domingo, 14 de outubro de 2018

João Maria Macalão - o general revolucionário

Um traço da vida e obra do fundador do Ministério de Madureira, Paulo Leivas Macalão (1903-1982) é sua origem social abastada, numa época em que o pentecostalismo estava identificado com as classes sociais mais humildes e desprezadas pelo poder público.

Macalão nasceu em Santana do Livramento, município do Rio Grande do Sul fronteiriço com o Uruguai, quando seu pai João Maria Macalão, na época capitão do Exército Brasileiro, servia no 7º Regimento de Cavalaria (RC) da região. A mãe, Georgina Leivas Macalão, era uma jovem conhecida dos círculos sociais mais abastados de Pelotas, "onde a todos encantava com a virtuosidade do piano".

João e Georgina casaram-se em Pelotas e tiveram três filhos: Fernando, Maria Isidora e Paulo. Os nomes dos rebentos foram escolhidos para homenagear santos católicos. No caso de Paulo, a história mostrou que o nome foi apropriado e profético, pois assim como Paulo, o Apóstolo dos gentios, o caçula da família se destacou na evangelização de muitos povos.

Infelizmente, o menino Paulo cedo perdeu a mãe. Georgina, doente e depressiva, faleceu quando seu caçula tinha apenas 5 anos de idade. O pai então, na impossibilidade de cuidar dos filhos ainda pequenos, resolveu enviá-los ao Rio de Janeiro para ficarem aos cuidados de um tio materno. A transferência das crianças gaúchas deve ter se dado por volta de 1908.

Longe dos filhos no Rio Grande do Sul, João Maria foi promovido de capitão a major "por merecimento" em março de 1911. Zélia Brito, no livro Traços da vida de Paulo Leivas Macalão comenta que seu esposo relembrava das constantes lutas e perseguições do pai a contrabandistas na região de Santana do Livramento.

O Paiz, de 21 de março de 1913

De fato, os jornais da época relatam que em abril de 1912, o major Macalão liderando "uma força de 50 praças" se juntou a outros soldados para perseguir cerca de 200 contrabandistas perigosos e bem armados. Pelo bom trabalho do major, o Ministro da Fazenda sugeriu ao Ministro da Guerra elogios ao oficial (e sua tropa) por se portar "briosamente" em combate.

Em 1913, João foi transferido do 7º RC de Livramento para o 1º RC em Itaqui. A transferência de Macalão causou "ótima impressão", pois segundo o jornal O Paiz, João Maria era um "oficial inteligente e de notável preparo profissional". Por suas qualidades e competência, em 1914, foi condecorado por seus trabalhos e, em 1916, foi promovido a tenente-coronel.

Zélia informa, ainda, que João Maria anos depois voltou ao Rio para "comandar o Batalhão de Guardas" no bairro de São Cristóvão. A residência escolhida pelo militar junto à Intendência da Guerra em São Cristóvão era muito próxima da casa da família Brito, local de cultos e orações frequentados por Paulo Leivas em seu processo de conversão.

Diário Carioca, 12 de novembro de 1930

Morando na antiga Capital da República, João Maria foi participante da Revolução de 1930, e da ascensão do conterrâneo Getúlio Vargas ao poder. Tanto que a imprensa da época registrou a participação (e o preparo) do "General" Macalão no "Churrasco da Vitória", onde um "grupo seleto de gaúchos antigos devotados à causa revolucionária" promoveu um encontro festivo na casa de um famoso jornalista. Os militares "devotados à causa revolucionária" também poderiam ser chamados de conspiradores, mas como o movimento de 30 terminou vitorioso, a narrativa histórica lhes foi favorável.

Tempos depois, em fevereiro de 1932, o revolucionário João Maria foi reformado (aposentado). Segundo o regulamento do Exército, ao passar para a reserva, o oficial recebe automaticamente uma promoção. Assim de coronel, Macalão foi promovido a General de Brigada.

JB, 20 de fevereiro de 1932
É possível que o coronel revolucionário, por seu trânsito entre os mais graduados militares, já fosse chamado de general não oficialmente. Afinal, seria o generalato a próxima e previsível promoção do militar gaúcho. Na notícia do "Churrasco da Vitória" ele também é intitulado de general.

