terça-feira, 26 de setembro de 2017

Televisão - O Canal 23

No Mensageiro da Paz, em fevereiro de 1967, foi publicado O Canal 23. É notório na história assembleiana, que a televisão, suas programações e uso, sempre foram alvo de acirrados debates nas Convenções Gerais. 

Criou-se toda uma mentalidade contrária a TV. Poucos tinham coragem de usar o aparelho abertamente em casa. A proibição era geral. Hinos eram compostos e gravados para combater a maléfica mídia. Um exemplo disso foi o LP da dupla Ageu e Mauro intitulado TV Tira a Visão.

O versículo 3 do Salmo 101, “Não porei coisa má diante dos meus olhos" era o texto áureo dos pregadores contrários à mídia televisiva. Profecias e visões eram recorrentes para confirmação das mensagens.

São memórias, que fazem parte do vasto folclore assembleiano. Em tempos de internet, as discussões sobre ter ou não televisão soam anacrônicas. Mas diante da baixa qualidade das programações (reality shows, novelas, seriados, programas de auditórios e policiais) O Canal 23, cinquenta anos depois, permanece atual. 





sábado, 23 de setembro de 2017

Paulo Macalão - origem e autonomia

O Ministério de Madureira é uma das maiores ramificações das Assembleias de Deus no Brasil. Está presente em todo território nacional, e é inegável a força política de sua Convenção Nacional. Desde a suspensão da CGADB em 1989, Madureira tem se destacado por suas supostas inovações. 

Mas, ao longo da história das ADs, percebe-se, que o signo das inovações está presente em Madureira desde sua origem na década de 1920 na cidade do Rio de Janeiro, na época, Capital da República do Brasil. E isso se deu por obra de um novo convertido de perfil inusitado para a maioria dos líderes assembleianos: Paulo Leivas Macalão.

Nascido em Santana do Livramento (RS), em 1903, Macalão era filho de um general, procedia de família culta e havia estudado em bons colégios no Rio. A conversão ao pentecostalismo se deu na incipiente AD em São Cristóvão, bairro operário no Rio de Janeiro.

"Macalão era gaúcho numa igreja de nortistas e nordestinos. Era filho de um general numa igreja de pobres", observou o sociólogo Paul Freston. A origem social do líder de Madureira nunca escapou das narrativas oficiais e das análises acadêmicas. Gedeon Alencar destaca ainda, que além da origem culta e abastada, o nacionalismo do líder de Madureira teria sido a possível causa da cisão informal com a AD da Missão Sueca.

Diário de Vingren: à direita observações sobre Macalão

Na versão da história oficial das ADs, fala-se de certa "censura" e "incompreensão" sentida por Macalão na igreja de São Cristóvão, causa da suas incursões evangelísticas a partir de 1926 nos subúrbios do Rio. Estudos acadêmicos apontam para o "desentendimento" entre ele os suecos, como a causa da criação do ministério. É clássica a citação do diário de Vingren com a seguinte observação: "Elle é muito independente."

Douglas Fidalgo, em sua dissertação de mestrado De Pai para Filhos, aponta para essa postura autônoma de Macalão, pois "não sendo ele submisso aos suecos e nem aos nordestinos, uma vez que nunca precisou deles, nem na fundação da AD de São Cristóvão, muito mesmo nas igrejas que iam surgindo no subúrbio carioca." Tanto que criou um ministério inter-regional e manteve o controle sobre todas a congregações espalhadas pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

David Cabral, pastor do Ministério de Madureira em seu livro Assembleias de Deus: A Outra Face da História, argumenta anda que Macalão não se aliou aos brasileiros na reivindicação dos trabalhos abertos no Brasil. Por isso ele sempre teve "deferência muito especial" da Missão Sueca. Constata-se também, a presença do líder de Madureira como preletor em várias Escolas Bíblicas da AD em São Cristóvão na época da liderança dos escandinavos no Rio.

Para os familiares, o patriarca teria saído aos subúrbios do Rio, porque ninguém queria deixar o conforto da igreja em São Cristóvão e pregar nas áreas mais distantes da cidade. André Macalão (neto do pastor Paulo e líder da AD em Caldas Novas/GO), destaca que seu avô era forte aliado de Gunnar Vingren e de Lewi Pethrus (pastor da Igreja Filadélfia na Suécia). O fato de Macalão ter sido presidente da 8º Conferência Mundial Pentecostal realizada no Brasil em 1967, seria a confirmação das afinidades com os suecos e não o contrário.

