sexta-feira, 20 de julho de 2018

Maria Marques de Miranda - sinônimo de humildade

Maria de Miranda: destaque no Boletim da EBD da IEADJO em maio de 1982

Recebi através de uma mensagem enviada pelo irmão Mario Sérgio de Santana, a imagem que pode ser vista e lida logo acima. Nela, está contida muito do que poderia e pode ser dito desta mulher como cristã, serva boa e fiel que foi.

Digo isto não por ser minha mãe, mas porque esta afinidade me proporciona condições ideais para reconhecer como fiéis e verdadeiras, as palavras que a ela foram atribuídas no momento da emissão deste certificado, em maio de 1982, na edição do Boletim Informativo da EBD da Assembleia de Deus de Joinville.

Ao receber a postagem do irmão Mario fui desafiado a contribuir com algumas palavras que poderiam ser acrescentadas à imagem e à recordação dessa, que foi sem dúvidas uma das mais atuantes professoras da EBD de Joinville, atribuição que exercia por amor e com muito amor.

No primeiro momento, fiquei com receio de ser repetitivo. Afinal, tudo o que foi dito eu certamente diria. Foi quando pensei em abordar fatos que marcaram a minha vida e a vida de minha família, composta por seu marido (meu pai) Marcílio de Miranda e meus irmãos, Marli Miranda (Pohl), Marlei Miranda, Marlon Miranda e Marcio Miranda.

Todas as vezes que vou falar a respeito de Escola Dominical me vem à mente Maria Marques de Miranda, minha mãe. Sim! Pois, para mim, falar de EBD sem falar de Maria Miranda, seria como falar de missões sem falar de Jesus, pois foi através dela que cada um de nós conheceu o evangelho.

Lembro-me, ainda bem pequenino, de que aos domingos acordávamos muito cedo com o barulho de panelas na cozinha, e quando digo cedo, me refiro em torno das 6 horas da manhã. Levantávamos e lá estava ela, preparando o almoço dominical, aquele especial, com pratos que não desfrutávamos em dias de semana em função da correria.

Além disso, o café matinal já nos esperava e cada um sabia que deveria se arrumar para irmos a EBD que iniciava às 9h. Lembro, que as panelas eram enroladas em vários jornais e em seguida por cobertores especialmente reservados para isso, para assim manter o mais quentinho possível à comida do almoço em família.

Não tínhamos carro, íamos de ônibus para a igreja, especialmente quando morávamos em Curitiba, período em que ela também se dedicou a ensinar na EBD. Todo esse cuidado com a família nunca a impediu de fazer seus estudos para transmitir aos seus alunos e alunas a lição proposta para a classe.

Recordo-me de vê-la todas as noites com o abajur ligado a ler a Bíblia, buscando inspiração para oferecer seu melhor. Estamos falando de uma mulher que não possuía grande estudo formal, mas que era sem dúvida extremamente inteligente e iluminada por Deus na busca pelo conhecer e transmitir a palavra. E esse transmitir sempre passava por sua própria vida antes de nos alcançar.

Maria Marques de Miranda foi sem dúvidas a pessoa mais ética, honesta, sábia e dedicada que já conheci em minha vida. Não me recordo de tê-la ouvido em um só momento reclamando de qualquer coisa que a vida tenha lhe reservado. E sabemos que alguns momentos não foram fáceis, mas o “tudo posso naquele que me fortalece” sempre se fez presente.

Hoje, mesmo diante de tantas facilidades que encontramos em nossas vidas, como transporte coletivo eficiente, carro próprio, táxi, UBER, restaurantes populares, comidas prontas, microondas, almoço “na igreja”, é muito comum ouvirmos de pais e mães: “Não conseguimos ir a EBD, pois precisamos fazer o almoço”, deixando assim de levar seus filhos a EBD para serem “alimentados” com o ensino da palavra.

Por isso, quando falo de EBD não consigo deixar de falar do exemplo de Maria Marques de Miranda. Sou grato por tê-la como minha mãe, pois este foi sem dúvidas o maior e melhor presente que recebi de Deus. Hoje ela não se encontra mais entre nós, está nos braços do Senhor, e se eu tivesse que defini-la com uma só palavra, eu diria: HUMILDADE!

Pois ela foi para mim o melhor exemplo de “humildade” que presenciei até hoje. Afinal, nunca precisou descer de seu lugar, ou subir a um lugar mais alto, para mostrar às pessoas quem ela era.

