sexta-feira, 10 de agosto de 2018

CGADB de 1973 - um chef entra para a História

Entre os dias 22 a 26 de janeiro de 1973, em Natal, capital do Rio Grande do Norte (RN), foi realizada pela terceira vez, a XXII Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Nessa época, a igreja estava sob a liderança do pastor João Batista de Silva e contava com quase 10 mil membros e congregados, distribuídos por 18 congregações na cidade.

A Convenção em Natal não fugiu das tendências e dos debates, que marcaram outras CGADBs na época. Exemplo disso foram as discussões em torno da televisão. Apesar de ser aprovada na Convenção Geral de 1968 uma resolução proibindo os pastores e evangelistas de possuírem televisores, houve acusações de que alguns líderes do Rio de Janeiro estavam usando a televisão.

Em meio a fortes controvérsias sobre a televisão, a Convenção aprovou por "maioria absoluta de votos de seus membros presentes, condenar o uso de TV pelos perigos espirituais que ela produz". Na sequência foi formada uma comissão para tratar dos casos de pastores que possuíssem o aparelho.

Posteriormente, foi aprovado o novo Estatuto da CPAD, o reconhecimento do Instituto Bíblico de Pindamonhangaba (IBAD) e a criação da Comissão de Missões. Se por um lado as ADs se abriam para o ensino teológico formal, por outro, os debates sobre usos e costumes ainda continuariam acirradas.

Chef Alfredo: grande nome da CGADB em Natal

Todavia, em meio a tantas figuras históricas da denominação na capital potiguar, destacou-se nos bastidores (ou melhor, na cozinha) o chef Alfredo Machado da Silva. O nome de Silva não está nos registros oficiais da CGADB, mas seu trabalho de liderar uma equipe de 30 pessoas e de preparar refeições diárias para o batalhão de obreiros vindos de todo Brasil também fez história.

Foi nas páginas do extinto jornal O Poti, que a mega tarefa do mestre-cuca e da sua bem orquestrada equipe recebeu o devido destaque. Revelou o periódico a utilização de 100 panelas para a preparação dos alimentos e mais de 60 quilos de gás por dia. Afinal, foram três refeições diárias para mais de 1.500 pessoas, em uma maratona que começava às 4 da manhã e se estendia até meia-noite.

O Poti, também teve o cuidado de informar a quantidade de legumes e ingredientes consumidos: 10 quilos de arroz, 20 quilos de feijão, dois sacos de batata, um saco de cenoura e outro de chuchu. 60 quilos de repolho, 25 quilos de pepino, 10 quilos de beterraba, 6 quilos de cebola e mais 3 caixas de tomate.

Além da fartura de legumes, os nobres convencionais saborearam 300 quilos de galeto e 250 quilos de carne. Consta ainda o gasto de 20 latas de óleo e duas de azeite, 4 quilos de sal, 60 quilos de açúcar, 150 quilos de sopa, 400 quilos de pão, 100 litros de leite, 300 litros de água, 20 quilos de café, 1.300 ovos, 50 quilos de queijo, 1000 bananas, 50 quilos de macarrão e duas caixas de goiabada.

Experiente na área da cozinha, o esforçado Alfredo se mostrou feliz com os resultados do trabalho, pois, todos comeram bem e se mostravam satisfeitos - "não houve reclamações"-, declarou o renomado chef de Natal, que entrou em férias do seu trabalho no Hotel dos Reis Magos, para aquela ocasião "muito especial".

Realmente, a comilança deve ter sido boa mesmo: mais de 336 convencionais receberam atendimento no posto médico montado providencialmente no templo devido a hipertensão, fortes emoções ou "embaraços digestivos".

Se o clima na CGADB em Natal foi de intensos debates, em contrapartida no refeitório a mesa era farta...

