sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Ministério de Madureira - O Império contra-ataca

*Por André Silva

No dia 2 de junho de 1993, numa sexta-feira, a Assembleia de Deus em Bangu (RJ), transformou o culto em Assembleia Geral Extraordinária (AGE). Membros e ministros do campo foram surpreendidos, quando o pastor Ades Antonio dos Santos, presidente da igreja, anunciou que a partir daquela data a igreja estaria se desligando da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil - Ministério de Madureira (CONAMAD) e se vinculando a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). 

Na mesma noite, o pastor Ades informou sobre “uma suposta perseguição” do pastor Manoel Ferreira, que tentava persuadi-lo a jubilar-se fora da data estabelecida pela igreja e, juntamente com a liderança de Madureira, tentava intimidá-lo para deixar a presidência de Bangu. 

O pastor Ades dos Santos chegou a procurar a 34ª Delegacia Policial, em Bangu, para prestar queixa contra o “Pr. Dr. Manoel Ferreira” (hoje Bispo Primaz) sobre o crime de perseguição, atentado contra sua vida e família. Declarou ainda em depoimento ter sofrido ameaças, agressões e até tentativa de sequestro. O assunto foi palco de reportagem do jornal carioca O Dia, diário de grande circulação da cidade do Rio de Janeiro.

Pressionado, Ades solicitou o apoio do pastor presbiteriano Caio Fábio D’Araújo Filho, fundador e presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). A AEVB era, na época, rival do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB), fundado por Ferreira em 1993. Caio Fábio declarou-se jubiloso com a atitude do ministério em Bangu e prestou toda solidariedade ao pastor Ades, a fim de que os ministros filiassem a AEVB. Em um vídeo na Internet, Caio Fábio confirma os acontecimentos com o pastor Ades Antonio dos Santos e o pastor Manoel Ferreira.

AD em Bangu e pastor Ades

Persuadidos de que nada os impediria mudar o regime jurídico da igreja, o “golpe” foi oficializado em 6 de junho, com a leitura do estatuto separatista na igreja e o anúncio da criação da Convenção de Igrejas Assembleias de Deus na Zona Oeste (CIADEZO). Tal fato causou surpresa, tristeza e choro em Bangu.

Nessa reunião, Caio Fábio, presidente da AEVB, enviou seu representante, o pastor da Igreja Congregacional do Brasil, Marcos Batista. A finalidade específica do encontro, foi para que todos os ministros do campo da Assembleia de Deus em Bangu participassem das decisões recentemente tomadas. Nessa noite, foi anunciada a vinculação a CGADB. 

Dezenas de obreiros do campo estavam reunidos para a decisão tomada. Ali também estava, o pastor Gilberto Malafaia como representante da CGADB, expressando ao Ministério as vantagens da filiação a CGADB.

No dia 21 de junho, na CPAD, membros da CGADB hipotecaram solidariedade ao pastor Ades. Na ocasião, o pastor Sebastião Rodrigues de Souza, na época, presidente da Convenção e seu primeiro vice-presidente, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, reconheceram oficialmente a recém-criada CIADEZO. Foi comunicado também ao pastor Ades dos Santos que ele e seus ministros já poderiam participar com voz e votos na Assembleia Geral Ordinária da CGADB a realizar-se na 2ª quinzena de janeiro de 1995.

Em 22 de junho de 1994, uma nova AGE foi realizada para efetuar mudanças no nome da Convenção criada para associar igrejas, mas apenas ministros. O nome anterior, CIADEZO, poderia gerar dúvidas sobre jurisdição. A CEADER e a CONFRADERJ não viam com bons olhos o nascimento de mais uma convenção carioca ligada a CGADB, sem contar outras de caráter regional originárias de outros estados, a exemplo da CADEESO e da CIEADESPEL.

O pastor Gilberto Malafaia, como porta voz da Convenção Geral, sugeriu que fosse mudado o nome de CIADEZO para Convenção de Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus da Zona Oeste (COMADEZO). Para garantir a legalidade da instituição, o registro foi feito no dia 19 de julho de 1994, sob o CNPJ 00.148.848/0001-62, na Rua Ribeiro de Andrade, nº 65, no templo antigo em Bangu, considerada igreja mãe de outras que a seguiram, da mesma ordem da AD em Bangu.

Decidido e aconselhado por alguns obreiros da diretoria, o pastor Ades continuava convencido de que nada o impediria mudar o regime jurídico da igreja, filiando-se diretamente à CGADB. Durante o curso desse tempo, em várias reuniões, foi sugerido a procura de um jurista de renome para examinar se era possível definitivamente desligar-se da CONAMAD. Foram apresentados ao jurista todos os estatutos: o de Bangu e o da CONAMAD. Pedido 15 dias para o estudo da matéria e posterior resposta, veio a negativa – o advogado afirmara que não havia como se separar do Ministério de Madureira.

