sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Ministério de Perus em São Paulo - origem e expansão

No ano de 1989, o pastor Benjamim Felipe Rodrigues, então líder da Assembleia de Deus - Ministério de Perus, em São Paulo - ficou conhecido nacionalmente por estar no centro das discussões entre a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) e a Convenção Nacional dos Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus em Madureira e Igrejas Filiadas (CNMEADMIF).

Na época, o pastor Benjamim foi descredenciado pela Mesa Diretora da CGADB, contudo, o Ministério de Madureira resolveu "hipotecar solidariedade" ao aliado, ignorando as determinações da Convenção Geral. Tudo isso dentro de um contexto controverso - como se verá em outra postagem- envolvendo a chamada "jurisdição eclesiástica" e a disputa de poder dentro da própria CGADB.

Localizado na região noroeste da cidade de São Paulo e isolado por um cinturão verde, o distrito de Perus teve na instalação da sua estrada de ferro em 1914, e da Fábrica da Companhia de Cimento Portland Perus em 1926, os principais suportes para o seu desenvolvimento. Em busca de trabalho e oportunidades, migrantes do interior do estado de São Paulo começaram a chegar.

Irmã Rosalina e pastor Benjamim antigos líderes da AD em Perus/SP

Foi justamente entre esses migrantes que a Assembleia de Deus iniciou seus trabalhos em 1947. Em seus primórdios, a congregação era filiada a AD de São Caetano do Sul. Em 1950, junto com a instalação de energia elétrica no bairro, chegou o então evangelista Benjamim Felipe Rodrigues à região para assumir a liderança do núcleo pentecostal.

Paulista de Santa Cruz da Conceição, Benjamim nasceu numa família pobre e desde cedo conheceu o árduo labor. Converteu-se ainda na juventude e posteriormente ingressou na carreira militar, chegando ao posto de Clarim de Ordem ao Comando. Ao deixar os quartéis em 1946, Rodrigues iniciou seu ministério de obreiro e com apenas 28 anos de idades foi enviado a Perus.

Em pouco tempo de trabalho, os frutos começaram a aparecer: em 15 de novembro de 1951, a AD em Perus realizou o batismo em águas de 18 novos convertidos; o primeiro na gestão do jovem evangelista. Em 1952, há o registro da implantação de duas congregações e seis pontos de pregação ao longo da Rodovia Anhanguera, que na época vivia em constantes obras de pavimentação e cercada de acampamentos de trabalhadores. Outras congregações também foram abertas ao longo da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí aumentando o campo de ação do Ministério.

É significativo que, em 1959, a AD em Perus recebeu sua autonomia jurídico-administrativa, possibilitando ao pastor Benjamim alargar ainda mais as fronteiras do Ministério. Em 1964 o campo eclesiástico de Perus contabilizava 31 congregações com mais de 2 mil membros em comunhão. Em paralelo ao trabalho evangelístico, foi criado, em 1956, o departamento de assistência social denominado "Comissão de Socorro".

Com seu estilo militar, senso de disciplina e hierarquia, Benjamim criou 14 regiões para serem supervisionadas por evangelistas da igreja. Ao findar a década de 1960, o Ministério de Perus já tinha se expandido pelas cidades vizinhas: Franco da Rocha, Francisco Morais, Barueri, Mauá, Mairiporã, Pirapora do Bom Jesus, entre outras.

Ao inaugurar o atual templo sede com capacidade para 2 mil pessoas sentadas em 1975, o Ministério contava com mais de 7 mil membros distribuídos entre 53 congregações e 21 salões de cultos em São Paulo (Capital e interior), Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso. Portanto, já era um Ministério inter-regional e, como se constatou depois, sempre em expansão.

Em todo esse tempo, a AD em Perus manteve laços fraternos com o Ministério de Madureira. Era autônomo, mas estava filiado a CNMEADMIF e por sua vez a CGADB. Apesar de ser uma ramificação assembleiana expressiva, a liderança de Perus portava-se com discrição dentro da grandiosidade de Madureira.

