terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Contribuições financeiras: história e atualidade

Desde que foi implantada no país, o recolhimento dos dízimos e ofertas foi uma constante nas Assembleias de Deus. Duas modalidades de contribuição financeira se consolidaram na denominação: as ofertas voluntárias e sem valor determinado, e o dízimo que é dez por cento da renda do fiel. Ambas possuem o mesmo objetivo: manutenção da obra do Senhor.

Segundo o historiador Maxwell Fajardo em sua tese de doutorado Onde a luta se travar, é no período de institucionalização da igreja, que "os apelos para a contribuição financeira aparecem vinculados à necessidade de manutenção das Igrejas e e seus instrumentos de expansão".

A história da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) mostra que a editora só foi levantada e mantida com muitas ofertas das igrejas no Brasil e do exterior, principalmente dos EUA. Mas anteriormente, os jornais Boa Semente e Som Alegre foram mantidos com ajudas financeiras avulsas.



Ainda segundo Fajardo, a obrigatoriedade dos dízimos ainda não estava definida até a década de 1950. Articulistas do Mensageiro da Paz expressavam pontos de vista diferentes sobre à clássica contribuição pentecostal. Adauto Celestino escreveu no MP que na dispensação da graça, os dízimos e ofertas "não deveriam ser impostos por lei", mas "voluntários" e dados "com alegria".

João de Oliveira, conhecido pastor das ADs em 1949, escreveu que era errado "cobrar" o dízimo, pois as contribuições deveriam ser "movimentos voluntários" do crente. Mas Celestino e Oliveira foram exceção, pois ao fim da década de 1950, o ensino sobre a obrigatoriedade dos dízimos foi "incorporado ao aparato institucional" de vez. Fajardo, identificou nesse período, a declaração de quem não contribui com seu dízimo "está roubando a Deus".

Com o advento das igrejas neopentecostais, a pregação sobre as contribuições financeiras passou de um ato de gratidão ou devolução a Deus ao de investimento (com promessa de retorno garantido). E com o tempo, a teologia da prosperidade, à princípio combatida, conseguiu adentrar nos apriscos assembleianos.

A concorrência e os projetos de expansão de muitos ministérios, fizeram que lentamente, muitos dos argumentos e métodos da teologia da prosperidade fossem adotados. Primeiro de forma sutil e depois escancaradamente. A própria pregação da obrigatoriedade do dízimo foi radicalizada. Os princípios da exegese e da hermenêutica em Malaquias 3.10 são ignorados para arrecadar mais contribuições. Implantou-se a soteorologia do dízimo.

Táticas de contribuição foram incentivadas ou inseridas: metas de arrecadação, valores iniciais para as ofertas (quem dá mil reais?), cultos de prosperidade e (para muitos o escândalo e símbolo maior da financeirização da igreja) a adoção da máquinas de cartões. Em uma igreja no norte do país, o líder, que segundo alguns "flerta com o neopentecostalismo", para bancar seus projetos, além de estimular a constante contribuição, permite arrecadações entre a celebração da ceia. Durante o ato do tomar o pão e o vinho, é arrecadado mais ofertas.

E o ímpeto de otimizar as arrecadações só cresce. Certo evangelista usa a palavra "semente" em vez de oferta. Ignora até a procedência das "sementes" em sua conta pessoal. Enquanto isso, em 1971, um pastor em Belém do Pará rejeitou uma expressiva contribuição de um crente que ganhou na loteria e ainda o ameaçou de exclusão. Os tempos mudaram mesmo...

Fontes:

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980)  - Assis, 2015.

acervo.folha.com.br - dias 16 e 17 de junho de 1971 - Primeiro Caderno p. 17 e 26.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Valéria Vilhena - feminista evangélica

* do site UOL

De berço evangélico pentecostal, Valéria Vilhena se incomodou na juventude com as restrições ao corte de cabelo, ao modo de se vestir e de se comportar impostos pela igreja. "Me vi feminista muito cedo", diz a teóloga, que é mestre em ciências da religião e doutora no programa Educação, História da Cultura e Artes, da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ao longo da vida, frequentou diferentes templos cristãos, percebeu outras restrições às mulheres e, sem encontrar o seu lugar, decidiu abandonar a igreja, mas não sua fé. Em 2015, fundou, ao lado de outras mulheres, o EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero), movimento para discutir temas relacionados à violência contra a mulher e à igualdade de oportunidades nas estruturas religiosas.

