segunda-feira, 29 de abril de 2019

CGADB, CONAMAD, CADB - memórias e símbolos em disputa

A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), a Convenção Nacional das Assembleias de Deus Madureira (CONAMAD) e a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB) são instituições congêneres que competem entre si na grande comunidade assembleiana.

A rivalidade entre as convenções não se dá somente na área dos poderes terrenos e eclesiásticos. Há também uma intensa disputa pela memória assembleiana e os símbolos que a representam. Nos últimos anos, essa rivalidade ficou mais explícita, principalmente entre as lideranças da CGADB e da recém-criada CADB.

A saída da CONAMAD da CGADB em 1989 também gerou turbulências. Mas, no campo da memória, o Ministério de Madureira é muito mais direcionado para o mito do pastor Paulo Leivas Macalão, seu fundador e líder por mais de cinco décadas.

Painel colocado no aeroporto de Belém: disputa pela memória 

Todavia, na década de 1990, Madureira quase sofreu um abalo, quando o pastor da AD em Bangu, Ades dos Santos, procurou desvincular-se da CONAMAD. A manobra, na época, recebeu o incentivo da CGADB, mas foi revertida graças à intervenção do Bispo Manoel Ferreira. Caso o desligamento do campo eclesiástico de Bangu se concretizasse, a CONAMAD perderia a igreja que lhe deu origem num golpe histórico pela perda da primeira congregação de Madureira.

Porém, o caso CGADB e CADB traz muito mais rivalidades no campo da memória. A CGADB é a convenção original fundada em 1930, na esteira do processo de institucionalização das ADs. Mas em Belém/PA está a Igreja-Mãe e o slogan da CADB valoriza (e muito) a história de pioneirismo da AD belenense: "De volta ao lar".

Aliás, o discurso de a AD em Belém ser a Igreja-Mãe foi continuamente ignorado pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) desde o início da polarização política entre os pastores José Wellington e Samuel Câmara. Nos periódicos da editora, a AD em Belém praticamente não existia mais.

É significativo que com a saída definitiva das principais igrejas do norte da Convenção Geral em 2017, para formar a CADB, a primeira CGADB tenha sido realizada em Ananindeua, cidade da região metropolitana de Belém/PA. E para não ficar atrás em termos de pioneirismo, um painel da Convenção Estadual das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus do Pará (COMIEADEPA) destacava a primazia da instituição fundada em 1921, com a frase "berço do pentecoste no Brasil".

Nesse processo, a busca por apoios simbólicos é fundamental. Na convenção em Ananindeua, a presença do pastor Firmino Gouveia, presidente emérito da Igreja-Mãe, foi marcante para dar maior legitimidade ao grupo da CGADB, pois é símbolo vivo de um período áureo da AD em Belém.

É bom frisar que as duas convenções mantêm acervos e museus. A CGADB faz uso da CPAD em prol de uma produção historiográfica que beneficie os atuais detentores do poder e sustente o programa Movimento Pentecostal. No caso da CADB, a Rede Boas Novas é o principal instrumento para divulgação da CADB.

Que os estudiosos fiquem alertas: a seletividade histórica e seus mitos (Vingren, Berg, Frida e os demais pioneiros) será muito bem instrumentalizada. Engana-se, porém, que essa retórica é nova. Como diz o livro de Eclesiastes "não há nada novo debaixo do sol".

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

domingo, 21 de abril de 2019

Matheus Iensen - chegou a hora de partir (2ª parte)

Matheus Iensen já era conhecidíssimo por sua atuação no rádio e pelo ministério de louvor, quando foi apoiado pela Convenção das Igrejas Assembleias de Deus do Estado do Paraná (CIEADEP) para concorrer a uma vaga de deputado federal e participar da Assembleia Nacional Constituinte (ANC), a qual elaboraria no processo de redemocratização, uma nova Constituição para o país.

Segundo Paul Freston e seu livro "Evangélicos na Política Brasileira", a escolha do nome de Iensen encaixava-se no perfil de muitos outros candidatos apoiados pelas ADs: a do cantor ou pregador conhecido e detentor de capital político para alavancar uma candidatura e a do empreendedor bem sucedido; sinal da benção de Deus sobre seus negócios.

