quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais: 1999 - A CGADB da liminar

"São teus inimigos todos aqueles que se sentem ofendidos pelo fato de ocupares o principado; e também não podes conservar como amigos aqueles que te puseram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pensam." 
Nicolau Maquiavel, O príncipe, capítulo III


Certamente, a CGADB, realizada no Palácio de Convenções do Anhembi, na cidade de São Paulo/SP, entre os dias 11 e 15 de janeiro de 1999, foi a mais polêmica da década que se encerrava. Cyro Mello, colunista do Mensageiro da Paz, chamou-a de "Convenção da liminar", onde os "discursos e assuntos discutidos ficaram 95% só para quem entendessem de leis". As liminares (ordem judicial provisória que analisa um pedido urgente) foram a parte visível e pública das intensas disputas de bastidores pelo controle da CGADB. 

No Anhembi, em 1999, o pastor José Wellington da Costa disputou novamente a presidência da CGADB com o pastor Túlio Barros Ferreira, da AD em São Cristóvão/RJ. Na Convenção Geral em Belo Horizonte, em 1997, Wellington havia vencido o pastor Túlio com 65,45% dos votos válidos, mas o movimento de líderes descontentes com os rumos da CGADB voltou à carga naquele conclave. 

Wellington confessou em sua biografia que o pastor Túlio foi seu "concorrente mais temido". O líder da histórica AD carioca criticava o abandono da igreja na parte doutrinária e a apatia da administração Costa à frente da entidade. O líder do Belenzinho, por sua vez, questionava o legado do pastor Túlio que, segundo ele, em quatro gestões como presidente da CGADB, havia deixado somente uma fotografia sua na parede da sede da instituição. 

Meses antes da convenção, o pastor Túlio Barros distribuiu entre os ministros presentes em São Paulo um panfleto crítico à Mesa Diretora da Convenção. O impresso recebeu o sugestivo título de "Mudança de rumo" e era direcionado "aos pastores das Assembleias de Deus no Brasil, cuja visão está acima de qualquer interesse pessoal...". 

Em seus "considerandos", o libelo alertava que a CGADB, "há algum tempo", estava operando "fora dos seus propósitos" e que a instituição deveria "atender aos interesses comuns da Igreja, sem que isso se tornasse um meio de promoção pessoal ou de interesse grupais ou mesmo o uso de nepotismo contrário aos ensinamentos bíblicos". 

José Wellington e Túlio Barros na CGADB da liminar

Os demais parágrafos refletiam os ânimos de muitos caciques da CGADB: falta de oportunidades e participação na Mesa Diretora e seus órgãos "tomados em rodízio constante, por longos anos, por grupos de interesse". O documento revelava a insatisfação das lideranças mais expressivas das ADs, que se sentiam alijados pelo status quo. 

Em suas últimas linhas no livrete, conclamava-se os convencionais a reivindicar "os princípios históricos de uma Convenção democrática, sem que novamente caíssemos nas mãos de um governo autocrático e caudilhístico". As palavras eram fortes e reveladoras do clima de bastidores da Convenção Geral daquele ano. 

Líderes expressivos endossavam o manifesto: João Alves Corrêa, Paulo Alves Corrêa, José Ezequiel da Silva, José Clarimundo César, Israel Pimenta, Uriel de Jesus, Samuel e Jonatas Câmara, Delfino Brunelli, Josias de Almeida Silva, Horácio da Silva Júnior, Alfredo Reikdal, Eliseu Menezes entre outros. O pastor João Alves Corrêa, inclusive, tinha presidido a CGADB por três vezes. Como se percebe, era uma oposição considerável ao pastor José Wellington. 

Porém, os planos da oposição foram abaixo, quando do lado do grupo "Mudança de rumo" começaram a aparecer liminares contra a Mesa Diretora, antes da nova eleição. Nunca, até aquela CGADB, as questões internas da instituição haviam parado nos tribunais da justiça secular. Fato que o pastor Wellington soube explorar entre os convencionais presentes no Anhembi. Tal situação de perplexidade gerada entre os ministros por causa das liminares permitiu que a reeleição do pastor José Wellington da Costa fosse absoluta e ele conquistasse 71% dos votos válidos. 

