sábado, 16 de dezembro de 2017

Uma história sobre a família Kolenda

John Peter Kolenda (1898-1984) é considerado uma lenda dentro das ADs no Brasil. Enviado pela Missão dos EUA no fim da década de 1930, Kolenda foi pioneiro pentecostal em Santa Catarina, ardoroso defensor dos institutos bíblicos (a chamada fábricas de pastores) e grande nome na construção da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD).

Muito se conhece sobre o profícuo ministério de Kolenda, porém pouco sobre sua família. O missionário chegou ao Brasil com sua esposa Marguerite, e as filhas Dorothy (12 anos incompletos) e Grace (6 anos). Dos quatro, somente Grace ainda ainda vive e mora nos Estados Unidos da América.

Alguns anos atrás, Grace publicou suas memórias* e narrou um caso familiar surpreendente, que ajuda a humanizar a biografia do pai, o qual ela carinhosamente chamava de "daddy" (papai ou paizinho em inglês). É um fragmento da vida de Kolenda não revelado em sua biografia oficial.

Um certo dia, a caçula de JP Kolenda foi surpreendida pela prima com uma informação inesperada. Grace podia sentir a respiração de Loudes, quando esta lhe disse de forma súbita: "Dorothy não é sua irmã." Perplexa com a inesperada notícia, Grace mal pode falar e responder afirmativamente; não revelaria nada a ninguém que sua irmã mais velha, na verdade, não era sua irmã.

Casal Kolenda e filhas em 1934

À noite, em casa, Grace perguntou a Marguerite sobre o caso. Não entendeu o que a prima quis lhe dizer. A mãe foi direta na resposta: "Você terá que perguntar ao seu pai quando ele chegar em casa na próxima semana. Ele pode explicar isso para você".

Sem saber o que dizer ou pensar, Grace aguardou o pai que estava em uma das suas constantes viagens. Quando Kolenda chegou em casa, a esposa já lhe adiantou o problema. JP pediu que a filha entrasse no escritório e sem rodeios confirmasse: "Dorothy é a sua irmã adotiva". Visivelmente emocionado, Kolenda contou a história, a qual conservava em segredo da filha.

Kolenda e Marguerite casaram-se em dezembro de 1922. O casal, pensava em ter uma família numerosa, mas com o passar dos anos Marguerite não engravidava e Kolenda sentia a falta de crianças em seu lar. Em dezembro de 1927, uma jovem da igreja em Flint onde o casal missionário congregava, deu à luz a uma menina, chamada Dorothy. Porém, o nascimento da criança foi cercado de certo alvoroço: a mãe era solteira, algo que na época era considerado para a sociedade, e principalmente, na igreja, um grande escândalo. Um "grande pecado" e "terrível vergonha", escreveu Marguerite em seu diário.

Contudo, Kolenda começou a pensar diferente quando, na igreja, conheceu a pequena Dorothy. O encanto da pequena fez JP refletir sobre a possível adoção. Mas, o mítico pioneiro enfrentou a contrariedade da esposa. Para vencer a resistência da mulher, JP argumentou: "Talvez, a criança seja um presente de Deus.

Marguerite muito séria perguntou: "o que você quer dizer?". Acostumado a usar as palavras gregas em suas mensagens, Kolenda explicou: "O nome dela é Dorothy, o nome é derivado do grego. Significa, literalmente, 'presente de Deus'. Eu acredito que estamos destinados a adotar a criança".

Marguerite percebeu que não tinha escolha. Mesmo não concordando com o esposo, e com sérias reservas ao fato de estarem adotando uma criança filha de "mãe solteira", aceitou submissa à vontade de Kolenda. Afinal era sua missão servir a Deus servindo ao seu marido.

Depois de 12 anos de casados e 6 da adoção de Dorothy, nasceu Grace. Após saber das circunstâncias da adoção, Grace conta em suas memórias, que notava na mãe um certo desconforto em relação à irmã. Reconhece, contudo, que naqueles idos de 1920 e 30, não ser filho biológico gerava um estigma sobre qualquer criança. Fosse nos dias de hoje, tudo seria mais aceitável. 

Grace, também recorda, que pela primeira vez na vida, aos 11 anos de idade, sentiu-se decepcionada em relação ao pai e triste por saber do porquê da difícil relação de Dorothy com a família Kolenda. Para além da mitificação recorrente da história oficial, nosso pioneiros eram gente com a gente. Fica a lição.

* Livro publicado nos EUA em 2009, e ainda não traduzido no Brasil.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CADB - a nova geopolítica do poder

A Convenção da Asssembleia de Deus no Brasil (CADB), nasce para ser mais uma forte representação das ADs no país. Assim como o Ministério de Madureira, os líderes da mais nova convenção por anos enfrentaram acirradas disputas dentro da CGADB, gerando assim, uma grande e intensa polarização.

Quando o Ministério de Madureira foi suspenso da CGADB em 1989, abriu-se espaço para que um grupo de pastores pudesse controlar a instituição. À princípio, o próprio Samuel Câmara foi favorável e defensor da suspensão de Madureira. Câmara também exerceu diversos cargos na CGADB durante anos. 

