sexta-feira, 19 de julho de 2019

As ADs e o problema educacional (2ª parte)

Como observou-se na última postagem, antes do editorial escrito na revista A SEARA, em 1956, pelo pastor João Pereira de Andrade e Silva, intitulado "As Assembleias de Deus e o problema educacional", alguns Ministérios já tinham tomado algumas iniciativas nessa área.

A Escola São Paulo, em Madureira/RJ, já era uma realidade, assim como a Escola Primária Nels Nelson, em Manaus/AM. Naquele mesmo ano de 1956, no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo, o pastor Alfredo Reikdal fundou uma escola primária e, em 1957, um concorrido curso de datilografia. Há também o registro fotográfico de 1956 de um educandário em Dourados no atual Mato Grosso do Sul.

Em 1959, o pastor Alcebiades Vasconcelos, ao dar autonomia as congregações da AD em São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro, criou o Instituto Filantrópico Evangélico para gerenciar as 07 escolas de nível primário com mais 780 crianças matriculadas. Era um número expressivo de estudantes na rede de ensino da igreja carioca.

Em 1961, A SEARA (maio/junho) também informou que a AD em Belém mantinha as Escolas Primárias Celina Albuquerque com 200 alunos matriculados no bairro da Condor, a Escola José Bezerra no bairro da Pedreira com 84 estudantes, e por último a Escola Plácido Aristóteles no bairro Sacramento com mais 300 crianças matriculadas.

Escola Primária da AD em Dourados/MS em 1956

Com a grandiosidade do trabalho escolar, segundo a matéria, estava sendo construído um prédio muito maior para não somente abrigar as instituições já em funcionamento, como também se projetava "cursos do ciclo ginasial e colegial, além de cursos de Instituto Bíblico para os vocacionados para a Seara do Senhor".

Verdadeiramente um projeto arrojado. Um avanço dentro da denominação, não só pelo notável número de alunos nas escolas, mas também por pensar em instituir, quando a denominação estava no auge dos debates sobre a criação de escolas teológicas, um instituto bíblico.

A AD em Recife/PE, também mantinha uma expressiva rede de 31 escolas primárias. Como aponta as matérias do Mensageiro da Paz de 1964, havia preocupação devido aos "vergonhosos índices de analfabetismo que cobre a Pátria". Alfabetizar para leitura da Bíblia.

Nessa mesma época, o pastor Antonieto Grangeiro Sobrinho, durante sua administração na AD em Joinville/SC, fundou em 1961, a Escola Primária Florianópolis, no antigo templo da congregação do bairro Itaum, a qual era mantida em convênio com poder municipal. 

Esse breve apanhado das escolas criadas por igrejas variadas, mostra como a AD ao longo de sua história não pensou um projeto educacional maior. Aliás, alguns líderes assembleianos pensavam que certas ações sociais não deveriam ser desenvolvidas pela igreja. 

João Pereira, no editorial de 1956, comentou: "Alguns achavam e ainda consideram ser o problema único a pregação do Evangelho para salvação das almas, e que a fundação de Escolas, Institutos ou Ginásios, é questão secundária". 

Infelizmente, ainda é um pensamento corrente entre muitos líderes.

Fontes:

COHEN, Eliezer. E Deus confirmou os seus passos: biografia do pastor Alfredo Reikdal. São Paulo: s/e, 2006.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

A SEARA (novembro/dezembro) de 1956.

A SEARA (maio/junho) de 1961

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1946.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1948.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1949.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de maio de 1951.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1958

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959.

Mensageiro da Paz, 1ª e 2ª quinzenas de dezembro de 1964.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

As ADs e o problema educacional (1ª parte)

Durante a 8ª Assembleia Geral Extraordinária (AGE) realizada em Ananindeua, na região metropolitana de Belém (PA), a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) tomou uma decisão histórica ao aprovar a criação da Rede Assembleiana de Ensino (RAE). A proposta, visa criar instituições de ensino de nível fundamental, médio e superior dentro das ADs seguindo o exemplo de igrejas evangélicas históricas.

A preocupação com a criação de instituições escolares dentro das ADs não é nova. Em 1956, a revista A SEARA (novembro/dezembro), no seu editorial, reconhecia o crescimento e os avanços da denominação nas questões sociais com a criação de asilos e orfanatos, mas apontava que pouco havia feito até então na questão escolar.