A animosidade ficou flagrante quando o vencedor, o pastor Costa, fez os protocolares agradecimentos a todos os que participaram da eleição e afirmou que ele e o pastor Túlio não eram adversários, mas irmãos em Cristo, sendo assim, "a amizade e comunhão" permaneceriam após a eleição. A relação fraterna pode até ter continuado, mas o fato é que Túlio Barros Ferreira se desligou não muito tempo depois da convenção que liderou por quatro vezes. 

Na próxima postagem a continuação dos debates e fatos da CGADB de 1999. Aguardem! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1999, ano LXIX, nº 1343, Rio de Janeiro: CPAD

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais - de 1987 a 1997

Está confirmado: na 45ª Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) prevista para abril de 2021, em Cuiabá, Mato Grosso, o pastor José Wellington da Costa Júnior será reconduzido à presidência da instituição, por aclamação. A chapa do atual presidente da CGADB foi a única inscrita no prazo legal. Como não surgiram concorrentes, a aclamação será inevitável.

Desde que o pai do pastor Wellington Júnior chegou ao poder na CGADB, em maio de 1988, já se realizaram 14 Convenções Gerais, sempre com vitória do grupo comandado pelo líder da AD do Ministério de Belém em São Paulo. Portanto, se confirmada a aclamação e posse do pastor Duéliton, serão mais de três décadas de continuidade na CGADB e controle da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), empresa que reforça a linha doutrinária e política do status quo dominante. 

Para melhor compreender a permanência do establishment, é importante, ainda que de forma sucinta, revisitar as convenções anteriores e perceber as transformações ocorridas nessas décadas.

CGADB de 1987 (Salvador/BA): foi a última Convenção Geral com a participação do Ministério de Madureira. Aliás, a década de 1980 foi marcada pela polarização Madureira x Missão. Havia, até então, um acordo firmado para que houvesse alternância entre os dois ramos ministeriais das ADs na presidência da CGADB. Mas alguns pastores insatisfeitos com o Ministério de Madureira articularam uma chapa para quebrar esse pacto. O pastor José Wellington foi eleito vice-presidente nessa convenção e, em maio de 1988, com a morte do então presidente da Convenção Geral, Alcebíades Vasconcelos, assumiu a liderança da CGADB. Começava a "Era José Wellington".

CGADB de 1990 (São Paulo/SP): o pastor José Wellington foi eleito à presidência da instituição assembleiana, derrotando o pastor Luiz Almeida do Nascimento. No interregno convencional, houve a suspensão de Madureira da CGADB, alterando, assim, de vez, a correlação de forças nas disputas internas da entidade. Um fato polêmico também foi a renúncia do pastor Wellington da presidência da CGADB, meses antes do conclave em São Paulo. Na época, foi alegado problemas de saúde, mas, na verdade, foi uma estratégia para driblar o estatuto da Convenção Geral, que não permitia a reeleição. Foi a primeira Convenção Geral informatizada.

CGADB de 1993 (Cuiabá/MT): o pastor da igreja hospedeira, Sebastião Rodrigues de Souza, elegeu-se presidente da Convenção Geral, derrotando, com folga, o jovem Samuel Câmara, após a desistência do pastor José Pimentel de Carvalho da disputa. José Wellington, dessa vez, ficou com a vice-presidência, mas sua influência nas instituições assembleianas foi consolidada com a posse de Ronaldo Rodrigues de Souza, membro da AD no Belenzinho, na direção executiva da CPAD. O controle e êxito da editora, representou o fortalecimento do establishment assembleiano, que nitidamente começava a se desenhar nesse tempo. Segundo o Mensageiro da Paz, a convenção em Cuiabá realçou o "perfil conservador da igreja". Era uma tentativa de colar a imagem de "liberal" na oposição.
Mesa Diretora da CGADB eleita em 1995

CGADB de 1995 (Salvador/BA): segundo o Mensageiro da Paz, foi a convenção do “consenso e concórdia”, onde houve a troca de cadeiras entre os pastores José Wellington (presidência) e Sebastião de Souza (vice-presidência). Sem disputas internas, a chapa encabeçada pelo presidente e vice da antiga Mesa Diretora eleita em Cuiabá foi "apresentada, aceita e aclamada". Geralmente, as manchetes do Mensageiro da Paz são reveladoras do clima de bastidores. Ao enfatizar o "consenso e concórdia", deixa nas entrelinhas o entendimento de que houve muita discórdia e dissenso. Detalhes: para o Conselho Administrativo da CPAD, um dos eleitos foi o pastor José Wellington da Costa Júnior, nome que seria também uma constante no Conselho da Casa Publicadora e a presença de Samuel Câmara na Mesa Diretora. Em pouco tempo ele voltaria a fazer oposição ao líder do Belenzinho.