Enquanto João Maria vivia momentos históricos no Batalhão da Guarda, suas atenções também se voltavam para o filho caçula. Paulo, que deveria seguir carreira militar, cada vez mais estava voltado para outras causas. Da estranha seita evangélica próxima à sua casa em São Cristóvão, o jovem agora se embrenhava pelos subúrbios do Rio. Mal sabia ele, que o caçula da família faria história.

Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

Os demais fragmentos dos jornais Diário Carioca, O Paiz, Jornal do Brasil e outros, foram acessados no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O acesso é gratuito e o sistema de buscas é prático. 

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Versões da história das ADs - contradições

O objetivo dessa postagem é comparar algumas narrativas assembleianas com documentos, pesquisas e informações disponíveis, os quais, servem de contraponto à dita "História Oficial" das Assembleias de Deus. Existe, na história e em sua narrativa, na grande maioria das vezes, uma enorme distância entre o fato e a versão dele. As versões da história eclesiástica, em geral, têm o objetivo de edificar os crentes e apontar exemplos a serem seguidos.

Como escreveu o pastor e poeta Joanyr de Oliveira, a "historiografia oficial, seja religiosa, seja política, é sempre míope em avançado grau - quando não ostensivamente estrábica, em boa parte não é senão uma grande farsa. Quantos pseudos santos e heróis nos forja, sem o mínimo pudor... Sim, a história dos vencedores - a que prevalece - é sempre tendenciosa, desonesta". Então vamos a algumas versões e contradições da história.


CGADB de 1930: clima de tensão nas ADs

"Não havia nenhuma intenção dos obreiros nacionais em dividir o Movimento Pentecostal. Eles desejavam mais autonomia, e instaram para que não fossem mal compreendidos e para que a obra no Brasil continuasse unida." (Silas Daniel no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 2004)

Não é o que dá a entender a carta enviada pelos pastores brasileiros ao sueco Lewi Pethrus datada de 21 de abril de 1931. Na carta, eles reclamam da postura de Frida Vingren como redatora do Mensageiro da Paz e em determinado ponto do texto, os pioneiros avisam: "é certo é, se continuar como está, haverá um levante, talvez de um caráter mais melindroso do que o primeiro." O que se pode deduzir da missiva é que se os obreiros nativos não demonstraram a intenção de dividir a denominação, algo próximo disso estava para acontecer.



Frida: ia "além do prudente e útil"

"A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil, naqueles momentos; porém, depois, reconhecendo isto, lamentava que tal sucedesse." (Samuel Nyström no Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de 1941)

O texto em que Nyström relata a morte de Frida Vingren é emblemático. Hoje, sabemos pelas pesquisas históricas que ele foi forte opositor do ministério feminino. Articulou-se com os pastores brasileiros para impedir o projeto de igreja do casal Vingren no Rio de Janeiro. Ao escrever sobre a sua conterrânea, Samuel reconhece seus talentos, capacidade, cultura, zelo e dedicação da missionária. Porém, Frida, em sua "impetuosidade", ia além do que "era prudente e útil", ou seja, não se enquadrava no ideal de mulher crente por eles defendido. Seria mais "prudente e útil" ela ter sido uma "Amélia" assembleiana: boa, recatada e do lar.



AD em SP antes das "circustâncias" impostas

"A partir de 1938 as circunstâncias impuseram a existência de Assembleias de Deus independentes, com orientação e responsabilidades próprias." (Emílio Conde no livro História das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 1961)

Foi o "apóstolo da imprensa pentecostal brasileira", Emílio Conde, o autor desse eufemismo usado para justificar a existência de dois Ministérios da AD na Pauliceia. A tal "circunstância" foi que Paulo Macalão resolveu abrir uma congregação ligada ao Ministério de Madureira. Conta-se que Macalão teve uma "visão" onde contemplou um salão com uma placa de aluguel. Convocou então seu cunhado Sylvio Brito para ser o dirigente da nova filial. Porém, Brito era o pastor da AD fundada pela Missão Sueca em 1927. Pode-se imaginar o desconforto entre as lideranças pela iniciativa. Era Madureira fincando seus tentáculos na grande metrópole paulista...