Ela era uma serva boa e fiel! Ela era Minha Mãe!

Deus seja Louvado por isso!

*Maria Marques Miranda faleceu no dia 27 de dezembro de 2000.

Marcos Marques de Miranda (filho do irmão Marcílio de Miranda, e neto do saudoso pastor Manoel Germano de Miranda, pioneiro na Assembleia de Deus em Santa Catarina).

quinta-feira, 19 de julho de 2018

AD em Maringá - o sonho que virou pesadelo

Nos últimos dias, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Campo Eclesiástico de Maringá (IEADCEMAR) tem sido notícia pelas acusações de improbidade administrativa, dívidas milionárias e comprometimento do patrimônio da denominação na cidade. Cerca de 12 templos da igreja já foram leiloados, membros e obreiros denunciam o que seria o "pior momento da sua história".

Contudo, é preciso voltar ao ano de 2005 para compreender as origens da crise em Maringá. Nesse ano, assumiu a AD local o pastor Robson José Brito, substituindo o veterano pastor João Barbosa de Macedo, o qual estava na liderança da igreja desde 1977. Para seu sucessor, o ex-militar e pioneiro pentecostal no Paraná, escolheu o esposo da sua filha mais nova, Rute.

Jovem, com formação superior, carismático e de excelente oratória, Robson Brito foi professor de cursos preparatórios para vestibular e ex-líder da juventude na igreja. O sogro viu no genro o sucessor ideal e, a contragosto da Convenção paranaense, Robson foi escolhido como o novo pastor da IEADCEMAR.

Afinal, a AD em Maringá era um campo eclesiástico importante e cobiçado; uma potência eclesiástica. Segundo o pastor Osmar Soares, um dos denunciantes da atual situação, a igreja "era o sonho de todo e qualquer pastor", financeiramente sólida e estável.

Seis anos depois (2011) de assumir o campo, Brito realizou algo que há muito desejava: comprou a Rádio Tododia (ex-Catedral). Contudo, para adquirir a estação, o pastor teve que ousar financeiramente e tomou empréstimos volumosos dando como garantia propriedades da igreja. Ao que tudo indica, a má gestão dos recursos fizeram da dívida contraída pela igreja uma verdadeira bola de neve.

Em 2014, a situação financeira da denominação já era assunto na mídia impressa e virtual. A crise foi manchete do jornal O Diário do Norte do Paraná e de constantes matérias na internet do Maringá Post. Na época, informava-se que a dívida chegava a casa dos 17 milhões de reais (atualmente estimada em 23 milhões), valor muito superior ao patrimônio da igreja.


Nesse processo, a IEADCEMAR enfrentou uma cisão no campo de Sarandi. Motivo: o templo da igreja estava empenhorado como garantia do pagamento das dívidas. Para contornar a situação, o pastor Robson permitiu a emancipação de 6 campos eclesiásticos anteriormente ligados à AD em Maringá. A fragmentação o enfraqueceu ainda mais diante dos seus adversários. 

Revoltas devido ao estado de endividamento da instituição, queda brutal das contribuições financeiras, penhora de templos e bens e a iniciativa do pastor Brito em apoiar a candidatura do seu irmão Luciano ao cargo de deputado federal, contrariando as orientações da Convenção Estadual, fizeram da liderança da IEADCEMAR alvo constante de denúncias, cisões, protestos e acusações mútuas. Sobrou até para o Diabo alguma culpa no cartório...

Outro fator agravou a situação: enquanto o pastor Ival Teodoro da Silva era presidente da Convenção das Igrejas Assembleia de Deus no Estado do Paraná (CIEADEP), os problemas ainda eram tratados em seu âmbito local. Aliado do pastor Robson, Ival tentava amenizar a situação. O atual presidente da CIEADEP, o pastor Perci Fontoura, já tem outra postura diante da crise: é nítida agora a "vontade" da Convenção de se envolver no caso.

Diante das negativas do líder da IEADCEMAR, em todas as instâncias (jurídicas e eclesiásticas) de reconhecer a grave crise que assola a igreja, a CIEADEP tem pressionado o pastor Brito a renunciar ao cargo de presidente vitalício da AD em Maringá. Aliás, a vitaliciedade de Robson é outra questão que desagradou a CIEADEP na época de sua posse no campo maringaense.

