quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Gunnar, Frida e Nyström - tempos conturbados

O missionário Gunnar Vingren, juntamente com seu companheiro Daniel Berg chegaram ao Brasil, especificamente em Belém do Pará, no dia 19 de novembro de 1910. Sete meses depois, no dia 18 de junho de 1911, os suecos iniciaram o trabalho da Missão da Fé Apostólica, depois modificado para Assembleia de Deus (AD).

A história é conhecida: a igreja formada apenas por alguns membros excluídos da Igreja Batista em Belém, sob a liderança de Vingren e Berg cresce e se expande por todo o país. Paralelamente, o apoio da Igreja Filadélfia, em Estocolmo foi fundamental. Lewi Pethrus, amigo de infância de Daniel Berg e grande líder do movimento pentecostal na Suécia, enviou missionários ao Brasil para consolidar a grande obra de evangelização. Entre eles, o casal Samuel e Lina Nyström.

Família Vingren: o amargo regresso em 1932

Os Nyström chegaram ao Brasil em agosto de 1916. Samuel era um obreiro de extrema competência e foi pioneiro na abertura de vários trabalhos na região norte. No ano seguinte, chegou ao país a missionária Frida Strandberg, para se casar com Gunnar Vingren. O casamento foi realizado em Belém pelo próprio Nyström, no dia 16 de outubro de 1917.

Com as contantes enfermidades de Gunnar, Frida desponta na liderança do trabalho na região. Em 1919, foi criado o jornal Boa Semente, e a senhora Vingren assumiu o jornal como sua principal redatora. Nesse tempo, as tensões entre Frida e Samuel se agravam ao ponto de Nyström, sempre que possível, criticar a missionária em cartas a Pethrus.

Em 1924, a transferência do casal Vingren para o Rio, pode ter sido providencial para acalmar os ânimos. Ao chegar na cidade, em 1924, implantaram a AD na Capital da República. Em pouco tempo, não só o antigo Distrito Federal, mas todo o estado fluminense receberam congregações pentecostais.

Em meio as controvérsias algo transparece nas pesquisas acadêmicas: o modelo de igreja que os Vingren estavam estabelecendo no Rio. Na Cidade Maravilhosa, o ministério feminino era incentivado e Frida Vingren liderava a igreja nas constantes ausências do marido; ou como insinua Gedeon Alencar: na presença dele também.

No Rio, os Vingren fundam em 1929, outro jornal intitulado Som Alegre e editam em junho de 1931, o Saltério Pentecostal, oficialmente "para suprir a escassez de Harpa Cristã". Mais do que simples alternativas para carências editoriais, o novo periódico e hinário apontavam para a ruptura entre o modelo de igreja dos Vingren com as congregações estabelecidas no norte/nordeste.

Não por acaso, a convocação dos pastores brasileiros para a primeira Convenção Geral em 1930, fale de "crise". E, posteriormente, na carta dos líderes nativos a Pethrus em abril de 1931, as reclamações sobre Frida como editora do recém criado Mensageiro da Paz sejam fortes.

Em meio a tudo isso, para agravar as coisas, as acusações morais contra Frida desestabilizam totalmente o casal. Os Vingren se vêem forçados a voltar em 1932. Gunnar, antes de partir, convida o missionário John Sohreim para assumir seu lugar na AD em São Cristóvão, mas ordens vindas da Suécia conferem a Samuel Nyström, que apoiado pelos pastores brasileiros, o direito de ser o pastor da igreja carioca.

Em agosto de 1932, a família Vingren volta à Suécia. Menos de um ano depois, em junho de 1933 Gunnar morre precocemente em sua terra natal. Frida falece em 1940, depois de amargar o ostracismo e internações.

Atualmente, os modelos de igreja e ministério dentro das ADs ainda se chocam e produzem seus expurgos, cisões e novas convenções. Nada novo debaixo do céu...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

CGADB de 1973 - um chef entra para a História

Entre os dias 22 a 26 de janeiro de 1973, em Natal, capital do Rio Grande do Norte (RN), foi realizada pela terceira vez, a XXII Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Nessa época, a igreja estava sob a liderança do pastor João Batista de Silva e contava com quase 10 mil membros e congregados, distribuídos por 18 congregações na cidade.

