quarta-feira, 14 de novembro de 2018

CGADB 1964 - entre o glamour e tensões

Entre os dias 16 a 21 de novembro de 1964, a Assembleia de Deus na cidade de Curitiba recebeu a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). O país vivia os primeiros meses do Regime Militar (1964-1985) e o pastor José Pimentel de Carvalho (1916-2011) estava somente há dois anos na liderança da igreja curitibana.

Silas Daniel, no livro da História da CGADB, destacou que a organização do evento naquele ano havia superado todas as demais até então realizadas. Isso só foi possível com a mobilização de toda a igreja e a formação de comissões e departamentos para receber os obreiros vindos de todo o país.

Além das comissões de relações públicas, hospedagem e tesouraria, a AD curitibana ofereceu aos convencionais lavanderia, departamento de correios e passagens, barbearia, engraxates e local para atendimento médico. O departamento de Assistência Social prestava informações através de alto-falantes instalados para essa finalidade.

Panorama de um dos cultos da CGADB de 1964 em Curitiba

O cuidado das flores e sua renovação ficou a cargo de algumas irmãs destacadas para tal serviço. Cartazes com citações bíblicas ficaram sob a responsabilidade dos jovens. Outro detalhe revelador do cuidado da igreja hospedeira com os visitantes: o tradicional cafezinho e chimarrão foram servidos a todo momento para animar as conversas dos nobres ministros evangélicos.

Para atender e acomodar os mais de 400 pastores e evangelistas, a igreja construiu um novo refeitório e ampliou a cozinha do templo central. A capacidade de acomodação do templo também foi ampliada com a construção de uma galeria e a antiga residência do pastor foi liberada para dormitório com a edificação de uma nova casa pastoral.

Deve ter sido um alívio para muitos convencionais as obras feitas em Curitiba. Afinal, as convenções precedentes eram caracterizadas pela extrema simplicidade de suas acomodações. Na primeira CGADB ocorrida em Natal, no Rio Grande do Norte, os pastores ficaram acomodados em "situações precárias, devido às dificuldades vivenciadas pela capital potiguar naquela época" - informa Silas Daniel em seu livro.

Na biografia do pastor Carlos Padilha consta que praticamente nas Convenções Gerais anteriores "ninguém ficava hospedado em hotel", mas em casas de conhecidos ou dormiam nos bancos da própria igreja hospedeira, "inclusive alguns membros da mesa diretora". Maior conforto era destinado ao presidente da CGADB, o qual era acomodado na casa do pastor-presidente da igreja local.

A organização e as homenagens com direito a desfile das bandeiras estaduais, declamações, coral e hino de saudação aos obreiros de todo o Brasil, emocionaram os pastores. A CGADB em Curitiba foi considerada um marco e exemplo para as convenções futuras.

Mas, em contraste com toda a beleza do evento, os bastidores foram problemáticos. As tensões ministeriais no Ceará, Brasília e Campina Grande, na Paraíba, estavam no auge. Do começo ao fim das reuniões plenárias, as discussões foram acaloradas e até o pastor Paulo Macalão teve seus momentos de impaciência.

Com o tempo, as Convenções Gerais ficaram cada vez mais grandiosas e caras; e os arranjos políticos e eclesiásticos, complexos e tensos. De um lado, o glamour das celebrações e homenagens; do outro, os inconfessáveis interesses de bastidores.

Na cobertura midiática dos eventos, os jornalistas da CPAD desdobravam-se para narrar de forma conciliadora o inconciliável. Basta ver as matérias do Mensageiro da Paz...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

Revista A Seara - março/abril de 1965, nº 43 - Rio de Janeiro: CPAD.

sábado, 3 de novembro de 2018

O general Macalão, positivismo e o Ministério de Madureira

No livro Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Zélia Brito conta da chamada ministerial do pastor Paulo e da constante resistência do pai do líder de Madureira, o General João Maria Macalão em aceitar a mudança de planos do filho. O caçula da família gaúcha, deveria, conforme a vontade do seu genitor, seguir a carreira militar.

Segundo Zélia, enquanto o jovem Paulo ainda estava no processo de conhecimento do evangelho, o General João Maria o confrontava com os livros de Darwin. Esse tipo de enfrentamento era típica para um militar de origem positivista, formado na Escola Militar do Rio Grande do Sul nos últimos anos do Império Brasileiro e no período da implantação da República.

O positivismo, corrente filosófica francesa que teve início no começo do século XIX, defendia o conhecimento científico como única forma de saber verdadeiro. Todas as outras formas do conhecimento humano não comprovadas cientificamente eram consideradas crendices e vãs superstições.

No Rio Grande do Sul, o positivismo tinha um grande farol: Júlio de Castilhos (1860-1903), político e antigo governador do Estado. Castilhos tinha como meio de divulgação dos ideais positivistas A Federação, o "alcorão partidário" dos republicanos gaúchos, do qual João Maria era assinante. E é através do jornal, que as afinidades do pai do pastor Paulo com os políticos e militares positivistas podem ser percebidas.