Segundo A SEARA, algumas igrejas mantinham educandários em funcionamento, mas outras de elevado número de membros, infelizmente, não possuíam nem mesmo escolas primárias ou ginásios (nome dado ao antigamente ao atual ensino fundamental). A preocupação com o bem estar e formação dos filhos de crentes em instituições escolares "ostensivamente contrários aos princípios evangélicos" era evidente.

Como se pode perceber, as preocupações e as críticas sobre o tema dispensado pela denominação é antiga. Alguns educandários foram criados como bem apontou o pastor João Pereira de Andrade e Silva, mas dentro da história das ADs, nunca se chegou a propor uma rede escolar idêntica a de outras igrejas evangélicas.

Entretanto, algumas medidas estavam sendo tomadas para amenizar a situação. Uma década antes do editorial, o Mensageiro da Paz da 1ª quinzena de maio de 1946, informou que a AD em Belém/PA, "conseguiu nomear professores e professoras para todas as Escolas Públicas da Capital, onde centenas de alunos ouvem o Evangelho e ficam no abrigo da intolerância de certos religiosos". O ambiente nas escolas seculares era realmente problemático para os pentecostais. A fé dos crentes chocava-se ante a "intolerância" da religião dominante.

Outra ação conhecida foi a criação pela a AD, em Manaus/AM em 1951, da Escola Primária "Nels Nelson", que contava na época, com o número de 176 alunos matriculados de ambos os sexos. Descrita como "uma grande vitória" resultante das "orações fervorosas" dos crentes, a instituição foi criada justamente com a intenção de "atender as crianças da igreja".

MP sobre a Escola São Paulo em Madureira no RJ

Nesse mesmo período, o jornal Mensageiro da Paz trazia uma matéria intitulada "Grande vitória para o Evangelho", onde relatava a inauguração das novas instalações da Escola São Paulo na AD em Madureira (RJ). Segundo o informativo, o pastor Paulo Macalão "há muitos anos desejava fundar uma escola, para beneficiar os filhos dos crentes em Cristo". 

Porém, detalhes da matéria sobre a Escola São Paulo chamam a atenção para o pioneirismo de Madureira nessa área. Segundo o relato do diretor da escola Geraldo Batista de Araújo, a instituição já funcionava sob sua responsabilidade há três anos, ou seja, desde 1948. Foi também amplamente destacado a transferência da instituição para sua nova sede e a visita de um conhecido e polêmico político paulista: Adhemar de Barros.

A Escola São Paulo, além de ser uma instituição pioneira dentro das ADs, era gratuita, mas com aceitação de ajuda espontânea por parte dos alunos. Também foi destacado o projeto do pastor Macalão de "abrir várias escolas, onde existam igrejas sob sua direção para instruir os filhos dos crentes, dentro das normas do cristianismo ...".

Saído de um contexto social privilegiado, Paulo Leivas sabia o valor da boa educação. Em sua biografia consta passagens por tradicionais colégios do Rio de Janeiro. Com a expansão do Ministério de Madureira e sua gradativa institucionalização, os planos de expandir a rede de ensino seria uma das formas de legitimar e de dar visibilidade social à igreja. Suas ligações com políticos conhecidos possivelmente seriam também uma forma de angariar recursos para outros projetos sociais em andamento.

Todavia, por motivos que serão apontados à frente, Macalão e outros líderes não criaram uma rede escolar e o editorial da revista A SEARA ficou como testemunho histórico da antiga preocupação de alguns líderes.

Fontes:

A SEARA (novembro/dezembro) de 1956.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1946.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1948.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1949.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de maio  de 1951.

sábado, 29 de junho de 2019

Silas Malafaia - a contradição gospel (2ª parte)

Silas Lima Malafaia desperta sentimentos contraditórios e as redes sociais estão ai para provar isso. Herdou, do pai e dos tios, o temperamento forte e do sogro recebeu a AD na Penha, bairro de classe média da cidade do Rio de Janeiro. No começo da década de 1980, o jovem pregador começou o seu programa na televisão, quando o aparelho ainda era um tabu na denominação.

Quando fundou a Central Gospel em 1999, o contexto da economia internacional favorecia os países emergentes como o Brasil. A alta das commodities (mercadorias produzidas em larga escala e que podem ser estocados sem perda de qualidade, como petróleo, suco de laranja congelado, boi gordo, café, soja e ouro) gerava caixa para o governo federal investir em obras públicas e programas sociais. Houve uma enorme expansão do consumo através do acesso ao microcrédito a pessoas físicas.