A Convenção em Natal não fugiu das tendências e dos debates, que marcaram outras CGADBs na época. Exemplo disso foram as discussões em torno da televisão. Apesar de ser aprovada na Convenção Geral de 1968 uma resolução proibindo os pastores e evangelistas de possuírem televisores, houve acusações de que alguns líderes do Rio de Janeiro estavam usando a televisão.

Em meio a fortes controvérsias sobre a televisão, a Convenção aprovou por "maioria absoluta de votos de seus membros presentes, condenar o uso de TV pelos perigos espirituais que ela produz". Na sequência foi formada uma comissão para tratar dos casos de pastores que possuíssem o aparelho.

Posteriormente, foi aprovado o novo Estatuto da CPAD, o reconhecimento do Instituto Bíblico de Pindamonhangaba (IBAD) e a criação da Comissão de Missões. Se por um lado as ADs se abriam para o ensino teológico formal, por outro, os debates sobre usos e costumes ainda continuariam acirradas.

Chef Alfredo: grande nome da CGADB em Natal

Todavia, em meio a tantas figuras históricas da denominação na capital potiguar, destacou-se nos bastidores (ou melhor, na cozinha) o chef Alfredo Machado da Silva. O nome de Silva não está nos registros oficiais da CGADB, mas seu trabalho de liderar uma equipe de 30 pessoas e de preparar refeições diárias para o batalhão de obreiros vindos de todo Brasil também fez história.

Foi nas páginas do extinto jornal O Poti, que a mega tarefa do mestre-cuca e da sua bem orquestrada equipe recebeu o devido destaque. Revelou o periódico a utilização de 100 panelas para a preparação dos alimentos e mais de 60 quilos de gás por dia. Afinal, foram três refeições diárias para mais de 1.500 pessoas, em uma maratona que começava às 4 da manhã e se estendia até meia-noite.

O Poti, também teve o cuidado de informar a quantidade de legumes e ingredientes consumidos: 10 quilos de arroz, 20 quilos de feijão, dois sacos de batata, um saco de cenoura e outro de chuchu. 60 quilos de repolho, 25 quilos de pepino, 10 quilos de beterraba, 6 quilos de cebola e mais 3 caixas de tomate.

Além da fartura de legumes, os nobres convencionais saborearam 300 quilos de galeto e 250 quilos de carne. Consta ainda o gasto de 20 latas de óleo e duas de azeite, 4 quilos de sal, 60 quilos de açúcar, 150 quilos de sopa, 400 quilos de pão, 100 litros de leite, 300 litros de água, 20 quilos de café, 1.300 ovos, 50 quilos de queijo, 1000 bananas, 50 quilos de macarrão e duas caixas de goiabada.

Experiente na área da cozinha, o esforçado Alfredo se mostrou feliz com os resultados do trabalho, pois, todos comeram bem e se mostravam satisfeitos - "não houve reclamações"-, declarou o renomado chef de Natal, que entrou em férias do seu trabalho no Hotel dos Reis Magos, para aquela ocasião "muito especial".

Realmente, a comilança deve ter sido boa mesmo: mais de 336 convencionais receberam atendimento no posto médico montado providencialmente no templo devido a hipertensão, fortes emoções ou "embaraços digestivos".

Se o clima na CGADB em Natal foi de intensos debates, em contrapartida no refeitório a mesa era farta...

Fontes:

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

O Poti, domingo, 28 de janeiro de 1973/acervo digital da Biblioteca Nacional do RJ.

domingo, 5 de agosto de 2018

Frida, IPB, Antônio Gilberto e o ministério feminino

O final do mês de julho de 2018 foi marcante para o mundo evangélico em geral: matéria da BBC de Londres sobre a missionária sueca Frida Vingren, reunião Entre do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) e o falecimento do pastor e teólogo assembleiano Antônio Gilberto. Nos três eventos, pode-se relacionar algo em comum: o ministério feminino.

A matéria da BBC acerca da esposa do mítico fundador das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil, Gunnar Vingren, gerou, como sempre, fortes polêmicas. As redes sociais são prova disso: desconhecimento e lamentações sobre o triste fim de Frida, críticas aos seus algozes, dúvidas sobre sua integridade moral e espiritual, defesa e exortações contrárias ao ministério feminino e por aí vai...