A polêmica envolvendo Perus, Madureira e a CGADB, hoje se sabe, foi apenas uma desculpa para eliminar rivais incômodos e perpetuar um grupo no poder na Convenção Geral. Mas para ironia da história, Madureira, que em 1989 resolveu "hipotecar solidariedade" ao líder do Ministério de Perus, tempos depois não teve a recíproca esperada. O bispo Samuel Ferreira que o diga...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de fevereiro de 1952, nº 4, ano XXII.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de abril de 1953, nº 8, ano XXIII.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de agosto de 1964, nº 16, ano 34.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de outubro de 1965, nº 20, ano 35.

Mensageiro da Paz, abril de 1967, nº 7, ano 37.

https://adperus.com.br/institucional/

http://www.spbairros.com.br/perus/

http://documentacao.camara.sp.gov.br/iah/fulltext/justificativa/JPDL0032-2000.pdf  - dados biográficos do pastor Benjamim Filipe Rodrigues.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Samuel Câmara - a igreja equilibrada

Em abril de 1991, o extinto jornal O ASSEMBLEIANO, editado em Joinville, Santa Catarina, pelo jornalista Judson Canto, publicou uma entrevista com o pastor Samuel Câmara. Câmara, na época, com apenas 33 anos de idade, desde 1988 era líder da tradicional e histórica Assembleia de Deus (AD) em Manaus, no Amazonas.

O jovem obreiro, filho e genro de pastores, casado com a talentosa Rebekah, filha dos pioneiros do ensino teológico nas ADs no Brasil, o casal João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos; Samuel apresentava-se, naquele momento, como uma nova alternativa e modelo de liderança para a denominação no país. Era um menino entre os patriarcas da CGADB.

Na matéria d'OASSEMBLEIANO, enfatizou-se, que apesar de ter sucedido o veterano pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos na presidência da AD em Manaus e na convenção estadual, Samuel imprimia "sua marca pessoal na AD amazonense". Segundo o jornal, o jovem Câmara havia desobrigado a igreja de cumprir as tradições e costumes de santidade assembleianos, algo que seu antecessor já estava fazendo.

O ASSEMBLEIANO: Rebekah e Samuel Câmara em 1991

Conforme informações recebidas por quem acompanhou de perto a transição Vasconcelos/Câmara, não houve uma ruptura drástica com os dogmas assembleianos naquele período. Ao ser indagado se sua liderança da AD em Manuas era uma continuidade ou não da gestão do pastor Alcebiades, Samuel respondeu: "...eu diria que em cinquenta por cento do meu ministério mantenho os ingredientes pastorais daquele que sucedi. Outros cinquenta por cento são uma tentativa de cumprir e responder aos desafios que Deus fez a minha pessoa."

Questionado se a igreja em Manaus era "liberal" e se ele (Samuel) havia "libertado" os membros das conhecidas imposições, até então hegemônicas nas ADs brasileiras, o futuro pastor da Igreja-Mãe respondeu: "Hoje temos no Brasil uma dicotomia, dois pólos, o 'tradicional' e o 'liberal' e os pastores se alegram quando podem dizer que suas igrejas são tradicionais ou liberais. Considero minha formação equilibrada e procuro fundamentá-la na Bíblia Sagrada...".

Em suma: Câmara não considerava-se nem "tradicional" ou "liberal". Acima das questões controversas sobre os usos e costumes, o ex-aluno do Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD) em Pindamonhangaba, apresentava-se apenas como um ensinador da Bíblia, crente na ação do Espírito Santo. "Se vejo excessos, corrijo individualmente. Para mim a igreja é santa e é o Espírito Santo quem a dirige. Eu sou apenas um vigia...".

Na sequência, Samuel afirma: "Somos rotulados de liberais, mas diria que a AD em Manaus é uma igreja equilibrada" - o próprio pastor reconhece, que o rótulo de "liberal" já tinha se espalhado pelo Brasil. Tanto, que o repórter Ildo Campello começou a entrevista nessa linha de questionamentos.