Nesse ambiente favorável aos negócios, a empresa de Malafaia prosperou. Seu programa ganhou mais audiência e ajudava na divulgação dos produtos da Central Gospel. Com suas pregações eloquentes e incisivas na defesa dos valores tradicionais, o famoso filho do pastor Gilberto, consolidou-se como um dos principais líderes evangélicos.

Em setembro de 2011, a revista Piauí traçou um interessante perfil do pastor Silas Malafaia. Registrou a rotina do televangelista e suas justificativas para as escandalosas campanhas de arrecadação de fundos: “Eu gasto milhões, milhões e milhões por mês com horário na televisão, congressos, cruzadas evangelísticas, treinamento de pastores, abrindo novas igrejas. Como se paga isso? Não é um anjo do céu que desce com um cheque em branco para mim.”

A revista também destacou as atividades da Associação Vitória em Cristo. Com uma "área de 40 mil metros quadrados no bairro de Jacarepaguá, Zona Norte do Rio", a entidade sem fins lucrativos, financiava projetos sociais em favelas, cruzadas evangelísticas, congressos, encontros para a formação de líderes. Faturava, na época, 40 milhões de reais, através de ofertas e doações.

Com tantos compromissos, Silas transformou suas pregações. Se antes combatia a teologia da prosperidade, tornou-se um dos maiores defensores do ensino importado dos EUA. Aliás, ele mesmo era o principal beneficiário das bençãos divinas. Acumulou patrimônio e prestígio e, ao mesmo tempo, mais críticos e opositores.

Porém, a crise veio e abateu os projetos do famoso pregador. Lojas foram fechadas causando demissões de vários funcionários. Reconheceu o momento desfavorável: “É lamentável. As pessoas não estão consumindo. Estão ficando desempregadas e, como outras empresas, sentimos a crise. O sol se levanta e a chuva cai para o justo e o injusto. Veio para todos”.

No vídeo divulgado nas redes sociais, Silas procura deixar claro a separação que há entre seus negócios e o ministério herdado por ele com a morte do sogro em 2010. Contudo, não há como evitar a ironia: a teologia por ele defendida não o salvou da realidade imposta pela História. É um duro golpe para quem parecia ameaçar a CPAD ou que tinha a segunda maior editora do país.

Nos bastidores murmura-se outras causas para a decadência. Parece que as palavras de William Shakespeare se encaixam nesse drama: "Há algo de podre no reino da Dinamarca".

Só a eternidade revelará...

Fontes:

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/vitoria-em-cristo/


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Silas Malafaia - a contradição gospel (1ª parte)

Criada em 1999, a Central Gospel, empresa controlada pelo pastor Silas Malafaia "comemora" de forma amarga esse ano seu 20º aniversário de fundação ao pedir recuperação judicial. Um duro revés para uma família que tem uma longa trajetória de influência na área editorial.

O pai de Silas, o pastor Gilberto Malafaia por muitos anos exerceu cargos da CGADB e na CPAD. A mãe, por sua vez, a professora Albertina Malafaia, colaborou na estruturação pedagógica das revistas da escola dominical, principal produto da editora. Atribui-se a Malafaia pai, o desligamento em 1989, do então diretor de publicações da CPAD, Nemuel Kessler devido a séria divergências envolvendo Albertina.

O poderio dos Malafaia na CPAD, demonstrava-se não só na blindagem dos seus membros na empresa, o que causou a demissão de Kessler, mas no fato de alguns interesses familiares serem contemplados. Exemplo disso, eram as compras que a Casa fazia dos livros da JUERP, na época patrocinadora do programa televisivo Renascer (antigo nome do Vitória em Cristo) apresentado por Silas.

Silas entre Albertina e Gilberto Malafaia

Num tempo de inflação galopante (fim da década de 1980), a JUERP com problemas financeiros, pagava seu patrocínio com livros por ela publicados. Silas revendia o material para a CPAD recebendo à vista pelos produtos, deixando para a editora assembleiana o problema de correr atrás do lucro (ou prejuízo) a longo prazo. Um negócio de pai pra filho sem dúvida. Convém lembrar, que Sérgio Malafaia, irmão de Silas, atuava como gerente comercial na editora.

