quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais: 1999 - A CGADB da liminar

"São teus inimigos todos aqueles que se sentem ofendidos pelo fato de ocupares o principado; e também não podes conservar como amigos aqueles que te puseram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pensam." 
Nicolau Maquiavel, O príncipe, capítulo III


Certamente, a CGADB, realizada no Palácio de Convenções do Anhembi, na cidade de São Paulo/SP, entre os dias 11 e 15 de janeiro de 1999, foi a mais polêmica da década que se encerrava. Cyro Mello, colunista do Mensageiro da Paz, chamou-a de "Convenção da liminar", onde os "discursos e assuntos discutidos ficaram 95% só para quem entendessem de leis". As liminares (ordem judicial provisória que analisa um pedido urgente) foram a parte visível e pública das intensas disputas de bastidores pelo controle da CGADB. 

No Anhembi, em 1999, o pastor José Wellington da Costa disputou novamente a presidência da CGADB com o pastor Túlio Barros Ferreira, da AD em São Cristóvão/RJ. Na Convenção Geral em Belo Horizonte, em 1997, Wellington havia vencido o pastor Túlio com 65,45% dos votos válidos, mas o movimento de líderes descontentes com os rumos da CGADB voltou à carga naquele conclave. 

Wellington confessou em sua biografia que o pastor Túlio foi seu "concorrente mais temido". O líder da histórica AD carioca criticava o abandono da igreja na parte doutrinária e a apatia da administração Costa à frente da entidade. O líder do Belenzinho, por sua vez, questionava o legado do pastor Túlio que, segundo ele, em quatro gestões como presidente da CGADB, havia deixado somente uma fotografia sua na parede da sede da instituição. 

Meses antes da convenção, o pastor Túlio Barros distribuiu entre os ministros presentes em São Paulo um panfleto crítico à Mesa Diretora da Convenção. O impresso recebeu o sugestivo título de "Mudança de rumo" e era direcionado "aos pastores das Assembleias de Deus no Brasil, cuja visão está acima de qualquer interesse pessoal...". 

Em seus "considerandos", o libelo alertava que a CGADB, "há algum tempo", estava operando "fora dos seus propósitos" e que a instituição deveria "atender aos interesses comuns da Igreja, sem que isso se tornasse um meio de promoção pessoal ou de interesse grupais ou mesmo o uso de nepotismo contrário aos ensinamentos bíblicos". 

José Wellington e Túlio Barros na CGADB da liminar

Os demais parágrafos refletiam os ânimos de muitos caciques da CGADB: falta de oportunidades e participação na Mesa Diretora e seus órgãos "tomados em rodízio constante, por longos anos, por grupos de interesse". O documento revelava a insatisfação das lideranças mais expressivas das ADs, que se sentiam alijados pelo status quo. 

Em suas últimas linhas no livrete, conclamava-se os convencionais a reivindicar "os princípios históricos de uma Convenção democrática, sem que novamente caíssemos nas mãos de um governo autocrático e caudilhístico". As palavras eram fortes e reveladoras do clima de bastidores da Convenção Geral daquele ano. 

Líderes expressivos endossavam o manifesto: João Alves Corrêa, Paulo Alves Corrêa, José Ezequiel da Silva, José Clarimundo César, Israel Pimenta, Uriel de Jesus, Samuel e Jonatas Câmara, Delfino Brunelli, Josias de Almeida Silva, Horácio da Silva Júnior, Alfredo Reikdal, Eliseu Menezes entre outros. O pastor João Alves Corrêa, inclusive, tinha presidido a CGADB por três vezes. Como se percebe, era uma oposição considerável ao pastor José Wellington. 

Porém, os planos da oposição foram abaixo, quando do lado do grupo "Mudança de rumo" começaram a aparecer liminares contra a Mesa Diretora, antes da nova eleição. Nunca, até aquela CGADB, as questões internas da instituição haviam parado nos tribunais da justiça secular. Fato que o pastor Wellington soube explorar entre os convencionais presentes no Anhembi. Tal situação de perplexidade gerada entre os ministros por causa das liminares permitiu que a reeleição do pastor José Wellington da Costa fosse absoluta e ele conquistasse 71% dos votos válidos. 

A animosidade ficou flagrante quando o vencedor, o pastor Costa, fez os protocolares agradecimentos a todos os que participaram da eleição e afirmou que ele e o pastor Túlio não eram adversários, mas irmãos em Cristo, sendo assim, "a amizade e comunhão" permaneceriam após a eleição. A relação fraterna pode até ter continuado, mas o fato é que Túlio Barros Ferreira se desligou não muito tempo depois da convenção que liderou por quatro vezes. 

Na próxima postagem a continuação dos debates e fatos da CGADB de 1999. Aguardem! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1999, ano LXIX, nº 1343, Rio de Janeiro: CPAD

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais - de 1987 a 1997

Está confirmado: na 45ª Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) prevista para abril de 2021, em Cuiabá, Mato Grosso, o pastor José Wellington da Costa Júnior será reconduzido à presidência da instituição, por aclamação. A chapa do atual presidente da CGADB foi a única inscrita no prazo legal. Como não surgiram concorrentes, a aclamação será inevitável.