Fato que é, que a AD em Manaus viveu seu momento de igreja "liberal" com o sucessor de Samuel, o pastor Jonatas Câmara. Na liderança da AD amazonense desde 1997, Jonatas implantou métodos heterodoxos de evangelização e discipulado. Uma grande cisão aconteceu nos anos 2000, e o resultado disso foi a criação da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Tradicional (IEADTAM), uma ramificação ministerial que carrega no nome a rejeição as "inovações" adotadas pela gestão do Câmara mais novo.

Mas os assuntos da entrevista com o jovem pastor de Manaus não terminam por aqui. Samuel Câmara ainda falou sobre evangelização e a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Percebe-se, em relação a CGADB, um tom crítico sobre a instituição. Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

O ASSEMBLEIANO - o jornal da nova geração: Joinville, 30 de abril de 1991, nº 5/ano I.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Os pastores da IEADJO no Jubileu de Ouro

A foto em destaque nessa postagem é emblemática. Trata-se do registro de quatro ex-pastores da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO). Eles estavam reunidos nas comemorações do Jubileu de Ouro da denominação na cidade em 1983.

O primeiro pastor Manoel Germano de Miranda (1933-1941), nesse tempo já era falecido. Também foi sentida a ausência do pastor Liosés Domiciano, que chegou à cidade em 1972 e, depois de lutar contra um câncer durante muito tempo, partiu para a eternidade em 1978.

Na foto histórica, identificam-se da esquerda para à direita, os pastores: Antonieto Grangeiro Sobrinho (1957-1967), Virgil Smith (1941-1953), Satyro Loureiro (1953-1957/1979-1990) e Artur Montanha (1967-1972). Faltou ainda na fotografia, Henrique Altherutemeyer, que respondeu pela igreja durante sete meses em 1957, até a efetivação do pastor Grangeiro no cargo.

Grangeiro, Smith, Satyro e Montanha

Virgil Smith era norte-americano com passagem missionária por Pernambuco, Alagoas e Ceará. Conheceu Lampião e o padre Cícero, grandes mitos da região nordeste. Junto com JP Kolenda, organizou a AD em Santa Catarina, construiu templos e ensinou teologia aos obreiros nativos. Toda uma geração de pastores catarinenses foi por ele muito bem preparada para servir na obra.

Grangeiro era cearense e trabalhou anteriormente com Smith na região nordeste. Convidado pelo norte-americano, Antonieto foi trabalhar em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. Tempos depois, transferiu-se para Florianópolis e, em 1957, assumiu a IEADJO. Empreendedor, Grangeiro na presidência da igreja ganhou notoriedade em nível nacional na CGADB e CPAD. Sua família também atuava com dedicação nos trabalhos evangélicos e sociais.

Artur Montanha, por sua vez, era um evangelista nato. Ficou famoso por suas pregações eloquentes e na área musical pela habilidade em tocar sua sanfona. "Só faltava fazer o acordeon falar" - diziam os mais antigos. Na IEADJO, Montanha organizou a antiga Sociedade de Assistencial Social e Educacional Deus Proverá (SASEDEP). Mas do que o antigo obreiro gostava mesmo era das campanhas evangelísticas. Nelas sentia-se à vontade.

Satyro Loureiro por sua vez, era um administrador nato. Atuou em dois períodos na IEAJO e na sua gestão foi construído o atual templo sede da igreja em 1988. Satyro tinha bom trânsito entre as autoridades políticas e na CGADB e CPAD ocupou vários cargos de destaque. Sisudo e de voz inconfundivelmente rouca, Loureiro também incentivou a participação da AD na política partidária.

Na sua segunda passagem na presidência da IEAJO, Loureiro organizou com sua equipe as celebrações do Cinquentenário da Igreja em 1983. Todos os pastores da foto são de saudosa memória. Mas nas comemorações do Jubileu de Ouro, eles tiveram a oportunidade de rever amigos, aparar antigas arestas ministeriais e reviver os bons momentos na edificação da maior igreja pentecostal de Joinville e Santa Catarina.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A Assembleia de Deus na Cidade das Bicicletas

Houve um tempo em Joinville, Santa Catarina, em que o progresso do município era observado, não pela quantidade de automóveis em circulação, mas pelo número de bicicletas conduzidas por grande maioria dos operários das principais empresas cidade.