Fragmento A Federação de 1893

Macalão lutou na Revolução Federalista ao lado do então governador Júlio de Castilhos. O conflito, uma verdadeira guerra civil, foi marcado por disputas sangrentas e degolas. Na época, A Federação noticiou detalhes da primeira vitória dos legalistas em maio de 1893, junto ao arroio Inhanduí, em Alegrete, município sul-rio-grandense. O desempenho do tenente João Maria (e de outros oficiais) é descrito em linguagem heroica. Segundo o "alcorão partidário", o tenente Macalão dirigiu a artilharia contra os inimigos com "indômita coragem e sangue frio".

Anos depois, em 1907, João Maria participou de um almoço com importantes líderes políticos e militares gaúchos em consideração ao general Salvador Pinheiro Machado. Entre discursos e felicitações feitas em homenagem a célebres políticos, "o devotado republicano, ilustre capitão João Maria Macalão" teve a honra de brindar ao "imortal Floriano Peixoto", mais conhecido na história como "Marechal de Ferro".

Pôde-se averiguar em tudo isso, que o futuro general galgava postos e respeito num ambiente de grandes líderes positivistas. Posteriormente, participou da Revolução de 1930, no mesmo ano em que seu filho caçula era separado ao pastorado por Lewi Pethrus, no Rio de Janeiro. Possivelmente, na casa do jovem Paulo, muitas discussões giravam sobre o futuro da República brasileira.

Uma das principais características do positivismo na esfera política, era a defesa de um governo forte e centralizador, capaz de modernizar a sociedade e educar os cidadãos. Isso poderia se dar com ou sem democracia. A Era Vargas (1930-1945) reproduziu a filosofia defendida por Castilhos, ao enfraquecer o legislativo, as oligarquias estaduais e monopolizar no executivo as principais ações para o desenvolvimento da nação.

É dentro desse contexto, de transformações políticas e sociais e de muita proximidade com o poder que o jovem obreiro Paulo Leivas inicia seu ministério. Ao longo dos anos, o Ministério de Madureira vai absorver as mesmas características políticas do seu tempo: a centralização.

É nesse contexto, como bem observou o sociólogo Gedeon Alencar, que as ADs vão construir seu modelo ministerial. Macalão segue essa linha intensamente e vai ser criticado por isso, e chamado ironicamente de "papa". E o gigantismo de seu Ministério e expansão vai ser a razão de intensos debates na Convenção Geral.

Fragmento do A Noite de 07 de agosto de 1933

Mas, voltando ao general João Maria, tudo indica que ao final da vida o militar se rendeu ao evangelho. Quando o inaugurou no dia 1º de janeiro o templo da AD em Bangu, o general parabenizou-o, levando o pastor Paulo as lágrimas. Meses depois, no dia 06 de agosto de 1933, aos 66 anos de idade, o general João Maria Macalão faleceu. Suas últimas palavras teriam sido; "Deus escreve direito por linhas tortas".

Dos três filhos, Fernando, o mais velho, tornou-se diretor de uma grande empresa do Rio de Janeiro; Maria teve um casamento respeitável; e Paulo, que deveria ser militar, aventurou-se em ser soldado de Cristo. Linda história!

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

SILVA, André Luiz. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

NETO, Lira. Getúlio : dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), São Paulo : Companhia das Letras, 2012.

A Federação - Órgão do Partido Republicano disponível em http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

O site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro o acesso é gratuito e o sistema de buscas é prático.

domingo, 14 de outubro de 2018

João Maria Macalão - o general revolucionário

Um traço da vida e obra do fundador do Ministério de Madureira, Paulo Leivas Macalão (1903-1982) é sua origem social abastada, numa época em que o pentecostalismo estava identificado com as classes sociais mais humildes e desprezadas pelo poder público.

Macalão nasceu em Santana do Livramento, município do Rio Grande do Sul fronteiriço com o Uruguai, quando seu pai João Maria Macalão, na época capitão do Exército Brasileiro, servia no 7º Regimento de Cavalaria (RC) da região. A mãe, Georgina Leivas Macalão, era uma jovem conhecida dos círculos sociais mais abastados de Pelotas, "onde a todos encantava com a virtuosidade do piano".

João e Maria casaram-se em Pelotas e tiveram três filhos: Fernando, Maria Isidora e Paulo. Os nomes dos rebentos foram escolhidos para homenagear santos católicos. No caso de Paulo, a história mostrou que o nome foi apropriado e profético, pois assim como Paulo, o Apóstolo dos gentios, o caçula da família se destacou na evangelização de muitos povos.

Infelizmente, o menino Paulo cedo perdeu a mãe. Georgina, doente e depressiva, faleceu quando seu caçula tinha apenas 5 anos de idade. O pai então, na impossibilidade de cuidar dos filhos ainda pequenos, resolveu enviá-los ao Rio de Janeiro para ficarem aos cuidados de um tio materno. A transferência das crianças gaúchas deve ter se dado por volta de 1908.