Freston também salienta, que a mística da ANC ajudou na mobilização das minorias na defesa de seus valores. Assim, o discurso dos candidatos evangélicos em defesa da família ou sobre a suposta ameaça a liberdade de culto era a tônica das campanhas pentecostais e evangélicas em geral.

Não por acaso, na biografia de Iensen destaca-se que o cantor-deputado "contribuiu muito para mudar o quadro caótico que se visualizava após o período ditatorial" e que "promoveu, com destaque, a defesa dos ideais cristãos". Com esse discurso amplificado pelo Sistema Iensen de Comunicações, o apresentador e dono da rádio Marumby conseguiu dois mantados seguidos na Câmara Federal (1987-1995)


Porém, há um fato da história familiar dos Iensen que é desconhecida do grande público evangélico. Na década de 1950, um ex-cunhado de Matheus, Mamédio Seme Scaff foi vereador e prefeito em Marilândia do Sul, no interior do Paraná. Em 1962, Scaff teve apoio das ADs no Paraná para concorrer a deputado estadual e Iensen trabalhou na campanha vitoriosa do cunhado. Em Curitiba, Matheus tentou, sem sucesso, uma vaga de vereador antes de 1986.

Eleito para na ANC, Iensen apresentou 180 emendas, das quais 46 foram aprovadas. A mais famosa delas foi a emenda que garantiu cinco anos de mandato para o então presidente da República José Sarney. Oficialmente, em sua biografia, Matheus justifica a emenda dos cinco anos como necessária para garantir a transição democrática e o término da Constituinte sem sobressaltos que uma campanha presidencial ainda em 1988 poderia gerar.

Freston, porém, destaca que a aprovação da emenda dos cinco anos para Sarney, foi resultado do "toma lá, da cá" da política brasileira. Vários deputados (evangélicos ou não), inclusive o autor da proposta, ganharam concessões de rádio e televisão. Tempos depois, um deputado estadual da AD no Paraná afirmou, que a concessão da rádio seria para a igreja e não para o deputado governista.

Outro projeto de Iensen muito controverso, foi o de abolir os direitos autorais sobre músicas sacras com base em textos bíblicos reproduzidas em rádio. O Mensageiro da Paz (edição de agosto de 1988) informa, que "Matheus Iensen foi sensível aos apelos" da liderança evangélica. Freston por sua vez, indica que a emenda lhe "trouxe desgaste".

Em 1990, Matheus fez dobradinha com o seu filho João Falavinha Iensen, que conseguiu uma vaga na Assembleia Legislativa do Paraná. Nas eleições de 1994, João elegeu-se deputado federal e seu irmão, Vanderlei Falavinha Iensen foi eleito deputado estadual em 2002. Nas últimas eleições municipais, o seu neto João Rafael Iensen tentou uma vaga para vereador em Curitiba.

Nos últimos anos, Iensen estava aposentado e recolhido em seu apartamento em Curitiba. Recebia visitas e participava dos cultos da AD na cidade. Um dos sobrinhos do cantor sacro resumiu nas redes sociais de forma exata quem foi Matheus Iensen:
O cantor evangélico, pastor, ex-deputado federal constituinte, mas principalmente, meu querido tio Matheus nos deixou na madrugada deste dia para voar rumo ao horizonte da glória eterna, silenciando sua bela voz na face da terra até aquele dia. Homem rígido, venceu dificuldades extremas durante toda a sua jornada neste mundo, ultrapassou seus próprios limites, construiu um ministério radiofônico que abençoou tantas vidas que nunca saberemos enumerar, mas que o Senhor conhece. Sofreu muitas batalhas, algumas calado, outras como um guerreiro indomável, mas sempre no temor do Senhor. Não foi perfeito, como ninguém o é, mas uma coisa eu sei: Tio Matheus combateu o bom combate, acabou a carreira e guardou a fé. Que suas obras o sigam e que o grande nome do Senhor Jesus Cristo que sempre foi glorificado na sua vida, também o seja na sua morte. O Senhor deu, o Senhor tirou. 
BENDITO SEJA O NOME DO SENHOR!
Fontes:

CARVALHO, Roberto de. IENSEN, Andréa. Matheus Iensen: minha vida, minha história. Curitiba, 2001.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Matheus Iensen - chegou a hora de partir (1ª parte)

Faleceu no dia 18 de abril de 2019, um dos ícones do evangelismo radiofônico e da música sacra evangélica: o empresário, cantor, pastor e ex-deputado federal pelo estado do Paraná, Matheus Iensen, aos 82 anos de idade.