CGADB de 1997 (Belo Horizonte/MG): pela primeira vez na década, o pastor José Wellington teve um concorrente de peso, o pastor Túlio Barros Ferreira da AD em São Cristóvão/RJ, que também presidiu a entidade por quatro vezes. É interessante notar os nomes de conhecidos na oposição: Ezequiel da Silva, Edgar Machado, Sóstenes Apolo, Francisco Libório e, principalmente, Gilberto Malafaia, que compunham o grupo de apoio ao pastor Túlio. Malafaia, na CGADB de 1987, foi um dos principais articuladores da vitória do grupo onde José Wellington estava inserido. Em BH, uma década depois, lá estava o pastor da AD em Jacarepaguá, na trincheira oposta. O pastor Wellington reelegeu-se com boa margem de votos (65,45%), mas tudo indicava uma crescente movimento de contestação ao establishment.

Esse movimento contestatório cresceria cada vez mais. Assunto para as próximas postagens! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1990, ano LX, nº 1237, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, março de 1993, ano LXIII, nº 1272, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1995, ano LXV, nº 1295, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1997, ano LXVII, nº 1319, Rio de Janeiro: CPAD.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ensino teológico na AD em SC - oportunidade e oposição

O ensino de teologia sempre foi um tema marcado pela discórdia dentro das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil. Desde a CGADB de 1943, até meados da década de 1970, o debate sobre a necessidade de instrução teológica formal gerou discussões veementes. Para além das questões aparentes, Claiton Pommerening aponta em sua tese de doutorado "Fábrica de pastores", (referência pejorativa dada aos institutos bíblicos) a problemática das "relações de poder entre norte-americanos e suecos" que permeavam essas questões.

Em meio aos embates nesse período, João Kolenda Lemos e sua esposa Ruth fundaram o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, em Pindamonhangaba no interior de São Paulo, em 1958. João Kolenda era sobrinho do missionário John Peter Kolenda, que por sua vez foi árduo defensor da criação dos seminários teológicos.

J. P. Kolenda, Virgil Smith e Orlando Boyer (este por bem menos tempo) foram os missionários dos EUA que trabalharam por anos nas ADs em Santa Catarina. Eles construíram templos, organizaram a convenção estadual, a Caixa de Evangelização e a Caixa de Socorro de Obreiros (uma espécie de aposentadoria e ajuda para os ministros aposentados e viúvas de pastores).

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas em pé, multidão e atividades ao ar livre
Kolenda com o ministério catarinense na década de 1950

Todas as estratégias dos norte-americanos renderam muitos frutos para a AD catarinense. Mas a tentativa de implantação de um instituto bíblico na década de 1950, no estado não prosperou. Esse é um capítulo pouco conhecido da história da AD em Santa Catarina e reflete muito bem o clima de disputas entre os obreiros nativos e os missionários do exterior.

Ismael Santos em seu livro "Raízes da nossa fé" destacou o fato de Kolenda ter sempre a "preocupação com o treinamento teológico sistematizado dos obreiros cristãos". Virgil Smith na mesma linha, ministrou aulas de Cristologia, Geografia Bíblica e Bibliologia aos professores da Escola Dominical da AD em Joinville. Não por acaso, os dois aparecem nos registros da CGADB como grandes defensores do ensino teológico.

Coerente com a causa pela qual lutava, Kolenda projetava fundar um instituto bíblico em Santa Catarina. Seria o primeiro no Brasil. As cidades de Joinville, Brusque e Blumenau eram cotadas para receber o seminário, mas J.P. esbarrou na oposição da mesa diretora da convenção de pastores de Santa Catarina, na época presidida pelo pastor João Ungur. 