Longe dos filhos no Rio Grande do Sul, João Maria foi promovido de capitão a major "por merecimento" em março de 1911. Zélia Brito, no livro Traços da vida de Paulo Leivas Macalão comenta que seu esposo relembrava das constantes lutas e perseguições do pai a contrabandistas na região de Santana do Livramento.

O Paiz, de 21 de março de 1913

De fato, os jornais da época relatam que em abril de 1912, o major Macalão liderando "uma força de 50 praças" se juntou a outros soldados para perseguir cerca de 200 contrabandistas perigosos e bem armados. Pelo bom trabalho do major, o Ministro da Fazenda sugeriu ao Ministro da Guerra elogios ao oficial (e sua tropa) por se portar "briosamente" em combate.

Em 1913, João foi transferido do 7º RC de Livramento para o 1º RC em Itaqui. A transferência de Macalão causou "ótima impressão", pois segundo o jornal O Paiz, João Maria era um "oficial inteligente e de notável preparo profissional". Por suas qualidades e competência, em 1914, foi condecorado por seus trabalhos e, em 1916, foi promovido a tenente-coronel.

Zélia informa, ainda, que João Maria anos depois voltou ao Rio para "comandar o Batalhão de Guardas" no bairro de São Cristóvão. A residência escolhida pelo militar junto à Intendência da Guerra em São Cristóvão era muito próxima da casa da família Brito, local de cultos e orações frequentados por Paulo Leivas em seu processo de conversão.

Diário Carioca, 12 de novembro de 1930

Morando na antiga Capital da República, João Maria foi participante da Revolução de 1930, e da ascensão do conterrâneo Getúlio Vargas ao poder. Tanto que a imprensa da época registrou a participação (e o preparo) do "General" Macalão no "Churrasco da Vitória", onde um "grupo seleto de gaúchos antigos devotados à causa revolucionária" promoveu um encontro festivo na casa de um famoso jornalista. Os militares "devotados à causa revolucionária" também poderiam ser chamados de conspiradores, mas como o movimento de 30 terminou vitorioso, a narrativa histórica lhes foi favorável.

Tempos depois, em fevereiro de 1932, o revolucionário João Maria foi reformado (aposentado). Segundo o regulamento do Exército, ao passar para a reserva, o oficial recebe automaticamente uma promoção. Assim de coronel, Macalão foi promovido a General de Brigada.

JB, 20 de fevereiro de 1932
É possível que o coronel revolucionário, por seu trânsito entre os mais graduados militares, já fosse chamado de general não oficialmente. Afinal, seria o generalato a próxima e previsível promoção do militar gaúcho. Na notícia do "Churrasco da Vitória" ele também é intitulado de general.

Enquanto João Maria vivia momentos históricos no Batalhão da Guarda, suas atenções também se voltavam para o filho caçula. Paulo, que deveria seguir carreira militar, cada vez mais estava voltado para outras causas. Da estranha seita evangélica próxima à sua casa em São Cristóvão, o jovem agora se embrenhava pelos subúrbios do Rio. Mal sabia ele, que o caçula da família faria história.

Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

Os demais fragmentos dos jornais Diário Carioca, O Paiz, Jornal do Brasil e outros, foram acessados no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O acesso é gratuito e o sistema de buscas é prático. 

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Versões da história das ADs - contradições

O objetivo dessa postagem é comparar algumas narrativas assembleianas com documentos, pesquisas e informações disponíveis, os quais, servem de contraponto à dita "História Oficial" das Assembleias de Deus. Existe, na história e em sua narrativa, na grande maioria das vezes, uma enorme distância entre o fato e a versão dele. As versões da história eclesiástica, em geral, têm o objetivo de edificar os crentes e apontar exemplos a serem seguidos.

Como escreveu o pastor e poeta Joanyr de Oliveira, a "historiografia oficial, seja religiosa, seja política, é sempre míope em avançado grau - quando não ostensivamente estrábica, em boa parte não é senão uma grande farsa. Quantos pseudos santos e heróis nos forja, sem o mínimo pudor... Sim, a história dos vencedores - a que prevalece - é sempre tendenciosa, desonesta". Então vamos a algumas versões e contradições da história.


CGADB de 1930: clima de tensão nas ADs

"Não havia nenhuma intenção dos obreiros nacionais em dividir o Movimento Pentecostal. Eles desejavam mais autonomia, e instaram para que não fossem mal compreendidos e para que a obra no Brasil continuasse unida." (Silas Daniel no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 2004)

Não é o que dá a entender a carta enviada pelos pastores brasileiros ao sueco Lewi Pethrus datada de 21 de abril de 1931. Na carta, eles reclamam da postura de Frida Vingren como redatora do Mensageiro da Paz e em determinado ponto do texto, os pioneiros avisam: "é certo é, se continuar como está, haverá um levante, talvez de um caráter mais melindroso do que o primeiro." O que se pode deduzir da missiva é que se os obreiros nativos não demonstraram a intenção de dividir a denominação, algo próximo disso estava para acontecer.



