sábado, 19 de agosto de 2017

As Assembleias de Deus - títulos e honrarias

"O brasileiro é vaidoso e guloso de títulos ocos e honrarias chocas. O seu ideal é ter distinções de anéis, de veneras, de condecorações, andar cheio de dourados." (Lima Barreto)

Para muitos assembleianos, causa surpresa a proliferação de títulos considerados "exóticos" para os principais líderes da denominação. Ainda soa estranho, por exemplo, certas igrejas terem como seu líder máximo um "Apóstolo" ou "Bispo".

Vale lembrar, que no Mensageiro da Paz na década de 1930, quando se anunciava estudos bíblicos, obreiros como Samuel Nyströn, Gunnar Vingren entre outros, eram chamados simplesmente de "irmãos". E ser pastor naquela época, era muitas vezes viver sem salário e com muita perseguição.

Mas em 1938, segundo Silas Daniel no livro História da CGADB, "entrou em pauta o ministério de apóstolo". Concordaram os obreiros com a existência do ministério apostólico, mas rejeitaram a "consagração de apóstolos". O reconhecimento da honraria deveria ser feita pela igreja e "não dependia de um título".

Daniel esclarece: "as Assembleias de Deus nunca consagraram apóstolos, por entenderem que tal consagração não tem apoio bíblico, porém sempre tiveram o costume de denominar alguns dos grandes nomes da história da Igreja, inclusive no Brasil, como apóstolos." Entretanto, o reconhecimento só viria depois da morte do pioneiro.

Bispos de Madureira: etiqueta de mando?

Porém, Paulo Leivas Macalão ainda em vida, foi chamado de "Apóstolo do século XX"; Túlio Barros da AD em São Cristóvão (RJ), em 2004, consagrado "Apóstolo" e o seu filho Jessé Maurício "Bispo". Nesse tempo, São Cristóvão já estava rompida com a CGADB.

Em 1959, Antônio de Souza Campos, em um artigo publicado na revista A Seara, questionou o uso que alguns pastores faziam da titulação de reverendo. Para ele, tal título, além de ser impróprio, seria a aberração "de um cristianismo órfão, pobre de espiritualidade o qual para impressionar precisa lançar mão de títulos pomposos". 

Nem mesmo a nomenclatura, "pastor geral", "pastor-presidente" ou "pastor regional" foram aceitas sem contestações na década de 1950. O pastor José Menezes, no Mensageiro da Paz chamou essa prática de "anti-bíblica" e "maligna", sendo uma "etiqueta de mando" para legitimar abusos autoritários. 

Para Menezes, o objetivo dos "pastores regionais" era "empunhar o cetro da distinção" e "exercer o império do mando." Isso seria ainda um "beco de inovações, criação de leis e estatutos imprecisos, proteção a favoritos, trazer a outros com aves de arribação."

Com a evolução dos Ministérios, as ambições de reconhecimento social também cresceram. Gedeon Alencar observa em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, o uso das titulações acadêmicas nos periódicos da CPAD como forma de legitimação dentro da igreja. A titulação de pastor já não seria suficiente para dar peso as publicações? 

Muitas são as justificativas para o uso das nomenclaturas. Mas para muitos, o que parece mesmo é que as lideranças foram picadas pela famosa "mosca azul". Parece que Lima Barreto escreveu pensando em alguns dos nossos líderes.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1969. Rio de Janeiro: CPAD.

A Seara, ano VI - nº 1, ano de 1959.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Reuniões e cultos nas ADs – novos significados

As Assembleias de Deus em mais de cem anos de história, já passou por significativas transformações. Por ser uma denominação presente em todo território nacional, ela é também muito diversificada. Não há uniformidade em tudo, mas o objetivo dessa postagem é somente refletir sobre certas mudanças. 

Algumas retratam alterações sociais e econômicas. Outras, o direcionamento teológico e político da igreja. Conforme a participação dos leitores a lista pode ser aumentada. Vamos aos verbetes:

Culto de doutrina: assim era chamado a reunião semanal, geralmente as terças-feiras, que em tese seria de ensinamentos bíblicos. Mas os crentes de boa memória sabem, que de Bíblia tinha muito pouco, e se havia alguma coisa, eram versículos descontextualizados para reforçar os usos e costumes. De tão desgastado, o termo "doutrina" é evitado. Hoje as igrejas preferem nomear as reuniões de culto de edificação cristã ou ensinamento.

Vigília: reunião noturna de oração que atravessa a madrugada. Antigamente era só oração, no máximo com alguns hinos e testemunhos para aliviar um pouco o cansaço. Hoje, as vigílias transformaram-se em eventos badalados em determinados lugares. Há programas especiais com pregações, louvores, testemunhos e muito re-te-té... mas oração mesmo, quase nada.

