram, em parte, de muito longe e debaixo de grandes dificuldades e sacrifícios."

Também foi elogiado o esforço do então diácono Manoel Germano de Miranda. Segundo o supervisor do trabalho em Santa Catarina, Miranda "não deixou que a Congregação tivesse falta de comida espiritual, durante a ausência do pastor. Notável também, é que, com rapidez, as Boas Novas desta igreja têm se espalhado para diversas direções desta região".

Assim caminhava desde os seus primórdios a IEADJO: evangelismo, pregações, discipulado e constante crescimento.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Joaquim Marcelino da Silva - entrevista histórica

O pastor Joaquim Marcelino da Silva foi um dos principais pastores das ADs no Brasil e por duas vezes exerceu a vice-presidência da Junta Executiva da CGADB. No período que liderou a AD em Santo André/SP, a igreja paulista hospedou a Convenção Geral em 1966 e 1975.

O Mensageiro da Paz, em janeiro de 1969, publicou uma rara entrevista com o líder assembleiano, que no fim da década de 1940, era carregador da mala do pastor Cícero Canuto de Lima e por ele foi ordenado pastor em 1948. É possível que sonhasse ser sucessor do velho "timoneiro", pois era um dos obreiros mais preocupados com a sucessão de Cícero.

Na entrevista, Marcelino comenta assuntos reveladores de como os pastores assembleianos encaravam o que eles chamavam de "inovações". Também não faltou críticas à televisão, na época considerado o grande perigo para a vida espiritual. Vale lembrar que foi gestão do pastor Joaquim Marcelino, em Santo André, que a CGADB de 1975 produziu o famoso documento normatizando as regras dos usos e costumes da igreja.

Amor à simplicidade - Joaquim Marcelino dizia amar "a simplicidade". Para ele não havia base bíblica ou virtude no ato de cortar fitas simbólicas nas inaugurações das igrejas ou lançamento de pedra fundamental. "Faço apenas um culto de ação de graças e agradeço a benção que nos concedeu" - comentou. Segundo o veterano pastor, o então líder do Ministério de Belenzinho, Cícero Canuto de Lima e outros pastores do Ministério também pensavam da mesma maneira.

Pastor Joaquim Marcelino (1916-2004)

Desfiles públicos - "Penso apenas que é uma inovação adotada pela igreja e sem base bíblica...". Todavia, o pastor Joaquim admitiu realizá-los para satisfazer os crentes da sua igreja, mas não se sentia bem com essa postura. Seria uma forma de não descontentar totalmente os fiéis.

Segundo o historiador Maxwell Fajardo em seu livro “Onde a luta se travar”, as observações negativas de Marcelino sobre os desfiles e as críticas sobre o descerrar de fitas simbólicas ou lançamento de pedras fundamentais nas igrejas eram indiretas ao Ministério de Madureira, que utilizava das "inovações" desaprovadas pelo líder paulista.

Doutrina - "A questão doutrinária, a doutrina bíblica está muito ameaçada, as organizações estão começando a substituir o brilho do Espírito Santo". Outra coisa apontada pelo antigo líder da AD em Santo André: o tempo de pregação da Palavra estava sendo ocupado por cânticos. "precisamos voltar à simplicidade e beleza primitivas".

Televisão - Perguntado sobre o uso da televisão, o pastor Joaquim foi enfático: "Acha-o perigoso e ameaçador da doutrina". Conta ele ainda que a redução de aparelhos de televisão em sua igreja foi uma vitória. Antes, 70 famílias possuíam TV, mas depois de muitos pedidos, somente três casas resistiam ao Senhor "apesar de terem sido grandemente castigadas".

Surge então a dúvida: quem estava castigando? O veterano obreiro fala que as famílias resistiam "ao Senhor", entretanto, ele mesmo observou que, quando começou "a agir, o povo começou a vender seus televisores com a maior das facilidades e alegria". Seria o abandono da TV, uma ação divina ou repressão pastoral?

Institutos Bíblicos - "Nosso Ministério aqui em São Paulo é contrário" - assegurou Marcelino. Na opinião do pastor, os institutos bíblicos só deveriam existir para os vocacionados ao ministério e não para "os irmãos em geral". A explicação é no mínimo pitoresca: "porque estes não têm chance [no ministério] e ao tirarem o curso julgam-se aptos pensando que essa sabedoria que aprenderam lhe darão o direito de serem obreiros...".