Frida: ia "além do prudente e útil"

"A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil, naqueles momentos; porém, depois, reconhecendo isto, lamentava que tal sucedesse." (Samuel Nyström no Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de 1941)

O texto em que Nyström relata a morte de Frida Vingren é emblemático. Hoje, sabemos pelas pesquisas históricas que ele foi forte opositor do ministério feminino. Articulou-se com os pastores brasileiros para impedir o projeto de igreja do casal Vingren no Rio de Janeiro. Ao escrever sobre a sua conterrânea, Samuel reconhece seus talentos, capacidade, cultura, zelo e dedicação da missionária. Porém, Frida, em sua "impetuosidade", ia além do que "era prudente e útil", ou seja, não se enquadrava no ideal de mulher crente por eles defendido. Seria mais "prudente e útil" ela ter sido uma "Amélia" assembleiana: boa, recatada e do lar.



AD em SP antes das "circustâncias" impostas

"A partir de 1938 as circunstâncias impuseram a existência de Assembleias de Deus independentes, com orientação e responsabilidades próprias." (Emílio Conde no livro História das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 1961)

Foi o "apóstolo da imprensa pentecostal brasileira", Emílio Conde, o autor desse eufemismo usado para justificar a existência de dois Ministérios da AD na Pauliceia. A tal "circunstância" foi que Paulo Macalão resolveu abrir uma congregação ligada ao Ministério de Madureira. Conta-se que Macalão teve uma "visão" onde contemplou um salão com uma placa de aluguel. Convocou então seu cunhado Sylvio Brito para ser o dirigente da nova filial. Porém, Brito era o pastor da AD fundada pela Missão Sueca em 1927. Pode-se imaginar o desconforto entre as lideranças pela iniciativa. Era Madureira fincando seus tentáculos na grande metrópole paulista...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Ministério de Madureira - O Império contra-ataca

*Por André Silva

No dia 2 de junho de 1993, numa sexta-feira, a Assembleia de Deus em Bangu (RJ), transformou o culto em Assembleia Geral Extraordinária (AGE). Membros e ministros do campo foram surpreendidos, quando o pastor Ades Antonio dos Santos, presidente da igreja, anunciou que a partir daquela data a igreja estaria se desligando da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil - Ministério de Madureira (CONAMAD) e se vinculando a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). 

Na mesma noite, o pastor Ades informou sobre “uma suposta perseguição” do pastor Manoel Ferreira, que tentava persuadi-lo a jubilar-se fora da data estabelecida pela igreja e, juntamente com a liderança de Madureira, tentava intimidá-lo para deixar a presidência de Bangu. 

O pastor Ades dos Santos chegou a procurar a 34ª Delegacia Policial, em Bangu, para prestar queixa contra o “Pr. Dr. Manoel Ferreira” (hoje Bispo Primaz) sobre o crime de perseguição, atentado contra sua vida e família. Declarou ainda em depoimento ter sofrido ameaças, agressões e até tentativa de sequestro. O assunto foi palco de reportagem do jornal carioca O Dia, diário de grande circulação da cidade do Rio de Janeiro.

Pressionado, Ades solicitou o apoio do pastor presbiteriano Caio Fábio D’Araújo Filho, fundador e presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). A AEVB era, na época, rival do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB), fundado por Ferreira em 1993. Caio Fábio declarou-se jubiloso com a atitude do ministério em Bangu e prestou toda solidariedade ao pastor Ades, a fim de que os ministros filiassem a AEVB. Em um vídeo na Internet, Caio Fábio confirma os acontecimentos com o pastor Ades Antonio dos Santos e o pastor Manoel Ferreira.

AD em Bangu e pastor Ades

Persuadidos de que nada os impediria mudar o regime jurídico da igreja, o “golpe” foi oficializado em 6 de junho, com a leitura do estatuto separatista na igreja e o anúncio da criação da Convenção de Igrejas Assembleias de Deus na Zona Oeste (CIADEZO). Tal fato causou surpresa, tristeza e choro em Bangu.

Nessa reunião, Caio Fábio, presidente da AEVB, enviou seu representante, o pastor da Igreja Congregacional do Brasil, Marcos Batista. A finalidade específica do encontro, foi para que todos os ministros do campo da Assembleia de Deus em Bangu participassem das decisões recentemente tomadas. Nessa noite, foi anunciada a vinculação a CGADB. 

Dezenas de obreiros do campo estavam reunidos para a decisão tomada. Ali também estava, o pastor Gilberto Malafaia como representante da CGADB, expressando ao Ministério as vantagens da filiação a CGADB.