Essa era pelo menos, a observação dos jornalistas que visitavam a cidade e ficavam admirados com a grande circulação de ciclistas por suas vias. Em junho de 1941, a revista semanal Carioca sublinhou em uma matéria especial sobre Joinville e constatou a quase onipresença dos "automóveis de pedal" na Cidade das Flores. Segundo a publicação, o município possuía uma frota de 5 mil bicicletas.

Em carta à extinta revista O Cruzeiro, Gilberto J. Campos morador de Joinville, em 1950, destacou dados da Prefeitura Municipal e da Delegacia de Polícia para afirmar a circulação de 8 mil "magrelas" na cidade. Os números oficiais de 1950, porém, apontam para uma quantidade maior: 9.795 bicicletas para 46.550 habitantes, fazendo da cidade uma referência na prática do ciclismo.

É dessa época (década de 1950), que o título de Joinville de "Cidade das Bicicletas" começa a tomar foma. Fato é, que em outra reportagem, desta vez na Revista da Semana em 1956, garantiu-se que a "Manchester Catarinense" não tinha problemas em relação aos transportes, pois 25 mil ciclistas desfilavam "num espetáculo magnífico" pelas "amplas e bem calçadas" ruas da cidade.

Em 1958, outro leitor d'O Cruzeiro (Hamilton Rocha de Curitiba) indicou dados do IBGE contabilizando 22.181 bicicletas licenciadas no município. E conforme as indústrias e a urbanização se expandiam na região, os números dos "automóveis de pedal" evoluíam: no ano de 1972, havia 70 mil bicicletas para 126 mil habitantes; em 1987, 100 mil bicicletas para 350 mil joinvilenses.

Não por acaso, que as "cabrinhas" eram dominantes na paisagem local e provocavam congestionamentos nas saídas das fábricas e nas ruas. Sinais específicos de trânsito destinavam-se aos ciclistas e na hora do rush, os motoristas de automóveis davam passagem para as bicicletas. Era um período, em que a supremacia do ciclismo desafiava carros, motos, caminhões e até pedestres.

Supremacia hoje impensável na Joinville do século XXI, com seus quase 400 mil veículos para uma população em torno de 600 mil habitantes, onde os ciclistas disputam espaço - e com muita desvantagem - no caótico trânsito da maior cidade catarinense.



Dentro desse contexto, ao observar a foto acima, onde vários membros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO) enfileiraram suas bicicletas em frente ao antigo templo sede na Avenida Getúlio Vargas, pode-se considerar então, que a denominação estava em franco progresso.

O ano do registro, possivelmente foi feito na década de 1940, quando a hegemonia das "magrelas" em Joinville era notável. Nessa época, para muitos romântica e cheia de saudosismo, as preocupações dos pastores nas construções não era com estacionamentos, mas com os bicicletários.

Aliás, nas memórias e fotos dos pioneiros das ADs no Brasil, destaca-se o uso da bicicleta para a evangelização e visitas às congregações. Os automóveis só começariam a ser utilizados, quando as igrejas tiveram condições de comprar seus veículos próprios.

O missionário norte-americano Virgil Smith (último à direita) foi feliz no emblemático registro. Conseguiu eternizar uma cultura e prática de uma Joinville que não existe mais.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

https://ndonline.com.br/joinville/noticias/confira-como-joinville-ganhou-o-titulo-de-cidade-das-bicicletas

https://acervo.oglobo.globo.com/

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

As revistas Carioca, O Cruzeiro, Revista da Semana estão disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Sistema de buscas do acervo é prático e de fácil acesso.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Frida Vingren - e o suposto affair

Um dos pontos mais discutidos da matéria da BBC Brasil sobre Frida foi o suposto affair da missionária com um obreiro brasileiro. Isael de Araújo, biógrafo da senhora Vingren, afirma no Mensageiro da Paz (edição de outubro de 2018), que o affair tratar-se "apenas de um boato" sem comprovação. O tal "boato" apareceu em cartas da época e não há confirmação alguma do fato em si.

