segunda-feira, 27 de abril de 2020

O "Timoneiro", o "Trovão" e a tempestade (1ª parte)

Quase todos os grandes Ministérios ou igrejas dentro das ADs no Brasil têm um caso de divisão em sua história. Madureira, na década de 1960, perdeu a AD em Anápolis/GO para o pastor Antônio Carneiro. Ainda na mesma época, a AD em Fortaleza/CE viu sua congregação em Bela Vista conseguir sua emancipação por mãos e obra do pastor Luiz Bezerra da Costa.

Porém, uma das rupturas mais traumáticas foi realizada pelo pastor Eliseu Feitosa de Alencar da AD em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul, no ano de 1972. Alencar, que na época dirigia a AD campo-grandense pela segunda vez, causou uma enorme decepção ao seu protetor, o octogenário pastor Cícero Canuto de Lima líder do Ministério do Belenzinho em São Paulo, que caminhava para seus últimos anos de carreira.

Além de conturbada, a perda da filial, ao que tudo indica, teve um contexto de ciúmes ministeriais e disputa pela sucessão de Cícero. A AD no Belenzinho era (e ainda é) o maior Ministério da Missão no Brasil e, na medida que o tempo avançava, pastores de dentro e fora da instituição almejavam suceder o veterano líder assembleiano. Entre os possíveis sucessores estava o pastor Eliseu Alencar.

Cícero, o "Timoneiro" e Eliseu, o "Trovão"

Nascido na pequena cidade de Lábrea, no interior do estado do Amazonas, Eliseu se destacou ao evangelizar tribos indígenas na região na década de 1960. Na CGADB de 1964, em Curitiba/PR, Alencar promoveu uma campanha para doação de roupas para os nativos convertidos
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Foi nessa convenção que o missionário das tribos indígenas em Roraima "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima para esse trabalho, incluindo envio de recursos financeiros" – conta Isael de Araújo, na biografia do pastor José Wellington. Mais do que isso, Eliseu conquistou o coração do velho obreiro.

Cícero o integrou ao Ministério do Belenzinho, onde Eliseu assumiu a AD na Lapa em São Paulo, depois de uma breve passagem por Campo Grande/MS, em 1965. No tempo em que ficou no setor transformou os cultos e a dinâmica do trabalho na região. Nesse tempo, Alencar viajou para a Europa acompanhado do pastor Anselmo Silvestre e Eurico Bergstén. Na Suécia, a imprensa local o chamou de "O Trovão Brasileiro". Na CGADB de 1966, em Santo André/SP, Eliseu foi escolhido para ser o 1º secretário da Mesa Diretora dos trabalhos convencionais.

Como se percebe, o "Trovão Brasileiro" estava em pleno vigor e ascendência ministerial. O carisma do jovem pregador do Amazonas era incontestável e Cícero dava demonstrações de querer prepará-lo para a sua própria sucessão no Belenzinho. Mas, havia desconfianças dentro do ministério e uma bem articulada rede de difamações contra o amazonense.

Segundo Araújo, um grupo de pastores do Belenzinho, incluindo o seu atual presidente, desconfiou das histórias de evangelização entre os indígenas e elaboraram um dossiê contra Eliseu. Cícero não aceitou as acusações, gerando uma forte crise dentro ministério. Vários pastores foram transferidos da capital para o interior. José Wellington, que não era pastor assalariado, ficou um ano sem atividades na igreja.

Havia pedras no caminho para o possível sucessor do pastor Lima. Nomes de peso no Belenzinho se postaram contra Alencar. Talvez as denúncias não tenham sido feitas com desejo de transparência, mas para barrar a visível ascensão do notável pregador. Foi nesse clima, que em 1970, Campo Grande recebeu novamente Eliseu para liderar a próspera igreja.

O contexto dentro do Ministério do Belenzinho, portanto, indicava contínuas hostilidades para os planos de Cícero em relação ao seu protegido. Chamado de "timoneiro" pela liderança assembleiana pela experiência e segurança, o pastor Lima estava prestes a enfrentar uma grande tempestade.

Dois anos depois de assumir a AD campo-grandense, o "Trovão" iniciou a turbulência nos mares do Belenzinho.

Assunto para a próxima postagem!

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Eliete Velloso - das igrejas para os palcos

Ela viveu e conviveu com os principais nomes do movimento musical iniciado na década de 1960, chamado de "Jovem Guarda". Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso foram seus companheiros de apresentações. 

Nascida no dia 2 de junho de 1940, em Deodoro, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Eliete Velloso era de berço evangélico. O pai era da Igreja Congregacional e a mãe, da Assembleia de Deus em Madureira, do pastor Paulo Leivas Macalão. 

O talento foi descoberto precocemente dentro das igrejas. Com oito anos de idade, a menina Eliete já cantava nos cultos e corais. Mesmo no auge da fama, ela sempre que podia, cantava na igreja; sentia-se "mais perto de Deus".

Eliete posando para a Revista do Rádio em 1964

O sonho da moça evangélica era ser professora, mas o Rádio a seduziu. Ao se inscrever nos disputadíssimos programas de calouros que, na época, abriam o caminho para o sucesso e estrelato, ela foi descoberta e encaminhada para uma gravadora CBS, onde foi contratada. Um dos principais sucessos da efêmera carreira da garota de Deodoro foi "Igual a ti não há ninguém", composição também conhecida na voz de Rosemary, outra cantora popular da "Jovem Guarda". 

Entrevistada pela Revista do Rádio, a jovem revelou um pouco da sua moral puritana: não gostava de posar de maiô para as fotos embora tivesse um "corpo perfeito". Entusiasmada com a carreira, que parecia ascendente, Eliete declarou que não casaria tão cedo. Mas no meio artístico nem sempre é fácil permanecer nas paradas de sucesso. 

O momento da Jovem Guarda passou e Eliete não conseguiu mais apoio das gravadoras para seguir sua carreira. Aos repórteres da Revista do Rádio, a jovem cantora declarou não querer casar tão cedo, pois a carreira era seu objetivo máximo. Entretanto, tão logo a carreira de cantora começou a definhar, Eliete se casou e, desiludida, abandonou o meio artístico no fim da década de 1960.

Eliete Velloso Voltei Para Ficar Lp Cid 1990 Estéreo - R$ 28,00 em ...
LP da década de 1990 da cantora Eliete

No começo da década de 1990, houve tentativas de voltar a brilhar. Lançou pela gravadora CID o LP "Voltei para ficar" e apresentou-se em shows com antigos companheiros da Jovem Guarda. Porém, um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em 1995, acabou de vez com os sonhos da cantora. Somente 

Eliete, assim como Ângela Maria e Aracy Cardoso, foi uma cantora que transitou entre o sacro e o profano. Elvis Presley foi também um caso conhecido de artista que agradou crentes e descrentes. Todos deixaram suas marcas e fãs.

Fontes:

Acervo digitalizado da Biblioteca Nacional (Revista do Rádio, edição de 1964) e do Jornal  O Globo.