No dia 21 de junho, na CPAD, membros da CGADB hipotecaram solidariedade ao pastor Ades. Na ocasião, o pastor Sebastião Rodrigues de Souza, na época, presidente da Convenção e seu primeiro vice-presidente, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, reconheceram oficialmente a recém-criada CIADEZO. Foi comunicado também ao pastor Ades dos Santos que ele e seus ministros já poderiam participar com voz e votos na Assembleia Geral Ordinária da CGADB a realizar-se na 2ª quinzena de janeiro de 1995.

Em 22 de junho de 1994, uma nova AGE foi realizada para efetuar mudanças no nome da Convenção criada para associar igrejas, mas apenas ministros. O nome anterior, CIADEZO, poderia gerar dúvidas sobre jurisdição. A CEADER e a CONFRADERJ não viam com bons olhos o nascimento de mais uma convenção carioca ligada a CGADB, sem contar outras de caráter regional originárias de outros estados, a exemplo da CADEESO e da CIEADESPEL.

O pastor Gilberto Malafaia, como porta voz da Convenção Geral, sugeriu que fosse mudado o nome de CIADEZO para Convenção de Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus da Zona Oeste (COMADEZO). Para garantir a legalidade da instituição, o registro foi feito no dia 19 de julho de 1994, sob o CNPJ 00.148.848/0001-62, na Rua Ribeiro de Andrade, nº 65, no templo antigo em Bangu, considerada igreja mãe de outras que a seguiram, da mesma ordem da AD em Bangu.

Decidido e aconselhado por alguns obreiros da diretoria, o pastor Ades continuava convencido de que nada o impediria mudar o regime jurídico da igreja, filiando-se diretamente à CGADB. Durante o curso desse tempo, em várias reuniões, foi sugerido a procura de um jurista de renome para examinar se era possível definitivamente desligar-se da CONAMAD. Foram apresentados ao jurista todos os estatutos: o de Bangu e o da CONAMAD. Pedido 15 dias para o estudo da matéria e posterior resposta, veio a negativa – o advogado afirmara que não havia como se separar do Ministério de Madureira.

Nova tentativa sobre o assunto foi consultar o pastor e advogado Luis Francisco Fontes. O pastor Fontes tinha sido presidente da AD em Madureira, mas não permaneceu muito tempo no cargo, em virtude de uma manobra do pastor Manoel Ferreira que o tirou da presidência. O grupo saiu da audiência com o pastor Luis Fontes tarde da noite com a resposta: “Nada feito, se vocês quiserem separar-se poderão fazê-lo; basta que hajam como eu agi. Procurem um galpão e ocupem!” – aconselhou o pastor Luis Fontes.

Uma comissão de pastores de Madureira, juntamente com Manoel Ferreira, compareceram em uma das reuniões em Bangu esclarecendo que a criação da COMADEZO foi a ousadia de “mergulhar de cabeça em águas turvas na imprudência”. Ferreira não perdeu tempo: providenciou medidas com base no “Estatuto Padrão” elaborado pelo pastor Paulo Leivas Macalão. O documento era a garantia da impossibilidade de uma igreja filiada a Madureira separar-se totalmente do Ministério.

Vários obreiros e ministros da AD em Bangu, demostravam insatisfação ao regime de ingerência nos negócios da igreja e a ideia do vínculo patrimonial do campo de Bangu com a CONAMAD, e ficaram revoltados com a atitude do Ministério de Madureira de retirar da igreja o seu presidente.

A reunião tornou-se então tumultuada com troca de acusações e tentativas de agressões. Ferreira teve que pedir calma ao colegiado de ministros. Alguns em forma de gritos de ordem ou em cartazes, entoavam: “Fora Madureira”, protestando contra o autoritarismo do Ministério de Madureira em Bangu. Alguns obreiros, inclusive precisaram ser contidos por outros para evitar uma sequência de agressões. Os ânimos de alguns se alteraram, criando um tumulto e o pastor Manoel Ferreira foi agredido e jogado ao chão.

Na ocasião, pastores de Madureira estavam armados, sendo que a polêmica revoltou a todos e houve perplexidade entre os membros. A Polícia foi chamada para acalmar os ânimos. O problema, segundo os envolvidos, seria a permanência do pastor Ades à frente da igreja, o que seria contra a vontade da cúpula de Madureira. 

O pastor Manoel Ferreira, presidente do Ministério de Madureira, obrigou-se a ignorar quaisquer acordos que pudessem haver entre as partes, e o resultado foi parar na 2ª Vara Cível em Bangu, numa ação de manutenção e posse de ambas as partes. O pastor Ades entrou com uma ação preventiva para assegurar o direito de posse da Igreja em Bangu. Já Madureira buscou recuperar a posse legítima de seu imóvel como rege o “Estatuto Padrão”.

Nos dias 8 e 9 de julho, a recém criada COMADEZO, promoveu o I Congresso em clima de sessão convencional com as modificações decorrentes da saída da AD em Bangu da CONAMAD. Autonomias foram dadas a 23 igrejas e o posicionamento dos favoráveis foram defendidos em favor da CGADB. Com o objetivo de estimular o crescimento da Convenção, a mesa diretora criada examinou a relação de novos ministros evangélicos, apresentados pela igreja matriz e suas congregações, bem como os demais obreiros oriundos das novas igrejas emancipadas no dia 9 de julho, consagrando 55 evangelistas e 29 pastores.

