quinta-feira, 28 de junho de 2018

As Assembleias de Deus fragmentadas do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro ainda era a Capital da República do Brasil quando, em 1925, o missionário sueco Gunnar Vingren e sua esposa Frida organizaram oficialmente a Assembleia de Deus no bairro de São Cristóvão, Zona Norte da cidade. Conduzida pelos obreiros escandinavos, o trabalho pentecostal expandiu-se por toda a região do antigo Distrito Federal e o estado fluminense.

Ainda na década de 1920, Paulo Leivas Macalão deu início ao seu ministério nos subúrbios do Rio. Não era uma divisão formal, pois Macalão desenvolvia suas atividades evangelísticas em cooperação com os suecos, mas o próprio Vingren havia registrado em seu diário o perfil independente do jovem obreiro.

Em 1941, finalmente, o Ministério de Madureira obteve sua personalidade jurídica. Informalmente, porém, a distinção Missão e Madureira já tinha se imposto nas ADs do Rio, e por conta das circunstâncias, com mais força em São Paulo. O saudoso pastor José Pimentel de Carvalho, em histórica entrevista ao O Assembleiano em 1987, ao comentar sobre a unidade das ADs, declarou estar apenas observando o "fracionamento" que ele considerou "irreversível" iniciado por volta de 1940. Provavelmente, o veterano obreiro relembrava o caso de Madureira.


Templo da AD: Ministérios "fracionados"


As autonomias promovidas pelo pastor Alcebiades Vasconcelos na AD em São Cristóvão em 1959, é dado como o marco inicial da fragmentação no Rio. Na época, Vasconcelos, tentando contornar possíveis cisões na igreja, apresentou um plano de autonomia e emancipou as congregações do Leblon, Lapa, Rio Comprido, Vila Isabel, Tijuca, Todos os Santos, Bonsucesso, Caetés, Olaria, Ilha do Governador, Penha e Cordovil.

De lá para cá, as ADs, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil passaram por transformações que aceleraram o processo de "fracionamento" citado pelo pastor Pimentel de Carvalho. O historiador Maxwell Fajardo conceitua essa dinâmica de "esgarçamento institucional", ou seja, a denominação se fragmenta, sem, contudo, romper com sua base comum.

Marina Corrêa, por sua vez, ao analisar a lógica e organização dos Ministérios compara a multiplicidade de ramificações assembleianas a um sistema de franquia. Afinal, a "marca" Assembleia de Deus é sinal de retorno garantido e ajuda a enfrentar a concorrência no campo religioso brasileiro.

Concorde ou não com os conceitos de fracionamento, esgarçamento ou franquia, a realidade se impõe: segundo O Globo, há 2.819 registros na Receita Federal de igrejas nomeadas Assembleia de Deus com sobrenomes diversos. É o milagre da multiplicação do pequeno núcleo de fiéis da década de 1920.

No olhar do pastor José Wellington Bezerra da Costa, esse modelo de concessão de autonomias no Rio gera igrejas que ficam "patinando para o resto da vida, porque o que seus membros contribuem mal dá para o pastor comer". Assim, a fragmentação teve seu preço: o enfraquecimento institucional das ADs cariocas. Excetuando o Ministério de Madureira, as ramificações geraram igrejas com pouca expressão no contexto da política eclesiástica das ADs.

Não por acaso, que a Convenção Geral nas últimas três décadas tem sido dominada por oligarquias de outras regiões do país, principalmente de São Paulo. Da antiga influência carioca na denominação pentecostal, ficou a sede da CGADB e a CPAD no Rio de Janeiro. Lembranças de tempos áureos dos irmãos cariocas.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

O ASSEMBLEIANO. Joinville ano II nº6 dez 87/jan.88 p.5

O Globo. Domingo, 24 de junho de 2018. disponível em:
https://oglobo.globo.com/rio/igrejas-no-rio-sao-registradas-em-asilo-escritorio-ate-estacionamento-22814658

terça-feira, 19 de junho de 2018

Cícero - o esquecido desbravador das ADs em Mato Grosso

Da sua terra natal, Mossoró, no Rio Grande do Norte, ele sempre carregou o sotaque e a "marca de caráter de um homem que foi formado na luta diária contra a terra árida". Talvez isso explique a firmeza, a segurança e a obstinação do "timoneiro" Cícero Canuto de Lima (1893-1982), saudoso pastor da Assembleia de Deus do Ministério do Belém, São Paulo.

Certos fatos são conhecidos da escassa biografia de Cícero: sua rejeição aos Institutos Bíblicos e a sua controversa sucessão no Belenzinho. Como aconteceu com a maioria dos pastores que não fizeram seu sucessor, o pioneiro pentecostal (juntamente com sua família), praticamente caiu no esquecimento.

Porém, informações da vida e ministério do saudoso pastor aparecem com certo atraso, após três décadas da sua morte. Seu sucessor, o pastor José Wellington Bezerra da Costa (em sua biografia escrita pelo jornalista Isael de Araújo) e o pastor Jesiel Padilha no livro biográfico sobre seu pai, o veterano pastor Carlos Padilha, lançam luzes sobre os feitos e a personalidade de um dos grandes ícones das ADs.