Em tudo isso, como em outros assuntos, as ADs se mostram uma denominação controversa. Alguns Ministérios não aceitam pastoras; outros tem até "bispas". Em alguns casos, aparentemente, há certos avanços. O Ministério do Ipiranga em São Paulo recentemente separou mulheres para o cargo de "Missionárias Comissionadas". 

Pastor Antônio Gilberto e biografia de Frida

Sendo o principal Ministério ligado a Convenção dos Ministros Ortodoxos das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo e Outros (COMOESPO), cujo fundador, o saudoso pastor Alfredo Reikdal, dizia-se "assembleiano ortodoxo e sectário" e reprovava inovações, a separação de missionárias no Ipiranga quebra a autointitulada "ortodoxia" da Convenção paulista.

Coincidentemente, o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), que aconteceu entre os dias 22 e 28 de julho, decidiu pela proibição - "exceto sob supervisão de um pastor" - a pregação de mulheres, as quais também não podem "assomar ao púlpito". Irmãs ordenadas em outras denominações evangélicas, igualmente, não têm permissão para pregar em suas igrejas.

Como no caso assembleiano, desde a CGADB de 1930, há contradições nesse tipo de resolução, pois na prática, elas ensinam nas Escolas Dominicais, dirigem grupos de oração, lideram corais de jovens e muito mais. Como observou o blogueiro Daladier Santos, as mulheres não foram proibidas de "serem enviadas como missionárias. Assim elas irão, pregarão, ensinarão, batizarão, construirão igrejas, ungirão enfermos, servirão a Ceia, farão casamentos e até (quem sabe?) levantarão obreiros para o trabalho."

Por último, no dia 30 de julho, faleceu o pastor Antônio Gilberto. As ADs perderam o seu maior ícone na área do ensino e teologia. Homem probo e de grande influência na denominação, Gilberto foi sepultado com as honras merecidas e testemunhos da sua grandeza pessoal e ministerial.

Em 2012, em entrevista ao Seara News, o pastor Antônio ao ser questionado sobre à ordenação de mulheres ao ministério, o nobre obreiro foi enfático: "Não, não e outra vez não! Não existe Ordenação!… Mulheres no Santo Ministério, tanto venham. Inclusive muitas vezes elas fazem o trabalho melhor que os homens. Mas ordenar para o Santo Ministério, não tem base nas Escrituras."

Na sequência, o teólogo pentecostal faz sua exposição refutando a ideia de ordenação das irmãs. Usando referências bíblicas e palavras do grego, o pastor procura mostrar o quanto a prática de separação de mulheres ao ministério é antibíblica. "Quem estiver fazendo vai prestar conta a Deus" - enfatizou Gilberto.

E assim caminha os evangélicos. De um lado as pressões históricas com o exemplo dramático de Frida Vingren tentando abalar as mais firmes convicções ministeriais. Por outro, Concílios, Convenções e teólogos de renome negando o ministério feminino, mas aceitando-o em suas fileiras conforme as conveniências.

Fontes:

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

http://www.daladierlima.com/igreja-presbiteriana-contribui-para-contradicao-evangelica/

http://www.searanews.com.br/pr-antonio-gilberto-a-importancia-da-doutrina-biblica-para-a-igreja/

terça-feira, 24 de julho de 2018

Homem na lua, transplantes de coração e debates na Convenção de Madureira

Período de tensões internacional no globo, a Guerra Fria (1945-1991) se caracterizou pela polarização entre os EUA e a URSS e provocou um clima de permanente competição armamentista, espacial e científica entre as duas superpotências.

Paralelamente, o meio evangélico tinha sua escatologia moldada pelos eventos da Guerra Fria. E os acontecimentos desse tempo conturbado tinham uma carga de dramaticidade maior para os crentes. Dentro desse contexto histórico, o Mensageiro da Paz da 1ª quinzena de abril de 1970 trouxe através do relato do saudoso pastor e poeta Joanyr de Oliveira um interessante relato de certas controvérsias dessa era. 