Segundo sua biografia, Matheus nasceu na madrugada do dia 07 de janeiro de 1937, na pequena Imbituva, na época distrito de Guamiranga, na região sudeste do Paraná e a 136 quilômetros de Curitiba. Era o sexto filho de uma família de sete irmãos de família humilde e pobre.

Como a maioria das crianças de famílias do interior, Iensen conheceu cedo o trabalho na lavoura e na criação de animais. Na adolescência foi ajudar o pai em uma ferraria no distrito de Três Vendas em Faxinal. Infelizmente, a ferraria foi consumida num incêndio e, despertados por Matheus na madrugada, a família Iensen conseguiu sair da casa anexa ao local de trabalho e se salvar de uma grande tragédia.

Da perca total da ferraria, os Iensen foram trabalhar numa serraria e posteriormente começaram a investir no transporte de madeira e café. Naquela época, a região vivia a grande expansão das plantações de café, grande riqueza de exportação do Paraná.

 A Seara de 1970: Iensen e irmãs Falavinha um sucesso absoluto

Em Faxinal, os Iensen converteram-se na Assembleia de Deus. Matheus então conheceu a jovem Mercedes Falavinha e com ela se casou no dia 31 de março de 1956. O celebrante da união foi o diretor da CPAD, o pastor João Pereira de Andrade e Silva.

Ainda em Faxinal, o jovem casal inciou seu ministério de louvor, quando Iensen comprou com muito esforço um acordeon de 48 baixos e formou dupla com sua esposa Mercedes. Cantavam principalmente os hinos "Seguindo Jesus" e "Dia glorioso". Ao mudar-se para Marilândia do Sul juntou-se ao casal a cunhada Raquel Falavinha Scaff.

Com o tempo vieram os convites para cantar nas igrejas e as primeiras gravações de compactos e LPs. Em 1964, Matheus aventurou-se no rádio com o programa "Musical Evangélico" na cidade de Apucarana. A audiência do programa aumentou com a mudança da família para Curitiba. Na "Cidade Sorriso", Iensen montou sua gravadora própria, a "Estrela da Manhã" e adquiriu suas estações de rádio (Marumby) na capital do Paraná e em Florianópolis, Santa Catarina.

Em meio ao progresso material veio o duro golpe familiar: dois dos seus filhos morreram num acidente automobilístico em 1979. Conta-se, que o velório dos filhos foi marcado pelo perdão de discórdias antigas geradas por desencontros entre irmãos de fé.

Conhecido em todo o Brasil como cantor e comunicador cristão, na década de 1980, Matheus Iensen foi escolhido para representar a sua igreja em outra área: a política partidária.

Assunto da próxima postagem...

CARVALHO, Roberto de. IENSEN, Andréa. Matheus Iensen: minha vida, minha história. Curitiba, 2001.

sábado, 13 de abril de 2019

As Assembleias de Deus e a geopolítica das convenções

Gedeon Alencar, em sua obra “Matriz Pentecostal Brasileira”, afirma que relacionar as cidades ou igrejas hospedeiras da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) seria uma "forma didática de entender os sistemas geopolíticos das entranhas dessa igreja". Receber uma CGADB é sinal de poder econômico e político da liderança da igreja escolhida.

Alencar observa que a "politização geográfica" da Convenção Geral nasceu em 1930, em Natal/RN, com a intimação feita pelos pastores da região Norte/Nordeste para resolver problemas que atrapalhavam o "progresso e harmonia da causa do Senhor" - conforme a convocação publicada no Boa Semente.

O sociólogo também chama a atenção para o fato de que nenhuma CGADB foi realizada no Ministério de Madureira. Paulo Macalão até tentou hospedar a Convenção Geral de 1971, no templo da Rua Carolina Machado, mas a Junta Executiva resolveu escolher a cidade de Niterói/RJ.

