quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Uma Assembleia de Deus na "sucursal do inferno"

No Rio de Janeiro entre as décadas de 1950/60 uma pequena "Veneza" foi revelada pela imprensa: a comunidade da Praia das Morenas ou Moreninha. Espremida numa faixa de cinco quilômetros, que margeavam a Avenida Rio Branco, as palafitas ficavam entre o Quartel do Marinheiros e a Fábrica Kelson’s, no bairro da Penha, na Zona Norte da cidade.

A favela surgiu em 1948, com a chegada de oito famílias de pescadores e poucos anos depois o local já contava com 500 famílias e mais 300 crianças vivendo em completo abandono. A miséria do local contrastava com a beleza da Baía da Guanabara e o luxo dos carros em trânsito aos locais de veraneio. Retrato perfeito de uma cidade, onde riqueza e pobreza sempre andam próximas. 

Assim, sem esgoto, água tratada, sem atenção das autoridades competentes e muito menos assistência médica a "Veneza Carioca" resistia sem "condições de vida compatíveis com a dignidade humana" — afirmou o extinto jornal Diário da Noite. A escritora Rachel de Queiroz, na revista A Cigarra, descreveu os casebres como "um pequeno e pungente mundo palafítico".


A precariedade da região levava os moradores dos barracos a constatar com certa ponta de ironia: "as crianças [na favela] sobrevivem por teimosia". Para os editores do Diário da Noite, "O mocambo é a sucursal do inferno. Ou o próprio inferno". 

Mas em meio a tanta desgraça revelada pelo Diário da Noite e pela A Cigarra, uma foto chamou a atenção: uma congregação da Assembleia de Deus, que na época era ligada a AD em São Cristóvão. Era um templo erguido na "sucursal do inferno", onde a miséria humana chocava até mesmo os mais experientes moradores do Rio.

Já se dizia, que onde tivesse uma máquina Singer ou uma lata de Coca-Cola estava a Assembleia de Deus. Parece que no caso da "Veneza Carioca" não havia nem Singer nem Coca-Cola, porém, a congregação da Assembleia de Deus estava firme e forte! Era o pentecostalismo levando dignidade, paz e amor aos perdidos desse mundo.

Fontes: 

 A revista com as fotos e o jornal usados para essa postagem estão disponíveis no:


A Cigarra ano 47 nº 4 - abril de 1961 - São Paulo

Diário da Noite, terça-feira, 30 de agosto de 1955, ano XXVII - Rio de Janeiro.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

IADJ - novos rumos ou extinção de uma igreja?

Durante quatro décadas, o Pastor Gilberto Malafaia foi líder da Igreja Evangélica Assembleia de Deus (IADJ), na região da Taquara, na época, um sub-bairro em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

No dia 15 de novembro de 1996, a IADJ inaugurou seu grande templo com amplo auditório para realização dos cultos e salas bem estruturadas para os departamentos de ensino. Uma obra, que durou mais de uma década para ser concluída. Esforço e ânimo dos líderes e membros não faltaram em todo o período da construção. 

Ainda na década de 1990, um dos filhos do Pastor Gilberto Malafaia, Silas, já era um pregador muito conhecido no Rio de Janeiro. Com seu estilo direto, questionador e não-legalista, o caçula dos Malafaia ascendeu no ministério através do sogro, o Pastor José Santos da AD na Penha, a mesma igreja onde Gilberto congregava antes de sair para fundar a IADJ. Na AD na Penha, Silas chegou ao posto de vice-presidente. 

Paralelamente, Malafaia ganhou visibilidade através do seu programa televisivo "Vitória em Cristo" onde, além de fazer propaganda dos produtos da sua editora "Central Gospel", também defendia temas caros aos evangélicos. Aborto, cura gay, liberdade de culto e legislações voltadas para as minorias, foram (e são ainda) assuntos dos seus programas. 

Silas Malafaia, Gilberto e Silas Filho

Com a morte do sogro em 2010, Silas assumiu a igreja, rompeu com a CGADB, segundo ele "a cachaça de pastor", e mudou a nomenclatura da AD na Penha para "Vitória em Cristo" em consonância com seu projeto de expansão de novas congregações pelo Brasil. 