Na continuação, Joaquim explica que essa "sabedoria" e "vaidade" levaria ao prejuízo, pois os leigos sem vocação julgavam-se superiores aos obreiros vocacionados. "Eu dou mais valor às nossas Escolas Bíblicas" - concluiu ele. Obreiros formados nas escolas bíblicas moldavam-se melhor os sistemas eclesiais.

O líder de Santo André foi coerente com a posição dos pastores em geral sobre os institutos bíblicos, mas revelou o desconforto gerado. Havia os "vocacionados" e para estes os seminários até seriam interessantes, pois, em tese, eram obreiros submissos aos métodos das ADs. Contudo, para os “sem-chance", os institutos gerariam soberba e vaidade, trazendo prejuízos à obra.

Chega a ser uma visão controversa: havia no entender do pioneiro, os "vocacionados" e os “sem-chance" no ministério. Marcelino ainda se posiciona com preocupação sobre as organizações de assistência social ou de missões. Essas estruturas, não deveriam "suplantar a organização do Espírito".

O experiente pastor ainda desejava uma igreja espontânea, espiritual e conservadora. Uma denominação de obreiros "vocacionados" com formação nas escolas bíblicas. Mas a entrevista mostrava um sistema em plena contradição e tensões internas. Ainda mais alguns anos os conservadores resistiriam. Somente por mais algum tempo...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

Mensageiro da Paz, janeiro de 1969, ano 30, nº 1. Rio de Janeiro: CPAD.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

José Wellington Bezerra da Costa - entrevista histórica

No mês de julho de 1988, o Mensageiro da Paz trouxe aos seus leitores uma entrevista exclusiva com o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da AD Ministério de Belenzinho/SP e, após o falecimento do pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos, presidente da CGADB, no dia 12 de maio do mesmo ano.

José Wellington foi entrevistado em seu escritório no Belenzinho pelo jornalista e pastor Geremias Couto. No texto de abertura da matéria destacou-se as "considerações [do pastor Wellington] da maior atualidade, que devem ser, também, motivo de reflexão para as demais lideranças de nossa igreja".

Nessa postagem selecionou-se alguns pontos interessantes para se refletir sobre a história e os rumos que as ADs tomaram nessas últimas décadas. Na época da entrevista, o líder do Belenzinho contava com 53 anos de idade e estava apenas há oito anos na presidência do ministério paulista.

Pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos - "Tínhamos no pastor Alcebíades aquela coluna de sustento das Assembleias de Deus no Brasil e a sua morte se constituiu numa perda irreparável... Estou orando para que Deus me ilumine e, sobretudo, me ajude no desempenho dessa tarefa tão pesada para qualquer pastor da nossa igreja".

O historiador não trabalha com previsões e é difícil dizer o que aconteceria se o pastor Alcebíades continuasse a conduzir a CGADB. Em sua biografia, o pastor Costa relembra que Vasconcelos "colidiu fortemente com Madureira" e os desentendimentos com o pastor Manoel Ferreira foram tais que os dois "romperam as relações". Contudo, o bispo Manoel Ferreira em suas memórias observou: "Eu tenho certeza de que, se o Alcebíades estivesse vivo, talvez hoje nós estaríamos ainda na CGADB...".

José Wellington Bezerra da Costa

Problemas na CGADB - "Eu venho participando da Mesa Diretora já em outras gestões e conheço de perto os problemas existentes da nossa Convenção Geral. É verdade que assumi numa época de maior turbulência... Quero reafirmar que chego com o coração aberto, sem trazer comigo nenhum propósito contra ninguém...".

Realmente era um momento complexo. As disputas entre os Ministérios da Missão e de Madureira estavam em seu auge. A eleição da Mesa Diretora da CGADB em Salvador em 1987, foi um dos capítulos mais conturbados da história das ADs, refletindo as tensões de anos anteriores. Nos meses seguintes, as questões só se agravaram e Wellington teria que negociar com Manoel Ferreira soluções para os impasses.

O que não se previa naquele momento era a perpetuação do pastor de Belenzinho no poder. Até ali, sempre houve alternância na presidência da CGADB, mas José Wellington conseguiu a proeza inédita de permanecer por três décadas no comando da instituição. Já se passaram oito Copas do Mundo de Futebol, três papas, oito presidentes do Brasil e o cearense de São Luís do Curu não "largou o osso".