Pressionado pela ação jurídica de manutenção e posse, o pastor Ades Antonio dos Santos não resistiu e acabou cedendo, entregando definitivamente a presidência da AD em Bangu ao pastor Manoel Ferreira, presidente da CONAMAD. Ferreira, no dia 2 de outubro, tomou posse como presidente do campo da Assembleia de Deus em Bangu, depois que o pastor Ades ter aceito se jubilar incondicionalmente.

E no dia 04 de outubro de 1994, o pastor Ades foi apresentar-se juntamente com a sua esposa ao plenário convencional e a Mesa Diretora, na AD em Madureira, com um pedido de reintegração, onde teve que se retratarem pessoalmente com o pastor Manoel Ferreira; só então foi reintegrado ao quadro de ministros da CONAMAD e teve sua jubilação garantida. 

Já no dia 7 de outubro de 1994, tomavam posse como interventores na presidência do campo da AD em Bangu, por determinação e procuração do presidente da CONAMAD, os pastores: David Cabral (presidente), Gedeir Ricardo da Silva (vice-presidente) e mais pastores como auxiliares: Antonio Paulo Antunes (Tuninho), Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes Abreu. E no dia 10 de outubro, o juiz da 2ª Vara Cível em Bangu homologou o acordo entre Madureira e Bangu, passando a direção da AD em Bangu e todo seu campo para a CONAMAD.

A Junta Interventora da CONAMAD, entendeu então, que o pastor Ades estava sendo objeto de manobras por partes de ministros interessados na divisão da igreja. Segundo a Junta Interventora, os mesmos participavam de reuniões na igreja em Madureira e levavam informações distorcidas para Bangu. Em reunião fechada, os membros da Junta Interventora fizeram audiências com alguns ministros de oposição, que tentaram justificar suas atitudes. Quatro pastores e dois evangelistas, classificados como mentores diretos da “COMADEZO”, tiveram suas atitudes consideradas desrespeitosas e ofensivas a CONAMAD.

No dia em 30 de novembro de 1994, a Junta Administrativa da CONAMAD, constituída pelos pastores Davi Cabral, Presidente; Gedeir Ricardo, Antonio Antunes de Paula, Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes de Abreu, empossou o pastor Neuton Pereira Abreu, procedente da cidade de Gurupi (TO) e presidente da Convenção Regional de Tocantins como o novo presidente do Campo de Bangu. A Assembleia foi presidida pelo pastor Davi Cabral, presidente da Junta Administrativa e o ato de posse conduzido pelo pastor Gedeir Ricardo da Silva, também membro da Junta. Estiveram prestigiando a Assembleia, os pastores Eduardo Sampaio de Oliveira (DF), Napoleão Quintão (RJ), Graciliano Gomes (RJ), Hamilton Santos (RJ), Leocádio Brás (RJ), José Pedro Teixeira (RJ) e João Arnaldo (RJ). 

Dissolvida os atos COMADEZO, a liderança do Ministério de Madureira retirou as autonomias das igrejas emancipadas, que retornaram à condição de congregação. Obreiros foram destituídos dos seus cargos e as ordenações não foram reconhecidas pela CONAMAD. Além das divergências e cismas, um grande número de ministros e obreiros descontentes com a postura de Madureira, saíram da igreja sem intenção de voltar. 

Foi o caso do evangelista Rubens Jorge Seabra de Aquino, que dirigia um trabalho de consagração às quintas-feiras e vigílias bem fervorosas; seu ministério era marcado pela Palavra pregada com sinais notórios do poder de Deus e com um grupo dissidentes que se desvincularam da Igreja em Bangu, fundaram na localidade, a “Igreja Apostólica Assembleia de Deus Ministério Creia”, que começou a ganhar força e com o passar dos tempos tornou-se uma potência evangelística.

Alguns pastores entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio devido ao compromisso de fidelidade com a CONAMAD, a fim de não participarem de qualquer tipo de rebelião ou tumulto. Outros pastores acabaram brigando com a respeito das destituições de ordenações e autonomias de suas igrejas. Com sérias oposições, a igreja se dividiu em vários grupos, filiais e congregações da AD em Bangu se desligaram do campo e do Ministério de Madureira. 

A briga judicial pela reintegração de posse dos templos iria, se arrastar por anos. Com isto, a igreja em Bangu perdeu o seu direito de propriedade das igrejas em: Estrada da Posse (Santíssimo), Jardim Novo Realengo, Malvinas (Vila Kennedy), Padre Miguel, Chaperó (Itaguaí), Praia do Anil (Magé) e outras,s cuja filiação é desconhecida, mas acabaram se transformando em raízes de outros ministérios com seus membros, obreiros, ministros, e muitos deles se vincularam a CGADB. 