Fontes:

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

O Poti, domingo, 28 de janeiro de 1973/acervo digital da Biblioteca Nacional do RJ.

domingo, 5 de agosto de 2018

Frida, IPB, Antônio Gilberto e o ministério feminino

O final do mês de julho de 2018 foi marcante para o mundo evangélico em geral: matéria da BBC de Londres sobre a missionária sueca Frida Vingren, reunião Entre do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e o falecimento do pastor e teólogo assembleiano Antônio Gilberto. Nos três eventos, pode-se relacionar algo em comum: o ministério feminino.

A matéria da BBC acerca da esposa do mítico fundador das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil, Gunnar Vingren, gerou, como sempre, fortes polêmicas. As redes sociais são prova disso: desconhecimento e lamentações sobre o triste fim de Frida, críticas aos seus algozes, dúvidas sobre sua integridade moral e espiritual, defesa e exortações contrárias ao ministério feminino e por aí vai...

Em tudo isso, como em outros assuntos, as ADs se mostram uma denominação controversa. Alguns Ministérios não aceitam pastoras; outros tem até "bispas". Em alguns casos, aparentemente, há certos avanços. O Ministério do Ipiranga em São Paulo recentemente separou mulheres para o cargo de "Missionárias Comissionadas". 

Pastor Antônio Gilberto e biografia de Frida

Sendo o principal Ministério ligado a Convenção dos Ministros Ortodoxos das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo e Outros (COMOESPO), cujo fundador, o saudoso pastor Alfredo Reikdal, dizia-se "assembleiano ortodoxo e sectário" e reprovava inovações, a separação de missionárias no Ipiranga quebra a autointitulada "ortodoxia" da Convenção paulista.

Coincidentemente, o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), que aconteceu entre os dias 22 e 28 de julho, decidiu pela proibição - "exceto sob supervisão de um pastor" - a pregação de mulheres, as quais também não podem "assomar ao púlpito". Irmãs ordenadas em outras denominações evangélicas, igualmente, não têm permissão para pregar em suas igrejas.

Como no caso assembleiano, desde a CGADB de 1930, há contradições nesse tipo de resolução, pois na prática, elas ensinam nas Escolas Dominicais, dirigem grupos de oração, lideram corais de jovens e muito mais. Como observou o blogueiro Daladier Santos, as mulheres não foram proibidas de "serem enviadas como missionárias. Assim elas irão, pregarão, ensinarão, batizarão, construirão igrejas, ungirão enfermos, servirão a Ceia, farão casamentos e até (quem sabe?) levantarão obreiros para o trabalho."

Por último, no dia 30 de julho, faleceu o pastor Antônio Gilberto. As ADs perderam o seu maior ícone na área do ensino e teologia. Homem probo e de grande influência na denominação, Gilberto foi sepultado com as honras merecidas e testemunhos da sua grandeza pessoal e ministerial.

Em 2012, em entrevista ao Seara News, o pastor Antônio ao ser questionado sobre à ordenação de mulheres ao ministério, o nobre obreiro foi enfático: "Não, não e outra vez não! Não existe Ordenação!… Mulheres no Santo Ministério, tanto venham. Inclusive muitas vezes elas fazem o trabalho melhor que os homens. Mas ordenar para o Santo Ministério, não tem base nas Escrituras."

Na sequência, o teólogo pentecostal faz sua exposição refutando a ideia de ordenação das irmãs. Usando referências bíblicas e palavras do grego, o pastor procura mostrar o quanto a prática de separação de mulheres ao ministério é antibíblica. "Quem estiver fazendo vai prestar conta a Deus" - enfatizou Gilberto.

E assim caminha os evangélicos. De um lado as pressões históricas com o exemplo dramático de Frida Vingren tentando abalar as mais firmes convicções ministeriais. Por outro, Concílios, Convenções e teólogos de renome negando o ministério feminino, mas aceitando-o em suas fileiras conforme as conveniências.

Fontes:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

http://www.daladierlima.com/igreja-presbiteriana-contribui-para-contradicao-evangelica/

http://www.searanews.com.br/pr-antonio-gilberto-a-importancia-da-doutrina-biblica-para-a-igreja/