Cícero entre os obreiros do Mato Grosso

Nas duas obras, há relatos do pioneirismo de Cícero em promover esforços na evangelização do Mato Grosso, na época, uma região desprovida de infraestrutura e de acessibilidade. Se Madureira foi pioneira em Goiás, o Ministério do Belém, através do seu líder, desbravou uma região inóspita e carente de recursos materiais.

No final da década de 1940, Lima fez sua primeira viagem ao Mato Grosso. No velho carro usado por ele, além da Bíblia e da "matula" (merenda), o "timoneiro" também levava um "coração cheio de amor pelas almas". Em cada local de parada, um ponto de pregação se formava. Pregadores eram deixados pregando sob a copa das árvores.

Tempos depois, três vezes por ano, Cícero organizava viagens de São Paulo para o Mato Grosso levando recursos e dando posse a obreiros desejosos de trabalhar em locais tão ermos. Todo longo e cansativo percurso era feito de carro em estradas sem asfalto com muita poeira, buracos e travessias em balsas. Detalhe: sem paradas em restaurantes para não gastar. Nas memórias do pastor Carlos Padilha, consta que as excursões eram "regadas à farofa".

Mas para quem andou a pé ou de jumento no árido sertão nordestino, até que o desconforto das longas viagens não eram tão pesadas. José Wellington lembra, que na primeira viagem ao Mato Grosso, Cícero com seu carro velho chegou a Campo Grande e o deixou de presente para a igreja. Voltou a São Paulo de trem e de boas expectativas para a evangelização no Centro-Oeste.

Os primeiros templos das ADs foram erguidos ou comprados pelo Ministério de São Paulo. Contudo, ao contrário de Macalão, que em 1958 organizou juridicamente as igrejas vinculadas a Madureira no famoso Estatuto Padrão, o pastor Lima optou por não fundar uma convenção própria. Padilha afirma, que ele era contra esse tipo de organização. Para o pioneiro, as ADs deveriam ter apenas Ministérios.

Por esse motivo, a iniciativa da AD de Mato Grosso de fundar sua própria convenção foi uma verdadeira "punhalada no coração do velho" - explicou o pastor Costa em suas memórias. E muito mais do que uma "punhalada", foi pior a decisão do pastor Eliseu Feitosa de Alencar de Campo Grande, no atual Mato Grosso do Sul, de romper com o Ministério de Belém em 1972.

Com a destituição do "timoneiro" da presidência do Ministério, as igrejas fora dos limites do Estado de São Paulo puderam organizar suas convenções. O próprio Ministério do Belém, na gestão do pastor José Wellington criou a Confradesp.

Em suma: muda-se o sacerdote, mudam-se as leis - e as realizações - muitas vezes ficam esquecidas...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

Folha de São Paulo, 18 de janeiro de 1982 - Acervo Folha.

domingo, 3 de junho de 2018

Círculo de Oração Masculino na IEADJO - primórdios

O Círculo de Oração feminino é uma das instituições mais respeitadas dentro das Assembleias de Deus no Brasil. Fundado em 1942, pela irmã Albertina Bezerra Barreto, na Assembleia de Deus em Recife, Pernambuco, logo o departamento se espalhou por todo o Brasil.

O Círculo de Oração, sempre foi um importante espaço para as lideranças femininas da denominação. Não por acaso, em muitas igrejas, quem assume o departamento é a esposa do pastor do campo. É necessário, ter sob controle, a estratégica reunião de senhoras, em geral, baluartes da "doutrina" assembleiana.

Em 1986, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO), criou o Círculo de Oração Masculino na gestão do pastor Satyro Loureiro. Na época, Satyro tinha como seu principal auxiliar na congregação do templo sede, o então presbítero e genro, José Paulino Müller, o qual, teria sido um dos principais incentivadores do projeto.

Criado o departamento de oração masculino, foi escolhido o presbítero Paulo Roberto para ser o coordenador geral. Atualmente, todas as congregações possuem o Círculo de Oração para homens, que em muitos casos, ora (em separado numa pequena sala do templo local) e ensaia seus hinos de louvor com as irmãs.

Porém, a história é um conhecimento dinâmico. Novas informações sempre complementam outras e ajudam a enriquecer com detalhes a historiografia. O extinto Boletim Informativo da IEADJO, do mês de setembro de 1982, informava que na congregação do bairro Vila Nova, desde 1981, um Círculo de Oração masculino estava ativo. Na época, o dirigente da igreja era o saudoso irmão Adhemar Pohl.

O assunto foi destaque novamente no Boletim Informativo de novembro de 1982, o qual trouxe uma nova matéria sobre o departamento, anunciando o "pleno funcionamento" de outro Círculo de Oração de varões na congregação do Km 4. Segundo o periódico, o departamento voltado para os homens, era o segundo criado no campo. Na época, o líder da congregação era o diácono Luiz Carlos Müller, irmão de José Paulino Müller, o grande incentivador do Círculo de Oração masculino para a sede e o campo de Joinville.

É a história da IEADJO sendo revisitada. Como qualquer outra Assembleia de Deus, rica em pormenores e com muitas nuances.



Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.