Porém, a partir de 1993, com a gestão de Ronaldo Rodrigues de Souza, a influência dos Malafaia na editora foi contida. Ironicamente, o pastor Gilberto apoiou José Wellington em sua ascensão à presidência da CGADB e o desligamento do Ministério de Madureira da Convenção Geral. Talvez não imaginasse as surpresas do projeto do líder do Belenzinho.

Afastados da editora das ADs, da qual foram decisivos em momentos críticos, os Malafaia voltaram ao mercado editorial evangélico através da Central Gospel, ou seja, viraram concorrentes diretos da CPAD. Algo impensável em tempos antigos, quando a Casa Publicadora detinha o monopólio de publicações e vendas dentro da denominação.

Portanto, as críticas de Silas em rede nacional ao status quo da CGADB nunca foram gratuitas. A acirrada disputa pela presidência da Convenção Geral entre outras coisas, sempre envolveu o controle da CPAD. Malafaia sabia que a capacidade logística da editora seria de fundamental importância para seus negócios empresariais.

Mas Silas com sua postura incisiva, sempre apregoava o enorme crescimento da sua empresa. Expansão essa que teve um contexto econômico favorável. Nessas circunstâncias, a Central Gospel firmou-se ancorada no carisma do seu fundador e na gradual transformação teológica.

Todavia, a realidade se impôs, os recursos secaram e a crise abateu aparentemente o discurso da prosperidade. Assunto para a próxima postagem...

Fontes:

 ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

sábado, 8 de junho de 2019

Assembleia de Deus em Mato Grosso - contra o aggiornamento

Causou espanto e, em muitos casos, indignação para muitos evangélicos, a divulgação da resolução da Mesa Diretora da Convenção de Ministros das Assembleias de Deus do Estado no Mato Grosso (COMADEMAT), na qual reafirma "o seu ponto de vista no tocante aos sadios princípios" implantados pelas Assembleias de Deus no Brasil.

O documento é praticamente a cópia de outras normativas muito conhecidas pelos estudiosos assembleianos,  mas que gradativamente estão sendo relaxadas ou até mesmo abandonadas por muitas igrejas e ministérios. As igrejas do Mato Grosso, assim, pretendem ir na contramão do "aggiornamento" do pentecostalismo brasileiro, conceito trabalhado pela historiador Moab César Carvalho em seu livro "O Aggiornamento do Pentecostalismo Brasileiro".


Uma rápida pesquisa nos acervos do Mensageiro da Paz apontam para a persistente postura tradicional do pastor Sebastião Rodrigues de Souza. Eleito presidente da CGADB para o biênio 1993/95, o informativo assembleiano de março de 1993, celebrou a eleição do líder de Cuiabá como a afirmação do "perfil conservador da igreja".

Em outros textos no Mensageiro da Paz, o então presidente da Convenção Geral falou das suas experiências com a igreja e sobre a televisão, o qual segundo ele, era para Deus era um "aparelho maldito". O ancião não admitia que um crente salvo pudesse ter esse tipo de mídia e discorria sobre os trajes femininos, maquiagens, jóias, anéis e correntes, considerados "vaidades" abomináveis diante de Deus. O futebol do mesmo modo era alvo de críticas por parte do líder da CGADB.

No Encontro Nacional de Líderes das Assembleias de Deus (ELAD) em janeiro de 1994 como presidente da CGADB, o pastor Sebastião debateu com os demais líderes sobre o uso da televisão. Afirmou ter "recebido determinação divina" para alertar os pastores sobre o aparelho".

Entre as propostas de renúncia da TV e de suas programações ou o uso da mídia para evangelização, os debates foram intensos. Algumas igrejas estavam com projetos em andamento na área televisiva e a Rede Boas Novas em Manaus/AM já era uma realidade. A contradição naquele momento era visível e forte acerca do assunto.

No final das contas, ninguém pode negar que o pastor Sebastião foi coerente com suas pregações, mas fica a dúvida: as normas do documento serão de fato obedecidas sempre, mesmo depois da morte ou jubilação do líder de Cuiabá? A determinação draconiana será respeitada por todos os membros independente da sua posição social?

Assembleianos observadores e críticos sabem que, muitas vezes a severidade, a "doutrina" e os sacrifícios de "santidade", quase sempre é imposta para as ovelhas das periferias. E que nem mesmo a família e os auxiliares mais próximos da liderança conservadora se submete a tamanho fardo por eles defendido.