Culto da mocidade: algumas congregações ainda usam a nomenclatura. Porém, muitas igrejas já substituíram o nome da reunião por "celebração jovem", mais adequado aos novos tempos. Outra: as "celebrações" jovem também procuram adaptar-se ao gosto do seu público. Com louvores ousados e liturgia mais despojada, esse tipo de reunião tenta atrair, conquistar, e principalmente, segurar a garotada na congregação. Em tudo parece ao estilo das comunidades evangélicas.

Antigo cartão de membro: à direita o visto pastoral

Cartão de membro: identidade do crente. Era levado na sede do campo anualmente para ser revalidado. Orgulhoso, o assembleiano guardava e apresentava-o para entrar na igreja nas ceias e cultos administrativos. Hoje, anda um tanto esquecido. Muitos crentes não se dão ao trabalho nem de buscá-lo na secretária de igreja.

Círculo de Oração: criado na década de 1940, na AD em Recife (PE), espalhou-se pelas igrejas no Brasil. Era símbolo de um tempo: o homem, provedor-mor do lar trabalhava fora e a esposa dirigia-se nas tardes livres para orar na congregação. Atualmente, os horários refletem as transformações sociais, pois as irmãs trabalham fora para ajudar no rendimento familiar e as reuniões em muitos locais passaram para o período noturno.

Estudos Bíblicos: trabalhos marcados nas igrejas, geralmente nos fins de semana, para examinar temas e assuntos da doutrina cristã. Sumiram das programações. Mas em compensação, os chamados "cultos da vitória" ganharam espaço incrível. Os estudos bíblicos ficaram mesmo para os corajosos da escola dominical.

Ministério: era sinônimo de dedicação, sofrimento e parcos salários. Hoje, é uma carreira desejada por muitos. Comparar o estilo de vida dos primeiros obreiros com os atuais chega a ser revoltante. Alguns obreiros mais parecem gerentes de empresas do que pastores  de igrejas. 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Qual o papel da mulher na igreja? - a pergunta que não quer calar

O ministério feminino sempre foi um ponto polêmico dentro das Assembleias de Deus. Desde a primeira Convenção Geral realizada em 1930 em Natal (RN), com a presença de Frida Vingen, questiona-se sobre o papel da mulher na igreja. 

A famosa resolução de 1930, não pacificou os conflitos entre os convencionais e a esposa do pioneiro Gunnar Vingren. O casal dois anos depois regressou à Suécia, mas o tema vez por outra emergia na instituição. Sinal de que a imposição às mulheres na primeira conferência sempre foi alvo de contestações internas. 

Em 1966, o antigo pastor da AD em Pindamonhangaba (SP), João de Oliveira escreveu no Mensageiro da Paz, um artigo intitulado Qual o papel da mulher na igreja? Nele, Oliveira desenvolveu argumentações que devem ter repercutido muito entre os assembleianos da sua época. O texto com certeza, seria alvo de ardorosos elogios e contestações ainda hoje.

Pastor João argumentou: Deus não faz acepção de pessoas, ou concede dons e ministérios usando como requisitos cor, sexo e posição social, sendo Soberano e Absoluto em Suas escolhas. "Mas se é Deus quem dá ao homem e a mulher o dom e quem os envia com autoridade, quem poderá se levantar contra Deus?"  afirmou o saudoso escritor e comentarista das Lições Bíblicas da CPAD. 

Relembrou, que na história bíblica e secular, há exemplos de mulheres profetas, guerreiras, conselheiras e líderes. E apontou para uma realidade concreta já em seu tempo: "Se uma mulher hoje pode ser advogada, juiz e até governante de uma nação (como na imensa Índia, atualmente), e desempenha com eficiência sua carreira, como não poderá servir ao Senhor segundo o ministério dos dons de Deus?".

Vale lembrar, que durante o pastorado de João de Oliveira em Pindamonhangaba, foi implantado o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD). Durante anos ele conviveu com o casal fundador da instituição: João Kolenda Lemos e Ruth Doris Lemos 

Ruth era jornalista profissional e pastora assembleiana nos Estados Unidos. Talentosa na área musical e competente pedagoga, por décadas, foi uma "referência de exercício pastoral", mas no Brasil, submeteu-se "a um modelo machista"  conforme o sociólogo Gedeon Alencar, ou seja, abriu mão do título de pastora para ser tratada simplesmente de "irmã" ou no máximo, missionária Doris.