Para reforçar seu argumento, Isael diz que na reportagem da BBC, a jornalista Kajsa Norrel "não consegue confirmar com segurança" a história, pois há "inconsistência" em seu conteúdo, ou seja, falta base documental para corroborar o rumor do romance.



Mas, na mesma matéria, Norrel afirmou crer na veracidade do affair, pois "entrevistou um dos filhos de Frida e algumas de suas netas enquanto escrevia o livro e que identificou o assunto em cartas enviadas à Suécia por pessoas que não eram hostis a ela'".

Gedeon Alencar em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, comenta que para os pastores mais antigos, o suposto caso extraconjugal da missionária seria o motivo para a campanha dos obreiros brasileiros e suecos contra ela. Alencar, porém, observa que na carta enviada a Pethrus em 1932, não há menção ao deslize e, portanto, tudo parece uma orquestração para derrubá-lá.

Por sua vez, Valéria Vilhena em sua dissertação de mestrado sobre Frida Strandberg detalha que o affair foi descoberto por Paulo Macalão. Vilhena (citando Kajsa) escreve que Macalão: "ao abrir a porta do quarto do rapaz que morava na casa da família Vingren, vê Frida em trajes íntimos junto ao rapaz".

O rapaz, de nome não mencionado, em toda a polêmica seria Carlos Brito, jovem advogado e membro da família pioneira das ADs no Rio de Janeiro, cunhado de Macalão e antigo redator do Mensageiro da Paz juntamente com Frida. Posteriormente, Carlos assumiu cargos de destaque na CPAD. Tanto Frida quanto Carlos tiveram ao mesmo tempo seus nomes retirados das edições do jornal em 1931.

Como se percebe, um nome de família conhecida e influente. Talvez seja o motivo principal do escândalo do affair não ser usado nas cartas enviadas a Pethrus. Preferiu-se então, manipular o caso somente com a intenção de prejudicar o casal Vingren e "proteger" o jovem.

É fato, que a controversa história era conhecida dos pioneiros e antigos membros da AD em São Cristóvão no Rio de Janeiro. Os funcionários da CPAD também sempre tiveram ciência do caso e, obviamente por questões institucionais, o assunto era somente comentado nos bastidores da Casa Publicadora.

Ainda mais que as cartas trocadas entre os pioneiros revelam toda uma articulação para afastar Gunnar e sua esposa da liderança da igreja. Os indícios do caso extraconjugal são grandes e da rede de fofocas também. Se todas as correspondências fossem divulgadas na íntegra, com certeza a áurea construída em torno dos missionários suecos seria fortemente abalada.

Mas ao analisar o contexto das informações Vilhena afirmou: "A questão principal, portanto, não é o adultério em si, mas como homens e mulheres são tratados de forma diferenciada na sociedade patriarcal brasileira em que as igrejas cristãs pentecostais estão inseridos". Essa é a lição principal do caso Frida Strandberg.

Para terminar, uma sugestão: deveria a CPAD permitir que os diários, cartas ou qualquer outro registro sobre o período fosse pesquisado sem restrições. Há informações que documentos da família de Frida estão em posse da Casa Publicadora. Por que não divulgar essas relíquias e dar acesso aos preciosos documentos?


Para saber mais: Valéria Vilhena lançará em breve sua tese de doutorado em livro pela Fonte Editorial. Na obra os detalhes desse polêmico caso estarão devidamente contextualizados. É a história de Frida em sua conjuntura social e histórica e de suas lutas na liderança (e como os líderes) das Assembleias de Deus no Brasil.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

VILHENA, Valéria Cristina. Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O caso Frida Vingren - CPAD desmente versão da BBC Brasil

A reportagem produzida pela BBC Brasil e replicada por vários sites de informação no país, inclusive o G1 do Grupo Globo, fez o livro Halleljua Brasilien!, da jornalista sueca Kajsa Norrel, publicado em 2011, sobre a vida e morte da missionária Frida Vingren ficar conhecido do grande público evangélico e secular.