No final de 1994, a CONAMAD analisando os pedidos de emancipação, concedeu definitivamente autonomia administrativa as igrejas em Canrobert da Costa, Coqueiros, Olímpia Esteves, Rio da Prata, Terra Brasil, Vila Aliança, Vila Vintém e Santíssimo, passando à categoria de igrejas matrizes vinculadas ao Ministério de Madureira e filiada diretamente a AD em Bangu, cujo pastor dirigente estaria naquele ato intitulado “pastor presidente” e subordinado ao campo de Bangu.

Com o decorrer do tempo, alguns ministros da AD em Bangu, taxados de “inimigos de Madureira”, idealizadores da “COMADEZO”, os mesmos que promoveram rebelião, insultos, tumultos, questionando a liderança da CONAMAD, eram vistos em eventos na igreja em Madureira, ao lado do pastor Manoel Ferreira. Se eram para conseguir regalias no Ministério de Madureira, por certo receberam prestígios e cargos de pastor presidente; talvez como uma forma de “calarem a boca”. 

Porém, os pastores que entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio, acabaram no anonimato, alguns idosos fragilizados com a saúde precária, abandonados em seus lares sem receberem visitas; e outros foram deixados à sua própria sorte, sem visita, sem assistência, sem direito a uma prebenda ministerial. A única coisa que lhes foi oferecida era a isenção da anuidade da CONAMAD, porque assim seria mais fácil jogar a questão debaixo do tapete. 

Alguns tiveram que lutar por uma ajuda financeira. Mesmo assim, sofreram por se sentirem esquecidos. Outros humildemente preferiram o silêncio e compartilhar algumas fotos da época que suas vidas eram marcadas e comprometidas com o Reino e a fidelidade nas AD do Ministério de Madureira.

*O pastor ANDRÉ SILVA ex-ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

Fontes:

Folha Cristã, nº 38 – junho/julho 1994

Folha Cristã, nº 40 –novembro/dezembro 1994

O Semeador, nº 290 – dezembro/1994 - página 4

Relatório da Junta Interventora da AD em Bangu, datado em 26/10/1994

Entrevistas com os pastores da AD Bangu, RJ que participaram das reuniões da COMADEZO

Ata da Assembleia de Deus em Bangu/ano 1993 e 1994.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Gunnar, Frida e Nyström - tempos conturbados

O missionário Gunnar Vingren, juntamente com seu companheiro Daniel Berg chegaram ao Brasil, especificamente em Belém do Pará, no dia 19 de novembro de 1910. Sete meses depois, no dia 18 de junho de 1911, os suecos iniciaram o trabalho da Missão da Fé Apostólica, depois modificado para Assembleia de Deus (AD).

A história é conhecida: a igreja formada apenas por alguns membros excluídos da Igreja Batista em Belém, sob a liderança de Vingren e Berg cresce e se expande por todo o país. Paralelamente, o apoio da Igreja Filadélfia, em Estocolmo foi fundamental. Lewi Pethrus, amigo de infância de Daniel Berg e grande líder do movimento pentecostal na Suécia, enviou missionários ao Brasil para consolidar a grande obra de evangelização. Entre eles, o casal Samuel e Lina Nyström.

Família Vingren: o amargo regresso em 1932

Os Nyström chegaram ao Brasil em agosto de 1916. Samuel era um obreiro de extrema competência e foi pioneiro na abertura de vários trabalhos na região norte. No ano seguinte, chegou ao país a missionária Frida Strandberg, para se casar com Gunnar Vingren. O casamento foi realizado em Belém pelo próprio Nyström, no dia 16 de outubro de 1917.

Com as contantes enfermidades de Gunnar, Frida desponta na liderança do trabalho na região. Em 1919, foi criado o jornal Boa Semente, e a senhora Vingren assumiu o jornal como sua principal redatora. Nesse tempo, as tensões entre Frida e Samuel se agravam ao ponto de Nyström, sempre que possível, criticar a missionária em cartas a Pethrus.

Em 1924, a transferência do casal Vingren para o Rio, pode ter sido providencial para acalmar os ânimos. Ao chegar na cidade, em 1924, implantaram a AD na Capital da República. Em pouco tempo, não só o antigo Distrito Federal, mas todo o estado fluminense receberam congregações pentecostais.

Em meio as controvérsias algo transparece nas pesquisas acadêmicas: o modelo de igreja que os Vingren estavam estabelecendo no Rio. Na Cidade Maravilhosa, o ministério feminino era incentivado e Frida Vingren liderava a igreja nas constantes ausências do marido; ou como insinua Gedeon Alencar: na presença dele também.

No Rio, os Vingren fundam em 1929, outro jornal intitulado Som Alegre e editam em junho de 1931, o Saltério Pentecostal, oficialmente "para suprir a escassez de Harpa Cristã". Mais do que simples alternativas para carências editoriais, o novo periódico e hinário apontavam para a ruptura entre o modelo de igreja dos Vingren com as congregações estabelecidas no norte/nordeste.