Eufemisticamente, Santos relatou que "parte da liderança não estava preparada" para a criação de um seminário. Porém, o fato é que ao se discutir a implantação de um instituto bíblico, gerou-se um exaltado debate, onde até mesmo "sonhos de sentido pejorativo que alguns pastores catarinenses tiveram com J.P. Kolenda" foram considerados contra a proposta do missionário. Pommerening destacou, que "a experiência" se sobrepôs "à racionalidade".

Ironicamente, Kolenda e seu amigo João de Oliveira usaram a mesma tática na CGADB de 1966, em Santo André/SP, quando em meio aos debates sobre os institutos bíblicos, Oliveira testemunhou sobre a sua morte, a oração de Kolenda em seu favor e sua ressurreição. Ao narrar os acontecimentos, o pastor João, que era líder da AD em Pindamonhangaba, um dos professores do IBAD e o principal fiador da instalação do IBAD na cidade, tentava derrubar preconceitos sobre o seminário.

Infelizmente, o dinheiro que seria utilizado na criação do seminário em Santa Catarina foi destinado para a obra na Alemanha que estava devastada pela Segunda Guerra Mundial e para onde Kolenda foi trabalhar depois de deixar o Brasil. Contam os obreiros mais antigos, que posteriormente a liderança se arrependeu da atitude tomada, porém, Kolenda avisou que a oportunidade havia passado e não teria mais volta.

Talvez, esse sentimento de pesar manifestou-se duas décadas depois pelo pastor Satyro Loureiro na Curso de Aperfeiçoamento de Professores de Escola Dominical (CAPED) realizado em Itajaí, em 1976. Loureiro como orador dos formandos do curso, expressou a gratidão por tão ricos ensinamentos ministrados e confessou: "lamentamos profundamente que CAPED não tenha chegado até nós trinta anos atrás".

Grande parte dos obreiros que participou da reunião onde a proposta de Kolenda foi rejeitada na década de 1950, estava presente no CAPED em Itajaí. As palavras de Satyro seriam um mea culpa do ministério catarina? 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

POMMERENING, Claiton Ivan. Fábrica de pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal. 2015. 219 f. Tese (Doutorado em Teologia) - Faculdades EST, São Leopoldo, 2015.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinqüentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

Mensageiro da Paz, ano 46, número 06, 1976.

domingo, 28 de junho de 2020

O "Timoneiro" e o "Trovão" - epílogo

Nas postagens anteriores, o leitor pode acompanhar as circunstâncias da cisão ocorrida em 1972, quando o pastor Eliseu Feitosa de Alencar, na época líder da AD em Campo Grande/MS, rompeu com o Belenzinho/SP e causou grande alvoroço dentro do Ministério.

O principal veículo de comunicação das ADs, o Mensageiro da Paz informou a exclusão do pastor Eliseu feita por uma comissão de 21 pastores, a qual foi referendada por mais de 100 ministros no dia 02 de maio do mesmo ano, na antiga sede do Belenzinho na Rua Antônia Alcântara Machado, nº 616. 

Tempos depois, com o remanescente dos fiéis que não seguiram o pastor Eliseu, o Belenzinho iniciou outra congregação em Campo Grande. Para a árdua tarefa do recomeço, Cícero de Lima chamou o pastor Vicente Guedes Duarte, que já havia trabalhado na cidade anos antes. Para marcar a reabertura dos trabalhos da congregação filiada ao Belém, estudos bíblicos foram realizados e muitos líderes compareceram para dar seu apoio.

Mas é importante destacar, que a cisão em Campo Grande não foi um acontecimento isolado dentro do contexto em que vivia o Ministério do Belenzinho. Seu líder máximo estava em idade avançada, sem sucessor definido e questões ministeriais minavam a autoridade do pastor Cícero.

O pastor José Wellington comenta em sua biografia sobre a formação de uma convenção e o desejo de autonomia das igrejas do Cento-Oeste em relação ao Ministério do Belém. Fato que trouxe muita tristeza ao velho "timoneiro" e só não prosperou devido as hábeis negociações do pastor Wellington.

Outro caso desgastante foi por conta de uma antiga ligação do pastor Cícero com a AD em Aribiri, Vila Velha (ES). Com o intuito de ajudar a igreja que passava por dificuldades, Lima filiou a congregação capixaba ao Belém. O auxílio a AD em Vila Velha gerou uma enorme crise só resolvida pela Junta Executiva da CGADB.