A pressão dos últimos dias levou Robson a aceitar um afastamento de 30 dias. Não é a renúncia desejada por alguns, mas é uma tentativa de contornar a grave situação. Estuda-se uma possível transferência do pastor de Maringá para outra cidade como forma de sanar a crise de legitimidade do atual presidente.

Em meio a tudo isso, quem sofre mesmo são os membros da igreja. Principalmente os veteranos, os quais veem o sacrifício de muitos pioneiros ser destruído em pouco tempo. Os sonhos de algumas congregações de terem seus novos ou próprios templos já foram desfeitos. 

Nem sempre a vitaliciedade é garantia de permanência eterna na presidência das igrejas. A história mostra, que impérios e governos não resistem por muito tempo diante de crises econômicas, quanto mais igrejas e seus senhores feudais. 

Fontes:

https://maringapost.com.br/

http://www.jmnoticia.com.br/

quinta-feira, 12 de julho de 2018

CONFRADESP - vitaliciedade e estatuto

Nos dias 03 e 04 de julho de 2018, realizou-se mais uma Assembleia Geral Extraordinária da Convenção (AGE) Fraternal Inter-Estadual das Assembleias de Deus do Ministério do Belém em São Paulo (CONFRADESP), presidida desde sua fundação em 1983, pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Uma das novidades da AGE, foi a confirmação da vitaliciedade - o que na prática já existia - do pastor José Wellington na presidência da CONFRADESP. A vitaliciedade, contudo, só é garantida ao seu atual presidente; os demais cargos e o próprio sucessor do pastor Wellington devem ser escolhidos em eleições internas na convenção. Dessa forma, o líder do Ministério do Belém, junta-se ao clube de obreiros assembleianos contemplados oficialmente com o cargo de pastor-presidente vitalício.

Diretoria da CONFRADESP

Outra questão discutida nos bastidores, mas retirada estrategicamente da pauta nas reuniões plenárias, foi a proposta de mudança do estatuto da CONFRADESP, que pretendia dar à Convenção maiores poderes sobre as igrejas filiadas. Seria algo parecido com o modelo da Convenção Nacional do Ministério de Madureira (CONAMAD), cujo estatuto elaborado em 1958, pelo pastor Paulo Macalão dificultava autonomias indesejadas por parte de alguns "rebeldes".

A proposta de mudança estatutária, procura evitar prováveis dificuldades na sucessão do pastor José Wellington. No alto dos seus 84 anos, Wellington prepara seu filho primogênito para sucedê-lo no Ministério do Belém em São Paulo. Ao que tudo indica, no âmbito local, a sucessão e liderança de Duéto não será questionada.

Todavia, o mesmo talvez não aconteça em nível estadual. A CONFRADESP abriga em seus quadros pastores de grandes igrejas no interior paulista. Veteranos, que de maneira alguma vão abrir mão do direito de decidir os rumos das igrejas que presidem e, principalmente, de escolher seus sucessores em família.

Grandes Ministérios vivem o dilema de possuírem sucessores sem carisma suficiente para aglutinar em torno de sua liderança antigos e novos obreiros. Um estatuto que dê mais força aos presidentes das convenções é o caminho para se tentar evitar futuras fragmentações.

Os que conhecem a fundo as Convenções com seus pastores e igrejas afirmam que as cisões serão inevitáveis no futuro. Tanto a CONFRADESP e a CONAMAD convivem com tensões internas só amenizadas pelas figuras emblemáticas de José Wellington e Manoel Ferreira. Porém, os dois cardeais são vitalícios, mas não eternos.

Além do mais, a história recente das duas principais convenções assembleianas mostra que, com ou sem Wellington e Ferreira, algumas igrejas já deram seu grito de independência. As ADs em São José dos Campos, Santo Amaro, São Bernardo do Campo e Perus, todas em São Paulo, são exemplos de cisões turbulentas, mas vitoriosas em seus propósitos.

Paulo Macalão, de Madureira, criou o "Estatuto Padrão" e formou sua Convenção Nacional em 1958. Cícero de Lima por sua vez era contrário à formalização de convenções, preferia somente a organização de Ministérios. A CONFRADESP foi fundada em 1983, após à morte de Cícero com dinâmica diferente da CONAMAD. Agora, por força das circunstâncias, quer ser semelhante a sua congênere.

São as idas e vindas da história...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FIDALGO, Douglas Alves. De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

As Assembleias de Deus fragmentadas do Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro ainda era a Capital da República do Brasil quando, em 1925, o missionário sueco Gunnar Vingren e sua esposa Frida organizaram oficialmente a Assembleia de Deus no bairro de São Cristóvão, Zona Norte da cidade. Conduzida pelos obreiros escandinavos, o trabalho pentecostal expandiu-se por toda a região do antigo Distrito Federal e o estado fluminense.