A CGADB de 1971 não foi realizada em Madureira, porém, o pastor Alípio da Silva, vice de Macalão no Ministério, foi eleito presidente da Mesa Diretora da Convenção Geral. Compensação pela perda da oportunidade de hospedar o encontro nacional?

Curiosamente, quando a liderança das ADs resolveu realizar a CGADB na região Centro-Oeste, escolheu-se o estado de Goiás, onde o Ministério de Madureira era (e ainda é) hegemônico, para sediar o evento em 1985. Todavia, a igreja que recebeu a convenção foi justamente a AD Ministério de Anápolis, cujo líder, o pastor Antônio Alves Carneiro, era um dissidente de Madureira há muitos anos.

Com a ascensão do pastor José Wellington Bezerra da Costa à presidência da CGADB, as reuniões convencionais estrategicamente foram organizadas nas igrejas dos líderes aliados. Mesmo na época do centenário da denominação, a proposta das duas convenções assembleianas no Pará ligadas à Convenção Geral para sediar o evento foi negada.

CGADB no Pará em 2019: imagem do blog do Tiago Bertulino

Com a criação em 2017 da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), novas estratégias surgem. A última vez que a cidade de Belém/PA recebeu a CGADB foi em 1955. Com a disposição nos últimos anos do pastor Samuel Câmara em fazer oposição ao atual status quo da Convenção Geral, nem se cogitava escolher Belém do Pará ou Manaus/AM para as reuniões nacionais. Os Câmaras, suas igrejas e convenções, praticamente inexistiam para o Mensageiro da Paz.

Agora, mais de 60 anos depois, a cidade de Ananindeua na região metropolitana de Belém do Pará, próxima ao berço do pentecostalismo assembleiano no Brasil recebe a CGADB em 2019. Ironicamente, a CADB fará em junho sua convenção na cidade de São Paulo/SP no distrito e na igreja de Santo Amaro ligada a nova entidade. Como se sabe, São Paulo é a base do Ministério do Belenzinho comandado pela família Bezerra da Costa.

Percebe-se nas escolhas dos locais para sediar as convenções concorrentes uma "guerra fria" versão assembleiana. Um conflito de interesses, de busca de legitimação pela história e símbolos caros aos crentes mais antigos. Assunto para a próxima postagem...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

IEADJO - primórdios da igreja na década de 1930


"Joinville, a mais importante cidade onde as indústrias em atividade (dia e noite) e o povo ordeiro procura a paz e o trabalho, não poderia ficar sem a visitação da fé pentecostal."  (Albert Widmer)

Foi com essas palavras escritas ao Mensageiro da Paz (1ª quinzena de março de 1938) que o missionário suíço Albert Widmer abriu o seu relatório na seção "Na Seara do Senhor" sobre os trabalhos da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO). Na época, a "Cidade dos Príncipes" contava em média com 30 mil habitantes e um promissor parque industrial e comercial.

Quando os leitores de todo o Brasil leram as informações divulgadas por Widmer, a IEADJO já possuía cinco anos de atividades na "Manchester Catarinense". Fundada em 1933, por Manoel Germano de Miranda, a congregação reunia-se primeiramente na região do atual bairro Itaum e, posteriormente, devido às perseguições, alugou uma casa na antiga Katharinenstrasse, nome original da Avenida Getúlio Vargas, usado até os anos 1940.

Mesmo sendo uma congregação jovem, Widmer descreve o núcleo pentecostal na cidade como "uma igreja forte e próspera". Aliás, o missionário suíço já considerava o rebanho joinvilense, entre as Assembleias de Deus (ADs) abertas em Santa Catarina, como "a maior igreja evangélica do Estado", devido aos constantes batismos nas águas e adesão de crentes das denominações evangélicas tradicionais.