Nova tentativa sobre o assunto foi consultar o pastor e advogado Luis Francisco Fontes. O pastor Fontes tinha sido presidente da AD em Madureira, mas não permaneceu muito tempo no cargo, em virtude de uma manobra do pastor Manoel Ferreira que o tirou da presidência. O grupo saiu da audiência com o pastor Luis Fontes tarde da noite com a resposta: “Nada feito, se vocês quiserem separar-se poderão fazê-lo; basta que hajam como eu agi. Procurem um galpão e ocupem!” – aconselhou o pastor Luis Fontes.

Uma comissão de pastores de Madureira, juntamente com Manoel Ferreira, compareceram em uma das reuniões em Bangu esclarecendo que a criação da COMADEZO foi a ousadia de “mergulhar de cabeça em águas turvas na imprudência”. Ferreira não perdeu tempo: providenciou medidas com base no “Estatuto Padrão” elaborado pelo pastor Paulo Leivas Macalão. O documento era a garantia da impossibilidade de uma igreja filiada a Madureira separar-se totalmente do Ministério.

Vários obreiros e ministros da AD em Bangu, demostravam insatisfação ao regime de ingerência nos negócios da igreja e a ideia do vínculo patrimonial do campo de Bangu com a CONAMAD, e ficaram revoltados com a atitude do Ministério de Madureira de retirar da igreja o seu presidente.

A reunião tornou-se então tumultuada com troca de acusações e tentativas de agressões. Ferreira teve que pedir calma ao colegiado de ministros. Alguns em forma de gritos de ordem ou em cartazes, entoavam: “Fora Madureira”, protestando contra o autoritarismo do Ministério de Madureira em Bangu. Alguns obreiros, inclusive precisaram ser contidos por outros para evitar uma sequência de agressões. Os ânimos de alguns se alteraram, criando um tumulto e o pastor Manoel Ferreira foi agredido e jogado ao chão.

Na ocasião, pastores de Madureira estavam armados, sendo que a polêmica revoltou a todos e houve perplexidade entre os membros. A Polícia foi chamada para acalmar os ânimos. O problema, segundo os envolvidos, seria a permanência do pastor Ades à frente da igreja, o que seria contra a vontade da cúpula de Madureira. 

O pastor Manoel Ferreira, presidente do Ministério de Madureira, obrigou-se a ignorar quaisquer acordos que pudessem haver entre as partes, e o resultado foi parar na 2ª Vara Cível em Bangu, numa ação de manutenção e posse de ambas as partes. O pastor Ades entrou com uma ação preventiva para assegurar o direito de posse da Igreja em Bangu. Já Madureira buscou recuperar a posse legítima de seu imóvel como rege o “Estatuto Padrão”.

Nos dias 8 e 9 de julho, a recém criada COMADEZO, promoveu o I Congresso em clima de sessão convencional com as modificações decorrentes da saída da AD em Bangu da CONAMAD. Autonomias foram dadas a 23 igrejas e o posicionamento dos favoráveis foram defendidos em favor da CGADB. Com o objetivo de estimular o crescimento da Convenção, a mesa diretora criada examinou a relação de novos ministros evangélicos, apresentados pela igreja matriz e suas congregações, bem como os demais obreiros oriundos das novas igrejas emancipadas no dia 9 de julho, consagrando 55 evangelistas e 29 pastores.

Pressionado pela ação jurídica de manutenção e posse, o pastor Ades Antonio dos Santos não resistiu e acabou cedendo, entregando definitivamente a presidência da AD em Bangu ao pastor Manoel Ferreira, presidente da CONAMAD. Ferreira, no dia 2 de outubro, tomou posse como presidente do campo da Assembleia de Deus em Bangu, depois que o pastor Ades ter aceito se jubilar incondicionalmente.

E no dia 04 de outubro de 1994, o pastor Ades foi apresentar-se juntamente com a sua esposa ao plenário convencional e a Mesa Diretora, na AD em Madureira, com um pedido de reintegração, onde teve que se retratarem pessoalmente com o pastor Manoel Ferreira; só então foi reintegrado ao quadro de ministros da CONAMAD e teve sua jubilação garantida. 

Já no dia 7 de outubro de 1994, tomavam posse como interventores na presidência do campo da AD em Bangu, por determinação e procuração do presidente da CONAMAD, os pastores: David Cabral (presidente), Gedeir Ricardo da Silva (vice-presidente) e mais pastores como auxiliares: Antonio Paulo Antunes (Tuninho), Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes Abreu. E no dia 10 de outubro, o juiz da 2ª Vara Cível em Bangu homologou o acordo entre Madureira e Bangu, passando a direção da AD em Bangu e todo seu campo para a CONAMAD.

A Junta Interventora da CONAMAD, entendeu então, que o pastor Ades estava sendo objeto de manobras por partes de ministros interessados na divisão da igreja. Segundo a Junta Interventora, os mesmos participavam de reuniões na igreja em Madureira e levavam informações distorcidas para Bangu. Em reunião fechada, os membros da Junta Interventora fizeram audiências com alguns ministros de oposição, que tentaram justificar suas atitudes. Quatro pastores e dois evangelistas, classificados como mentores diretos da “COMADEZO”, tiveram suas atitudes consideradas desrespeitosas e ofensivas a CONAMAD.