Oliveira acompanhava então, um caso exemplar de ministério feminino não reconhecido por muitos dos seus pares. Segue abaixo parte das exposições em defesa do reconhecimento das mulheres na atuação ministerial.


Com a palavra os nossos pastores, líderes e teólogos...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mensageiro da Paz, 1º quinzena de março de 1966.

sábado, 22 de julho de 2017

Madureira - o bairro sede do Ministério

"Em termos de importância, Madureira está para o subúrbio assim como Copacabana está para a zona sul. Guardadas algumas diferenças, é nesses bairros que tudo acontece e de tudo se vê." 
(Leda Costa - professora e pesquisadora dos subúrbios cariocas)

"Censurado" e "incompreendido" na AD em São Cristóvão, Paulo Leivas Macalão no auge da sua juventude partiu a evangelizar os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, em 1926. Logo toda a região de Realengo, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Marechal Hermes seria alcançada com a mensagem pentecostal.

Em 15 de novembro de 1929, Macalão iniciou oficialmente a AD no bairro de Madureira, na Zona Norte do Rio. O trabalho começou na residência de um crente e depois foi transferido para pequenos salões comerciais conforme a congregação se desenvolvia, até que veio a mudança para um prédio próprio. Em 1941, a igreja de Madureira obteve personalidade jurídica e passou a ser a sede do Ministério, anteriormente localizado em Bangu.

A transferência do Ministério foi acertada. Madureira crescia velozmente impulsionado pela localização estratégica, sendo passagem através dos ramais ferroviários as diversas regiões dos subúrbios. Não por acaso, o bairro é conhecido como "Coração da Zona Norte" do Rio.

Bairro de Madureira década de 1950: "Capital do Subúrbio"

O bairro já era nesse tempo muito movimentado devido ao funcionamento desde 1914, do Mercadão de Madureira. Ampliado em 1929, o estabelecimento impulsionava o crescimento da região. Outro fator de grande importância era a presença das Escolas de Samba Portela (1923), e Império Serrano (1947), as quais trouxeram ao local o título de "Berço do Samba".

Os subúrbios contavam com uma população em sua maioria composta por "negros, ex-escravos, operários, imigrantes (na maioria nordestinos)". Uma gente excluída do centro da cidade pelo famoso “Bota Abaixo” e das reformas modernistas do prefeito Pereira Passos. Nesse contexto social, a congregação de Madureira expandia-se conforme o ritmo do bairro. 

Macalão sempre foi visionário e ao mudar a sede de Bangu para Madureira, o filho do general deu maior visibilidade ao Ministério por ele liderado. Estratégia e aposta numa igreja promissora e de grande potencial, agora instalada na "Capital do Subúrbio", onde "tudo acontece e de tudo se vê".

A importância da igreja aparece nas páginas do Mensageiro da Paz, na 1ª quinzena de agosto de 1935, quando Zélia Brito Macalão envia notícias na seção Na Seara do Senhor – espaço no periódico para informar sobre as atividades pentecostais pelo Brasil – onde Madureira é citada juntamente com Bangu no título da matéria. Ou seja, a congregação já era de grande visibilidade.

Em 1937, o escritor Diomedes de Figueiredo Morais, na Revista Rio Ilustrado, ao observar as transformações aceleradas na região constatava: "Madureira cresce assombrosamente". Era do bairro que ele falava, mas bem que poderia ser o sobre o Ministério. Em poucos anos, o pastor Paulo já tinha sob seu controle congregações na cidade, no estado do Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás e São Paulo.

Assim, a famosa "Capital do Subúrbio", "Berço do Samba" ou "Coração da Zona Norte", seria o centro de um grande Ministério Interregional das ADs no Brasil. Luz de salvação para milhares, sombra de preocupação outros...

Fontes:

acervo.oglobo.globo.com

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Madureira_(bairro_do_Rio_de_Janeiro) 

Madureira e Pelourinho: consumo e representação de comidas típicas em festas populares. Adelaide Chao e João Maia. UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. 

https://www.bn.gov.br/noticia/2015/07/rio-450-anos-bairros-rio-madureira

terça-feira, 18 de julho de 2017

Ensino Teológico nas ADs – conflito e superação

No dia 21 de julho de 2017, defendeu a dissertação de mestrado intitulada Da objeção ao reconhecimento: conflito e superação na constituição da Educação Teológica formal nas Assembleias de Deus no Brasil – Faculdade EST/São Leopoldo (RS), o pastor Orlando Martins. Nela, o pesquisador revisita a história dos embates entre as lideranças nas questões da instrução teológica nas ADs.