As controversas informações da matéria, geraram uma nova onda de debates sobre o ministério feminino e o triste destino de Frida Vingren, esposa do mítico fundador das Assembleias de Deus no Brasil, Gunnar Vingren; esquecida e morta na Suécia em setembro de 1940.

Por se tratar de uma figura emblemática da história assembleiana e em parte pelo "vazamento" de notas polêmicas, o Mensageiro da Paz (edição de outubro de 2018) trouxe em suas páginas, um texto-resposta escrito pelo jornalista e historiador Isael de Araújo, autor de uma biografia sobre a pioneira publicada pela CPAD em 2014.

Chamada do MP: tentativa de controle da História

O posicionamento oficial da CPAD através do biógrafo de Frida é mais uma tentativa de controlar a narrativa histórica sobre a senhora Vingren, a qual nos últimos anos tem sido alvo de várias pesquisas acadêmicas, que fogem dos conhecidos padrões narrativos da história eclesiástica e institucional.  A iniciativa da CPAD, portanto, tenta blindar a imagem da pioneira diante do grande número de fiéis assembleianos.

Os pontos da matéria da BBC Brasil mais questionados por Araújo foram: o desejo de Frida exercer o ministério pastoral, gerando, assim, perseguição dos líderes brasileiros e o suposto affair da missionária com um obreiro nativo. Tópicos, que no entendimento do jornalista, carecem de confirmações documentais e necessitam ser analisados cientificamente levando em conta o contexto da época.

Araújo afirma que, apesar de Frida ser lembrada como grande ensinadora, evangelista, compositora, musicista, poetisa, redatora esposa e mãe, ela nunca empunhou a "bandeira de militância ao engajamento feminino ao pastorado" ou encorajou as mulheres a desejarem o cargo de pastora. Porém reconhece que ela estimulava as irmãs a participarem mais na obra pentecostal.

Se Frida não desejava ou exercia a liderança de uma das principais igrejas do país no Rio de Janeiro, antiga Capital da República, como entender o trecho da carta de 1931 dos pastores brasileiros a Lewi Pethrus, no qual reclamam dos artigos escritos por Frida no Mensageiro da Paz sobre a conduta ministerial? Na missiva os obreiros avisam: "A velha questão acerca da mulher como dirigente ascende-se de novo, é certo é, se continuar como está, haverá um levante, talvez de um caráter mais melindroso do que o primeiro".

Se não houvesse problemas nesse assunto, a própria resolução da CGADB de 1930 não teria sentido algum quando diz: "...não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8. Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar".

Gedeon Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, transcreve o comunicado de exclusão de um membro da igreja assinado por Frida e mais dois obreiros no jornal Boa Semente em 1930. Não seria a evidência do exercício da sueca no cargo de dirigente (na ausência ou presença do esposo) da congregação carioca?

Talvez, o que poderia ser melhor analisado na questão da esposa de Frida são as circunstâncias históricas da época ou, como enfatiza Araújo, analisar o contexto histórico. Um dos maiores erros dos historiadores é o anacronismo, ou seja, atribuir valores do presente aos fatos do passado. Sendo assim, as posturas dos opositores em relação à missionária não seriam tão destoantes dos princípios da sociedade das primeiras décadas do século XX, marcada pelo forte patriarcalismo de suas relações sociais.

Ao refletir sobre isso e tentar recolocar devidamente os personagens e seus dramas na estrutura social e histórica da época, evita-se, assim, uma narrativa maniqueísta do tipo "o bem contra o mal". Mas as fontes mostram isso; o casal Vingren lutou sim pelo reconhecimento do ministério pastoral das mulheres no Brasil.

Contudo, o pentecostalismo moderno, originalmente aberto para a ascensão de negros e mulheres no ministério, não encontrou em sua implantação no Brasil e posteriormente nos EUA, respaldo na sociedade vigente. Foi engessado pelas mentalidades e cultura do seu tempo.