Unidade - Geremias perguntou ao presidente da CGADB se era possível caminhar para a unidade. Wellington, naquele momento, expressou crer poder contar com a amizade de pastores de todo o Brasil. "Eu tenho procurado ser amigo de todos esses pastores, movido por um sentimento de sinceridade. Agora, espero da parte deles total compreensão, porque eu não olho a igreja no Brasil separada".

A história é conhecida: o Ministério de Madureira foi suspenso da CGADB em 1989. Posteriormente, veio a saída das ADs em São Cristóvão, Santos e a criação de uma nova dissidência, a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), a qual reúne outras igrejas históricas das ADs em Belém, Manaus e Macapá.

Por outro lado, a gestão José Wellington salvou a CPAD da falência. Seguindo em direção contrária as suas congêneres, a editora assembleiana avançou em qualidade, vendas e presença em todo território nacional e no exterior. Para muitos, as principais tensões tem como um dos motivos principais o controle da Casa Publicadora. Malafaia que o diga...

Política e igreja - Perguntado sobre a participação do crente na vida pública, Wellington foi direto: "A igreja e a política são como água e óleo: não se misturam". Na continuação, porém, destacou a legitimidade dos crentes como cidadãos participarem da vida pública do país e influenciá-la "sem, contudo, misturar a igreja como instituição e a política partidária".

Não é preciso ser especialista para saber que essa visão mudou drasticamente. O antigo pudor das lideranças assembleianas nas questões políticas seria abandonado em breve. Hoje, Belenzinho, Madureira, Abreu e Lima, Santos e muitos outros ministérios jogam seu peso institucional para eleger candidatos vinculados à igreja. No caso do Belenzinho os eleitos são filhos do pastor Costa.

Em sua primeira entrevista como presidente da Convenção Geral, o pastor José W. Bezerra da Costa aconselhou para que as ADs continuassem em "marcha vitoriosa para o céu" e que não se envolvesse com o mundo e o que nele há. "Sigamos, pois, em frente, com passos firmes e céleres, pois Jesus está perto de voltar" - exortou.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

Mensageiro da Paz, julho de 1988, ano LVIII, nº 1219, CPAD:RJ.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Paulo Macalão - entrevista histórica

Em novembro de 1979, o Mensageiro da Paz publicou um encarte especial para comemorar os 50 anos da fundação do Ministério de Madureira. Além das informações de praxe sobre o início dos trabalhos do pastor Paulo Leivas Macalão nos subúrbios do Rio de Janeiro, o Mensageiro trouxe uma entrevista com o próprio Macalão.

Na entrevista, conduzida e gravada em fitas cassetes pelo jornalista e pastor Geremias Couto, o mítico líder de Madureira opinou "com seu jeito simples, porém objetivo e sem meias palavras" sobre vários assuntos. Entre os temas tratados na matéria, selecionou-se aqui pontos interessantes por sua atualidade e controvérsias. Como descreveu Couto, as palavras do pastor Paulo fluíam "lentamente, revolvendo os fatos" que estavam em sua memória. Sempre é bom revisitar os pensamentos do memorável líder.

Pastor Paulo Macalão (1903-1982)

Ministério Feminino - Ao comentar sobre o eficiente trabalho da Confederação de Irmãs Beneficentes Evangélicas (CIBE), Macalão lembrou, que na Suécia existia um corpo de diaconisas que também realizava um grande trabalho social. "Somente no Brasil é que existe preconceito contra as diaconisas: 'Não pode; é pecado'".

É bom observar, que o Ministério de Madureira tem um histórico de forte participação feminina. Zélia, esposa do pastor Paulo, era muito atuante e durante 40 anos a irmã Estacília, uma migrante polonesa que começou a congregar em Madureira, desenvolveu um grande mistério de pregação e cura. Percebe-se que, nesse sentido, Macalão destoava da maioria do líderes das ADs. Por ele, as ADs teriam diaconisas sem problema algum.

Institutos Bíblicos - O líder de Madureira no passado foi contrário as escolas de teologia chamadas pejorativamente de "fábricas de pastores", mas acabou cedendo pela insistência de alguns dos seus obreiros. Mas fez uma ressalva: "Hoje acontece que as pessoas vão para os Institutos a fim de terem melhor cultura e o resultado é que ficam inchadas e perdem a graça de Deus" - comentou.

Simplesmente o pastor Paulo manifestava o receio que muitos líderes como ele tinham de obreiros não mais dependentes da unção divina e sim do seu próprio saber. Geralmente, esses novos líderes seriam os introdutores de "inovações" não muito bem-vindas na igreja. Contudo, em 1969, Madureira já havia fundado o Instituto Bíblico Ebenezer, o qual, em 1972, formou 78 alunos.