Ainda na década de 1920, Paulo Leivas Macalão deu início ao seu ministério nos subúrbios do Rio. Não era uma divisão formal, pois Macalão desenvolvia suas atividades evangelísticas em cooperação com os suecos, mas o próprio Vingren havia registrado em seu diário o perfil independente do jovem obreiro.

Em 1941, finalmente, o Ministério de Madureira obteve sua personalidade jurídica. Informalmente, porém, a distinção Missão e Madureira já tinha se imposto nas ADs do Rio, e por conta das circunstâncias, com mais força em São Paulo. O saudoso pastor José Pimentel de Carvalho, em histórica entrevista ao O Assembleiano em 1987, ao comentar sobre a unidade das ADs, declarou estar apenas observando o "fracionamento" que ele considerou "irreversível" iniciado por volta de 1940. Provavelmente, o veterano obreiro relembrava o caso de Madureira.


Templo da AD: Ministérios "fracionados"


As autonomias promovidas pelo pastor Alcebiades Vasconcelos na AD em São Cristóvão em 1959, é dado como o marco inicial da fragmentação no Rio. Na época, Vasconcelos, tentando contornar possíveis cisões na igreja, apresentou um plano de autonomia e emancipou as congregações do Leblon, Lapa, Rio Comprido, Vila Isabel, Tijuca, Todos os Santos, Bonsucesso, Caetés, Olaria, Ilha do Governador, Penha e Cordovil.

De lá para cá, as ADs, não só no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil passaram por transformações que aceleraram o processo de "fracionamento" citado pelo pastor Pimentel de Carvalho. O historiador Maxwell Fajardo conceitua essa dinâmica de "esgarçamento institucional", ou seja, a denominação se fragmenta, sem, contudo, romper com sua base comum.

Marina Corrêa, por sua vez, ao analisar a lógica e organização dos Ministérios compara a multiplicidade de ramificações assembleianas a um sistema de franquia. Afinal, a "marca" Assembleia de Deus é sinal de retorno garantido e ajuda a enfrentar a concorrência no campo religioso brasileiro.

Concorde ou não com os conceitos de fracionamento, esgarçamento ou franquia, a realidade se impõe: segundo O Globo, há 2.819 registros na Receita Federal de igrejas nomeadas Assembleia de Deus com sobrenomes diversos. É o milagre da multiplicação do pequeno núcleo de fiéis da década de 1920.

No olhar do pastor José Wellington Bezerra da Costa, esse modelo de concessão de autonomias no Rio gera igrejas que ficam "patinando para o resto da vida, porque o que seus membros contribuem mal dá para o pastor comer". Assim, a fragmentação teve seu preço: o enfraquecimento institucional das ADs cariocas. Excetuando o Ministério de Madureira, as ramificações geraram igrejas com pouca expressão no contexto da política eclesiástica das ADs.

Não por acaso, que a Convenção Geral nas últimas três décadas tem sido dominada por oligarquias de outras regiões do país, principalmente de São Paulo. Da antiga influência carioca na denominação pentecostal, ficou a sede da CGADB e a CPAD no Rio de Janeiro. Lembranças de tempos áureos dos irmãos cariocas.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

O ASSEMBLEIANO. Joinville ano II nº6 dez 87/jan.88 p.5

O Globo. Domingo, 24 de junho de 2018. disponível em:
https://oglobo.globo.com/rio/igrejas-no-rio-sao-registradas-em-asilo-escritorio-ate-estacionamento-22814658

terça-feira, 19 de junho de 2018

Cícero - o esquecido desbravador das ADs em Mato Grosso

Da sua terra natal, Mossoró, no Rio Grande do Norte, ele sempre carregou o sotaque e a "marca de caráter de um homem que foi formado na luta diária contra a terra árida". Talvez isso explique a firmeza, a segurança e a obstinação do "timoneiro" Cícero Canuto de Lima (1893-1982), saudoso pastor da Assembleia de Deus do Ministério do Belém, São Paulo.

Certos fatos são conhecidos da escassa biografia de Cícero: sua rejeição aos Institutos Bíblicos e a sua controversa sucessão no Belenzinho. Como aconteceu com a maioria dos pastores que não fizeram seu sucessor, o pioneiro pentecostal (juntamente com sua família), praticamente caiu no esquecimento.