Para alguns, essa problemática pode estar superada, mas Orlando destaca que, mesmo com a abertura das ADs ao conhecimento teológico formal, ainda "dentro de seus arraias eclesiásticos" há resistências, "principalmente por aqueles que advogam mais a favor da importância da Experiência Religiosa do que a favor da Educação Teológica"   afirma o jovem pastor e teólogo.

Para embasar suas considerações, Martins fez amplo levantamento documental e bibliográfico, os quais "comprovam o conflito que houve entre a missão sueca, contrária a fundação de institutos bíblicos  e a missão americana, que apoiava a fundação destes institutos".




Embates que duraram décadas, mas ainda não superados, pois eles aparecem nas escolhas e práticas dos obreiros assembleianos na atualidade. Martins destaca na dissertação uma entrevista do pastor Antônio Gilberto, teólogo e consultor doutrinário da CPAD, onde ele reclama da falta de apoio, disposição e patrocínio dos líderes aos ensinadores pentecostais.

Partindo de um respeitado mestre assembleiano, Orlando afirma que o "relato do pastor Antônio Gilberto retrata a falta de incentivo à Educação Cristã". Não só isso. Fica em evidência nas ordenações ao ministério a preferência ao preletor que "se destaca mais por envolver a Igreja com sua oratória, do que por apresentar um sermão com profundidade bíblica,  o que para muitos, "dá sono", ou seja, não gera espiritualidade."

A realidade, segundo o estudioso, é que "apesar de hoje haver um grande incentivo para que os obreiros estudem Teologia, e de ser um dos pré-requisitos para a ordenação de um obreiro, ainda falta muito apoio não somente dos pastores, mas da comunidade de modo geral."

Membro e pastor auxiliar da Assembleia de Deus Mais de Cristo (ADMC) em Florianópolis, Orlando Martins é Coordenador dos Cursos Teológicos da igreja fundada pelo pastor Júnior Batista em 2007, portanto, tem vasta experiência na área e conhecimentos significativos para defesa da dissertação.

A ADMC, apresenta-se como herdeira do chamado "Pentecostalismo Clássico", mas sem a ênfase nos usos e costumes. Nas questões educacionais, a igreja tem "identificação com as ADs, e com o chamado modelo americano, pois valorizam a Educação Teológica Formal."

O trabalho acadêmico do escritor e jornalista Orlando Martins, só comprova o quanto as chamadas "temporalidades históricas" estão presentes nas ADs. Ou seja, em pleno século XXI, com tantas transformações estéticas e tecnológicas dentro da denominação, a antiga mentalidade sobre o estudo teológico ainda resiste. É a herança sueca, o legado que ainda persiste.

sábado, 15 de julho de 2017

Ministério de Madureira - a gênese em Bangu

Madureira, um dos Ministérios mais conhecidos e polêmicos das Assembleias de Deus no Brasil, fundado pelo mítico pastor Paulo Leivas Macalão, curiosamente teve sua origem em outro bairro da periferia da cidade do Rio de Janeiro: Bangu.

Segundo alguns pesquisadores, Macalão, "censurado e incompreendido" e sentindo-se sem espaço na nascente e promissora igreja carioca surgida no bairro de São Cristóvão, Zona Norte, em 1924, partiu para evangelizar as áreas afastadas do centro do Rio. A história mostrou que nessa missão, o jovem obreiro foi extremamente competente e exitoso.

Antiga sede do Governo Imperial e próximo ao centro da cidade, São Cristóvão, na época em que a AD ali foi implantada no Rio, reunia a maior parte das industrias da cidade e concentrava quarteis e instalações militares. Tal era a importância estratégica da nova congregação, que Gunnar Vingren deixou o pastorado da igreja em Belém do Pará com objetivo de consolidar o trabalho pentecostal em terras cariocas. 

Por isso, a decisão do moço pareceu "precipitada" para muitos. Localizado entre os enormes maciços da Pedra Branca e do Medanha, Bangu era uma região isolada geograficamente. Não sem razão, o pastor Alípio da Silva em 1954, no Mensageiro da Paz, descreveu o esforço de Macalão "trilhando estradas pedregosas e hostis".

Inauguração do templo da AD em Bangu em 1933






















Deixar São Cristóvão, e aventurar-se naquela localidade de difícil acesso, percorrendo longas distâncias e com grandes fazendas, não seria aconselhável naqueles épicos dias. Anda mais para um rapaz de classe média, boa educação e de família militar.

Mas, suportando o tradicional calor da região, observando o contraste entre os ricos sitiantes e os moradores do pobres casebres, o futuro pastor, munido do seu violino "alteraria profundamente o perfil da igreja do Rio de Janeiro"  destacou com razão o pastor e historiador André Luiz.