Doutrina - Couto aponta na entrevista uma conhecida característica conhecida de Macalão: a "ortodoxia doutrinária" (entendida como rigidez nos padrões morais e espirituais). O Ministério carioca sempre foi conhecido no passado por seu rigor na questão dos usos e costumes. O zelo do pioneiro em 1979 ainda estava presente no vestir e no comportamento dos membros de Madureira.

Sobre o assunto, Macalão foi direto: "A igreja deve continuar nos velhos princípios, conservando a sã doutrina. Nós temos que enfrentar o mundo. Senão, é melhor fecha-la". O pastor Geremias, velho conhecido do casal Paulo e Zélia, ainda tentou replicar: "Mas o mundo evolui, pastor Paulo?"

A resposta do líder assembleiano até hoje em conversas informais é relembrada por Couto: "Evolui como, para trás?". Na sequência veio a sentença memorável: "O mundo, portanto, 'evoluiu' para o pecado. A igreja deve evoluir para a santidade". É claro que a AD em Madureira não era a mesma das décadas de 1950 ou 60. Aliás, o Ministério sob a liderança de Macalão havia se transformado em muitas áreas. Contudo, o velho pastor ainda mantinha o conceito de que a igreja deveria se preservar do vale-tudo para alcançar ganhar almas e não deixar os ditames da Palavra de Deus.

Meios de Comunicação - Sobre a televisão, o pastor Paulo declarou ser a favor "para pregar o evangelho e não aos crentes". Para quem, no passado, foi contra o uso do rádio, a declaração era um avanço enorme. Ele, porém, deu o alerta: "Mas nós devemos evitar seu uso indiscriminado porque muitos dos seus programas seculares não trazem nenhum benefício".

Durante muitos anos ainda, a televisão seria alvo dos mais acirrados debates em nível nacional e local pelo Brasil. Entretanto, não tinha como se evitar o poder de penetração da TV nos lares e, assim como o rádio no passado, a sua utilização para o evangelismo.

Unidade - Ao término da conversa, Macalão (que ficou conhecido por abrir suas congregações em outros campos eclesiásticos) reflete sobre um tema importante na época e ainda atual: a unidade do movimento pentecostal. "Muitas vezes os irmãos estão com suas mentes discordantes uns dos outros. Mas Deus quer que eles se congracem".

Nesse período, o Ministério de Madureira já causava espanto por seu gigantismo e unidade. Na década seguinte, após o desaparecimento do mítico líder, seus sucessores fariam história com os pastores da Missão por disputas de cargos na CGADB. Na tranquilidade do seu gabinete, o pastor Paulo declarou: "Embora as igrejas estejam separadas no que tange à organização, espiritualmente, mentalmente, todas devem estar confraternizadas."

Hoje, 40 anos depois da entrevista, as palavras do pastor Paulo ainda continuam atuais e seus conselhos necessários.

A entrevista completa está disponível no link abaixo:

https://drive.google.com/file/d/1JFlud91VEmIxTtjkSC04h6g-JNf5tngG/view?usp=sharing

Fontes:

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, novembro de 1979, ano XLIX, nº 1111 - Suplemento Especial - Cinquentenário da AD de Madureira.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

João Kolenda Lemos e as flores à beira do abismo

Entre os dias 18 a 23 de julho de 1967, a cidade do Rio de Janeiro recebeu a 8ª Conferência Mundial Pentecostal. O evento de grande repercussão internacional entre os evangélicos, mobilizou a liderança das ADs brasileiras e foi aguardada com grandes expectativas.

Para comportar tantos pentecostais do Brasil e do exterior, as celebrações de fé foram realizadas no ginásio do Maracanãzinho e o inesquecível encerramento no dia 23, no Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, na época, o maior estádio de futebol do mundo com capacidade para mais de 155 mil pessoas.

Algumas comissões foram criadas para atender aos participantes de várias regiões do planeta: a Comissão de Intérpretes ficou aos cuidados do missionário norte-americano Bernhard Johnson, a Comissão de Som na liderança do pastor Nicodemos José Loureiro e a Comissão de Alimentação sob a responsabilidade do pastor João Kolenda Lemos.