Em novembro de 2016, Vilhena viu sua pesquisa virar notícia, sem crédito, em sites e nas redes sociais sob o título "40% das mulheres que sofrem violência doméstica são evangélicas". O dado está em seu livro "Uma Igreja sem voz: análise de gênero da violência doméstica entre mulheres evangélicas", estudo qualitativo feito na Casa Sofia, espaço de acolhida para vítimas localizado na zona sul de São Paulo.

Valéria Vilhena: opiniões polêmicas

Em entrevista ao UOL, Vilhena falou sobre feminismo, cultura do estupro, violência doméstica e critica políticos ligados à religião.

UOL - Como você recebeu a notícia de que sua pesquisa estava em vários portais evangélicos?
Valéria Vilhena - O que eu coloquei na pesquisa é que aproximadamente 40% das mulheres atendidas na Casa Sofia, que era o meu campo de pesquisa, se declaravam evangélicas. Então, é uma amostragem de pesquisa. Isso viralizou, mas eu arriscaria que a porcentagem pode ser maior. A cada 4 minutos uma mulher agredida dá entrada no SUS [Sistema Único de Saúde]. Quantas dessas mulheres me responderiam que são evangélicas? Esse estudo a gente não tem.

UOL - Como você chegou a essa informação de que quase metade das atendidas na Casa Sofia eram evangélicas?
Vilhena - Foi na época do meu mestrado, fui escolher meu campo de pesquisa. Nas delegacias, achei que seria muito difícil angariar dados, então decidi ir para as unidades de atendimento: a Casa Eliane de Grammont [na Vila Mariana] e a Casa Sofia [no Jardim Dionísio]. Em ambas, a questão da religião e violência doméstica precisavam ser analisadas. A diferença é que a maioria das mulheres da Casa Eliane de Grammont, segundo as profissionais, se declarava Seicho-No-Ie. Então, elas pensavam: "eu estou pagando pelo meu karma". Essa "justificativa" religiosa precisava ser observada. E na Casa Sofia, na primeira visita, a assistente social falou para mim: Valéria, a gente tem mais dificuldade com as mulheres evangélicas, porque elas abandonam mais o tratamento oferecido.

UOL - Por quê?
Vilhena - Isso que eu queria entender. E aí algumas coisas o campo me mostrou, como, por exemplo, a questão do medo. Marquei uma entrevista com uma mulher evangélica e, no dia recebi um telefonema dela. "Olha, dona Valéria, eu não eu posso ir". "Mas, por quê?". "Não, porque o meu marido falou que essas coisas sempre vão para a televisão". Eu falei: "eu tenho um compromisso com a senhora, não vai ser divulgada imagem nem o nome da senhora. Mas por que a senhora contou para o seu esposo?". "Porque eu sofro violência, mas ele também é o meu pastor, ele é a voz de Deus na minha vida. Eu não vou conseguir ir". Isso foi recorrente. Elas desistiam, não iam. O medo é um ponto, mas eu acho que é muito importante falar do aconselhamento pastoral. Quando essa mulher vai procurar o seu pastor para dizer que ela está sofrendo violência, normalmente ela não recebe apoio, o pastor aconselha mais submissão, em nome de Deus: "Seja sábia, fique calada, não enfrente". A questão da interpretação, da hermenêutica da teologia, acaba fortalecendo ainda mais esse quadro de violência contra as mulheres no meio evangélico, porque a teologia que é passada é a da obediência ao marido. Normalmente, essas mulheres acabam culpando o satanás, o inimigo, o diabo, algo externo. Elas não conseguem olhar para a própria relação de violência que vivem.

UOL - Neste ano, muito se discutiu sobre a cultura do estupro. Você acha que ela ganha eco também nesses espaços de fé, nessas comunidades religiosas?
Vilhena - Acho que é importante pensar e admitir todo tipo de violência dentro das igrejas. Eu costumo falar para os evangélicos: "infelizmente, é aquele irmão bacana, que te dá 'a paz do senhor', que é o agressor, que tem potencial de ser agressor". Se a gente pensar na cultura do estupro, tenho doutrinas na igreja que são muito mais rígidas com as meninas do que com os meninos. Nós, mulheres, é que provocamos com as nossas roupas, com a nossa maquiagem, com o nosso brinco. A partir do momento em que eu reproduzo esses discursos, dou uma base doutrinária, teológica, para que as mulheres tenham um maior cuidado em se vestir para não provocar as "vítimas", que são os homens, tenho que pensar sim na cultura do estupro. Quantos pais educam as filhas diferentes dos filhos? Se há um tratamento diferente para meninos e meninas, há violências, no plural, simbólica, física, sexual. Então a gente tem que pensar sobre isso.