Crentes e obreiros na terceira Convenção Regional das ADs em Santa Catarina

Portanto, nesse clima de otimismo e expansão, que a IEADJO sediou a terceira Convenção Regional das ADs catarinenses. Para abrilhantar o evento, os irmãos pioneiros tiveram o privilégio de receber os conferencistas Howard Carter (Inglaterra) e Lester Sumrall (EUA). Nas palavras de Albert, as pregações "despertaram, quer nos crentes como nos descrentes, o mais vivo interesse, de modo que os pecadores buscaram a salvação e os crentes resolveram consagrar suas vidas, mas a Cristo."

Pode-se imaginar o que para muitos daqueles irmãos significou aquela experiência de receber e ouvir os dois pregadores internacionais. Lester Sumrall era pastor e radialista. Viajou pelo mundo pregando a mensagem pentecostal e passou muitos anos na Ásia desenvolvendo seu ministério. Nos anos de 1940, Lester voltou novamente ao Brasil, pregando nas igrejas da Assembleia de Deus em Belém, Rio de Janeiro, Recife e Campina Grande.

Howard Carter por sua vez, era um dos membros fundadores das Assembleias de Deus na Grã-Bretanha e Irlanda. Escritor e famoso artista plástico, Howard costumava desenhar os temas que abordava nas preleções. É provável que os irmãos pioneiros tenham tido essa oportunidade única de ouvir e ver as mensagens ilustradas por ele.

Carter e Sumrall haviam participado da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), realizada entre 3 a 17 de outubro de 1937, na cidade de São Paulo. Nota-se as boas relações de Widmer no contexto do pentecostalismo internacional ao trazer os visitantes para a Convenção Regional.

Na sequência da matéria, Widmer expressa sua gratidão a "todos os amados irmãos, em Joinville, os quais hospedaram os delegados das outras Assembleias deste Estado, que vieram, em parte, de muito longe e debaixo de grandes dificuldades e sacrifícios."

Também foi elogiado o esforço do então diácono Manoel Germano de Miranda. Segundo o supervisor do trabalho em Santa Catarina, Miranda "não deixou que a Congregação tivesse falta de comida espiritual, durante a ausência do pastor. Notável também, é que, com rapidez, as Boas Novas desta igreja têm se espalhado para diversas direções desta região".

Assim caminhava desde os seus primórdios a IEADJO: evangelismo, pregações, discipulado e constante crescimento.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Joaquim Marcelino da Silva - entrevista histórica

O pastor Joaquim Marcelino da Silva foi um dos principais pastores das ADs no Brasil e por duas vezes exerceu a vice-presidência da Junta Executiva da CGADB. No período que liderou a AD em Santo André/SP, a igreja paulista hospedou a Convenção Geral em 1966 e 1975.

O Mensageiro da Paz, em janeiro de 1969, publicou uma rara entrevista com o líder assembleiano, que no fim da década de 1940, era carregador da mala do pastor Cícero Canuto de Lima e por ele foi ordenado pastor em 1948. É possível que sonhasse ser sucessor do velho "timoneiro", pois era um dos obreiros mais preocupados com a sucessão de Cícero.

Na entrevista, Marcelino comenta assuntos reveladores de como os pastores assembleianos encaravam o que eles chamavam de "inovações". Também não faltou críticas à televisão, na época considerado o grande perigo para a vida espiritual. Vale lembrar que foi gestão do pastor Joaquim Marcelino, em Santo André, que a CGADB de 1975 produziu o famoso documento normatizando as regras dos usos e costumes da igreja.

Amor à simplicidade - Joaquim Marcelino dizia amar "a simplicidade". Para ele não havia base bíblica ou virtude no ato de cortar fitas simbólicas nas inaugurações das igrejas ou lançamento de pedra fundamental. "Faço apenas um culto de ação de graças e agradeço a benção que nos concedeu" - comentou. Segundo o veterano pastor, o então líder do Ministério de Belenzinho, Cícero Canuto de Lima e outros pastores do Ministério também pensavam da mesma maneira.

Pastor Joaquim Marcelino (1916-2004)

Desfiles públicos - "Penso apenas que é uma inovação adotada pela igreja e sem base bíblica...". Todavia, o pastor Joaquim admitiu realizá-los para satisfazer os crentes da sua igreja, mas não se sentia bem com essa postura. Seria uma forma de não descontentar totalmente os fiéis.