Ao chegar ao Rio, o pastor Lemos percebeu no filho Mark de apenas 10 anos, no olhar do filho um brilho incomum ao passar próximo ao Maracanã. As imediações do estádio fervilhava de torcedores, bandeiras e cores, pois justamente naquela semana da Conferência Pentecostal, um jogo de grande importância seria disputado pela Taça Guanabara: Flamengo e Vasco.

 O Globo: jogo descrito como sensacional

Perspicaz, João Kolenda detectou no filho todo o desejo de estar naquele espetáculo futebolístico no maior templo do futebol mundial. Sugestivamente perguntou: "Você quer ver o jogo do Vasco e Flamengo?". Espantado e meio descrente com a proposta, Mark respondeu: "Pai, você é pastor, e se virem você lá vai ficar muito difícil...".

O menino estava correto. Um crente, naquela época, visto num estádio de futebol seria motivo suficiente para disciplina ou exclusão do rol de membros da igreja. Os mais radicais denominavam o futebol como o "chutar a cabeça ou o ovo do capeta". O esporte bretão em suma era a síntese do mundanismo duramente combatido pelos mais puritanos.

Um pastor pego em "flagrante delito" como aquele, seria para a maioria um grande escândalo. E João Kolenda Lemos não era um pastor anônimo ou desconhecido. O sobrinho do mítico JP Kolenda, juntamente com sua esposa Ruth Doris Lemos, fundaram o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus no Brasil (IBAD), o primeiro do gênero no Brasil em 1958.

Lemos, porém, resolveu driblar a presença de diversos líderes pentecostais na Cidade Maravilhosa para levar o filho ao jogo. Disfarçado com um casacão, boina e óculos escuros, o professor do IBAD saiu com Mark da casa do missionário norte-americano Lourenço Olson, onde estava hospedado na Tijuca, para o grande clássico do futebol carioca.

No Maracanã, pai e filho testemunharam um jogo histórico. Descrito pelo jornal O Globo como "uma partida sensacional", o clube cruzmaltino superou o rubro-negro por 4x3. Entrevistado por um jornalista no fim do confronto, o folclórico técnico do Vasco, Gentil Cardoso, famoso pelas frases de efeito declarou: "Certos prazeres mundanos, são como as flores à beira do abismo e para colhê-las, muitas vezes, o sujeito paga com a vida".

A frase do técnico pernambucano se referia ao fato do Vasco sair perdendo por 2x0 e reverter o placar para 4x3, saindo do Maraca com uma retumbante vitória. Em outras palavras, o time de São Januário ficou momentaneamente "à beira do abismo", ou seja, perto da derrota; para com muito suor colher as flores da vitória.

Para João Kolenda, aquele dia também não foi diferente: "as flores" seriam colhidas "à beira do abismo". O desejo de alegrar o filho era maior do que o receio do conservadorismo eclesiástico da sua época. O menino Mark viu na postura do pai, a valorização da família acima dos ditames ministeriais. Antes de ser pastor ou professor do IBAD, Kolenda era o pai que ignorava riscos pelo filho. Uma lição interessante num meio em que muitas vezes a ordem das prioridades se invertem.

No dia seguinte, os Lemos voltaram ao Maracanã para uma programação muito diferente do dia anterior. Era o encerramento da 8ª Conferência Mundial Pentecostal. O grande templo do futebol tinha se transformado em santuário pentecostal de adoração.

Difícil era saber quais pensamentos passavam na mente do menino Mark enquanto ele estava no estádio com mais de 150 mil crentes: seria a vibração dos torcedores na hora dos gols ou os efusivos louvores do povo de Deus?

Para finalizar: a Taça Guanabara de 1967, disputada pelos times cariocas no tempo da bola de couro, teve naquela edição o Botafogo como campeão, para alguns (pelo sugestivo nome), o time mais pentecostal do Brasil. Seria mera coincidência?

Fontes:

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

O GLOBO - Edição Esportiva - Rio, segunda-feira, 24 de julho de 1967.

Baú do Esporte - https://www.youtube.com/watch?v=cqhIQz8TE6Q

Depoimento de Mark Jonathan Lemos aos membros do grupo de WhatsApp Memórias das Assembleias de Deus. Permissão concedida pelo mesmo para a edição e divulgação das lembranças familiares.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

A Ceia do Senhor nas Assembleias de Deus - outras histórias

Na última postagem, destacou-se no blog sobre as mudanças do uso do cálice na ceia: da taça comum servida para os membros ao copo individual. Foi salientado também as controvérsias das alterações; para muitos uma inobservância do texto bíblico que diz "bebei dele todos".