Porém, informações da vida e ministério do saudoso pastor aparecem com certo atraso, após três décadas da sua morte. Seu sucessor, o pastor José Wellington Bezerra da Costa (em sua biografia escrita pelo jornalista Isael de Araújo) e o pastor Jesiel Padilha no livro biográfico sobre seu pai, o veterano pastor Carlos Padilha, lançam luzes sobre os feitos e a personalidade de um dos grandes ícones das ADs.

Cícero entre os obreiros do Mato Grosso

Nas duas obras, há relatos do pioneirismo de Cícero em promover esforços na evangelização do Mato Grosso, na época, uma região desprovida de infraestrutura e de acessibilidade. Se Madureira foi pioneira em Goiás, o Ministério do Belém, através do seu líder, desbravou uma região inóspita e carente de recursos materiais.

No final da década de 1940, Lima fez sua primeira viagem ao Mato Grosso. No velho carro usado por ele, além da Bíblia e da "matula" (merenda), o "timoneiro" também levava um "coração cheio de amor pelas almas". Em cada local de parada, um ponto de pregação se formava. Pregadores eram deixados pregando sob a copa das árvores.

Tempos depois, três vezes por ano, Cícero organizava viagens de São Paulo para o Mato Grosso levando recursos e dando posse a obreiros desejosos de trabalhar em locais tão ermos. Todo longo e cansativo percurso era feito de carro em estradas sem asfalto com muita poeira, buracos e travessias em balsas. Detalhe: sem paradas em restaurantes para não gastar. Nas memórias do pastor Carlos Padilha, consta que as excursões eram "regadas à farofa".

Mas para quem andou a pé ou de jumento no árido sertão nordestino, até que o desconforto das longas viagens não eram tão pesadas. José Wellington lembra, que na primeira viagem ao Mato Grosso, Cícero com seu carro velho chegou a Campo Grande e o deixou de presente para a igreja. Voltou a São Paulo de trem e de boas expectativas para a evangelização no Centro-Oeste.

Os primeiros templos das ADs foram erguidos ou comprados pelo Ministério de São Paulo. Contudo, ao contrário de Macalão, que em 1958 organizou juridicamente as igrejas vinculadas a Madureira no famoso Estatuto Padrão, o pastor Lima optou por não fundar uma convenção própria. Padilha afirma, que ele era contra esse tipo de organização. Para o pioneiro, as ADs deveriam ter apenas Ministérios.

Por esse motivo, a iniciativa da AD de Mato Grosso de fundar sua própria convenção foi uma verdadeira "punhalada no coração do velho" - explicou o pastor Costa em suas memórias. E muito mais do que uma "punhalada", foi pior a decisão do pastor Eliseu Feitosa de Alencar de Campo Grande, no atual Mato Grosso do Sul, de romper com o Ministério de Belém em 1972.

Com a destituição do "timoneiro" da presidência do Ministério, as igrejas fora dos limites do Estado de São Paulo puderam organizar suas convenções. O próprio Ministério do Belém, na gestão do pastor José Wellington criou a Confradesp.

Em suma: muda-se o sacerdote, mudam-se as leis - e as realizações - muitas vezes ficam esquecidas...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

Folha de São Paulo, 18 de janeiro de 1982 - Acervo Folha.

domingo, 3 de junho de 2018

Círculo de Oração Masculino na IEADJO - primórdios

O Círculo de Oração feminino é uma das instituições mais respeitadas dentro das Assembleias de Deus no Brasil. Fundado em 1942, pela irmã Albertina Bezerra Barreto, na Assembleia de Deus em Recife, Pernambuco, logo o departamento se espalhou por todo o Brasil.

O Círculo de Oração, sempre foi um importante espaço para as lideranças femininas da denominação. Não por acaso, em muitas igrejas, quem assume o departamento é a esposa do pastor do campo. É necessário, ter sob controle, a estratégica reunião de senhoras, em geral, baluartes da "doutrina" assembleiana.

Em 1986, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO), criou o Círculo de Oração Masculino na gestão do pastor Satyro Loureiro. Na época, Satyro tinha como seu principal auxiliar na congregação do templo sede, o então presbítero e genro, José Paulino Müller, o qual, teria sido um dos principais incentivadores do projeto.

