sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A recontagem dos votos na CGADB de 1983

O mundo acompanha com ansiedade a eleição presidencial nos Estados Unidos da América. De um lado, o atual Presidente dos EUA do Partido Republicano, Donald John Trump tentando a reeleição. Na oposição e, com grande chances de vitória está Joseph Robinette "Joe" Biden Jr.

O pleito está sendo marcado por polêmicas, acusações e ações judiciais. Trump, antes mesmo das eleições já falava em fraudes e em entrar na justiça contra supostas irregularidades. É o sistema democrático norte-americano sendo colocado à prova. Uma eleição disputada voto a voto e cheia de emoções.

Em 1983, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) realizada na AD em Aribiri, Vila Velha, no Espírito Santo, algo similar aconteceu envolvendo os dois principais líderes das ADs no Brasil na atualidade: o Bispo Manoel Ferreira e o Pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Deve-se lembrar, que a CGADB em Vila Velha, em 1983, foi o primeiro concílio realizado sem a presença dos pastores Cícero de Lima do Belenzinho  e Paulo Leivas Macalão do Ministério de Madureira, que haviam falecido no ano anterior.

Manoel Ferreira e José Wellington

Havia também, uma enorme pressão para que o Ministério de Madureira perdesse sua unidade. Ferreira, assim como José Wellington, eram duas lideranças buscando afirmação e legitimidade entre seus pares. Assim sendo, os dois, mais Túlio Barros e Elizeu Menezes concorreram ao cargo máximo da convenção.

Nesse processo de fragmentação do lado dos Ministérios da Missão, a chapa de Madureira conseguiu êxito. O Pastor (na época não era Bispo) Manoel Ferreira venceu o pleito com margem apertada de 20 votos sobre o segundo colocado, o Pastor Bezerra da Costa.

Ferreira conta em suas memórias, que houve "um alvoroço" e José Wellington pediu a recontagem dos votos. Na recontagem, para surpresa do próprio líder do Belenzinho, a diferença entre os dois aumentou. Diante da situação, o Pastor José Pimentel de Carvalho de imediato proclamou a vitória da chapa de Madureira.

Naquele tempo pediram a recontagem dos votos. Ainda não tinham entrado no campo jurídico. Mas não demorou muito para que algumas eleições fossem parar nos tribunais da justiça secular. É a política secular e eclesiástica com meios idênticos para alcançar o poder. 

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O Destino Manifesto de Madureira

"O Espírito Santo manifestou a sua aprovações aquele acontecimento, falando, por profecia, encorajando, incentivando ao trabalho pela causa de Cristo; uma mensagem por profecia, ordenou a igreja nessa tarde, que alargasse a sua tenda, pois prosperaria..." (Emílio Conde)

No dia 13 de fevereiro de 1938, num domingo à tarde, 67 crentes em Cristo desceram às águas batismais na Assembleia de Deus em Madureira, no Rio de Janeiro. Na condução dos trabalhos estava o Pastor Paulo Leivas Macalão. Nesse tempo, a congregação do bairro da Zona Norte do antigo Distrito Federal já era a maior das igrejas abertas por Macalão nos subúrbios do Rio.

Convidado para as celebrações vespertinas e atento a tudo o que acontecia, estava o jornalista Emílio Conde. Posteriormente, as considerações do escritor seriam publicadas na seção "Na Seara do Senhor", espaço privilegiado do Mensageiro da Paz para informar o progresso das ADs em todo o Brasil.

Naquela tarde, Conde encantou-se com o entusiasmo da "multidão de salvos" louvando a Deus e observou que, apesar da elevada temperatura daquele verão carioca, a intensidade do calor espiritual a tudo se sobrepunha. O povo, segundo o apóstolo da imprensa pentecostal, não se cansava de louvar e de se alimentar da Palavra de Deus. 

Em meio a tantas manifestações fervorosas de louvor, uma profecia se ouviu no recinto: Deus através do Seu Espírito aprovava aquela obra e ordenava "que alargasse a sua tenda, pois prosperaria". Talvez sem saber, Conde testemunhava a mensagem profética que confirmava o "Destino Manifesto" da AD em Madureira. 

Convenção Nacional de Madureira em 1960

O conceito de "Destino Manifesto" surgiu nos Estados Unidos da América, no século XIX. Era uma crença comum entre os norte-americanos, que deveriam se expandir pela América do Norte e colonizá-la. E isso se daria com a aprovação e bênção divina.

Obviamente, o "Destino Manifesto" foi contestado por muitos e justificou, infelizmente, a discriminação e massacre dos nativos no continente. Na política internacional, essa crença de superioridade ainda é sentida no olhar que a diplomacia norte-americana tem sobre os outros povos. 

Porém, a profecia, não somente prediz o futuro; ela capta o espírito de uma época. Quando a mensagem profética em Madureira foi ouvida, o ministério, além de estar presente nos subúrbios do antigo Distrito Federal, já havia se ramificado pelo território fluminense, mineiro, goiano e, ainda naquele ano, chegaria à cidade de São Paulo.

Contudo, o "Destino Manifesto" de Madureira seria interpretado por outros Ministérios como "invasão de campo". Criou-se, com o tempo, o conceito de "jurisdição eclesiástica" para delimitar a área de atuação e concorrência das ramificações assembleianas. 

Na autobiografia de Manoel Ferreira, o Bispo Primaz de Madureira destacou a essência evangelística do Ministério de Madureira e que a CGADB, "com seu pesado jogo burocrático", impunha regras às ações evangelísticas. Para Ferreira, o conceito de "jurisdição eclesiástica" era algo sem sentido numa nação carente de evangelização e igrejas nos seus mais distantes rincões. 

Assim, ao final da década de 1980, quando autorizou a abertura de novos trabalhos do Ministério em todo Brasil, Ferreira estava, de certa maneira, cumprindo a profecia de 1938. "Alargar as tendas" era, e sempre foi, uma ordenança divina para Madureira e seus líderes.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938, ano VIII, nº 05, Rio de Janeiro.