Na V Convenção Regional das Assembleias de Deus no Distrito Federal, presidida pelo pastor Paulo Leivas Macalão, no mês de julho de 1969, questões acerca dos avanços científicos e seus impactos na teologia dos pentecostais foram esclarecidas. Três assuntos receberam o devido esclarecimento por parte do próprio Macalão: as viagens interplanetárias, transplante de coração e os dias da criação segundo a Ciência.

O tema da conquista do espaço estava em seu auge naqueles dias. Joanyr de Oliveira explicou que "a Convenção coincidiu com o primeiro voo do homem à superfície lunar". De fato, no dia 21 de julho de 1969, a missão Apolo 11, tripulada pelos astronautas Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins obteve sucesso em seus objetivos: pisar na lua pela primeira vez.

O homem na lua: evento repleto de simbolismos

O evento, transmitido pela TV a milhões de pessoas em todo o mundo repercutia fortemente. E na Convenção em Brasília, a novidade entrou na pauta dos assuntos tratados. Diante de supostas dúvidas, Macalão esclareceu "não haver nas páginas da Bíblia qualquer proibição a respeito, constando nelas, ao contrário, que nos fins dos tempos a Ciência se multiplicaria", ou seja, as Escrituras Sagradas já previam os eventos que assombravam o planeta.

O assunto sobre os transplantes de coração era outra controvérsia séria. Realizado pioneiramente na África do Sul em 1967, e no Brasil em 1968, o assunto foi tema de diversas reportagens na mídia nos anos 60. Assim como a clonagem de embriões no fim da década de 1990, havia muitas dúvidas e especulações sobre o procedimento e seus resultados.

As explicações dadas por Macalão sobre o tema evidenciaram sérias questões soteriológicas. Segundo o mítico fundador do Ministério de Madureira, "as células vitais se encontram no cérebro e não no coração humano, e a salvação não está circunscrita ao pequeno órgão, como obreiros estavam crendo".

Na linguagem bíblica, o coração aparece muitas vezes de forma figurada para representar o centro das emoções, vontades e conhecimentos do homem e a salvação ocorre quando o ser humano entrega o seu "coração" a Cristo. Mas, interpretando literalmente as citações bíblicas sobre o "pequeno órgão", os transplantes geraram debates e polêmicas entre os membros das ADs.

Emendando os esclarecimentos, o presidente da Convenção falou sobre os "sete dias da criação". Obreiro "das antigas", Paulo Leivas confessou "que já entendeu certos textos de Gênesis literalmente, mas consultando a Deus foi esclarecido de que se trata, no caso, de eras geológicas".

Evidentemente, que a ideia de "eras geológicas" não era novidade para os estudiosos da Bíblia na época. O missionário norte-americano Nels Lawrence Olson, em seu famoso livro “O Plano Divino Através dos Séculos”, lançado na década de 1950, já apontava para essa possível interpretação.

Em linhas gerais, o que se pode perceber no relato do pastor Joanyr de Oliveira é o estado de perplexidade daqueles homens simples diante de tantas novidades tecnológicas e científicas. Mais uma vez na história, os avanços da Ciência colocavam em dúvida as questões da fé.

Após relatar sucintamente os temas dos debates, Oliveira citou sobre a criação da "Escola Bíblica Pentecostal de Brasília", visando dar aos obreiros maiores conhecimentos para a pregação e o ensino das Escrituras nas igrejas. Madureira rendia-se definitivamente aos Institutos Bíblicos.

Sabe-se que Macalão sempre foi resistente a esse tipo de instituição, contudo, depois da Convenção no Distrito Federal, ele deve ter ficado convencido de vez da necessidade das famosas "fábrica de pastores".

Fontes:

Hobsbawm, Eric. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991 - São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Mensageiro da Paz da 1ª quinzena de abril de 1970.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Maria Marques de Miranda - sinônimo de humildade

Maria de Miranda: destaque no Boletim da EBD da IEADJO em maio de 1982

Recebi através de uma mensagem enviada pelo irmão Mario Sérgio de Santana, a imagem que pode ser vista e lida logo acima. Nela, está contida muito do que poderia e pode ser dito desta mulher como cristã, serva boa e fiel que foi.