Criado o departamento de oração masculino, foi escolhido o presbítero Paulo Roberto para ser o coordenador geral. Atualmente, todas as congregações possuem o Círculo de Oração para homens, que em muitos casos, ora (em separado numa pequena sala do templo local) e ensaia seus hinos de louvor com as irmãs.

Porém, a história é um conhecimento dinâmico. Novas informações sempre complementam outras e ajudam a enriquecer com detalhes a historiografia. O extinto Boletim Informativo da IEADJO, do mês de setembro de 1982, informava que na congregação do bairro Vila Nova, desde 1981, um Círculo de Oração masculino estava ativo. Na época, o dirigente da igreja era o saudoso irmão Adhemar Pohl.

O assunto foi destaque novamente no Boletim Informativo de novembro de 1982, o qual trouxe uma nova matéria sobre o departamento, anunciando o "pleno funcionamento" de outro Círculo de Oração de varões na congregação do Km 4. Segundo o periódico, o departamento voltado para os homens, era o segundo criado no campo. Na época, o líder da congregação era o diácono Luiz Carlos Müller, irmão de José Paulino Müller, o grande incentivador do Círculo de Oração masculino para a sede e o campo de Joinville.

É a história da IEADJO sendo revisitada. Como qualquer outra Assembleia de Deus, rica em pormenores e com muitas nuances.



Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

O novo templo da IEADJO - as controvérsias

Passados 30 anos da inauguração do atual templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO), a obra já se tornou parte da paisagem de uma das mais movimentadas vias da cidade: a Avenida Getúlio Vargas, 463. Nesse período, o tempo amenizou ou fez esquecer algumas controvérsias e críticas do período da construção da obra. 

Iniciada a edificação do futuro templo em 1985, a IEADJO ficou em suspense em alguns momentos com as limitações físicas do seu pastor-presidente. Satyro Loureiro, durante esse tempo, teve sérios problemas de saúde. No período da construção, o veterano obreiro foi internado e nas conversas reservadas dos obreiros, havia dúvidas se ele conseguiria terminar a construção que iniciou.

O Assembleiano: editado por Judson Canto

O ambiente de incertezas, de campanhas de oração pela restauração da saúde do pastor Loureiro e de sucessão indefinida, deu margens às "profecias" fatalistas, as quais afirmavam que ele não viveria para ver a inauguração do templo. No dia 15 de maio, as previsões pessimistas caíram por terra.

Entretanto, a maior polêmica, foi em relação a utilização do mármore e granito para revestimento externo e do carpete no interior do templo. Para muitos críticos foi um luxo desnecessário, visto que a maioria dos membros da IEADJO era (e ainda é) de origem social humilde e trabalhadora.

Para rebater as incessantes críticas, o próprio Satyro escreveu o editorial do jornal O Assembleiano, na época sob a direção de Judson Canto (atualmente editor do blog O Balido). No texto, o veterano obreiro refutou as murmurações de "pecado" e ostentação à construção de um templo revestido de mármore com tantos pobres existentes na cidade.

Argumentou que, se todo dinheiro da obra fosse distribuído aos pobres, não seria suficiente para resolver os problemas da pobreza. Caso a igreja tivesse feito uma "meia-água", as críticas seriam de incompetência administrativa. Para reforçar as considerações, Satyro bem ao seu estilo, recorreu a uma ilustração: a do burrinho puxado por um velhinho e um garoto. Todos em determinado momento montavam o animal, sem, contudo, agradar ninguém.

Outro ponto abordado pelo pastor: ninguém extorquia ou obrigava os membros a contribuírem com suas ofertas e dízimos. E quanto aos pobres, a igreja, com suas ações sociais, tentava amenizar as necessidades dos mais carentes na medida do possível.

Na verdade, o mármore trazia economia em material e mão-de-obra em pintura. O carpete facilitava a limpeza do templo em seu interior. Era um gasto elevado num primeiro momento, mas a longo prazo seria benéfico para os cofres da igreja.

Assim, entre "profecias", críticas e murmurações, o esperado dia 15 de maio de 1988, entrou para a história da IEADJO. Ficou também para a memória dos presentes o discurso do então governador de Santa Catarina, Pedro Ivo Campos. Em sua prédica, Campos, de improviso afirmou: "o homem não se realiza apenas materialmente. Ele precisa preparar-se para a conquista dos céus".

Conselho bom para muitos líderes políticos e eclesiásticos de ontem e de hoje...

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

O Assembleiano - Edição Especial, 15 de maio de 1988.