sábado, 27 de maio de 2017

Rio 40 graus – Alcebiades no Distrito Federal

"Rio 40 graus/Cidade maravilha/Purgatório da beleza e do caos" – A música é de 1992, e faz referência, não só à temperatura média da cidade, mas também aos seus encantos naturais e, infelizmente, a constante situação de violência e abandono da sua população.

No final da década de 1950, o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos sentiu ministerialmente a elevada temperatura das ADs no antigo Distrito Federal. Internamente, sérias questões com o presbitério de São Cristóvão; externamente, desentendimentos com o líder da AD em Madureira, Paulo Leivas Macalão.

Convidado oficialmente por telegrama pela igreja de São Cristóvão, Vasconcelos conta que foi surpreendido com sua indicação à presidência da igreja pelo presbitério em 21 dezembro de 1957. Percebeu à força do ministério carioca naquele mesmo dia.

Segundo conta em sua biografia, o missionário sueco Nels Nelson, então pastor da igreja, implorou: "Irmão Alcebiades, por favor aceite, porque caso contrário vai ser muito pior". Ao assumir, o experiente obreiro já havia feito à leitura da situação. Tinha diante de si um presbitério "todo-poderoso, que decidia pela igreja" e do qual ele deveria ser "100% dependente".

Conforme foi visto na última postagem, instabilidades ministeriais e administrativas e a inevitável fragmentação, levou o pastor da AD no Rio a propor autonomias controladas das congregações de São Cristóvão. Mas algumas cisões aconteceram e fortes acusações de Vasconcelos possuir "sentimento divisionista" foram feitas por um obreiro. 

É interessante notar, que o veterano pastor nas narrativas sobre sua passagem pela "Cidade Maravilhosa", enfatize mais os problemas e tensões, do que possíveis realizações do seu pastorado. A temperatura eclesiástica era alta no Rio.

Foto rara: casal Macalão e Alcebiades em viagem ao exterior

Paralelamente, Alcebiades teve sérias divergências com o líder de Madureira, Paulo Leivas Macalão. Em estudos no Mensageiro da Paz, escritos pelo pastor de São Cristóvão, há criticas ao líder de Madureira com sua concentração de poder ao ser nomeado "pastor geral" do campo.  Quase um "papado pentecostal brasileiro"– alfinetou. 

Obviamente, Macalão não deve ter gostado das observações. Dizem os mais antigos, que instalou-se um clima de animosidade entre os ministérios. Não havia mais cooperação entre as igrejas. A CGADB de 1959, realizada do Rio foi o auge das divergências. Alcebiades nessa convenção, teria exigido, por motivos não esclarecidos, à exclusão do pastor Paulo. Tentando contornar o mal-estar, o missionário Nels Nelson trabalhou nos bastidores para apaziguar os ânimos e propor mudanças.

Conta Vasconcelos, que durante os tumultos no Rio de Janeiro, nas constantes lutas com o presbitério, sentiu desejo de trabalhar na obra missionária. Evangelizar e abrir novas igrejas era menos desgastante do que lidar com os obreiros do seu ministério. Porém, tudo leva a crer, que o embate com Macalão, também contribuiu para sua transferência.

Ironicamente, depois de ir para terras bolivianas, passar por outras igrejas e pela própria CPAD, o experiente obreiro tenha, três décadas depois, sido eleito à presidência da CGADB, justamente contra uma chapa de Madureira. Não só isso: sua gestão foi marcada por sérias desavenças com o líder de Madureira, Manuel Ferreira.

A passagem de Alcebiades foi curta e intensa no antigo Distrito Federal. Realmente, o Rio 40 graus com toda a sua beleza, foi um "purgatório" para o antigo líder.

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959.

Crédito da foto: Alcebiades Sobrinho - Manaus (AM).

domingo, 21 de maio de 2017

Bastidores das autonomias das ADs no RJ

Em julho de 1959, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados sobre uma considerável reformulação administrativa na Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), promovida na gestão do pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos.

Segundo o responsável pelas novas divulgadas no jornal, o pastor Antônio Gilberto, à cúpula da AD carioca, com o objetivo de "promover maior incremento na difusão do Evangelho e, progresso geral da obra de Deus", realizou sua Assembleia Geral Ordinária, onde "deliberou outorgar autonomia a doze de suas principais congregações, transformando-as em igrejas". Ainda, conforme Gilberto, "Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão".