Porém, nesse tempo, o cenário do bairro se transformaria. Sede da Companhia Progresso Industrial de Brasil (Fábrica Bangu) e contando com o Bangu Atlético Clube em plena atividade, a área verde cederia lugar rapidamente à concentração urbana. Os moradores da vila operária, construída pela principal empresa da região e a vinda de trabalhadores de outras partes da cidade, eram alvos do constante esforço evangelístico de Macalão.

Assim, em 1926, iniciava a "grande arrancada evangelística" do pastor Paulo por toda a região de Realengo, Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Marechal Hermes. No dia 1º de janeiro de 1933, o "incompreendido" auxiliar em São Cristóvão inaugurou o primeiro templo de alvenaria construído no antigo Distrito Federal.

Não seria a primeira e nem a última vez, que o gaúcho faria história no pentecostalismo no Rio de Janeiro e no Brasil. Os planos de expansão eram grandes e pouco mais de um ano antes da inauguração do templo em Bangu, mais precisamente no dia 15 de novembro de 1929, Macalão iniciaria o trabalho da congregação no bairro Madureira, na Zona Norte.

Logo, a nova igreja teria grande importância entre as ADs cariocas. E seria conhecida em todo o Brasil. Benção para alguns, desconforto para outros.

Fontes:

acervo.oglobo.globo.com

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

Mensageiro da Paz, 1ª semana de julho de 1954.

terça-feira, 4 de julho de 2017

CGADB e CONAMAD - unidos na perpetuação do poder

Após meses de intensa batalha judicial, polêmicas e de uma conturbada eleição online, assumiu no dia 03 de julho, o novo presidente da CGADB, o pastor José Wellington B. da Costa Júnior. Duéto (como é conhecido popularmente Costa Júnior) é filho primogênito do atual e longevo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

A cerimônia de posse da Mesa Diretora, contou com a presença de mais de 10 mil pastores no futuro templo sede da AD Ministério do Belém (SP). Políticos como o Ministro da Fazenda Henrique Meirelles e líderes das ADs de todo o Brasil, testemunharam em clima de grande emoção, a transmissão de pai para filho do cargo de presidente.

Prestigiou também o evento, a figura marcante do bispo Samuel de Cássio Ferreira, Presidente Executivo da Convenção Nacional da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira (CONAMAD) e líder da AD no Brás em São Paulo.

Samuel de Cássio Ferreira "Costa": apoio a Duéto

A presença de Ferreira foi de grande simbolismo. Diplomado recentemente como bispo em cerimônia muito criticada nas redes sociais, Samuel exaltou a família Costa e expressou sua admiração pelo antigo rival do seu pai e dizia se sentir em casa na Igreja do Belezinho.

Ironicamente, Manoel Ferreira e José Wellington protagonizaram uma acirrada disputa pela presidência da CGADB em 1983. Em 1989, com José Wellington na condição de Presidente da Convenção Geral e Ferreira como Presidente da CONAMAD, Madureira foi suspensa dos quadros da instituição.

Samuel externou seu apoio ao antigo e ao recém empossado líder da Convenção Geral. Afirmou considerar-se filho do casal Costa. Seu nome seria Samuel de Cássio Ferreira "da Costa". Contou que o Ministério de Madureira acompanhava em oração o momento delicado que passava a CGADB. E que a CONAMAD, não aceitaria de forma alguma, um pastor que levou a igreja as barras dos tribunais.

Sobre questões judiciais Madureira tem vasta experiência. Igrejas antes filiadas ao Ministério, conseguiram na justiça se desvincular do mando Ferreirista. Por isso a empatia do bispo e aliado. Outro ponto importante: apoiar a transição da família Costa é legitimar a si mesmo, pois Samuel herdou do pai à liderança da CONAMAD.

Emocionado, o pastor José Wellington também leu uma carta aberta aos convencionais. Nela defendeu seu nome e o seu ministério. Refutou as acusações de fraude nas eleições. Declarou que fraudadores são os que levam a igreja aos tribunais e dividem campos, os que não respeitam os votos, os mais velhos e deixaram a cruz pela mídia. Ao fim foi ovacionado pelo público presente.

É claro que uma boa parte dos ministros ligados a CGADB discordam do pastor Costa. A posse de Duéto ainda não é o fim da batalha judicial. Mas, por enquanto, algumas pessoas diretamente ligadas o status quo assembleiano respiram aliviadas.

Uma coisa é certa e evidente: a cúpula da CONAMAD e da CGADB, décadas atrás dividida, uniu-se na perpetuação do poder.

* Com a colaboração de Leandro Limas Lopes (SP)

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.