Digo isto não por ser minha mãe, mas porque esta afinidade me proporciona condições ideais para reconhecer como fiéis e verdadeiras, as palavras que a ela foram atribuídas no momento da emissão deste certificado, em maio de 1982, na edição do Boletim Informativo da EBD da Assembleia de Deus de Joinville.

Ao receber a postagem do irmão Mario fui desafiado a contribuir com algumas palavras que poderiam ser acrescentadas à imagem e à recordação dessa, que foi sem dúvidas uma das mais atuantes professoras da EBD de Joinville, atribuição que exercia por amor e com muito amor.

No primeiro momento, fiquei com receio de ser repetitivo. Afinal, tudo o que foi dito eu certamente diria. Foi quando pensei em abordar fatos que marcaram a minha vida e a vida de minha família, composta por seu marido (meu pai) Marcílio de Miranda e meus irmãos, Marli Miranda (Pohl), Marlei Miranda, Marlon Miranda e Marcio Miranda.

Todas as vezes que vou falar a respeito de Escola Dominical me vem à mente Maria Marques de Miranda, minha mãe. Sim! Pois, para mim, falar de EBD sem falar de Maria Miranda, seria como falar de missões sem falar de Jesus, pois foi através dela que cada um de nós conheceu o evangelho.

Lembro-me, ainda bem pequenino, de que aos domingos acordávamos muito cedo com o barulho de panelas na cozinha, e quando digo cedo, me refiro em torno das 6 horas da manhã. Levantávamos e lá estava ela, preparando o almoço dominical, aquele especial, com pratos que não desfrutávamos em dias de semana em função da correria.

Além disso, o café matinal já nos esperava e cada um sabia que deveria se arrumar para irmos a EBD que iniciava às 9h. Lembro, que as panelas eram enroladas em vários jornais e em seguida por cobertores especialmente reservados para isso, para assim manter o mais quentinho possível à comida do almoço em família.

Não tínhamos carro, íamos de ônibus para a igreja, especialmente quando morávamos em Curitiba, período em que ela também se dedicou a ensinar na EBD. Todo esse cuidado com a família nunca a impediu de fazer seus estudos para transmitir aos seus alunos e alunas a lição proposta para a classe.

Recordo-me de vê-la todas as noites com o abajur ligado a ler a Bíblia, buscando inspiração para oferecer seu melhor. Estamos falando de uma mulher que não possuía grande estudo formal, mas que era sem dúvida extremamente inteligente e iluminada por Deus na busca pelo conhecer e transmitir a palavra. E esse transmitir sempre passava por sua própria vida antes de nos alcançar.

Maria Marques de Miranda foi sem dúvidas a pessoa mais ética, honesta, sábia e dedicada que já conheci em minha vida. Não me recordo de tê-la ouvido em um só momento reclamando de qualquer coisa que a vida tenha lhe reservado. E sabemos que alguns momentos não foram fáceis, mas o “tudo posso naquele que me fortalece” sempre se fez presente.

Hoje, mesmo diante de tantas facilidades que encontramos em nossas vidas, como transporte coletivo eficiente, carro próprio, táxi, UBER, restaurantes populares, comidas prontas, microondas, almoço “na igreja”, é muito comum ouvirmos de pais e mães: “Não conseguimos ir a EBD, pois precisamos fazer o almoço”, deixando assim de levar seus filhos a EBD para serem “alimentados” com o ensino da palavra.

Por isso, quando falo de EBD não consigo deixar de falar do exemplo de Maria Marques de Miranda. Sou grato por tê-la como minha mãe, pois este foi sem dúvidas o maior e melhor presente que recebi de Deus. Hoje ela não se encontra mais entre nós, está nos braços do Senhor, e se eu tivesse que defini-la com uma só palavra, eu diria: HUMILDADE!

Pois ela foi para mim o melhor exemplo de “humildade” que presenciei até hoje. Afinal, nunca precisou descer de seu lugar, ou subir a um lugar mais alto, para mostrar às pessoas quem ela era.

Ela era uma serva boa e fiel! Ela era Minha Mãe!

Deus seja Louvado por isso!

*Maria Marques Miranda faleceu no dia 27 de dezembro de 2000.

