terça-feira, 28 de maio de 2019

Igrejas e Ministérios - a busca pela legitimidade


As Assembleias de Deus no Brasil vivem nos últimos anos, uma intensa fragmentação ministerial. CGADB, CONAMAD, CADB e outras convenções menores disputam espaço e representatividade no mundo eclesiástico e, principalmente, no político.

Na última postagem do blog, refletiu-se sobre a importância e utilização da história e memória na busca pela legitimação institucional, pois diante da cada vez mais acirrada concorrência ninguém quer ficar à margem da história ou parecer um simples genérico dentro do sistema.

Por esse motivo, entre as igrejas cresceu a valorização e a utilização de substantivos que reforçam suas origens. Exemplo disso é a valorização que a AD em Belém/PA dá cada vez mais ao título Igreja-Mãe. As ADs em Santos/SP e em Macapá/AP também enfatizam sua primazia em seus estados com a nomenclatura "a pioneira".

Mas há casos inusitados. Em Manaus/AM, nos anos 2000, uma cisão gerou a AD Tradicional. Nascida em oposição aos métodos controversos da AD liderada por Jonatas Câmara, o novo ministério procurou resgatar no nome, àquilo que supostamente se perdeu no pentecostalismo local: as tradições legadas pelos pioneiros.

Daniel Berg em frente ao antigo templo da AD em SP: a pioneira

Essa situação no Amazonas não deixa de ser irônica do ponto de vista da história. Nos primórdios, as ADs com sua ênfase nos dons e manifestações carismáticas procurava se diferenciar das denominações históricas, também chamadas de tradicionais. Em Manaus, o termo "tradicional", no novo ministério, tem agora novo sentido.

Porém esse tipo de recurso não é novo dentro das ADs. A busca pela legitimidade vinculada ao pioneirismo é antiga. Paulo Macalão, tantas vezes citado na história pela postura independe em relação aos suecos (citação essa pinçada diretamente do diário de Vingren), na CGADB de 1951, diante da discussão sobre o uso de métodos para se manter um avivamento, afirmou que usava alguns aprendidos com Gunnar Vingren.

Cícero Canuto de Lima foi mais longe. Por ocasião dos 50 anos de seu ministério em 1974, declarou ao Mensageiro da Paz, ser desejoso de perseverar na doutrina e nos costumes dos missionários suecos. Anos depois, em declaração à Folha de São Paulo, em janeiro de 1982, afirmava no fim da vida ainda pertencer ao "tronco principal", ou seja, da ramificação fundada pelos escandinavos.

Por esse motivo, as notícias sobre os trabalhos da AD do Belenzinho/SP enviadas ao Mensageiro da Paz, sempre intitulava a igreja de "pioneira" e "Igreja Mãe" em São Paulo em oposição a outros ministérios tidos como ilegítimos. Há sempre um tom nada cordial em relação aos outros grupos da AD implantados na pauliceia.
...a Assembleia de Deus, no Belém, é a igreja pioneira do Trabalho Pentecostal no Estado de São Paulo, isto é das Assembleias de Deus no Brasil. Ela é a mesma iniciada pelo Pioneiro Missionário Daniel Berg que começou este abençoado trabalho, em um dos bairros desta capital... Da igreja Assembleia de Deus no Belém, saíram quase todas as outras que tem prosperado. Umas saíram legalmente, outras de forma que não desejamos ventilar... A Assembleia de Deus no Belém, é de certo modo a "Igreja Mãe" de quase todas as demais Assembleias de Deus em São Paulo.
Se naquela época esse tipo de autorreferência era importante, pode-se imaginar o quanto nos dias de hoje esse recurso é vital. Diante de tantos Ministérios, alguns até com nomes folclóricos, a indicação de pioneirismo e tradição pode ser um atrativo maior aos crentes e futuros membros. Todos querem ser a verdadeira Assembleia de Deus.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1ª quinzena de abril de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de agosto de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

3 comentários:

  1. Lamentavelmente muitos cristãos acreditam que serão salvos se e somente se pertencerem à Assembléia de Deus.Embora eu seja assembleiano,não vejo nenhuma virtude em si,mas sim ser um verdadeiro servo de Jesus.

    ResponderExcluir
  2. Paz do Senhor.

    Nenhum ministério é detentor da responsabilidade de salvar as almas, entretanto, entendo que adorar a Deus em local onde não se respeita a soberania d'Ele deve ser rejeitado a todo custo. Jesus é o único caminho e mediador entre Deus e os homens [João 14:4, 1ª Timóteo 2:5].

    -------
    Deus abençoe a todos em nome de Jesus.

    ResponderExcluir
  3. Não podemos esquecer de que A IGREJA É UNA(uma só) ,o que existem são DENOMINAÇÕES e todas(não estão aqui ,evidentemente, as heréticas como a católica,Testemunhas de jeová ,Mórmons, Adventistas....) pertencem à IGREJA DE CRISTO . Por isso não podemos brigar dizendo "eu sou de Paulo ;e outro de Apolo;porventura não sois CARNAIS? "1° Cor.3.4 O espírito mundano é quem causa essa divisão na Igreja de Cristo ....

    ResponderExcluir