Em resumo: usos e costumes nas ADs é um assunto que nunca sai de moda e ainda vai render muito na denominação.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COSTA, Moab César Carvalho. O Aggiornamento do Pentecostalismo Brasileiro: as Assembleias de Deus e o processo de acomodação à sociedade de consumidores. São Paulo: Editora Recriar, 2019.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Irmã Wanda - o adeus da matriarca do Belenzinho

Partiu para a eternidade, a irmã Wanda Freire da Costa, esposa do pastor José Wellington Bezerra da Costa. Nascida em Fortaleza/CE, no dia 22 de setembro de 1934, ela era filha de comerciantes e a mais velha das mulheres num total de nove irmãos. Começou a frequentar a Assembleia de Deus ainda criança e participava ativamente dos departamentos da igreja.

Nesse contexto, Wanda conheceu José Wellington. Os dois começaram a se aproximar na adolescência e para ser notado pela moça, ele ficava na porta saudá-la com a "Paz do Senhor". Numa viagem de evangelização promovida pela juventude da igreja os dois iniciaram a aproximação. Estavam com 15 anos de idade e Wellington brincava de desamarrar as tranças do cabelo dela cuidadosamente presas com fitinhas. 

No dia 14 de janeiro de 1950, o convite para o namoro foi feito na Praça da Lagoinha depois da saída dela do colégio. Sentado no banco da praça ao lado do jardim, o jovem Costa arriscou o pedido. Wanda queria ainda pensar um pouco, José Wellington mais impaciente queria namorar logo. 

No começo as famílias viram com receio e desconfiança o precoce relacionamento de dois adolescentes de 15 anos. Por conta do trabalho e dos estudos, o enamorado José só ia encontrar-se com sua amada aos sábados e vez por outra em algum dia da semana. Como era normal para aquela época, o tempo de namoro era rigidamente controlado.

Wanda e José Wellington: mais de seis décadas de união

Depois de muito trabalho e espera, Wanda Freire e José Wellington casaram-se no dia 14 de janeiro de 1953, numa simples cerimônia civil e religiosa, exatamente três anos depois do pedido de namoro na Praça da Lagoinha. O primeiro filho (José Wellington Costa Junior) nasceu nove meses depois da união em 15 de outubro de 1953.

A mudança da família Costa para São Paulo se deu em 1954. Na metrópole paulista o casal teve seus outros rebentos e prosperou na área do comércio. Paralelamente, Wellington começava sua carreira ministerial e se destacava na liderança do Belenzinho. Assim com as intensas ocupações e viagens do esposo como líder do Ministério do Belenzinho, Wanda cuidava da casa, dos filhos e dos negócios da família.

Para os assembleianos em geral, Wanda Freire Costa começou a ser apresentada a partir de 1988, com a ascensão do esposo a presidência da CGADB. Enquanto o pastor Costa conseguia suas sucessivas reeleições, Wanda organizava a União Nacional de Esposas de Ministros das Assembleias de Deus (UNEMAD).

Wanda teve a evidência que muitas esposas de ex-presidentes da CGADB não tiveram. Sua liderança à frente da UNEMAD e o enorme destaque que a CPAD deu a ela nesses últimos 30 anos, inclusive com o lançamento de um livro, ajudou muito a torna-lá conhecida. Nas fotos dos periódicos da Casa Publicadora, ela praticamente é onipresente ao lado do seu "Dedé" - apelido carinhoso dado ao esposo.

Sobre a polêmica e proverbial personalidade de Wanda Freire, o próprio marido deu uma pista sobre o assunto em sua biografia: segundo ele, a esposa não aceitava nada "enrolado", ou seja, não havia para ela meio termo, "verdade é verdade, e o que não é verdade, é mentira" - concluiu ele.

Conta-se nos bastidores sobre a influência da senhora Costa no Ministério. Enquanto seu esposo parecia agir com mais diplomacia, Wanda, muitas vezes passava a imagem de prepotência por seu jeito direto de ser. Muitos pastores tinham receio das impressões que a primeira-dama do Belenzinho pudesse ter sobre eles e alguns até a evitavam.