Aliás, parece que foi com os brasileiros, sucessores dos suecos, é que o líder de Madureira se desentendeu no Rio de Janeiro. Há memórias e registros de sérios desacordos com Alcebiades Vasconcelos e Túlio Barros Ferreira.

Por ter essa origem social diferenciada, Macalão impôs um ritmo de administração singular em seu ministério. Causava admiração e desconforto ao mesmo tempo. Era afável e conciliador, porém, não cedia às pressões externas. Queria e fez da sua Assembleia de Deus referência em unidade e estética.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi, Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FIDALGO, Douglas Alves. “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP.

FRESTON,  Paul, Breve história do pentecostalismo brasileiro, In:  ANTONIAZZI, Alberto.  Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Presbíteros - o ministério da resistência

Toda denominação religiosa possui sua hierarquia. As ADs, ao longo dos anos cristalizaram a sua: cooperador/auxiliar, diácono, presbítero, evangelista e pastor. Atualmente, em alguns ministérios outras nomenclaturas foram admitidas como a de apóstolo, bispo (a) e pastoras.

Cooperador, diáconos e presbíteros dentro da denominação, caracterizaram-se por serem ministérios voltados para a igreja local, enquanto que evangelistas e pastores tem seu foco mais no contexto regional ou nacional das ADs. Mas é o presbítero ou o presbitério, o alvo das maiores controvérsias na história da AD, tanto teologicamente como administrativamente.

O historiador Maxwell Fajardo, em seu livro Onde a luta de travar, destaca que os presbíteros (chamados anciãos nos primeiros tempos), na CGADB de 1933, foram autorizados a ministrar os sacramentos antes efetuados somente pelos pastores, no caso unção dos enfermos e batismo nas águas. Era a padronização das atividades do presbitério entre as diversas ADs espalhadas pelo Brasil.

Nelson e Nyströn com o presbitério da AD em São Cristóvão (RJ)

Na mesma década, o missionário sueco Nils Kastberg, em um artigo publicado no Mensageiro da Paz, em 1936, defendeu a necessidade de mais presbíteros para a igreja. O sueco também argumentava, que o presbíteros deveriam atuar como pastores, pois a única diferença entre eles era o fato do pastor ser um "presbítero de tempo integral".

Com o passar do tempo, porém, a Convenção Geral colocou por interesses ministeriais, a função de presbítero em submissão ao pastor local. Enquanto Kastberg propunha (em tese) a limitação e a divisão do poder pastoral com o presbitério, as deliberações da CGADB restringia o acesso destes obreiros ao poder administrativo.

Mesmo com divergências sobre as funções dos presbíteros, o certo é que ao chegar em determinadas igrejas, presbitério era sinônimo de "problemas" para muitos pastores. Podia o grupo de obreiros contrapor os poderes dos pastores e interferir na administração local.

Caso emblemático foi o da AD em São Cristóvão (RJ) na década de 1950, a mesma anos antes liderada por Kastberg. Alcebíades Vasconcelos, ao assumir a igreja carioca conta em sua biografia, que se deparou com um "presbitério todo-poderoso", o qual comandava a igreja e do qual deveria ser "100% dependente".

Aliás, Vasconcelos criticou essa interferência do colegiado de obreiros comparando-o com o "sinédrio judaico". Em sua gestão em Manaus entre 1972/88, diante de problemas com alguns presbíteros, Alcebíades, após estudos bíblicos para justificar a decisão, extinguiu o cargo.

Em outros ministérios as coisas foram diferentes: com o crescimento das igrejas, o presbitério foi de certa forma "vulgarizado". Relaxou-se as exigências bíblicas para a separação dos presbíteros, gerando ordenações em grande número. Tal ação, diluiu o poder do colegiado e facilitou o controle por parte do pastores-presidentes dos obreiros (pastores, evangelista e presbíteros) sustentados diretamente pelas igreja locais.

Nas igrejas menores, o presbitério ainda concentra determinada força, pois o pastor não dispõe de tantas alternativas para contrapor o poder desses obreiros. Como disse um saudoso pastor catarinense, antigamente, o presbítero era visto como um "coronel" com grande influência sobre os membros na congregação.

Mas hoje, há para os líderes das ADs um perigo maior que o antigo presbitério. É o membro consciente dos seus deveres e direitos, com formação jurídica e intelectual, o qual simplesmente contesta os mandos e desmandos do pastor. Por não depender financeiramente da igreja, e desfrutar de considerável prestígio social, esse tipo de membro não é facilmente cooptado com cargos ou privilégios.