Marcos Marques de Miranda (filho do irmão Marcílio de Miranda, e neto do saudoso pastor Manoel Germano de Miranda, pioneiro na Assembleia de Deus em Santa Catarina).

quinta-feira, 19 de julho de 2018

AD em Maringá - o sonho que virou pesadelo

Nos últimos dias, a Igreja Evangélica Assembleia de Deus do Campo Eclesiástico de Maringá (IEADCEMAR) tem sido notícia pelas acusações de improbidade administrativa, dívidas milionárias e comprometimento do patrimônio da denominação na cidade. Cerca de 12 templos da igreja já foram leiloados, membros e obreiros denunciam o que seria o "pior momento da sua história".

Contudo, é preciso voltar ao ano de 2005 para compreender as origens da crise em Maringá. Nesse ano, assumiu a AD local o pastor Robson José Brito, substituindo o veterano pastor João Barbosa de Macedo, o qual estava na liderança da igreja desde 1977. Para seu sucessor, o ex-militar e pioneiro pentecostal no Paraná, escolheu o esposo da sua filha mais nova, Rute.

Jovem, com formação superior, carismático e de excelente oratória, Robson Brito foi professor de cursos preparatórios para vestibular e ex-líder da juventude na igreja. O sogro viu no genro o sucessor ideal e, a contragosto da Convenção paranaense, Robson foi escolhido como o novo pastor da IEADCEMAR.

Afinal, a AD em Maringá era um campo eclesiástico importante e cobiçado; uma potência eclesiástica. Segundo o pastor Osmar Soares, um dos denunciantes da atual situação, a igreja "era o sonho de todo e qualquer pastor", financeiramente sólida e estável.

Seis anos depois (2011) de assumir o campo, Brito realizou algo que há muito desejava: comprou a Rádio Tododia (ex-Catedral). Contudo, para adquirir a estação, o pastor teve que ousar financeiramente e tomou empréstimos volumosos dando como garantia propriedades da igreja. Ao que tudo indica, a má gestão dos recursos fizeram da dívida contraída pela igreja uma verdadeira bola de neve.

Em 2014, a situação financeira da denominação já era assunto na mídia impressa e virtual. A crise foi manchete do jornal O Diário do Norte do Paraná e de constantes matérias na internet do Maringá Post. Na época, informava-se que a dívida chegava a casa dos 17 milhões de reais (atualmente estimada em 23 milhões), valor muito superior ao patrimônio da igreja.


Nesse processo, a IEADCEMAR enfrentou uma cisão no campo de Sarandi. Motivo: o templo da igreja estava empenhorado como garantia do pagamento das dívidas. Para contornar a situação, o pastor Robson permitiu a emancipação de 6 campos eclesiásticos anteriormente ligados à AD em Maringá. A fragmentação o enfraqueceu ainda mais diante dos seus adversários. 

Revoltas devido ao estado de endividamento da instituição, queda brutal das contribuições financeiras, penhora de templos e bens e a iniciativa do pastor Brito em apoiar a candidatura do seu irmão Luciano ao cargo de deputado federal, contrariando as orientações da Convenção Estadual, fizeram da liderança da IEADCEMAR alvo constante de denúncias, cisões, protestos e acusações mútuas. Sobrou até para o Diabo alguma culpa no cartório...

Outro fator agravou a situação: enquanto o pastor Ival Teodoro da Silva era presidente da Convenção das Igrejas Assembleia de Deus no Estado do Paraná (CIEADEP), os problemas ainda eram tratados em seu âmbito local. Aliado do pastor Robson, Ival tentava amenizar a situação. O atual presidente da CIEADEP, o pastor Perci Fontoura, já tem outra postura diante da crise: é nítida agora a "vontade" da Convenção de se envolver no caso.

Diante das negativas do líder da IEADCEMAR, em todas as instâncias (jurídicas e eclesiásticas) de reconhecer a grave crise que assola a igreja, a CIEADEP tem pressionado o pastor Brito a renunciar ao cargo de presidente vitalício da AD em Maringá. Aliás, a vitaliciedade de Robson é outra questão que desagradou a CIEADEP na época de sua posse no campo maringaense.

A pressão dos últimos dias levou Robson a aceitar um afastamento de 30 dias. Não é a renúncia desejada por alguns, mas é uma tentativa de contornar a grave situação. Estuda-se uma possível transferência do pastor de Maringá para outra cidade como forma de sanar a crise de legitimidade do atual presidente.