No ano de 2014, o nonagenário Gilberto Malafaia, até então o primeiro e único líder da IADJ, entregou numa cerimônia emocionante, a direção da igreja para o seu neto Silas Malafaia Filho. Dois anos depois, Gilberto Malafaia morreria como o patriarca bíblico Jó: "velho e farto de dias". 

Seu corpo foi velado na igreja que fundou. Silas Malafaia, na sua conta oficial no Twitter homenageou seu pai com as seguintes palavras: “Acaba de falecer meu pai, Pr. Gilberto Malafaia. No domingo, ele completou 95 anos. Meu referencial, meu herói, homem de Deus. Deixa um grande legado”. 

Mesmo antes da transferência efetiva de comando da igreja, alguns membros perceberam a forte influência da ADVC nos rumos da igreja. Anos temáticos adotados na ADVC para as suas congregações eram implantados simultaneamente na Taquara, preletores que pregavam na Penha também cumpriam agenda em Jacarepaguá, o estilo de liturgia, principalmente os denominados "cultos da vitória", estavam semelhantes aos das igrejas de Silas pai. 

Prevendo a total absorção da IADJ pela ADVC, um reduzido número de membros bateu em retirada; poucos é verdade, mas já era um sinal de descontentamento. Até que pouco tempo depois, a IADJ foi incorporada pela Vitória em Cristo. Uma decisão tomada pela família Malafaia com apoio de alguns obreiros fiéis. 

Diante da nova situação, muitos membros deixaram de congregar na IADJ. Foram pra outras denominações e ministérios. Contudo, com as reformas feitas no templo e com o apelo midiático da ADVC, a recém filiada do ministério de Silas pai não perdeu público. 

Obviamente, que no caso IADJ há versões e olhares conflitantes. Para os Malafaia, a posse de Silas Filho foi a confirmação de profecias e visões. Certamente, o fim da autonomia também foi direção divina. Ficou tudo em família e ponto final. Para os que saíram ficou o sentimento de nostalgia e a saudade de uma igreja que, segundo eles, está "extinta". Daqueles dias gloriosos do Pastor Gilberto só ficou o prédio. 

Mas o que diria o fundador da IADJ? Concordaria com a perda da independência da igreja que liderou por décadas? Em sua biografia lançada pela Central Gospel, Gilberto Malafaia ao narrar a história da congregação declarou: "A minha expectativa, por exemplo, era formar uma igreja. Nada de ficar como congregação de Madureira ou da Penha". 

Esse era o desejo de Gilberto Gonçalves Malafaia ao fundar o trabalho da IADJ.

Fontes: 

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Perfil do Bispo Daniel Malafaia

Por Pr. André Silva 

Daniel Fonseca Malafaia, nasceu em 28 de dezembro de 1950, teve a felicidade de nascer em um lar evangélico. Seus pais, pastor Carlos Malafaia e Marina Fonseca Malafaia, souberam o conduzir o filho a uma profunda comunhão e temor a Deus. 

O menino Daniel foi apresentado ao Senhor, pelo saudoso pastor Paulo Leivas Macalão, fundador do Ministério de Madureira. Desde cedo, envolveu-se com a igreja do Senhor Jesus Cristo, principalmente na área musical, fazendo parte, também, da diretoria da Mocidade da Assembleia de Deus em Campo Grande, Rio de Janeiro. 



Em 1974, transferiu-se para Brasília, DF, sendo muito abençoado por Deus em todas as áreas de sua vida. Foi professor da Escola Bíblica Dominical, Secretário, e, durante nove anos, líder da Mocidade. Na capital da República, casou-se com a jovem Jemina de Araújo Malafaia e, dessa união, nasceram-lhes quatro filhos: Alessandro, Daniel, Fábio e Samuel, todos envolvidos na obra do Senhor. 