UOL - Vocês são convidadas por igrejas a discutir esses assuntos?
Vilhena - Muito difícil, raro. É interessante que no fórum muitos líderes vieram nos dar apoio: "Vamos marcar um evento na nossa igreja, vamos convidá-las". Isso nunca aconteceu. O acolhimento por parte dos evangélicos dessa tal ideologia de gênero acabou prejudicando ainda mais o nosso trabalho, porque ninguém pensou, quando retirasse gênero da educação, que estariam retirando também o debate sobre as violências físicas, emocionais ou simbólicas contra as mulheres, inclusive dentro da igreja.

UOL - Qual é o papel da mulher hoje nas igrejas evangélicas?
Vilhena - Quando encontramos pastoras, estão em igrejas pentecostais e neopentecostais pequenas ou fundadas por elas. Muitas mulheres da Assembleia de Deus e da Igreja Quadrangular nem conhecem suas fundadoras ou cofundadoras. Não percebem que, no início da história dessas igrejas, os homens decidiram que as mulheres dali para a frente ficariam fora. Posso dizer que a maioria dos evangélicos não têm mulheres à frente dos trabalhos. Elas são bem-vindas para serem mulheres de oração, de intercessão, para arrumar a igreja, para levar toalhinha, para cuidar da limpeza da igreja e para fazer visitas. Elas estão nos espaços de serviços, não de liderança da igreja.

UOL - Há espaço na igreja para feministas evangélicas?
Vilhena - De uns dois anos para cá, tive a feliz notícia de que havia um grupo de feministas cristãs, que tinham um blog, página no Facebook. São meninas lindas, jovens, feministas, que estão sempre atentas às pregações e discutindo as questões de gênero. Elas não têm interesse em deixar de serem cristãs, são mulheres e meninas feministas que trabalham pela igualdade de gênero e de oportunidades também na igreja. Há uma pluralidade religiosa entre as feministas cristãs e eu acho isso muito legítimo, muito bacana. A questão não é ficar discutindo: pode ser feminista e pode ser cristã? Elas não discutem isso, elas vivem o feminismo.

UOL - E como elas são recebidas nas igrejas?
Vilhena - Acho que é sempre de forma tensa. Hoje não frequento nenhuma igreja, não sou mais "igrejeira", e fico muito feliz que elas estejam conseguindo, que não fizeram o que eu fiz, de ter me afastado. O que precisa ser entendido é que gênero e religião combinam. O que não combina é a violência. A religião é mais resistente a mudanças, mas, como qualquer cultura, não é estática e dura, é dinâmica, está em movimento. Eu fui criada em uma igreja em que era pecado cortar cabelo, se depilar, usar maquiagem, calça comprida. Me vi feminista muito cedo dentro da igreja e hoje, por essas questões não serem mais consideradas pecado, muitas mulheres já se acham muito modernas, mas outras percebem que o sufocamento ainda é grande.

UOL - A bancada evangélica no Congresso se posiciona contra a conquista de alguns direitos, como casamento gay, o aborto, defende a Escola Sem Partido. Como você vê esse movimento?
Vilhena - Vejo com muita tristeza, como um profundo retrocesso. Dou aula para professores da rede pública na formação continuada e costumo falar: "se na sua religião é pecado se dar ao amor, ao afeto homo, não se dê esse prazer; se na sua religião é pecado o aborto, não cometa aborto". "Na sua religião" é seu foro íntimo, é seu sistema de fé, fé não pode ser imposta a toda uma sociedade. Agora, pautar políticas públicas baseadas na minha fé dentro de um Estado laico é, no mínimo, um grande retrocesso. Eu penso até ser ilegal. Combater a violência doméstica é aliviar o SUS, do ponto de vista econômico e de saúde pública. A violência doméstica traz prejuízo para toda a sociedade. Daí eu pauto isso sob o meu sistema de crenças? Não posso. Quando a bancada evangélica sai pregando nos púlpitos que está lá para representar a vontade de Deus ou para proteger o único modelo de família, está pautando, na realidade, homofobia, racismo, sexismo e as violências que são perpetradas por conta dessas questões, que também são de gênero.