Em meio a tudo isso, quem sofre mesmo são os membros da igreja. Principalmente os veteranos, os quais veem o sacrifício de muitos pioneiros ser destruído em pouco tempo. Os sonhos de algumas congregações de terem seus novos ou próprios templos já foram desfeitos. 

Nem sempre a vitaliciedade é garantia de permanência eterna na presidência das igrejas. A história mostra, que impérios e governos não resistem por muito tempo diante de crises econômicas, quanto mais igrejas e seus senhores feudais. 

Fontes:

https://maringapost.com.br/

http://www.jmnoticia.com.br/

quinta-feira, 12 de julho de 2018

CONFRADESP - vitaliciedade e estatuto

Nos dias 03 e 04 de julho de 2018, realizou-se mais uma Assembleia Geral Extraordinária da Convenção (AGE) Fraternal Inter-Estadual das Assembleias de Deus do Ministério do Belém em São Paulo (CONFRADESP), presidida desde sua fundação em 1983, pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Uma das novidades da AGE, foi a confirmação da vitaliciedade - o que na prática já existia - do pastor José Wellington na presidência da CONFRADESP. A vitaliciedade, contudo, só é garantida ao seu atual presidente; os demais cargos e o próprio sucessor do pastor Wellington devem ser escolhidos em eleições internas na convenção. Dessa forma, o líder do Ministério do Belém, junta-se ao clube de obreiros assembleianos contemplados oficialmente com o cargo de pastor-presidente vitalício.

Diretoria da CONFRADESP

Outra questão discutida nos bastidores, mas retirada estrategicamente da pauta nas reuniões plenárias, foi a proposta de mudança do estatuto da CONFRADESP, que pretendia dar à Convenção maiores poderes sobre as igrejas filiadas. Seria algo parecido com o modelo da Convenção Nacional do Ministério de Madureira (CONAMAD), cujo estatuto elaborado em 1958, pelo pastor Paulo Macalão dificultava autonomias indesejadas por parte de alguns "rebeldes".

A proposta de mudança estatutária, procura evitar prováveis dificuldades na sucessão do pastor José Wellington. No alto dos seus 84 anos, Wellington prepara seu filho primogênito para sucedê-lo no Ministério do Belém em São Paulo. Ao que tudo indica, no âmbito local, a sucessão e liderança de Duéto não será questionada.

Todavia, o mesmo talvez não aconteça em nível estadual. A CONFRADESP abriga em seus quadros pastores de grandes igrejas no interior paulista. Veteranos, que de maneira alguma vão abrir mão do direito de decidir os rumos das igrejas que presidem e, principalmente, de escolher seus sucessores em família.

Grandes Ministérios vivem o dilema de possuírem sucessores sem carisma suficiente para aglutinar em torno de sua liderança antigos e novos obreiros. Um estatuto que dê mais força aos presidentes das convenções é o caminho para se tentar evitar futuras fragmentações.

Os que conhecem a fundo as Convenções com seus pastores e igrejas afirmam que as cisões serão inevitáveis no futuro. Tanto a CONFRADESP e a CONAMAD convivem com tensões internas só amenizadas pelas figuras emblemáticas de José Wellington e Manoel Ferreira. Porém, os dois cardeais são vitalícios, mas não eternos.

Além do mais, a história recente das duas principais convenções assembleianas mostra que, com ou sem Wellington e Ferreira, algumas igrejas já deram seu grito de independência. As ADs em São José dos Campos, Santo Amaro, São Bernardo do Campo e Perus, todas em São Paulo, são exemplos de cisões turbulentas, mas vitoriosas em seus propósitos.

Paulo Macalão, de Madureira, criou o "Estatuto Padrão" e formou sua Convenção Nacional em 1958. Cícero de Lima por sua vez era contrário à formalização de convenções, preferia somente a organização de Ministérios. A CONFRADESP foi fundada em 1983, após à morte de Cícero com dinâmica diferente da CONAMAD. Agora, por força das circunstâncias, quer ser semelhante a sua congênere.

São as idas e vindas da história...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FIDALGO, Douglas Alves. De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.