Em Brasília, sua carreira ministerial sempre foi pautada de grandes vitórias, debaixo da unção do Espírito Santo. Em maio de 1986, foi consagrado ao Santo Ministério da Palavra, no cargo de pastor. Após oito anos dirigindo congregações do campo da Catedral das Assembleias de Deus em Brasília, foi convidado pelo então pastor Neuton Pereira Abreu, para ser o 1º vice-presidente do campo, função foi desempenhada por pouco tempo, apenas por dois anos. 

Chegou a ser um dos nomes cogitados para assumir presidência da Assembleia de Deus do Planalto Central, DF, vinculada a CGADB, mas Deus teve outros planos, pois em 29 de junho de 1993, foi indicado pelo Bispo Manoel Ferreira, presidente da CONAMAD, a assumir a presidência da Assembleia de Deus em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, substituindo seu pai que, durante 34 anos, presidiu aquele abençoado e próspero campo. Nesse processo, Daniel contou com total apoio do ministério local.

Daniel Fonseca Malafaia era graduado em Administração Pública e Privada, e em Ciências Contábeis, como também formado em teologia pela Faculdade Teológica Batista de Brasília. Também foi mais de trinta anos, funcionário do Banco Central do Brasil. 

Primo do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, RJ, o Bispo Daniel Malafaia foi um exemplo notável de homem de Deus. Respeitado e influente doutrinador, tornou-se um ícone das Assembleias de Deus no Brasil. 

Na 39ª Assembleia Geral Ordinária da CONAMAD foi ordenado bispo, realizada de 22 a 25 de março de 2017, no Brás, em São Paulo. Membro da Junta Conciliadora e secretário da Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Estado do Rio de Janeiro - Ministério de Madureira (CONEMAD-RJ) era também secretário da CONAMAD. 

O Bispo Daniel Malafaia faleceu em 12 de dezembro de 2020 devido a complicações causadas pelo corona vírus. Seu filho, o pastor Alessandro de Araújo Malafaia foi empossado como novo presidente da Assembleia de Deus em Campo Grande, RJ, no dia 13 de dezembro de 2020. 


FONTES: 

NOGUEIRA, Ivan Perdigão. Personalidades Evangélicas do Brasil, Volume II. RJ: Verbete Empresa Jornalística LTDA, 2001. 


Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Autor do Memorial das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A AD em Jacarepaguá - síntese histórica

A Igreja Assembleia de Deus em Jacarepaguá - IADJ nasceu na década de 1970, no auge da Ditadura Militar e cresceu velozmente em plena reabertura política no Brasil. Sua consolidação veio nos tempos áureos de implantação do Plano Real e da estabilidade econômica. Entre tantos ministérios assembleianos, a IADJ era uma igreja referência na educação cristã.

Seu início ocorreu em 1973, quando o Pastor Gilberto Malafaia foi procurado por alguns crentes metodistas insatisfeitos com a igreja onde congregavam. A proposta original do grupo era começar, de imediato, um novo trabalho em Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

Na época, Malafaia frequentava com a sua família a AD na Penha, Zona Norte da cidade. Experiente, orientou os metodistas descontentes a pedirem cartas de transferências e se integrarem na igreja do tradicional bairro carioca. A proposta de abertura de uma congregação somente seria acertada depois da aceitação dos metodistas na Penha. 

Vencida a primeira etapa, os agora ex-metodistas conversaram com o Pastor José Santos e pediram para abrir uma congregação em Jacarepaguá. O novo núcleo seria ligado a Penha e teria o Pastor Gilberto como seu líder. Com a autorização do Pastor Santos, foi alugada uma antiga oficina na Avenida dos Mananciais, onde se iniciaram os trabalhos IADJ que, segundo o comentário do Pastor Malafaia em sua biografia, "num instante encheu".

Vendo as possibilidades de crescimento, Malafaia logo tratou de procurar lotes para construir um templo próprio. Sem muito dinheiro em caixa e na base das campanhas para arrecadação de mais recursos, o terreno foi adquirido. O local não parecia ser lá muito promissor: era um brejo cheio de árvores, mosquitos e sapos, onde um pequeno caminho dava num buraco.