Nota do editor: mesmo que você leitor não concorde com todas as opiniões da estudiosa Valéria Vilhena, contudo, é recomendável o debate sobre o papel feminino nas igrejas e a atuação política dos congressistas evangélicos.

Fonte:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2017/01/06/quando-a-igreja-nao-discute-genero-ela-nega-direitos-humanos-diz-evangelica-feminista.htm

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ferros - da minissérie a vida real

A pequena cidade de Ferros, situada a menos de 200 quilômetros de Belo Horizonte (MG), ficou eternizada na minissérie Hilda Furacão exibida pela Rede Gobo de televisão em 1998, realizada com base na obra homônima do escritor Roberto Drummond.

Um dos aspectos ressaltados na história, foi a grande influência do pároco católico sobre a vida social dos habitantes da pacata Santana dos Ferros (Drummond usa no livro o nome antigo da cidade). No romance, o padre (interpretado pelo grande Paulo Autran) mandava e desmandava, sempre em nome da fé e dos bons costumes.

Essa realidade de grande poder católico e perseguição aos infiéis, foi sentida pelos membros da Assembleia de Deus. Um alvoroço tão grande, que chamou à atenção da imprensa na época. O jornal Diário Carioca (RJ) narrou aos seu leitores na edição do dia 26 de junho de 1962 a grande confusão liderada pelo padre, o qual liderando uma multidão "invadiu e destruiu" o templo da AD.


O caso é narrado com riquezas de detalhes no livro Entre Rosas e Espinhos: biografia do pastor Antônio Rosa da Silva, do escritor Jacó Rodrigues Santiago. Rosa na época era um jovem obreiro e estava noivo com casamento marcado. O trabalho do futuro pastor era levar capas para realização do batismo em águas em Santana.

Entre boatos e ameaças, no domingo pela manhã, quando os crentes ainda estavam na igreja, a turba se aglomerou na frente do templo. Gritando "Viva a senhora Santana, viva!" ou "Viva o padre Cassimiro!", a multidão armada com facas, porretes e armas de fogo, avançou enfurecida clamando "Fora com o pastor! fora com os protestantes!".

Segundo Santiago, o "padre com sua batina preta balançando, saltava no chão com tanto ódio dos crentes". Por segurança (se havia alguma), as portas do templo foram rapidamente fechadas. Mas pelas janelas, terra com pontas de faca eram jogadas. "De repente, uma pedra atravessou a nave do templo ao púlpito" e por pouco não atinge no rosto o evangelista Antônio Rosa.


Liderados pelo padre, mas com a intermediação de um Juiz de Paz, a multidão deu um prazo de alguns minutos para que os crentes saíssem do templo. Assustados, os assembleianos conseguiram com muita dificuldade sair da igreja. Logo que deixaram o templo, os fanáticos quebraram tudo o que viam pela frente. A casa pastoral foi depredada por completo.

Tamanha confusão, além de ser destaque nos jornais do Rio, causou problemas para a imagem da Igreja Católica na região, pois o padre Cassimiro foi processado e tempos depois removido da paróquia. O jovem evangelista Antonio Rosa, anos depois acabou sucedendo o pastor José Alves Pimentel na liderança da AD campo de Ipatinga e Coronel Fabriciano em Minas.

Perseguições como a relatada na biografia ainda eram comuns no interior do Brasil nesse período. Em algumas localidades, o poder da Igreja Católica se estendia muito além da comunidade de fieis. E os tumultos contra os "protestantes" marcaram a história de muitas denominações evangélicas por conta desses embates contra fanáticos que não aceitavam outra igreja na região.

Boa história para recordar a dominação do catolicismo no interior do país e os revesses dos pioneiros. Na minissérie Hilda Furacão não apareceu nenhuma perseguição aos pentecostais, mas o crentes de Santana dos Ferros sentiram o drama ao vivo e a cores.