Entretanto, o ponto mais delicado da matéria da BBC Brasil é o suposto affair de Frida com um obreiro brasileiro; um segredo guardado anteriormente a sete chaves e só agora conhecido do grande público para desconforto dos guardiões da narrativa histórica da CPAD. Seria só um boato "infundado" como diz Araújo?

É o tema da próxima postagem!

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

Gunnar, Frida e Nyström - tempos conturbados

O missionário Gunnar Vingren, juntamente com seu companheiro Daniel Berg chegaram ao Brasil, especificamente em Belém do Pará, no dia 19 de novembro de 1910. Sete meses depois, no dia 18 de junho de 1911, os suecos iniciaram o trabalho da Missão da Fé Apostólica, depois modificado para Assembleia de Deus (AD).

A história é conhecida: a igreja formada apenas por alguns membros excluídos da Igreja Batista em Belém, sob a liderança de Vingren e Berg cresce e se expande por todo o país. Paralelamente, o apoio da Igreja Filadélfia, em Estocolmo foi fundamental. Lewi Pethrus, amigo de infância de Daniel Berg e grande líder do movimento pentecostal na Suécia, enviou missionários ao Brasil para consolidar a grande obra de evangelização. Entre eles, o casal Samuel e Lina Nyström.

Família Vingren: o amargo regresso em 1932

Os Nyström chegaram ao Brasil em agosto de 1916. Samuel era um obreiro de extrema competência e foi pioneiro na abertura de vários trabalhos na região norte. No ano seguinte, chegou ao país a missionária Frida Strandberg, para se casar com Gunnar Vingren. O casamento foi realizado em Belém pelo próprio Nyström, no dia 16 de outubro de 1917.

Com as contantes enfermidades de Gunnar, Frida desponta na liderança do trabalho na região. Em 1919, foi criado o jornal Boa Semente, e a senhora Vingren assumiu o jornal como sua principal redatora. Nesse tempo, as tensões entre Frida e Samuel se agravam ao ponto de Nyström, sempre que possível, criticar a missionária em cartas a Pethrus.

Em 1924, a transferência do casal Vingren para o Rio, pode ter sido providencial para acalmar os ânimos. Ao chegar na cidade, em 1924, implantaram a AD na Capital da República. Em pouco tempo, não só o antigo Distrito Federal, mas todo o estado fluminense receberam congregações pentecostais.

Em meio as controvérsias algo transparece nas pesquisas acadêmicas: o modelo de igreja que os Vingren estavam estabelecendo no Rio. Na Cidade Maravilhosa, o ministério feminino era incentivado e Frida Vingren liderava a igreja nas constantes ausências do marido; ou como insinua Gedeon Alencar: na presença dele também.

No Rio, os Vingren fundam em 1929, outro jornal intitulado Som Alegre e editam em junho de 1931, o Saltério Pentecostal, oficialmente "para suprir a escassez de Harpa Cristã". Mais do que simples alternativas para carências editoriais, o novo periódico e hinário apontavam para a ruptura entre o modelo de igreja dos Vingren com as congregações estabelecidas no norte/nordeste.

Não por acaso, a convocação dos pastores brasileiros para a primeira Convenção Geral em 1930, fale de "crise". E, posteriormente, na carta dos líderes nativos a Pethrus em abril de 1931, as reclamações sobre Frida como editora do recém criado Mensageiro da Paz sejam fortes.

Em meio a tudo isso, para agravar as coisas, as acusações morais contra Frida desestabilizam totalmente o casal. Os Vingren se vêem forçados a voltar em 1932. Gunnar, antes de partir, convida o missionário John Sohreim para assumir seu lugar na AD em São Cristóvão, mas ordens vindas da Suécia conferem a Samuel Nyström, que apoiado pelos pastores brasileiros, o direito de ser o pastor da igreja carioca.

Em agosto de 1932, a família Vingren volta à Suécia. Menos de um ano depois, em junho de 1933 Gunnar morre precocemente em sua terra natal. Frida falece em 1940, depois de amargar o ostracismo e internações.

Atualmente, os modelos de igreja e ministério dentro das ADs ainda se chocam e produzem seus expurgos, cisões e novas convenções. Nada novo debaixo do céu...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827