Templo da IADJ na década de 1970

Os bons contatos políticos do pastor Gilberto facilitaram as melhorias no local. Máquinas dragaram a água existente no local e os mutirões nos finais de semana prepararam o terreno para receber uma tenda para realização dos primeiros cultos. Do barracão, construíram um templo de madeira, e depois, uma pequena igreja.

Paralelamente, Jacarepaguá passava por transformações rápidas. A formação de grandes indústrias e o surgimento de enormes conjuntos residenciais com loteamentos legais e clandestinos fez a população crescer muito, fazendo da região uma cidade dentro de outra cidade.

Com o crescimento da congregação, o Pastor Gilberto decidiu, então, lançar os fundamentos de um templo muito maior. Isso somente foi possível com o senso de oportunidade do líder, que comprou terrenos próximos visando à futura ampliação da igreja. Há um detalhe: logo Malafaia conseguiu autonomia e quando a pedra fundamental da nova construção foi lançada em 1982, a IADJ possuía 300 membros, fora os congregados e as igrejas já emancipadas.

No dia 15 de novembro de 1996, finalmente o novo templo foi inaugurado. Com instalações modernas divididas em mais de 20 salas para Educação Cristã, Escola Dominical e funcionamento do Seminário Teológico Shalom, a obra era mais um sonho realizado na vida ministerial do veterano pastor.

Gilberto Malafaia, a essa altura, já contava com 75 anos de idade. Cedo ou tarde, a sucessão do líder da IADJ chegaria. Em 2014, Silas Malafaia Filho recebeu do avô a presidência da igreja e, para surpresa de uns, alegria de outros e descontentamento de muitos, mudou radicalmente a essência da congregação.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

Mensageiro da Paz, setembro de 1982.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A recontagem dos votos na CGADB de 1983

O mundo acompanha com ansiedade a eleição presidencial nos Estados Unidos da América. De um lado, o atual Presidente dos EUA do Partido Republicano, Donald John Trump tentando a reeleição. Na oposição e, com grande chances de vitória está Joseph Robinette "Joe" Biden Jr.

O pleito está sendo marcado por polêmicas, acusações e ações judiciais. Trump, antes mesmo das eleições já falava em fraudes e em entrar na justiça contra supostas irregularidades. É o sistema democrático norte-americano sendo colocado à prova. Uma eleição disputada voto a voto e cheia de emoções.

Em 1983, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) realizada na AD em Aribiri, Vila Velha, no Espírito Santo, algo similar aconteceu envolvendo os dois principais líderes das ADs no Brasil na atualidade: o Bispo Manoel Ferreira e o Pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Deve-se lembrar, que a CGADB em Vila Velha, em 1983, foi o primeiro concílio realizado sem a presença dos pastores Cícero de Lima do Belenzinho  e Paulo Leivas Macalão do Ministério de Madureira, que haviam falecido no ano anterior.

Manoel Ferreira e José Wellington

Havia também, uma enorme pressão para que o Ministério de Madureira perdesse sua unidade. Ferreira, assim como José Wellington, eram duas lideranças buscando afirmação e legitimidade entre seus pares. Assim sendo, os dois, mais Túlio Barros e Elizeu Menezes concorreram ao cargo máximo da convenção.

Nesse processo de fragmentação do lado dos Ministérios da Missão, a chapa de Madureira conseguiu êxito. O Pastor (na época não era Bispo) Manoel Ferreira venceu o pleito com margem apertada de 20 votos sobre o segundo colocado, o Pastor Bezerra da Costa.

Ferreira conta em suas memórias, que houve "um alvoroço" e José Wellington pediu a recontagem dos votos. Na recontagem, para surpresa do próprio líder do Belenzinho, a diferença entre os dois aumentou. Diante da situação, o Pastor José Pimentel de Carvalho de imediato proclamou a vitória da chapa de Madureira.

Naquele tempo pediram a recontagem dos votos. Ainda não tinham entrado no campo jurídico. Mas não demorou muito para que algumas eleições fossem parar nos tribunais da justiça secular. É a política secular e eclesiástica com meios idênticos para alcançar o poder. 