Fonte - inclusive as fotos:

SANTIAGO, Jacó Rodrigues. Entre Rosas e Espinhos: Biografia do Pastor Antônio Rosa da Silva. Ipatinga: GCOM Comunicação e Marketing, 2016. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Nels Lawrence Olson - as glórias de um apóstolo

No editorial As glórias de um apóstolo no Mensageiro da Paz de março de 1989, é descrita "a importância" de Nels Lawrence Olson e de "sua participação pioneira em vários projetos que contribuíram para expansão da obra pentecostal em nosso país".

Realmente, a presença do missionário norte-americano no Brasil foi decisiva para a evangelização do interior de Minas Gerais, o desenvolvimento da CPAD, a utilização do rádio como meio de evangelização e, principalmente, a organização de institutos bíblicos (a famigerada fábrica de pastores) com o objetivo de formar obreiros e novos líderes na denominação.

Lawrence Olson: fundador do IBP

O editorial lembra as "tradicionais escolas bíblicas" em Lavras (MG), quando ainda havia a proibição do funcionamento dos institutos bíblicos dentro das ADs. Com duração média de 30 dias, Olson ministrava ensinos sistemáticos para prover os obreiros de conhecimentos teológicos "para um ministério mais proveitoso".

Já instalado na cidade do Rio de Janeiro, Lawrence foi mais além. Fundou o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) em 1961. Três anos antes, o casal Lemos, também ligado à missão norte-americana, havia fundado em Pindamonhangaba (SP) o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD).

Segundo Albertina Malafaia a "mentalidade" da época não aceitava os institutos. O motivo? Era "pecado" estudar. Havia o medo que os novos ministros saídos das instituições de ensino teológico tomassem "o lugar dos pastores". Conforme a mãe do polêmico Silas, tanto o casal Olson como os Malafaia tiveram "que pagar um preço muito alto" porque os líderes proibiam os crentes de frequentar a "Escolinha do Lourenço e do Gilberto". Mesmo assim, não foram poucos os obreiros que passaram pelos bancos do IBP.

O fato, é que os pioneiros suecos resistiram em aceitar a participação dos norte-americanos dentro das ADs brasileiras. Por serem pioneiros no Brasil, os escandinavos consideravam o campo de trabalho sua área exclusiva. Os escandinavos queriam garantir sua "reserva de mercado" e os missionários dos EUA deveriam ser direcionados para outros países da América Latina.

Para cooperar no trabalho pentecostal tupiniquim, os estadunidenses tiveram que aceitar "os princípios e métodos da obra já existente". Por isso, as "inovações" propostas por Olson, JP Kolenda, Virgil Smith e companhia, eram vistos com má vontade pelos suecos e muitos pastores brasileiros. Não estavam eles em flagrante contradição com o que foi combinado na CGADB na década de 1930?

Porém o declínio da liderança sueca, mais o contexto mundial pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945) favoreceu os norte-americanos. Valores culturais hegemônicos vindos do norte com dólares para financiar projetos denominacionais, deram condições para que em alguns momentos "os princípios e métodos" das ADs brasileiras fossem superados.

Assim viveu irmão Lourenço. Amor, dedicação e boas propostas, mas sempre enfrentando os dilemas do seu contexto histórico. Morreu no seu país natal em 1993.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

Mensageiro da Paz, ano LIX, nº 1227 - março de 1989.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Nels Lawrence Olson - o missionário das mídias eletrônicas

Nels Lawrence Olson é um nome conhecidíssimo dentro das ADs no Brasil. Sobre ele está escrito no site da CPAD: "Missionário norte-americano nas Assembleias de Deus, pioneiro e pastor de igrejas Assembleias de Deus em Minas Gerais, pioneiro do radioevangelismo e do ensino teológico nas Assembleias de Deus, tradutor, editor, escritor, articulista, ensinador e comentarista de Lições Bíblicas da Escola Dominical".

Nas publicações da CPAD há um vasto material sobre esse estadunidense que desempenhou um importante trabalho dentro das ADs. Hoje, obviamente, à memória do irmão Lourenço é celebrada. Mas quando iniciou o programa de rádio no interior de Minas Gerais em 1947, e posteriormente abriu o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) no Rio de Janeiro em 1960, Olson causou desconforto entre as lideranças da época.

Apesar da utilização do rádio ser liberada para evangelização na Convenção Geral em 1937, o uso do mesmo ainda era um tabu dentro das ADs. Lideranças de expressão nacional (como Paulo Macalão para ficar apenas em um só nome) eram contra o uso e o fato de um crente possuir o aparelho em casa era motivo para exclusão sumária.