Não por acaso, a convocação dos pastores brasileiros para a primeira Convenção Geral em 1930, fale de "crise". E, posteriormente, na carta dos líderes nativos a Pethrus em abril de 1931, as reclamações sobre Frida como editora do recém criado Mensageiro da Paz sejam fortes.

Em meio a tudo isso, para agravar as coisas, as acusações morais contra Frida desestabilizam totalmente o casal. Os Vingren se vêem forçados a voltar em 1932. Gunnar, antes de partir, convida o missionário John Sohreim para assumir seu lugar na AD em São Cristóvão, mas ordens vindas da Suécia conferem a Samuel Nyström, que apoiado pelos pastores brasileiros, o direito de ser o pastor da igreja carioca.

Em agosto de 1932, a família Vingren volta à Suécia. Menos de um ano depois, em junho de 1933 Gunnar morre precocemente em sua terra natal. Frida falece em 1940, depois de amargar o ostracismo e internações.

Atualmente, os modelos de igreja e ministério dentro das ADs ainda se chocam e produzem seus expurgos, cisões e novas convenções. Nada novo debaixo do céu...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

CGADB de 1973 - um chef entra para a História

Entre os dias 22 a 26 de janeiro de 1973, em Natal, capital do Rio Grande do Norte (RN), foi realizada pela terceira vez, a XXII Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Nessa época, a igreja estava sob a liderança do pastor João Batista de Silva e contava com quase 10 mil membros e congregados, distribuídos por 18 congregações na cidade.

A Convenção em Natal não fugiu das tendências e dos debates, que marcaram outras CGADBs na época. Exemplo disso foram as discussões em torno da televisão. Apesar de ser aprovada na Convenção Geral de 1968 uma resolução proibindo os pastores e evangelistas de possuírem televisores, houve acusações de que alguns líderes do Rio de Janeiro estavam usando a televisão.

Em meio a fortes controvérsias sobre a televisão, a Convenção aprovou por "maioria absoluta de votos de seus membros presentes, condenar o uso de TV pelos perigos espirituais que ela produz". Na sequência foi formada uma comissão para tratar dos casos de pastores que possuíssem o aparelho.

Posteriormente, foi aprovado o novo Estatuto da CPAD, o reconhecimento do Instituto Bíblico de Pindamonhangaba (IBAD) e a criação da Comissão de Missões. Se por um lado as ADs se abriam para o ensino teológico formal, por outro, os debates sobre usos e costumes ainda continuariam acirradas.

Chef Alfredo: grande nome da CGADB em Natal

Todavia, em meio a tantas figuras históricas da denominação na capital potiguar, destacou-se nos bastidores (ou melhor, na cozinha) o chef Alfredo Machado da Silva. O nome de Silva não está nos registros oficiais da CGADB, mas seu trabalho de liderar uma equipe de 30 pessoas e de preparar refeições diárias para o batalhão de obreiros vindos de todo Brasil também fez história.

Foi nas páginas do extinto jornal O Poti, que a mega tarefa do mestre-cuca e da sua bem orquestrada equipe recebeu o devido destaque. Revelou o periódico a utilização de 100 panelas para a preparação dos alimentos e mais de 60 quilos de gás por dia. Afinal, foram três refeições diárias para mais de 1.500 pessoas, em uma maratona que começava às 4 da manhã e se estendia até meia-noite.

O Poti, também teve o cuidado de informar a quantidade de legumes e ingredientes consumidos: 10 quilos de arroz, 20 quilos de feijão, dois sacos de batata, um saco de cenoura e outro de chuchu. 60 quilos de repolho, 25 quilos de pepino, 10 quilos de beterraba, 6 quilos de cebola e mais 3 caixas de tomate.

Além da fartura de legumes, os nobres convencionais saborearam 300 quilos de galeto e 250 quilos de carne. Consta ainda o gasto de 20 latas de óleo e duas de azeite, 4 quilos de sal, 60 quilos de açúcar, 150 quilos de sopa, 400 quilos de pão, 100 litros de leite, 300 litros de água, 20 quilos de café, 1.300 ovos, 50 quilos de queijo, 1000 bananas, 50 quilos de macarrão e duas caixas de goiabada.

Experiente na área da cozinha, o esforçado Alfredo se mostrou feliz com os resultados do trabalho, pois, todos comeram bem e se mostravam satisfeitos - "não houve reclamações"-, declarou o renomado chef de Natal, que entrou em férias do seu trabalho no Hotel dos Reis Magos, para aquela ocasião "muito especial".

Realmente, a comilança deve ter sido boa mesmo: mais de 336 convencionais receberam atendimento no posto médico montado providencialmente no templo devido a hipertensão, fortes emoções ou "embaraços digestivos".

Se o clima na CGADB em Natal foi de intensos debates, em contrapartida no refeitório a mesa era farta...

Fontes:

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

O Poti, domingo, 28 de janeiro de 1973/acervo digital da Biblioteca Nacional do RJ.