Eliseu e Nicodemos no Diário da Serra 12/06/83

Nove anos depois, em janeiro de 1983, a AD em Campo Grande liderada pelo pastor Eliseu foi admitida na CGADB em Aribiri/ES cujo tema foi "A unidade da Igreja". É importante destacar, que a integração aos quadros da Convenção Geral só se deu, após a morte do pastor Cícero (1982) e sob protestos de alguns convencionais da região Centro-Oeste. Ainda em março de 1983, Eliseu Alencar com mais 170 ministros foram admitidos na Convenção Nacional de Madureira. 

Aliás, a relação do pastor Alencar com o Ministério de Madureira já vinham sendo trabalhadas há muito tempo. Pregações de Eliseu disponíveis no YouTube falam da solidariedade hipotecada a ele em momentos cruciais pelo Bispo Manoel Ferreira. O jornal Diário da Serra (edição 12/06/1983) informa a visita a Campo Grande do pastor Nicodemos José Loureiro da AD em Volta Redonda para, juntamente com Eliseu Feitosa, supervisionar e organizar uma convenção de Madureira no estado de Rondônia. 

Voltando para a CGADB, o pastor Eliseu voltou a fazer parte da Mesa Diretora e a escrever artigos para o Mensageiro da Paz e na CONAMAD fez parte da diretoria da instituição. Quis o destino, que em 1989, o pastor Alencar e seu campo eclesiástico fossem suspensos novamente da CGADB pela desvinculação do Ministério de Madureira da Convenção Geral.

O pastor Eliseu Feitosa de Alencar faleceu em 23 de agosto de 2007. Na biografia do pastor Wellington consta a seguinte informação: "pastor Eliseu pediu perdão ao Ministério do Belém. Também pastor José Wellington o perdoou". Para confirmar essa fato, o Mensageiro da Paz noticiou a morte do "Trovão".

Agora, sem juízos de valor ou condenações, Cícero e Eliseu repousam em paz. O que aconteceu faz parte de um dos capítulos mais tensos da história das ADs. História essa escrita por homens falhos, limitados e nem sempre conscientes do alcance das suas decisões. Todavia deixaram seu legado ministerial.

Fontes:

 ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

Diário da Serra, Campo Grande/MS, 12 de junho de 1983.

Mensageiro da Paz, ano 42, 30 de julho de 1972, nº 14, p.10.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O "Timoneiro", o "Trovão" e a tempestade (2ª parte)

Como se observou na postagem passada, o pastor Eliseu Feitosa de Alencar voltou a Campo Grande/MS, em março de 1970, depois de cinco anos trabalhando em São Paulo, capital. Foi um tempo de acentuado progresso ministerial, mas também de desconfianças por parte dos principais pastores de Ministério do Belenzinho ao "Trovão Brasileiro".

Em jogo, a sucessão do velho "timoneiro". Cícero já estava quase octogenário e ainda não havia definido um sucessor. Vale lembrar, que nas páginas da biografia do pastor José Wellington Bezerra da Costa essa inquietação era constante: Joaquim Marcelino da Silva, da AD em Santo André/SP, manifestou preocupações em relação à sucessão do veterano. Mas ele desconversava e negava-se a apontar diretamente alguém.

Sendo um forte concorrente ao posto de líder máximo do Belenzinho, Eliseu Feitosa viveu dias tensos em São Paulo. A volta para Campo Grande, pode estar relacionada ao tal dossiê rejeitado por Cícero e motivador da crise no Ministério. Sair do clima impregnado de ciúmes, talvez fosse uma boa alternativa. Na distante "Cidade Morena" haveria quem sabe menos patrulhamento.

As versões para a cisão em 1972, como toda boa história das ADs é controversa. Em casos assim, sempre há narrativas conflitantes, mas é certo que a ruptura em Campo Grande, fizeram dos últimos anos de ministério de velho Cícero mais sofridos e tristes.

Sabe-se oficialmente, que todo patrimônio da AD campo-grandense pertencia ao Ministério do Belém. Depois de tomar posse em Campo Grande, Eliseu teria procurado o pastor Cícero com uma proposta aparentemente vantajosa: a anistia concedida pelo prefeito da cidades aos impostos atrasados; desde que a igreja local estivesse suas propriedades registradas em seu nome. Cícero concordou e decidiu doar todos os templos com registro em ata da decisão.