Nos Estados Unidos, país de origem de Olson, a utilização do rádio para fins evangelísticos era algo comum desde a década de 1920. Lourenço conhecia o potencial da radiodifusão. No Brasil, porém a mídia radiofônica era vista pelos pentecostais (e depois a televisão) com desconfiança, pois suas programações traziam para os lares os efêmeros valores mundanos.

Mas de Lavras (MG), Olson vencendo as resistências, levou posteriormente o programa para as principais emissoras do Rio de Janeiro. Quando do regresso do missionário para os EUA em 1989, o Mensageiro da Paz em editorial relembrou que os "meninos dos anos 40, 50 e 60 ainda hoje se recordam da preocupação com que seus pais saíam do santuário, na expectativa de chegar a tempo para ouvir o programa A voz das Assembleias de Deus".

Ainda segundo o editorial, quando começava o programa "todos se postavam em silêncio, pois um novo culto se realizaria através do rádio". Essa avidez gerou exageros por parte de muitos crentes e alguns faltavam aos cultos somente para ouvir as programações. O pastor Francisco de Assis Gomes chamou esse comportamento de "radiolatria".

Olson porém, sempre estava em verdadeira "sintonia" com o uso das novas mídias, pois via nelas possibilidades ilimitadas. Em entrevista a revista A Seara (maio/junho de 1957), Lourenço comentou: "Devemos estar com as vistas voltadas para a televisão que rapidamente vem substituindo o rádio como meio de difusão".

Talvez não imaginasse ele, que no caso da televisão os debates e resistências seriam maiores. Durariam décadas.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

A Seara, ano II, nº 3, vol. IV, maio/junho de 1957.

Mensageiro da Paz, ano LIX, nº 1227 - março de 1989.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Aniversário de pastor - críticas de João de Oliveira

Há eventos dentro das Assembleias de Deus, que de tanto tempo instituídos parecem até ser "naturais". Gedeon Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, destaca que o período de 1946 à 1988, consolidou-se dentro das ADs as tradições. Tradições essas criadas ou (citando o historiador Éric Hobsbawn) "inventadas".

Porém, naquelas décadas de crescente institucionalização assembleiana, havia espaço para contestações nos periódicos da CPAD. Alguns pioneiros sempre se manifestavam sobre determinados temas através do Mensageiro da Paz ou da revista A Seara. Bons debates foram travados na imprensa denominacional, onde os diversos pontos de vista eram explicitados. 

Um dos questionamentos que veio a público, foi algo muito popular hoje em dia nas igrejas: as comemorações de aniversário dos pastores. E ironicamente, a objeção veio nas páginas da Seara, que tinha por hábito divulgar esse tipo de celebração.

Aniversário do pastor Corrêa

O artigo Deve a igreja promover aniversário de pastor? - escrito pelo pastor João de Oliveira levantou criticas sobre esse tipo de evento nas igrejas. No entender do veterano obreiro, sempre apareciam no "seio da cristandade, coisas que consideradas à luz dos Evangelhos estão fora do plano divino e muitas vezes essas coisas entram e crescem fortes raízes, tornando-se até como 'doutrina'...".

Na visão do pastor Oliveira, combatia-se tantas coisas necessárias à igreja como institutos bíblicos, caixa de auxílio de obreiros, orfanatos, escolas, etc. Mas as "festículas" com propósitos de agradecer a Deus pela vida do pastor, as quais acabavam por exaltar de forma exagerada a figura do líder, não eram contestadas. 

Pastor João comenta exageros do tipo "jogar pétalas de flores" e de "recitais de honra ao mérito". Afirma o escritor não ser contra celebrações na igreja ou em família. É provável, que a preocupação do obreiro era com àquilo que conhecemos de "culto à personalidade". 

Oliveira chega a ironizar certa comemoração do natalício de um pastor, onde houve alegria e "festejos" e tempos depois "já havia luta pela saída dele da igreja". A própria experiência do articulista parece que não foi muito boa nesse sentido. 

João de Oliveira fez suas observações em 1968. Faleceu aos 69 anos em 1980. O que diria ele ao ver as suntuosas festas e o glamour de certos eventos natalícios em algumas igrejas e ministérios da atualidade? 