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O Destino Manifesto de Madureira

"O Espírito Santo manifestou a sua aprovações aquele acontecimento, falando, por profecia, encorajando, incentivando ao trabalho pela causa de Cristo; uma mensagem por profecia, ordenou a igreja nessa tarde, que alargasse a sua tenda, pois prosperaria..." (Emílio Conde)

No dia 13 de fevereiro de 1938, num domingo à tarde, 67 crentes em Cristo desceram às águas batismais na Assembleia de Deus em Madureira, no Rio de Janeiro. Na condução dos trabalhos estava o Pastor Paulo Leivas Macalão. Nesse tempo, a congregação do bairro da Zona Norte do antigo Distrito Federal já era a maior das igrejas abertas por Macalão nos subúrbios do Rio.

Convidado para as celebrações vespertinas e atento a tudo o que acontecia, estava o jornalista Emílio Conde. Posteriormente, as considerações do escritor seriam publicadas na seção "Na Seara do Senhor", espaço privilegiado do Mensageiro da Paz para informar o progresso das ADs em todo o Brasil.

Naquela tarde, Conde encantou-se com o entusiasmo da "multidão de salvos" louvando a Deus e observou que, apesar da elevada temperatura daquele verão carioca, a intensidade do calor espiritual a tudo se sobrepunha. O povo, segundo o apóstolo da imprensa pentecostal, não se cansava de louvar e de se alimentar da Palavra de Deus. 

Em meio a tantas manifestações fervorosas de louvor, uma profecia se ouviu no recinto: Deus através do Seu Espírito aprovava aquela obra e ordenava "que alargasse a sua tenda, pois prosperaria". Talvez sem saber, Conde testemunhava a mensagem profética que confirmava o "Destino Manifesto" da AD em Madureira. 

Convenção Nacional de Madureira em 1960

O conceito de "Destino Manifesto" surgiu nos Estados Unidos da América, no século XIX. Era uma crença comum entre os norte-americanos, que deveriam se expandir pela América do Norte e colonizá-la. E isso se daria com a aprovação e bênção divina.

Obviamente, o "Destino Manifesto" foi contestado por muitos e justificou, infelizmente, a discriminação e massacre dos nativos no continente. Na política internacional, essa crença de superioridade ainda é sentida no olhar que a diplomacia norte-americana tem sobre os outros povos. 

Porém, a profecia, não somente prediz o futuro; ela capta o espírito de uma época. Quando a mensagem profética em Madureira foi ouvida, o ministério, além de estar presente nos subúrbios do antigo Distrito Federal, já havia se ramificado pelo território fluminense, mineiro, goiano e, ainda naquele ano, chegaria à cidade de São Paulo.

Contudo, o "Destino Manifesto" de Madureira seria interpretado por outros Ministérios como "invasão de campo". Criou-se, com o tempo, o conceito de "jurisdição eclesiástica" para delimitar a área de atuação e concorrência das ramificações assembleianas. 

Na autobiografia de Manoel Ferreira, o Bispo Primaz de Madureira destacou a essência evangelística do Ministério de Madureira e que a CGADB, "com seu pesado jogo burocrático", impunha regras às ações evangelísticas. Para Ferreira, o conceito de "jurisdição eclesiástica" era algo sem sentido numa nação carente de evangelização e igrejas nos seus mais distantes rincões. 

Assim, ao final da década de 1980, quando autorizou a abertura de novos trabalhos do Ministério em todo Brasil, Ferreira estava, de certa maneira, cumprindo a profecia de 1938. "Alargar as tendas" era, e sempre foi, uma ordenança divina para Madureira e seus líderes.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938, ano VIII, nº 05, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A força de uma mulher

O ano 2020 já entrou para a História como um ano atípico. A pandemia do COVID-19 afetou a economia mundial, desmontou discursos neoliberais, multiplicou o valor das "gigantes da tecnologia" e revelou amplamente as mazelas e inseguranças dos mais pobres. Enquanto essas linhas são escritas, o coronavírus segue atrapalhando planos de reeleição de governantes e, incrivelmente, já alterou uma calculada sucessão eclesiástica. A Assembleia de Deus (AD) em Cuiabá que o diga.