"A história oficial, seja religiosa, seja política" escreveu o saudoso poeta, jornalista e pastor Joanyr de Oliveira, é em parte "uma grande farsa". Quatro décadas depois, Alcebiades contaria em sua autobiografia o contexto das autonomias dadas as congregações de São Cristóvão. E pelo relato, não teve nada de "cordialidade" ou "espiritualidade" nas decisões.

Alcebiades e família: passagem difícil pelo RJ

Vasconcelos assumiu a AD no Rio de Janeiro em janeiro de 1958. Foi o primeiro pastor brasileiro da AD carioca em mais de três décadas da existência da igreja. Logo percebeu, já em sua nomeação à presidência, que conviveria com um presbitério forte. Experiente, sabia que em tais circunstâncias, suas ações seriam limitadas e controladas pelo ministério local.

Constatou com desagrado a total independência administrativa dos dirigentes das principais congregações da AD da Missão. Eles compravam, vendiam, compravam, assinavam documentos e tudo mais, sem pedir consentimento à sede. Paralelamente, disciplinavam, reconciliavam e batizavam sem comunicar ao pastor-presidente da igreja.

Para seu desespero, ao final do mês, os obreiros das congregações não prestavam contas na tesouraria central. Com pagamentos obrigatórios vencendo, Alcebiades pedia aos pastores Nels Nelson, Marcelino Margarida e José Pimentel de Carvalho que percorressem às congregações em busca de recursos para quitação das dívidas.

Ao tentar controlar os mandos e desmandos dos presbíteros, Vasconcelos teve que enfrentar à saída de dois obreiros objetivando dividir suas congregações. Criou-se um clima de instabilidade e os acontecimentos foram o alerta que faltava para o experiente pastor. Dedicou-se então a estudar um plano de autonomia das filiais. A emancipação seria seguida da organização de uma convenção para dar suporte as obras sociais da igreja.

Ao apresentar o plano de autonomia o ministério de dividiu: Nelson e José Pimentel foram contrários. Marcelino Margarida, Moisés Malafaia, Álvaro Cardoso e Joaquim Ferreira apoiaram o projeto. Nels Nelson consulta o sueco Samuel Nyström, e este por sua vez apoiou a proposta. Formou-se um certo consenso entre os principais pastores.

Para "surpresa" de Vasconcelos, reunido o presbitério, houve o consentimento do plano. Conta o reverendo, que nessa reunião ele "foi considerado" um "enviado de Deus" para estabelecer o projeto. Mas a alegria durou pouco. Em outra reunião de presbíteros, Alcebiades foi acusado (sem ninguém contradizer o acusador) de possuir "sentimento divisionista" e que encaminhava a igreja para a "desagregação".

Desgastado com as oposições, na última reunião de presbitério, Vasconcelos renuncia ao cargo. José Pimentel de Carvalho é eleito o novo pastor da igreja. Porém, no culto administrativo houve um grande tumulto e novas votações. Alcebiades é reconduzido ao posto e consegue aprovar as autonomias. Ao fim da confusão, quatro presbíteros saíram da reunião dispostos a dividir as congregações que lideravam.

Ao ler o Mensageiro da Paz, mal sabiam os crentes das discórdias escondidas debaixo do discurso produzido pelas fontes oficiais. Até hoje isso continua assim. Mas a internet e as redes sociais modificaram esse quadro. 

Outras polêmicas ocorreram no processo das autonomias. Fica, porém, para as próximas postagens...

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959, p. 8.

sábado, 6 de maio de 2017

José Wellington – "não contavam com a minha astúcia"

"Como é que nós perdemos o Belém para aquele menino? Onde é que nós estávamos?". Esse teria sido o comentário dos principais líderes das Assembleias de Deus no Brasil, ao perceber, que o comando do Ministério do Belém em 1980, foi para o "menino" José Wellington Bezerra da Costa, na época com 45 anos idade.

Talvez, o vice-presidente do Belenzinho tenha sido subestimado, ou quem sabe, simplesmente encarado como um concorrente secundário na disputa. Mas a história mostra, que José Wellington não possui perfil para ser coadjuvante.

Radicado na cidade de São Paulo desde 1954, Costa iniciou uma bem sucedida carreira de comerciante. Quase ao mesmo tempo ingressou no ministério. Dirigiu congregações, setores, secretariou a AD no Belém por uma década, até que em 1973, foi escolhido para ser vice-presidente do campo.

JW: não contavam com a minha astúcia 

Uma leitura atenta da biografia de José Wellington, escrita pelo jornalista Isael de Araújo, é suficiente para notar que, na condição de vice-presidente, o jovem pastor soube construir apoios e alianças dentro do ministério, possibilitando sua ascensão à presidência do Belém.

