segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A Ceia do Senhor nas Assembleias de Deus - o uso do cálice

"Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, abençoando-o, o partiu e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos" (Mateus 26:26,27).

Nos primórdios a celebração da Ceia do Senhor nas ADs era realizada com um ou mais obreiros partindo o pão e servindo o fruto da videira em cálices coletivos. Interpretava-se literalmente as palavras de Cristo na última ceia: "bebei dele todos". Assim, portanto, todos os participantes do ato litúrgico deveriam tomar do fruto da videira na mesma taça ou cálice.

Porém, em 1931, a AD em Belém do Pará acatou as orientações do dr. Amilcar Carvalho da Silva, médico e membro da igreja para a substituição do cálice comum por cálices individuais. O objetivo era evitar a transmissão de doenças contagiosas muito frequentes na cidade por aqueles dias. É provável, que de imediato a decisão tenha gerado muitas controvérsias, porque era descumprimento da ordem bíblica: "bebei dele todos"

Na CGADB de 1933, no Rio de Janeiro, o missionário Nils Kastberg aconselhou que a ceia deveria ser ministrada somente aos membros batizados por imersão e em plena comunhão com a igreja. Outra orientação foi que a ceia deveria ser oferecida somente nas congregações; salvo algum caso de impedimento por problemas de saúde ou de idade.

Ceia na AD em São Cristóvão/RJ - igreja com cálices individuais

Na CGADB de 1935, em João Pessoa/PB, as controvérsias sobre a instituição do cálice coletivo ou individual foram alvo de debates. Tentou-se estabelecer uma uniformidade na liturgia, mas após muito debates foi resolvido que cada igreja servisse a ceia da forma que achasse conveniente.

É possível que o debate tenha se originado pelo uso do cálice individual nas igrejas do norte do país. Seriam críticas a AD em Belém? É provável, mas anos depois outras igrejas seguiram o exemplo da Igreja-Mãe. Dessa forma, refletindo suas especifidades regionais e ministeriais, a instituição do cálice individual nas ADs brasileiras não foi uniforme no tempo e no espaço.

Na década de 1950, os Ministérios de Madureira/RJ, Belenzinho/SP e do Brás/SP conservavam o cálice coletivo. As ADs em São Cristóvão/RJ, Abreu e Lima/PE e Joinville/SC já usavam taças individuais. Aliás, a AD em Abreu e Lima por essa atitude foi acusada de quebrar a tradição sueca do cálice comum, por parte da AD em Recife, a qual pelo menos, até os anos 80 ainda seguiam a liturgia deixada pelos suecos.

No geral, Brasil afora, as igrejas foram rompendo com parte da antiga (e anti-higiênica) liturgia. Em Governador Valadares, o pai do historiador Jacó Santiago comprou cálices individuais para a congregação que dirigia por volta de 1962. Em Porto Alegre/RS e Criciúma/SC, o uso da taça comum foi abolido por volta da década de 1980. Nessa mesma época na AD do Belenzinho/SP, o pastor José Wellington Bezerra da Costa instituiu o cálice individual; não sem antes fazer com a igreja um cuidadoso estudo bíblico para justificar a mudança.

Mas antes do Belenzinho, as igrejas no interior do estado de São Paulo já usavam o cálice individual e até o fim da década de 1970, o copo coletivo entrou em desuso. O pastor Jesiel Padilha conta que em Corumbá/MS por volta de 1974, a ceia seguia o modelo das congregações paulistas.

Ao que tudo indica, o Ministério de Madureira foi mais resistente às mudanças na ceia. O uso do cálice individual no templo da Rua Carolina Machado só se deu nos anos 90. Na AD em Volta Redonda no sul fluminense, o uso do cálice coletivo ainda se manteve até meados da década de 1990 e no Ministério do Brás/SP até o ano de 2000.

Isso não quer dizer que o que aconteceu em Madureira, Brás ou Volta Redonda tenha sido padrão em todo Ministério. Assim como no Belenzinho, congregações filiadas podem ter se precipitado nas mudanças litúrgicas da ceia. Os assembleianos mais antigos sabem muito bem: certas transformações ou permanências dependem muito do líder da igreja. Para o bem ou mal...

* Com a colaboração de Clayton Guerreiro, Cléia Rocha, Hermes Carvalho, Jessé Silva, Jessé Sadoc, Jesiel Padilha, Josias Santos, Geremias Couto, Onésimo Loureiro, Oséias Balsaretti, Jacó Rodrigues Santiago, João de Souza Filho, Vânio de Oliveira e outros amigos do grupo de WhataApp Memórias das Assembleias de Deus.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. 1º quinzena de novembro de 1935. Rio de Janeiro: CPAD.

NELSON, Samuel. Nels Nelson - O Apóstolo Pentecostal Brasileiro. Rio de Janeiro: CPAD, 2001.