Desde que o pai do pastor Wellington Júnior chegou ao poder na CGADB, em maio de 1988, já se realizaram 14 Convenções Gerais, sempre com vitória do grupo comandado pelo líder da AD do Ministério de Belém em São Paulo. Portanto, se confirmada a aclamação e posse do pastor Duéliton, serão mais de três décadas de continuidade na CGADB e controle da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), empresa que reforça a linha doutrinária e política do status quo dominante. 

Para melhor compreender a permanência do establishment, é importante, ainda que de forma sucinta, revisitar as convenções anteriores e perceber as transformações ocorridas nessas décadas.

CGADB de 1987 (Salvador/BA): foi a última Convenção Geral com a participação do Ministério de Madureira. Aliás, a década de 1980 foi marcada pela polarização Madureira x Missão. Havia, até então, um acordo firmado para que houvesse alternância entre os dois ramos ministeriais das ADs na presidência da CGADB. Mas alguns pastores insatisfeitos com o Ministério de Madureira articularam uma chapa para quebrar esse pacto. O pastor José Wellington foi eleito vice-presidente nessa convenção e, em maio de 1988, com a morte do então presidente da Convenção Geral, Alcebíades Vasconcelos, assumiu a liderança da CGADB. Começava a "Era José Wellington".

CGADB de 1990 (São Paulo/SP): o pastor José Wellington foi eleito à presidência da instituição assembleiana, derrotando o pastor Luiz Almeida do Nascimento. No interregno convencional, houve a suspensão de Madureira da CGADB, alterando, assim, de vez, a correlação de forças nas disputas internas da entidade. Um fato polêmico também foi a renúncia do pastor Wellington da presidência da CGADB, meses antes do conclave em São Paulo. Na época, foi alegado problemas de saúde, mas, na verdade, foi uma estratégia para driblar o estatuto da Convenção Geral, que não permitia a reeleição. Foi a primeira Convenção Geral informatizada.

CGADB de 1993 (Cuiabá/MT): o pastor da igreja hospedeira, Sebastião Rodrigues de Souza, elegeu-se presidente da Convenção Geral, derrotando, com folga, o jovem Samuel Câmara, após a desistência do pastor José Pimentel de Carvalho da disputa. José Wellington, dessa vez, ficou com a vice-presidência, mas sua influência nas instituições assembleianas foi consolidada com a posse de Ronaldo Rodrigues de Souza, membro da AD no Belenzinho, na direção executiva da CPAD. O controle e êxito da editora, representou o fortalecimento do establishment assembleiano, que nitidamente começava a se desenhar nesse tempo. Segundo o Mensageiro da Paz, a convenção em Cuiabá realçou o "perfil conservador da igreja". Era uma tentativa de colar a imagem de "liberal" na oposição.
Mesa Diretora da CGADB eleita em 1995

CGADB de 1995 (Salvador/BA): segundo o Mensageiro da Paz, foi a convenção do “consenso e concórdia”, onde houve a troca de cadeiras entre os pastores José Wellington (presidência) e Sebastião de Souza (vice-presidência). Sem disputas internas, a chapa encabeçada pelo presidente e vice da antiga Mesa Diretora eleita em Cuiabá foi "apresentada, aceita e aclamada". Geralmente, as manchetes do Mensageiro da Paz são reveladoras do clima de bastidores. Ao enfatizar o "consenso e concórdia", deixa nas entrelinhas o entendimento de que houve muita discórdia e dissenso. Detalhes: para o Conselho Administrativo da CPAD, um dos eleitos foi o pastor José Wellington da Costa Júnior, nome que seria também uma constante no Conselho da Casa Publicadora e a presença de Samuel Câmara na Mesa Diretora. Em pouco tempo ele voltaria a fazer oposição ao líder do Belenzinho.

CGADB de 1997 (Belo Horizonte/MG): pela primeira vez na década, o pastor José Wellington teve um concorrente de peso, o pastor Túlio Barros Ferreira da AD em São Cristóvão/RJ, que também presidiu a entidade por quatro vezes. É interessante notar os nomes de conhecidos na oposição: Ezequiel da Silva, Edgar Machado, Sóstenes Apolo, Francisco Libório e, principalmente, Gilberto Malafaia, que compunham o grupo de apoio ao pastor Túlio. Malafaia, na CGADB de 1987, foi um dos principais articuladores da vitória do grupo onde José Wellington estava inserido. Em BH, uma década depois, lá estava o pastor da AD em Jacarepaguá, na trincheira oposta. O pastor Wellington reelegeu-se com boa margem de votos (65,45%), mas tudo indicava uma crescente movimento de contestação ao establishment.

Esse movimento contestatório cresceria cada vez mais. Assunto para as próximas postagens! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1990, ano LX, nº 1237, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, março de 1993, ano LXIII, nº 1272, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1995, ano LXV, nº 1295, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1997, ano LXVII, nº 1319, Rio de Janeiro: CPAD.