No dia em 30 de novembro de 1994, a Junta Administrativa da CONAMAD, constituída pelos pastores Davi Cabral, Presidente; Gedeir Ricardo, Antonio Antunes de Paula, Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes de Abreu, empossou o pastor Neuton Pereira Abreu, procedente da cidade de Gurupi (TO) e presidente da Convenção Regional de Tocantins como o novo presidente do Campo de Bangu. A Assembleia foi presidida pelo pastor Davi Cabral, presidente da Junta Administrativa e o ato de posse conduzido pelo pastor Gedeir Ricardo da Silva, também membro da Junta. Estiveram prestigiando a Assembleia, os pastores Eduardo Sampaio de Oliveira (DF), Napoleão Quintão (RJ), Graciliano Gomes (RJ), Hamilton Santos (RJ), Leocádio Brás (RJ), José Pedro Teixeira (RJ) e João Arnaldo (RJ). 

Dissolvida os atos COMADEZO, a liderança do Ministério de Madureira retirou as autonomias das igrejas emancipadas, que retornaram à condição de congregação. Obreiros foram destituídos dos seus cargos e as ordenações não foram reconhecidas pela CONAMAD. Além das divergências e cismas, um grande número de ministros e obreiros descontentes com a postura de Madureira, saíram da igreja sem intenção de voltar. 

Foi o caso do evangelista Rubens Jorge Seabra de Aquino, que dirigia um trabalho de consagração às quintas-feiras e vigílias bem fervorosas; seu ministério era marcado pela Palavra pregada com sinais notórios do poder de Deus e com um grupo dissidentes que se desvincularam da Igreja em Bangu, fundaram na localidade, a “Igreja Apostólica Assembleia de Deus Ministério Creia”, que começou a ganhar força e com o passar dos tempos tornou-se uma potência evangelística.

Alguns pastores entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio devido ao compromisso de fidelidade com a CONAMAD, a fim de não participarem de qualquer tipo de rebelião ou tumulto. Outros pastores acabaram brigando com a respeito das destituições de ordenações e autonomias de suas igrejas. Com sérias oposições, a igreja se dividiu em vários grupos, filiais e congregações da AD em Bangu se desligaram do campo e do Ministério de Madureira. 

A briga judicial pela reintegração de posse dos templos iria, se arrastar por anos. Com isto, a igreja em Bangu perdeu o seu direito de propriedade das igrejas em: Estrada da Posse (Santíssimo), Jardim Novo Realengo, Malvinas (Vila Kennedy), Padre Miguel, Chaperó (Itaguaí), Praia do Anil (Magé) e outras,s cuja filiação é desconhecida, mas acabaram se transformando em raízes de outros ministérios com seus membros, obreiros, ministros, e muitos deles se vincularam a CGADB. 

No final de 1994, a CONAMAD analisando os pedidos de emancipação, concedeu definitivamente autonomia administrativa as igrejas em Canrobert da Costa, Coqueiros, Olímpia Esteves, Rio da Prata, Terra Brasil, Vila Aliança, Vila Vintém e Santíssimo, passando à categoria de igrejas matrizes vinculadas ao Ministério de Madureira e filiada diretamente a AD em Bangu, cujo pastor dirigente estaria naquele ato intitulado “pastor presidente” e subordinado ao campo de Bangu.

Com o decorrer do tempo, alguns ministros da AD em Bangu, taxados de “inimigos de Madureira”, idealizadores da “COMADEZO”, os mesmos que promoveram rebelião, insultos, tumultos, questionando a liderança da CONAMAD, eram vistos em eventos na igreja em Madureira, ao lado do pastor Manoel Ferreira. Se eram para conseguir regalias no Ministério de Madureira, por certo receberam prestígios e cargos de pastor presidente; talvez como uma forma de “calarem a boca”. 

Porém, os pastores que entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio, acabaram no anonimato, alguns idosos fragilizados com a saúde precária, abandonados em seus lares sem receberem visitas; e outros foram deixados à sua própria sorte, sem visita, sem assistência, sem direito a uma prebenda ministerial. A única coisa que lhes foi oferecida era a isenção da anuidade da CONAMAD, porque assim seria mais fácil jogar a questão debaixo do tapete. 

Alguns tiveram que lutar por uma ajuda financeira. Mesmo assim, sofreram por se sentirem esquecidos. Outros humildemente preferiram o silêncio e compartilhar algumas fotos da época que suas vidas eram marcadas e comprometidas com o Reino e a fidelidade nas AD do Ministério de Madureira.

*O pastor ANDRÉ SILVA ex-ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

Fontes:

Folha Cristã, nº 38 – junho/julho 1994

Folha Cristã, nº 40 –novembro/dezembro 1994

O Semeador, nº 290 – dezembro/1994 - página 4

Relatório da Junta Interventora da AD em Bangu, datado em 26/10/1994

Entrevistas com os pastores da AD Bangu, RJ que participaram das reuniões da COMADEZO

Ata da Assembleia de Deus em Bangu/ano 1993 e 1994.