SANTOS, Roberto José. (Org.). Assembleia de Deus em Abreu e Lima - 80 Anos: síntese histórica. Abreu e Lima: FLAMAR, 2008.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Ministério de Perus em São Paulo - origem e expansão

No ano de 1989, o pastor Benjamim Felipe Rodrigues, então líder da Assembleia de Deus - Ministério de Perus, em São Paulo - ficou conhecido nacionalmente por estar no centro das discussões entre a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) e a Convenção Nacional dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus em Madureira e Igrejas Filiadas (CNMEADMIF).

Na época, o pastor Benjamim foi descredenciado pela Mesa Diretora da CGADB, contudo, o Ministério de Madureira resolveu "hipotecar solidariedade" ao aliado, ignorando as determinações da Convenção Geral. Tudo isso dentro de um contexto controverso - como se verá em outra postagem- envolvendo a chamada "jurisdição eclesiástica" e a disputa de poder dentro da própria CGADB.

Localizado na região noroeste da cidade de São Paulo e isolado por um cinturão verde, o distrito de Perus teve na instalação da sua estrada de ferro em 1914, e da Fábrica da Companhia de Cimento Portland Perus em 1926, os principais suportes para o seu desenvolvimento. Em busca de trabalho e oportunidades, migrantes do interior do estado de São Paulo começaram a chegar.

Irmã Rosalina e pastor Benjamim antigos líderes da AD em Perus/SP

Foi justamente entre esses migrantes que a Assembleia de Deus iniciou seus trabalhos em 1947. Em seus primórdios, a congregação era filiada a AD de São Caetano do Sul. Em 1950, junto com a instalação de energia elétrica no bairro, chegou o então evangelista Benjamim Felipe Rodrigues à região para assumir a liderança do núcleo pentecostal.

Paulista de Santa Cruz da Conceição, Benjamim nasceu numa família pobre e desde cedo conheceu o árduo labor. Converteu-se ainda na juventude e posteriormente ingressou na carreira militar, chegando ao posto de Clarim de Ordem ao Comando. Ao deixar os quartéis em 1946, Rodrigues iniciou seu ministério de obreiro e com apenas 28 anos de idades foi enviado a Perus.

Em pouco tempo de trabalho, os frutos começaram a aparecer: em 15 de novembro de 1951, a AD em Perus realizou o batismo em águas de 18 novos convertidos; o primeiro na gestão do jovem evangelista. Em 1952, há o registro da implantação de duas congregações e seis pontos de pregação ao longo da Rodovia Anhanguera, que na época vivia em constantes obras de pavimentação e cercada de acampamentos de trabalhadores. Outras congregações também foram abertas ao longo da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí aumentando o campo de ação do Ministério.

É significativo que, em 1959, a AD em Perus recebeu sua autonomia jurídico-administrativa, possibilitando ao pastor Benjamim alargar ainda mais as fronteiras do Ministério. Em 1964 o campo eclesiástico de Perus contabilizava 31 congregações com mais de 2 mil membros em comunhão. Em paralelo ao trabalho evangelístico, foi criado, em 1956, o departamento de assistência social denominado "Comissão de Socorro".

Com seu estilo militar, senso de disciplina e hierarquia, Benjamim criou 14 regiões para serem supervisionadas por evangelistas da igreja. Ao findar a década de 1960, o Ministério de Perus já tinha se expandido pelas cidades vizinhas: Franco da Rocha, Francisco Morais, Barueri, Mauá, Mairiporã, Pirapora do Bom Jesus, entre outras.

Ao inaugurar o atual templo sede com capacidade para 2 mil pessoas sentadas em 1975, o Ministério contava com mais de 7 mil membros distribuídos entre 53 congregações e 21 salões de cultos em São Paulo (Capital e interior), Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. Portanto, já era um Ministério inter-regional e, como se constatou depois, sempre em expansão.

Em todo esse tempo, a AD em Perus manteve laços fraternos com o Ministério de Madureira. Era autônomo, mas estava filiado a CNMEADMIF e por sua vez a CGADB. Apesar de ser uma ramificação assembleiana expressiva, a liderança de Perus portava-se com discrição dentro da grandiosidade de Madureira.

A polêmica envolvendo Perus, Madureira e a CGADB, hoje se sabe, foi apenas uma desculpa para eliminar rivais incômodos e perpetuar um grupo no poder na Convenção Geral. Mas para ironia da história, Madureira, que em 1989 resolveu "hipotecar solidariedade" ao líder do Ministério de Perus, tempos depois não teve a recíproca esperada. O bispo Samuel Ferreira que o diga...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1952, nº 4, ano XXII.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de abril de 1953, nº 8, ano XXIII.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de agosto de 1964, nº 16, ano 34.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de outubro de 1965, nº 20, ano 35.

Mensageiro da Paz, abril de 1967, nº 7, ano 37.

https://adperus.com.br/institucional/

http://www.spbairros.com.br/perus/

http://documentacao.camara.sp.gov.br/iah/fulltext/justificativa/JPDL0032-2000.pdf  - dados biográficos do pastor Benjamim Filipe Rodrigues.