Pastoreada desde dezembro 1974 pelo Pastor Sebastião Rodrigues de Souza, que também era vice-presidente da CGADB, a AD na "Cidade Verde" parecia ter uma sucessão previsível. Com quase 90 anos de idade, o Pastor Sebastião tinha como vice-presidente o seu filho Rubens Siro de Souza de 68 anos. Como tantos outros ministérios assembleianos, o clã dos Souza aguardava o momento certo para a transição.

Mas a pandemia golpeou planos e criou um vácuo de poder na AD em Cuiabá. No final de junho, os pastores Sebastião e Rubens testaram positivo para a COVID-19. No início de julho, pai e filho faleceram em decorrência do coronavírus. O Mensageiro da Paz de agosto de 2020 deu amplo destaque à morte dos líderes da AD em Cuiabá, em especial ao Pastor Sebastião, que por muitos anos foi membro da Mesa Diretora da CGADB e seu ex-presidente.

Aliás, o Mensageiro da Paz de agosto é aparentemente contraditório: publicou uma matéria intitulada "Brasil supera EUA em curados de COVID: Dados mostram ainda diminuição da epidemia em todo mundo", onde a grave crise sanitária mundial é claramente minimizada. Em meio a dados de pessoas recuperadas (no Brasil e no mundo), o tradicional "órgão oficial" das ADs simplesmente ignora o número alarmante de mortes em decorrência do coronavírus.

Irmã Nilda orando pelo recém-eleito pastor da AD em Cuiabá, Sila Paulo

Entre a propagada superação e cura de infectados, o periódico noticiou a morte do vice-presidente da CGADB, do seu filho Rubens Siro e do Pastor Alberto Resende de Oliveira, primeiro-secretário da CONFRADESP. Em julho, o Mensageiro também informou a morte do Pastor Florêncio Nunes Neto, aos 52 anos. Pastor Neto era presidente de uma das convenções das ADs no Ceará, filiadas a CGADB. Em suma: enquanto a mídia oficial assembleiana (e de outras denominações) atenuam o impacto da COVID-19 na sociedade, alguns de seus líderes seguem morrendo em decorrência da pandemia.

Mas voltemos ao Centro-Oeste! Com a morte do presidente e vice-presidente da AD em Cuiabá e da Convenção de Ministros da AD no Estado do Mato Grosso (COMADEMAT), o ministério deu posse ao Pastor João Agripino de França para a presidência da convenção estadual.

Mas a vaga de presidente da AD em Cuiabá foi um processo mais complicado. O candidato ao posto era o Pastor Silas Paulo de Souza, filho primogênito do Pastor Sebastião. Sem o carisma do pai, Silas estava longe de ser uma unanimidade para o cargo. Todavia, foi indicado pela convenção e eleito numa Assembleia Geral Extraordinária considerada por muitos "atropelada", ou seja, sem um clima de consenso.

Porém, Silas Paulo foi eleito e tão logo seu nome foi confirmado para presidir a AD em Cuiabá, o primogênito do casal Souza foi à casa da mãe, a irmã Nilda de Paula. A matriarca da família também havia sido infectada com o coronavírus, esteve internada, mas sobreviveu ao mal que assolou ao esposo e filho. 

Assim, o novo pastor da AD cuiabana foi buscar a intercessão da anciã de 90 anos. A cena onde Silas, de joelhos e muito emocionado, recebeu a oração da matriarca rodou o Brasil. A eleição por parte do ministério não era tudo. O sucessor do Pastor Sebastião precisava da oração e benção provinda de uma pioneira.

É uma ironia que, num processo todo conduzido por homens, a legitimidade ao sucessor seja dada por uma mulher. 

Fontes:

Mensageiro da Paz, ano 90 - nº 1623 - agosto de 2020, CPAD: Rio de Janeiro.

Mensageiro da Paz, ano 90 - nº 1624 - setembro de 2020, CPAD: Rio de Janeiro.