Pastor Eliseu e a AD em Campo Grande/MS

Nada de anormal até esse momento, mas o "timoneiro" estava sendo constantemente instado a tomar cuidado com seu protegido. Há relatos, que Cícero foi convencido da iminente ruptura e de que a proposta de mudança de registro dos templos fazia parte dessa estratégia. 

Induzido pelos seus obreiros, o ancião enviou uma comissão de pastores para tratar do caso. O grupo de pastores, liderados pelo vice-presidente do Belenzinho, João Pereira de Andrade e Silva, não foi com a intenção de conciliar. A determinação era a exclusão, ainda que não houvesse consenso entre todos eles. Todavia, o pastor Eliseu tinha os fiéis ao seu lado e condições jurídicas para dar independência a igreja.

Em março de 1972, o pastor Eliseu rompeu com o Ministério do Belém. A AD em Campo Grande se tornou autônoma e no embalo dos acontecimentos Alencar fundou mais um Ministério na cidade de São Paulo, a AD Paulistana. Muitos crentes do Belenzinho mudaram-se para a nova ramificação assembleiana na capital.

Segundo o pastor José Wellington Bezerra da Costa em sua biografia, Cícero ficou com medo de uma divisão em todo o Ministério. O "Trovão" causou uma grande tempestade e assustou o "timoneiro". Os candidatos à vaga do veterano obreiro é que devem ter se sentido aliviados. Era menos um na disputa...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O "Timoneiro", o "Trovão" e a tempestade (1ª parte)

Quase todos os grandes Ministérios ou igrejas dentro das ADs no Brasil têm um caso de divisão em sua história. Madureira, na década de 1960, perdeu a AD em Anápolis/GO para o pastor Antônio Carneiro. Ainda na mesma época, a AD em Fortaleza/CE viu sua congregação em Bela Vista conseguir sua emancipação por mãos e obra do pastor Luiz Bezerra da Costa.

Porém, uma das rupturas mais traumáticas foi realizada pelo pastor Eliseu Feitosa de Alencar da AD em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul, no ano de 1972. Alencar, que na época dirigia a AD campo-grandense pela segunda vez, causou uma enorme decepção ao seu protetor, o octogenário pastor Cícero Canuto de Lima líder do Ministério do Belenzinho em São Paulo, que caminhava para seus últimos anos de carreira.

Além de conturbada, a perda da filial, ao que tudo indica, teve um contexto de ciúmes ministeriais e disputa pela sucessão de Cícero. A AD no Belenzinho era (e ainda é) o maior Ministério da Missão no Brasil e, na medida que o tempo avançava, pastores de dentro e fora da instituição almejavam suceder o veterano líder assembleiano. Entre os possíveis sucessores estava o pastor Eliseu Alencar.

Cícero, o "Timoneiro" e Eliseu, o "Trovão"

Nascido na pequena cidade de Lábrea, no interior do estado do Amazonas, Eliseu se destacou ao evangelizar tribos indígenas na região na década de 1960. Na CGADB de 1964, em Curitiba/PR, Alencar promoveu uma campanha para doação de roupas para os nativos convertidos
.
Foi nessa convenção que o missionário das tribos indígenas em Roraima "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima para esse trabalho, incluindo envio de recursos financeiros" – conta Isael de Araújo, na biografia do pastor José Wellington. Mais do que isso, Eliseu conquistou o coração do velho obreiro.

Cícero o integrou ao Ministério do Belenzinho, onde Eliseu assumiu a AD na Lapa em São Paulo, depois de uma breve passagem por Campo Grande/MS, em 1965. No tempo em que ficou no setor transformou os cultos e a dinâmica do trabalho na região. Nesse tempo, Alencar viajou para a Europa acompanhado do pastor Anselmo Silvestre e Eurico Bergstén. Na Suécia, a imprensa local o chamou de "O Trovão Brasileiro". Na CGADB de 1966, em Santo André/SP, Eliseu foi escolhido para ser o 1º secretário da Mesa Diretora dos trabalhos convencionais.