Segundo o historiador Maxwell Fajardo em seu livro “Onde a luta se travar”, as observações negativas de Marcelino sobre os desfiles e as críticas sobre o descerrar de fitas simbólicas ou lançamento de pedras fundamentais nas igrejas eram indiretas ao Ministério de Madureira, que utilizava das "inovações" desaprovadas pelo líder paulista.

Doutrina - "A questão doutrinária, a doutrina bíblica está muito ameaçada, as organizações estão começando a substituir o brilho do Espírito Santo". Outra coisa apontada pelo antigo líder da AD em Santo André: o tempo de pregação da Palavra estava sendo ocupado por cânticos. "precisamos voltar à simplicidade e beleza primitivas".

Televisão - Perguntado sobre o uso da televisão, o pastor Joaquim foi enfático: "Acha-o perigoso e ameaçador da doutrina". Conta ele ainda que a redução de aparelhos de televisão em sua igreja foi uma vitória. Antes, 70 famílias possuíam TV, mas depois de muitos pedidos, somente três casas resistiam ao Senhor "apesar de terem sido grandemente castigadas".

Surge então a dúvida: quem estava castigando? O veterano obreiro fala que as famílias resistiam "ao Senhor", entretanto, ele mesmo observou que, quando começou "a agir, o povo começou a vender seus televisores com a maior das facilidades e alegria". Seria o abandono da TV, uma ação divina ou repressão pastoral?

Institutos Bíblicos - "Nosso Ministério aqui em São Paulo é contrário" - assegurou Marcelino. Na opinião do pastor, os institutos bíblicos só deveriam existir para os vocacionados ao ministério e não para "os irmãos em geral". A explicação é no mínimo pitoresca: "porque estes não têm chance [no ministério] e ao tirarem o curso julgam-se aptos pensando que essa sabedoria que aprenderam lhe darão o direito de serem obreiros...".

Na continuação, Joaquim explica que essa "sabedoria" e "vaidade" levaria ao prejuízo, pois os leigos sem vocação julgavam-se superiores aos obreiros vocacionados. "Eu dou mais valor às nossas Escolas Bíblicas" - concluiu ele. Obreiros formados nas escolas bíblicas moldavam-se melhor os sistemas eclesiais.

O líder de Santo André foi coerente com a posição dos pastores em geral sobre os institutos bíblicos, mas revelou o desconforto gerado. Havia os "vocacionados" e para estes os seminários até seriam interessantes, pois, em tese, eram obreiros submissos aos métodos das ADs. Contudo, para os “sem-chance", os institutos gerariam soberba e vaidade, trazendo prejuízos à obra.

Chega a ser uma visão controversa: havia no entender do pioneiro, os "vocacionados" e os “sem-chance" no ministério. Marcelino ainda se posiciona com preocupação sobre as organizações de assistência social ou de missões. Essas estruturas, não deveriam "suplantar a organização do Espírito".

O experiente pastor ainda desejava uma igreja espontânea, espiritual e conservadora. Uma denominação de obreiros "vocacionados" com formação nas escolas bíblicas. Mas a entrevista mostrava um sistema em plena contradição e tensões internas. Ainda mais alguns anos os conservadores resistiriam. Somente por mais algum tempo...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

Mensageiro da Paz, janeiro de 1969, ano 30, nº 1. Rio de Janeiro: CPAD.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

José Wellington Bezerra da Costa - entrevista histórica

No mês de julho de 1988, o Mensageiro da Paz trouxe aos seus leitores uma entrevista exclusiva com o pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da AD Ministério de Belenzinho/SP e, após o falecimento do pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos, presidente da CGADB, no dia 12 de maio do mesmo ano.

José Wellington foi entrevistado em seu escritório no Belenzinho pelo jornalista e pastor Geremias Couto. No texto de abertura da matéria destacou-se as "considerações [do pastor Wellington] da maior atualidade, que devem ser, também, motivo de reflexão para as demais lideranças de nossa igreja".

Nessa postagem selecionou-se alguns pontos interessantes para se refletir sobre a história e os rumos que as ADs tomaram nessas últimas décadas. Na época da entrevista, o líder do Belenzinho contava com 53 anos de idade e estava apenas há oito anos na presidência do ministério paulista.

Pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos - "Tínhamos no pastor Alcebíades aquela coluna de sustento das Assembleias de Deus no Brasil e a sua morte se constituiu numa perda irreparável... Estou orando para que Deus me ilumine e, sobretudo, me ajude no desempenho dessa tarefa tão pesada para qualquer pastor da nossa igreja".

O historiador não trabalha com previsões e é difícil dizer o que aconteceria se o pastor Alcebíades continuasse a conduzir a CGADB. Em sua biografia, o pastor Costa relembra que Vasconcelos "colidiu fortemente com Madureira" e os desentendimentos com o pastor Manoel Ferreira foram tais que os dois "romperam as relações". Contudo, o bispo Manoel Ferreira em suas memórias observou: "Eu tenho certeza de que, se o Alcebíades estivesse vivo, talvez hoje nós estaríamos ainda na CGADB...".

José Wellington Bezerra da Costa

Problemas na CGADB - "Eu venho participando da Mesa Diretora já em outras gestões e conheço de perto os problemas existentes da nossa Convenção Geral. É verdade que assumi numa época de maior turbulência... Quero reafirmar que chego com o coração aberto, sem trazer comigo nenhum propósito contra ninguém...".

Realmente era um momento complexo. As disputas entre os Ministérios da Missão e de Madureira estavam em seu auge. A eleição da Mesa Diretora da CGADB em Salvador em 1987, foi um dos capítulos mais conturbados da história das ADs, refletindo as tensões de anos anteriores. Nos meses seguintes, as questões só se agravaram e Wellington teria que negociar com Manoel Ferreira soluções para os impasses.

O que não se previa naquele momento era a perpetuação do pastor de Belenzinho no poder. Até ali, sempre houve alternância na presidência da CGADB, mas José Wellington conseguiu a proeza inédita de permanecer por três décadas no comando da instituição. Já se passaram oito Copas do Mundo de Futebol, três papas, oito presidentes do Brasil e o cearense de São Luís do Curu não "largou o osso".

Unidade - Geremias perguntou ao presidente da CGADB se era possível caminhar para a unidade. Wellington, naquele momento, expressou crer poder contar com a amizade de pastores de todo o Brasil. "Eu tenho procurado ser amigo de todos esses pastores, movido por um sentimento de sinceridade. Agora, espero da parte deles total compreensão, porque eu não olho a igreja no Brasil separada".

A história é conhecida: o Ministério de Madureira foi suspenso da CGADB em 1989. Posteriormente, veio a saída das ADs em São Cristóvão, Santos e a criação de uma nova dissidência, a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), a qual reúne outras igrejas históricas das ADs em Belém, Manaus e Macapá.

Por outro lado, a gestão José Wellington salvou a CPAD da falência. Seguindo em direção contrária as suas congêneres, a editora assembleiana avançou em qualidade, vendas e presença em todo território nacional e no exterior. Para muitos, as principais tensões tem como um dos motivos principais o controle da Casa Publicadora. Malafaia que o diga...

Política e igreja - Perguntado sobre a participação do crente na vida pública, Wellington foi direto: "A igreja e a política são como água e óleo: não se misturam". Na continuação, porém, destacou a legitimidade dos crentes como cidadãos participarem da vida pública do país e influenciá-la "sem, contudo, misturar a igreja como instituição e a política partidária".

Não é preciso ser especialista para saber que essa visão mudou drasticamente. O antigo pudor das lideranças assembleianas nas questões políticas seria abandonado em breve. Hoje, Belenzinho, Madureira, Abreu e Lima, Santos e muitos outros ministérios jogam seu peso institucional para eleger candidatos vinculados à igreja. No caso do Belenzinho os eleitos são filhos do pastor Costa.

Em sua primeira entrevista como presidente da Convenção Geral, o pastor José W. Bezerra da Costa aconselhou para que as ADs continuassem em "marcha vitoriosa para o céu" e que não se envolvesse com o mundo e o que nele há. "Sigamos, pois, em frente, com passos firmes e céleres, pois Jesus está perto de voltar" - exortou.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

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