Exemplo disso, é o caso relatado sobre uma possível desvinculação das igrejas do Mato Grosso do Belém. Wellington viaja até a região e convence seus pastores a desistir do intento. Posteriormente, já como presidente do Ministério, ele dá autonomia aos campos eclesiásticos. Percebe-se as implícitas negociações de bastidores e a conquista de apoios estratégicos para o futuro sucessor de Cícero.

Paralelamente, conforme a saúde de Cícero deteriorava-se, alguns líderes de destaque das ADs frequentavam o Belém de olho na sucessão. Companheiros de Wellington "o aconselhavam para tomar cuidado". Contudo, o maior obstáculo as pretensões do vice subir mais um degrau na hierarquia da igreja, seria à família do próprio Cícero.

Por motivos desconhecidos, familiares do veterano pastor eram contra o vice-presidente. Desejavam que o pastor João Alves Corrêa assumisse à igreja. Desde 1962 na liderança da AD em Santos, Corrêa articulava nos bastidores para assegurar o Belém para si. Via inclusive em José Wellington um aliado para seus intentos. Mas o cearense tinha outros planos e alianças para superar os concorrentes.

Nos relatos da sucessão há versões conflitantes e contradições. Na biografia, evidentemente, Wellington se esforça para amenizar os fatos. Conta, para se legitimar, que Cícero ao ser questionado sobre o sucessor afirmava: "Deus já me deu o homem" e ele "está trabalhando comigo". Mas na hora decisiva, Canuto entrou com o pastor João Alves Corrêa na igreja para fazê-lo presidente do Ministério.

Só não conseguiu o intento, porque o seu vice já havia lhe esvaziado o poder. Ao apresentar o pastor João Alves para ser o novo líder, Cícero obteve simplesmente o silêncio da congregação e dos seus obreiros. Um constrangimento para o velho "timoneiro". Experiente, percebeu a situação e declarou: "não estou mandando em mais nada".

Por esse motivo, em sua histórica entrevista à Folha de São Paulo em 1982, Cícero declarou que Costa "teria assumido a presidência da Assembleia de Deus sem seu consentimento, sendo aclamado pela assembleia de pastores". Constatação correta, pois o poder já havia lhe escapado das mãos.

Mas, a transição não seria de forma alguma pacífica. Logo após a posse de Wellington em janeiro de 1980, um documento registrado em cartório, circulou convidando os "Irmãos Pastores das Assembleias de Deus no Brasil" para uma reunião na sede do Belém. O texto, assinado por Cícero, trás à acusação de que o vice-presidente teria passado por cima de "preceitos estatutários" na eleição da diretoria no 1º dia do ano.

Ainda, segundo a circular, Costa teria no dia 06, transformado o culto de ceia em assembleia geral, "constituindo-se presidente da igreja" destituindo Cícero "indevidamente do Pastorado" e das "funções de Presidente Vitalício". Interessante, que alguns anos antes, em determinado momento de tensão com Wellington, Cícero o acusou de fazer a mesma coisa na congregação de Indianópolis. Era uma postura que o ancião realmente não tolerava.

Mas, o pioneiro estava com a saúde fragilizada. Há desconfianças, de que os familiares de Cícero estivessem articulando a reunião para enfrentar o ministério. Porém, na já citada biografia, está a declaração de que a escolha de José Wellington pela igreja "desagradou os principais líderes veteranos das Assembleias de Deus em São Paulo". A família do pioneiro não estava sozinha no intento.

Um desses líderes inclusive, teria enviado, ao que tudo indica, a tal carta para a CGADB contestando a escolha do vice-presidente. Informações de bastidores apontam João Alves Corrêa, o pretendente ao trono e o mais prejudicado com à sucessão, como o autor da missiva. Corrêa na verdade, foi atropelado pela astúcia do futuro presidente da CGADB.

O perigo de uma reviravolta, parece só ter sido debelada com a morte do velhinho em 1982, quando os pastores do Belém divulgaram um documento "manifestando total apoio" e "reafirmando o reconhecimento" de que José W. Bezerra da Costa era verdadeiramente o legítimo sucessor de Cícero Canuto de Lima.

Firmado como presidente do Belém, o cearense logo disputaria em 1983 à presidência da CGADB. Perdeu para o líder de Madureira, Manuel Ferreira. Seria eleito vice-presidente em 1987, na chapa encabeçada por Alcebiades Vasconcelos. Mas, Alcebiades faleceu no ano seguinte. A história em seguida é bem conhecida: José Wellington não têm vocação e nem perfil para ser coadjuvante.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.