Outras normas, com o tempo, em relação ao culto de ceia foram flexibilizadas. Além de se determinar que somente os membros (e na grande maioria das igrejas ainda segue essa orientação) deveriam participar da ceia, a entrada para o culto deveria ser controlada: somente os crentes com carteirinha validada anualmente pelo pastor comungavam na igreja.

O pastor João de Souza Filho lembra até uma situação inusitada: certo dia, Mary Taranger, esposa do líder da AD em Porto Alegre/RS, Nils Taranger, foi barrada na porta da igreja por não estar com sua carteira de membro. O caso só foi resolvido com a presença do próprio Nils para interceder pela missionária.

As questões de se restringir os cultos de ceia somente aos membros geraram certos debates entre os estudiosos e líderes. Para alguns, realizar as reuniões com as portas fechadas e limitar o acesso somente aos membros seria contraditório, pois o ato simbólico de comer e beber o corpo de Cristo em si mesmo era uma mensagem evangelística de enorme relevância. Havia determinados pastores que mandavam fechar as portas do templo na ceia e outros a exigir dos obreiros livre acesso ao templo.

Pastor Satyro celebrando a ceia: fonte O ASSEMBLEIANO abril/maio de1988

Outro ponto, que aos dias de hoje parece cômico, era o que fazer com as sobras do pão e do suco: dar para a garotada faminta em volta consumir ou levar para casa o excedente? Conta-se que, em determinada congregação em Joinville/SC, enterrava-se o resto para não se cometer sacrilégio com "o corpo e o sangue" de Cristo. Em outra pensava-se em queimar...

Aliás, todo esse impasse refletia o imaginário dos crentes sobre o memorial. Herdeira da Reforma Protestante, as ADs ensinavam ou ensinam que os elementos da ceia são simbólicos. Mas muitos crentes de origem católica ainda acreditavam na transubstanciação (crença na mudança da substância do pão e do vinho na substância do Corpo e sangue de Jesus Cristo no ato da consagração). Por isso, havia a cruel dúvida com as sobras da ceia.

Mas, para além das controvérsias sobre o uso do cálice, as mudanças também ocorreram em algumas igrejas no tradicional ato de partir o pão. Sempre em busca de uma maneira mais higiênica para a celebração da ceia, muitas congregações deixaram de lado o costumeiro ato de lavar as mãos antes de dividir o pão. Porém, o pastor Jesiel Padilha da AD em Santos/SP ligado ao Ministério do Belenzinho, por exemplo, ainda pratica a orientação bíblica que diz: "Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu...".

Em muitas igrejas, o cuidado com a higiene é exemplar. No Belenzinho, os diáconos usam luvas e recebem álcool para limpeza das mãos; em outras, uma equipe prepara os elementos da ceia com os cálices e fragmentos do pão (protegidos por filme plástico) em bandejas próprias. No Brás, os diáconos distribuem aos fiéis cestas contendo kits com o pão e vinho.

Para terminar, uma breve curiosidade: com a onda migratória de haitianos ao Brasil e a constante frequência dos mesmos nas igrejas, é comum que eles, vindos de outras congregações evangélicas, estranhem a falta do ritual de lava-pés na ceia. Em Joinville, os obreiros questionados pelos irmãos do Haiti se desdobram para explicar que a AD não é Congregação Cristã ou qualquer outra denominação que tem tal hábito.

Assim, ao analisar os rituais da ceia, percebe-se a diversidade das igrejas e ministérios assembleianos. Nota-se nesse processo, as várias interpretações teológicas e cerimoniais que se modificaram no tempo e no espaço. Uma pequena amostra do desafio que é estudar as ADs no Brasil.

* Com a colaboração de Clayton Guerreiro, Cléia Rocha, Eliseu Melfior, Emerson de Souza, Hermes Carvalho, Jessé Silva, Jessé Sadoc, Jesiel Padilha, Josias Santos, Geremias Couto, Onésimo Loureiro, Oséias Balsaretti, Jacó Rodrigues Santiago, João de Souza Filho, Vânio de Oliveira e outros amigos do grupo de WhataApp Memórias das Assembleias de Deus.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de novembro de 1935. Rio de Janeiro: CPAD.

NELSON, Samuel. Nels Nelson - O Apóstolo Pentecostal Brasileiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

SANTOS, Roberto José. (Org.). Assembleia de Deus em Abreu e Lima - 80 Anos: síntese histórica. Abreu e Lima: FLAMAR, 2008.