Da mesma forma, as visitas dela na CPAD provocavam movimentações inusitadas na editora. Sabendo do perfil conservador da esposa de José Wellington, as funcionárias cuidavam na discrição das vestes e na estética. Ninguém queria desagradar ou chamar a atenção negativamente da filha da "Irmã Francisquinha".

Sua morte abre uma lacuna na família e no Belenzinho. Foram 66 anos de casamento e outros tantos de dedicação ao ministério. Ficará seu legado e sua memória entre os assembleianos de todo o Brasil.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Igrejas e Ministérios - a busca pela legitimidade


As Assembleias de Deus no Brasil vivem nos últimos anos, uma intensa fragmentação ministerial. CGADB, CONAMAD, CADB e outras convenções menores disputam espaço e representatividade no mundo eclesiástico e, principalmente, no político.

Na última postagem do blog, refletiu-se sobre a importância e utilização da história e memória na busca pela legitimação institucional, pois diante da cada vez mais acirrada concorrência ninguém quer ficar à margem da história ou parecer um simples genérico dentro do sistema.

Por esse motivo, entre as igrejas cresceu a valorização e a utilização de substantivos que reforçam suas origens. Exemplo disso é a valorização que a AD em Belém/PA dá cada vez mais ao título Igreja-Mãe. As ADs em Santos/SP e em Macapá/AP também enfatizam sua primazia em seus estados com a nomenclatura "a pioneira".

Mas há casos inusitados. Em Manaus/AM, nos anos 2000, uma cisão gerou a AD Tradicional. Nascida em oposição aos métodos controversos da AD liderada por Jonatas Câmara, o novo ministério procurou resgatar no nome, àquilo que supostamente se perdeu no pentecostalismo local: as tradições legadas pelos pioneiros.

Daniel Berg em frente ao antigo templo da AD em SP: a pioneira

Essa situação no Amazonas não deixa de ser irônica do ponto de vista da história. Nos primórdios, as ADs com sua ênfase nos dons e manifestações carismáticas procurava se diferenciar das denominações históricas, também chamadas de tradicionais. Em Manaus, o termo "tradicional", no novo ministério, tem agora novo sentido.

Porém esse tipo de recurso não é novo dentro das ADs. A busca pela legitimidade vinculada ao pioneirismo é antiga. Paulo Macalão, tantas vezes citado na história pela postura independe em relação aos suecos (citação essa pinçada diretamente do diário de Vingren), na CGADB de 1951, diante da discussão sobre o uso de métodos para se manter um avivamento, afirmou que usava alguns aprendidos com Gunnar Vingren.

Cícero Canuto de Lima foi mais longe. Por ocasião dos 50 anos de seu ministério em 1974, declarou ao Mensageiro da Paz, ser desejoso de perseverar na doutrina e nos costumes dos missionários suecos. Anos depois, em declaração à Folha de São Paulo, em janeiro de 1982, afirmava no fim da vida ainda pertencer ao "tronco principal", ou seja, da ramificação fundada pelos escandinavos.

Por esse motivo, as notícias sobre os trabalhos da AD do Belenzinho/SP enviadas ao Mensageiro da Paz, sempre intitulava a igreja de "pioneira" e "Igreja Mãe" em São Paulo em oposição a outros ministérios tidos como ilegítimos. Há sempre um tom nada cordial em relação aos outros grupos da AD implantados na pauliceia.
...a Assembleia de Deus, no Belém, é a igreja pioneira do Trabalho Pentecostal no Estado de São Paulo, isto é das Assembleias de Deus no Brasil. Ela é a mesma iniciada pelo Pioneiro Missionário Daniel Berg que começou este abençoado trabalho, em um dos bairros desta capital... Da igreja Assembleia de Deus no Belém, saíram quase todas as outras que tem prosperado. Umas saíram legalmente, outras de forma que não desejamos ventilar... A Assembleia de Deus no Belém, é de certo modo a "Igreja Mãe" de quase todas as demais Assembleias de Deus em São Paulo.
Se naquela época esse tipo de autorreferência era importante, pode-se imaginar o quanto nos dias de hoje esse recurso é vital. Diante de tantos Ministérios, alguns até com nomes folclóricos, a indicação de pioneirismo e tradição pode ser um atrativo maior aos crentes e futuros membros. Todos querem ser a verdadeira Assembleia de Deus.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1ª quinzena de abril de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.

MENSAGEIRO DA PAZ. 2ª quinzena de agosto de 1962. Rio de Janeiro: CPAD.