sábado, 19 de agosto de 2017

As Assembleias de Deus - títulos e honrarias

"O brasileiro é vaidoso e guloso de títulos ocos e honrarias chocas. O seu ideal é ter distinções de anéis, de veneras, de condecorações, andar cheio de dourados." (Lima Barreto)

Para muitos assembleianos causa surpresa a proliferação de títulos considerados "exóticos" dados aos principais líderes da denominação. Ainda soa estranho, por exemplo, certas igrejas terem como seu líder máximo um "Apóstolo" ou "Bispo".

Vale lembrar, que no Mensageiro da Paz na década de 1930, quando se anunciava estudos bíblicos, obreiros como Samuel Nyströn, Gunnar Vingren entre outros, eram chamados simplesmente denominados de "irmãos". E ser pastor naquela época, era muitas vezes viver sem salário, sem honrarias e com muita perseguição.

Mas em 1938, segundo Silas Daniel no livro História da CGADB, "entrou em pauta o ministério de apóstolo". Concordaram os obreiros com a existência do ministério apostólico, mas rejeitaram a "consagração de apóstolos". O reconhecimento da honraria deveria ser feita pela igreja e "não dependia de um título".

Daniel esclarece: "as Assembleias de Deus nunca consagraram apóstolos, por entenderem que tal consagração não tem apoio bíblico, porém sempre tiveram o costume de denominar alguns dos grandes nomes da história da Igreja, inclusive no Brasil, como apóstolos." Entretanto, o reconhecimento só viria depois da morte do pioneiro.

Bispos de Madureira: etiqueta de mando?

Porém, Paulo Leivas Macalão ainda em vida, foi chamado de "Apóstolo do século XX"; Túlio Barros da AD em São Cristóvão (RJ), em 2004, foi consagrado "Apóstolo" e o seu filho Jessé Maurício "Bispo". Nesse tempo, São Cristóvão já estava fora da CGADB.

Em 1959, Antônio de Souza Campos, em um artigo publicado na revista A Seara, questionou o uso que alguns pastores faziam da titulação de reverendo. Para ele, tal título, além de ser impróprio, seria a aberração "de um cristianismo órfão, pobre de espiritualidade o qual para impressionar precisa lançar mão de títulos pomposos". 

Nem mesmo a nomenclatura, pastor geral, pastor-presidente ou pastor regional foram aceitas sem contestações na década de 1950. O pastor José Menezes, no Mensageiro da Paz chamou essa prática de "anti-bíblica" e "maligna", sendo uma "etiqueta de mando" para legitimar abusos autoritários. 

Para Menezes, o objetivo dos "pastores regionais" era "empunhar o cetro da distinção" e "exercer o império do mando." Isso seria ainda um "beco de inovações, criação de leis e estatutos imprecisos, proteção a favoritos, trazer a outros com aves de arribação."

Com a evolução dos Ministérios, as ambições de reconhecimento social também cresceram. Gedeon Alencar observa em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, o uso das titulações acadêmicas nos periódicos da CPAD como forma de legitimação dentro da igreja. A titulação de pastor já não seria suficiente para dar peso as publicações? 

Muitas são as justificativas para o uso das nomenclaturas. Para muitos, o que parece mesmo é que as lideranças foram picadas pela famosa "mosca azul". Lima Barreto morreu no início do século XX, mas impressiona sua atualidade em descrever as futilidades do mundo político e eclesiástico.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1969. Rio de Janeiro: CPAD.

A Seara, ano VI - nº 1, ano de 1959.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Reuniões e cultos nas ADs – novos significados

As Assembleias de Deus em mais de cem anos de história, já passou por significativas transformações. Por ser uma denominação presente em todo território nacional, ela é também muito diversificada. Não há uniformidade em tudo, mas o objetivo dessa postagem é somente refletir sobre certas mudanças. 

Algumas retratam alterações sociais e econômicas. Outras, o direcionamento teológico e político da igreja. Conforme a participação dos leitores a lista pode ser aumentada. Vamos aos verbetes:

Culto de doutrina: assim era chamado a reunião semanal, geralmente as terças-feiras, que em tese seria de ensinamentos bíblicos. Mas os crentes de boa memória sabem, que de Bíblia tinha muito pouco, e se havia alguma coisa, eram versículos descontextualizados para reforçar os usos e costumes. De tão desgastado, o termo "doutrina" é evitado. Hoje as igrejas preferem nomear as reuniões de culto de edificação cristã ou ensinamento.

Vigília: reunião noturna de oração que atravessa a madrugada. Antigamente era só oração, no máximo com alguns hinos e testemunhos para aliviar um pouco o cansaço. Hoje, as vigílias transformaram-se em eventos badalados em determinados lugares. Há programas especiais com pregações, louvores, testemunhos e muito re-te-té... mas oração mesmo, quase nada.

Culto da mocidade: algumas congregações ainda usam a nomenclatura. Porém, muitas igrejas já substituíram o nome da reunião por "celebração jovem", mais adequado aos novos tempos. Outra: as "celebrações" jovem também procuram adaptar-se ao gosto do seu público. Com louvores ousados e liturgia mais despojada, esse tipo de reunião tenta atrair, conquistar, e principalmente, segurar a garotada na congregação. Em tudo parece ao estilo das comunidades evangélicas.

Antigo cartão de membro: à direita o visto pastoral

Cartão de membro: identidade do crente. Era levado na sede do campo anualmente para ser revalidado. Orgulhoso, o assembleiano guardava e apresentava-o para entrar na igreja nas ceias e cultos administrativos. Hoje, anda um tanto esquecido. Muitos crentes não se dão ao trabalho nem de buscá-lo na secretaria de igreja.

Círculo de Oração: criado na década de 1940, na AD em Recife (PE), espalhou-se pelas igrejas no Brasil. Era símbolo de um tempo: o homem, provedor-mor do lar trabalhava fora e a esposa dirigia-se nas tardes livres para orar na congregação. Atualmente, os horários refletem as transformações sociais, pois as irmãs trabalham fora para ajudar no rendimento familiar e as reuniões em muitos locais passaram para o período noturno.

Estudos Bíblicos: trabalhos marcados nas igrejas, geralmente nos fins de semana, para examinar temas e assuntos da doutrina cristã. Sumiram das programações. Mas em compensação, os chamados "cultos da vitória" ganharam espaço incrível. Os estudos bíblicos ficaram mesmo para os corajosos da escola dominical.

Ministério: era sinônimo de dedicação, sofrimento e parcos salários. Hoje, é uma carreira desejada por muitos. Comparar o estilo de vida dos primeiros obreiros com os atuais chega a ser revoltante. Alguns obreiros mais parecem gerentes de empresas do que pastores  de igrejas.