Os pastores merecem reconhecimento pelo seu árduo trabalho? Óbvio que sim. Mas nunca as celebrações de aniversário dos ministros evangélicos revelaram tanto a distância social entre os líderes e membros da igreja. As ofertas e presentes oferecidos nas efemérides eclesiásticas, fazem o "jogar pétalas de flores" e os "recitais de honra ao mérito" citados pelo pastor Oliveira algo pueril.

Talvez, a principal preocupação dos crentes mais abalizados biblicamente é o culto à personalidade. Nas celebrações é flagrante o endeusamento dos líderes e das famílias pastorais. O que começou como ações de graças pela vida do pastor, hoje faz parte da agenda oficial dos ministérios. E ai do obreiro que faltar...

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

A Seara, nº 68, junho/julho de 1968, p.39.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sem saber ler crente abre uma AD no Paraná

A cidade de Centenário do Sul, localizada ao norte do Paraná começou a ser formada na década de 1940. Em busca de riquezas e melhorias de vida, os primeiros colonizadores se estabeleceram na região. "A terra fértil atraiu grande número de homens de negócios, fazendeiros e agricultores que iniciaram o progresso e desenvolvimento" - narra o histórico do município.

No ano de 1946 foi construída a primeira capela católica. Em seguida surgiu uma pensão e uma padaria foi aberta. Logo, a cultura cafeeira dominou as paisagens rurais e a abertura de uma serraria trouxe grande desenvolvimento a região. 

Em 1948 é inaugurada a primeira escola. No ano seguinte, um campo de pouso para aviões de pequeno porte já era utilizado. No início dos anos de 1950, a energia elétrica chegou na localidade. A emancipação veio na sequência e a posse do primeiro prefeito ocorreu em dezembro de 1952.

Mas quando Centenário do Sul "estava ainda no seu embrião", um crente vindo de Minas Gerais de nome João Ambilino iniciou os primeiros cultos pentecostais na região. Ambilino tinha uma família numerosa e os cultos eram realizados em sua casa. Muito normal, até porque várias ADs tiveram origem na residência simples e humilde dos seus pioneiros.

MP: relato do início de uma grande obra

Segundo o relato do presbítero Osvaldo de Melo, que testemunhou os fatos ao Mensageiro da Paz, havia uma aparente dificuldade na evangelização: João Ambilino era analfabeto. Porém, o pioneiro "não se abalou com esta situação". Realizava os cultos como é de praxe: cantava e orava com sua família. Na hora da pregação, abria a Bíblia em cima da mesa e "começava a cantar hinos de louvor a Deus". 

A persistência rendeu frutos, pois em determinado dia "a primeira alma rendia-se a Cristo". O nome do convertido era João Rita. A conversão de Rita foi sentida como aprovação do esforço de Ambilino na "causa do Senhor". 

Tempos depois, chegou na cidade os Garcia e o núcleo assembleiano aumentou. No sítio da família Garcia foi construído um galpão para realização dos cultos. O trabalhou então desenvolveu-se e muitas almas foram conquistadas. 

A gênese da AD em Centenário do Sul é semelhante há muitas igrejas pentecostais no Brasil. Segundo o pastor Claiton Pommerening, autor da tese A relação entre a oralidade e a escrita na teologia pentecostal "O crescimento das Assembleias de Deus no Brasil se deve principalmente ao trabalho de obreiros leigos".

Pommerening ainda afirma, que os pioneiros "não tinham formação pastoral, não sabiam ler direito, falavam errado, mas tinham um ardor evangelístico que fez inflamar os corações convencendo de que a mensagem era verdadeira e eficaz". Claiton destaca a grande contribuição desses "evangelistas anônimos, homens e mulheres, que fizeram a história das ADs no Brasil e a tornaram a gigante que é" - concluiu o pastor na AD em Joinville (SC) e diretor do Centro Evangélico de Educação e Cultura (CEEDUC).

Obras como essa de João Ambilino, e dos muitos anônimos da história das ADs, não pode ficar desconhecida. Devem ser revisitadas. Até porque, essas memórias, são testemunhos eloquentes e contrários ao ethos e o modus operandi de muitos dos nossos líderes da atualidade.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan. A relação entre a oralidade e a escrita na teologia pentecostal: acertos, riscos e possibilidades. 2008. Dissertação (Mestrado) - Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2008.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1965, p. 4.

www.centenariodosul.pr.gov.br/page/88/historico-do-municipio