Como se percebe, o "Trovão Brasileiro" estava em pleno vigor e ascendência ministerial. O carisma do jovem pregador do Amazonas era incontestável e Cícero dava demonstrações de querer prepará-lo para a sua própria sucessão no Belenzinho. Mas, havia desconfianças dentro do ministério e uma bem articulada rede de difamações contra o amazonense.

Segundo Araújo, um grupo de pastores do Belenzinho, incluindo o seu atual presidente, desconfiou das histórias de evangelização entre os indígenas e elaboraram um dossiê contra Eliseu. Cícero não aceitou as acusações, gerando uma forte crise dentro ministério. Vários pastores foram transferidos da capital para o interior. José Wellington, que não era pastor assalariado, ficou um ano sem atividades na igreja.

Havia pedras no caminho para o possível sucessor do pastor Lima. Nomes de peso no Belenzinho se postaram contra Alencar. Talvez as denúncias não tenham sido feitas com desejo de transparência, mas para barrar a visível ascensão do notável pregador. Foi nesse clima, que em 1970, Campo Grande recebeu novamente Eliseu para liderar a próspera igreja.

O contexto dentro do Ministério do Belenzinho, portanto, indicava contínuas hostilidades para os planos de Cícero em relação ao seu protegido. Chamado de "timoneiro" pela liderança assembleiana pela experiência e segurança, o pastor Lima estava prestes a enfrentar uma grande tempestade.

Dois anos depois de assumir a AD campo-grandense, o "Trovão" iniciou a turbulência nos mares do Belenzinho.

Assunto para a próxima postagem!

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Eliete Velloso - das igrejas para os palcos

Ela viveu e conviveu com os principais nomes do movimento musical iniciado na década de 1960, chamado de "Jovem Guarda". Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso foram seus companheiros de apresentações. 

Nascida no dia 2 de junho de 1940, em Deodoro, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Eliete Velloso era de berço evangélico. O pai era da Igreja Congregacional e a mãe, da Assembleia de Deus em Madureira, do pastor Paulo Leivas Macalão. 

O talento foi descoberto precocemente dentro das igrejas. Com oito anos de idade, a menina Eliete já cantava nos cultos e corais. Mesmo no auge da fama, ela sempre que podia, cantava na igreja; sentia-se "mais perto de Deus".

Eliete posando para a Revista do Rádio em 1964

O sonho da moça evangélica era ser professora, mas o Rádio a seduziu. Ao se inscrever nos disputadíssimos programas de calouros que, na época, abriam o caminho para o sucesso e estrelato, ela foi descoberta e encaminhada para uma gravadora CBS, onde foi contratada. Um dos principais sucessos da efêmera carreira da garota de Deodoro foi "Igual a ti não há ninguém", composição também conhecida na voz de Rosemary, outra cantora popular da "Jovem Guarda". 

Entrevistada pela Revista do Rádio, a jovem revelou um pouco da sua moral puritana: não gostava de posar de maiô para as fotos embora tivesse um "corpo perfeito". Entusiasmada com a carreira, que parecia ascendente, Eliete declarou que não casaria tão cedo. Mas no meio artístico nem sempre é fácil permanecer nas paradas de sucesso. 

O momento da Jovem Guarda passou e Eliete não conseguiu mais apoio das gravadoras para seguir sua carreira. Aos repórteres da Revista do Rádio, a jovem cantora declarou não querer casar tão cedo, pois a carreira era seu objetivo máximo. Entretanto, tão logo a carreira de cantora começou a definhar, Eliete se casou e, desiludida, abandonou o meio artístico no fim da década de 1960.

Eliete Velloso Voltei Para Ficar Lp Cid 1990 Estéreo - R$ 28,00 em ...
LP da década de 1990 da cantora Eliete

No começo da década de 1990, houve tentativas de voltar a brilhar. Lançou pela gravadora CID o LP "Voltei para ficar" e apresentou-se em shows com antigos companheiros da Jovem Guarda. Porém, um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em 1995, acabou de vez com os sonhos da cantora. Somente 

Eliete, assim como Ângela Maria e Aracy Cardoso, foi uma cantora que transitou entre o sacro e o profano. Elvis Presley foi também um caso conhecido de artista que agradou crentes e descrentes. Todos deixaram suas marcas e fãs.

Fontes:

Acervo digitalizado da Biblioteca Nacional (Revista do Rádio, edição de 1964) e do Jornal  O Globo.