É o poder do presbitério "reencarnado" e o fantasma de muitas administrações eclesiásticas.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

AD em Curitiba - "nada há de novo debaixo do sol"

Muitos acreditam, que a chamada “política eclesiástica” é algo recente dentro das ADs no Brasil. Porém, alguns casos “esquecidos” da história oficial, revelam práticas e situações de tensão na busca pelo poder.

O pastor José Pimentel de Carvalho, ex-presidente da CGADB declarou certa vez, que assumiu a liderança da AD em Curitiba, em 1962, em um momento muito delicado. A igreja estava dividida, em crise, e contra sua vontade deixou a cidade do Rio de Janeiro para pastorear na capital paranaense.

Mas, por qual divisão e crise a igreja passava? No site oficial da AD curitibana, há uma menção sobre dificuldades ministeriais no ano de 1952, quando "um pequeno grupo de dissidentes deixou a igreja”. Indício de dificuldades futuras e de tensões no seio da denominação?

Matéria do Última Hora (PR)

O certo, é que antes da efetivação do longevo pastor Pimentel, a denominação teve três pastores em pouco mais de quatro anos. Delfino Brunelli (1957-1959), Daniel Tavares Beltrão (7 meses) e Agenor Alvez de Oliveira (1960-1962). Percebe-se, que por alguma razão, a instabilidade havia se instaurado na "Cidade Sorriso".

Sobre a mudança de Pimentel para o sul, o site da AD curitibana apenas narra que ele a “convite do pastor Agenor Alves de Oliveira, em 6 de março de 1962, transferiu-se para Curitiba onde assumiu a presidência da Assembléia de Deus." 

Contudo, entre a saída definitiva de Agenor e a posse de Pimentel, a igreja vivenciou uma polêmica eleição para a presidência com dois candidatos conhecidos dos membros: o pioneiro sueco Charles Leonard Simon Lundgren, e o pastor Alfredo Reikdal.

Lundgren, havia liderado a AD curitibana entre 1942 a 1955. Reikdal por sua vez, era genro do fundador da igreja, o pastor Bruno Skolimovski, o qual teve duas importantes passagens por Curitiba. A primeira como organizador da denominação pentecostal na capital do Paraná entre 1929 a 1939. Posteriormente, Skolimovski volta como substituto do próprio Lundgren entre 1955 a 1957.

Dois fortes candidatos para tentar acabar com a instabilidade, e representantes de tendências políticas e ministeriais na AD Local. Mas, por conta da rivalidade, o que seu viu, foi uma agitada disputa. Reikdal, na época, já era pastor na AD no bairro do Ipiranga em São Paulo. Além de ser genro do fundador da igreja, a família dele fazia parte do núcleo dos primeiros assembleianos em Curitiba. Em 1939, Alfredo foi separado para o ministério pastoral pelo próprio sogro. 

Assim, ao abrir as páginas do jornal Última Hora (edição Paraná) no dia 21 de fevereiro de 1962, causou espanto aos curitibanos, ao se depararam com a seguinte matéria: Politicagem na Igreja Provoca Descontentamento Entre os Fiéis. Segundo o periódico, circulava na cidade um "curioso impresso propugnando a candidatura do sr. Alfredo Helkedal [sic] para pastor-presidente" da AD em Curitiba.

No panfleto, Reikdal enumerava dez razões para os membros da AD o escolherem (vide imagem). Declarando-se jovem, espiritual, doutrinador, idealista, imparcial e de moral elevada, o candidato também afirmava que não concederia privilégios aos "filhos", "apadrinhados" ou "afilhados" na igreja.

Para o Última Hora, o método de campanha ao cargo era de fazer "inveja aos políticos”. O clima de acirrada disputa descambou para uma eleição conturbada. Os partidários dos candidatos tumultuaram a votação no templo central de Curitiba, com direito até ao reforço policial para garantir a ordem. 

Logicamente, tentou-se apagar da memória institucional toda a confusão. Na biografia de Reikdal tal episódio sequer é citado. Conhecido na história assembleiana por seu perfil ortodoxo, o saudoso pastor do Ministério do Ipiranga, colocou como uma das suas virtudes para assumir a igreja o fato de não usar de "politicagem ou politicaria na Igreja". 

Ironias e controvérsias das biografias eclesiásticas. Como disse o sábio “nada há de novo debaixo do sol.” Eclesiastes 1.9.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COHEN, Eliezer. E Deus confirmou os seus passos: biografia do pastor Alfredo Reikdal. São Paulo: s/e, 2006.

Última Hora, ano I, Curitiba, Quarta-feira, 21 de fevereiro de 1962, nº 224 - Acervo digital da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

http://www.assembleiadedeus.org.br/historia-da-ieadc/