Mas, contrariando expectativas de alternância no cargo de presidente da CGADB, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, sempre apoiado pelos líderes mais influentes das ADs, conseguiu permanecer (e ainda permanece) no comando da instituição por três décadas. Evidentemente, que em seu projeto de poder, Wellington desagradou antigos e novos líderes.


Com o passar do tempo, convenções e ministérios começaram a romper com a Convenção Geral. Igrejas pioneiras como a AD em São Cristóvão (RJ) e Santos (SP), organizadas diretamente na década de 1920, pelos míticos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, deixaram os quadros da CGADB. 

Ainda na evolução dos fatos e das transformações eclesiásticas nas ADs, antigos aliados começaram a se opor ao projeto de José Wellington: entre eles é claro, o pastor Câmara. Ao mesmo tempo, Wellington estrategicamente apoiava os concorrentes dos seus mais fortes opositores. Alguns casos são bem conhecidos. 

Samuel Câmara assumiu a AD em Manaus e a Convenção do Amazonas com a morte do pastor Alcebiades Vasconcelos em 1988. Em 1997, entregou a presidência da igreja para o seu irmão Jônatas Câmara e assumiu à liderança da AD em Belém (PA). 

Jônatas começou então, uma ampla reformulação nos métodos de trabalho na AD em Manaus. Na época foi acusado de aderir aos modismos do G12, causando sérios debates nacionais. Ao mesmo tempo enfrentou uma cisão liderada por conceituados pastores do seu ministério. Em consequência disso, em 2000 foi fundada a AD Tradicional, a qual obteve seu reconhecimento da CGADB em 2011, com a boa vontade da própria AD dirigida por Jônatas. 

A AD Tradicional passou a ser por sua vez, o braço de apoio do pastor José Wellington no Amazonas. É claro que a AD pioneira em Manaus e sua Convenção Estadual é grandiosa, mas o crescimento da AD Tradicional não pode ser ignorado e muito menos o prestígio dado pela CGADB ao seu presidente atual, o pastor Gedeão Menezes. 

Samuel por sua vez, ao assumir a AD em Belém em 1997, tentou várias vezes ser o presidente da Convenção do Pará. Mas os principais líderes paraenses, sentiram-se preteridos pelo antigo pastor Firmino de Anunciação Gouveia, e não permitiram o intento de Câmara. 

Na medida em que Samuel lutava pela presidência da Convenção Geral, José Wellington aproximava-se cada vez mais do pastor Gilberto Marques de Souza, o concorrente direto de Câmara à liderança da Convenção da AD no Pará. Não conseguindo seus objetivos de liderar o ministério paraense como um todo, em 2006 Câmara funda a Convenção da Igreja-Mãe (CIMADB). 

Em Macapá, o pastor Oton de Alencar, mesmo sendo o líder da igreja pioneira desde 1994, não conseguia espaço na Convenção do seu Estado. Em 2009, Alencar fundou a União Fraternal das Assembleias de Deus no Amapá. Seu principal oponente e desafeto, o pastor Lucifrancis Barbosa Tavares também é aliado do presidente da CGADB. 

Assim, as principais igrejas das ADs no Norte do país e suas lideranças ficaram praticamente invisíveis ou esquecidas nas páginas do Mensageiro da Paz. Mas as atividades dos Ministérios aliados e dos seus pastores eram divulgadas amplamente pela CPAD. Inclusive recebiam os eventos patrocinados pela editora. 

Agora, com a CADB, os Câmaras e seus companheiros procuram resgatar o protagonismo das igrejas pioneiras do pentecostalismo no Brasil. Inaugura-se oficialmente, a mais nova geopolítica assembleiana. Ministérios e Convenções distantes da CGADB ou da CONAMAD, podem na CADB encontrar abrigo institucional.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

http://selesnafes.com/2015/10/lider-da-assembleia-de-deus-fala-sobre-rachas-na-igreja-casamento-gay-e-politica/

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

CADB - volta ao passado

* Por Carlos Roberto Silva do Point Rhema

Muito embora muitos entendam que os descontentamentos da AD Igreja Mãe em Belém do Pará para com a CGADB seja coisa dos últimos 30 anos, a história registra que é coisa muito mais antiga do que se imagina.

No ano de 1.978, mais precisamente em 11 de Abril, motivados por uma invasão em Campo Eclesiástico, algo proibido e muito combatido à época, provocada pelo Ministério de Madureira, que deu apoio ao irmão Geraldo Sebastião Coelho, oriundo de Goianésia - Go, e organizou uma Igreja AD na cidade de Marabá-Pa ao mudar-se para aquela cidade, a Convenção Estadual das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Estado do Pará e oServiço de Evangelização dos Rios Tocantins e Araguaia, decidiram através de resolução conjunta, se desligarem da CGADB, após tentarem de forma pacífica resolverem o problema, sem a devida atenção e nem a solução por parte da instituição maior, conforme alegavam à época.

Abaixo cópia do referido documento, bem como das cartas enviados pelo Pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos aos dois signatários da resolução, os dois presidentes, a saber: Pr. Firmino da Anunciação Gouveia (AD Belém) e Luiz de França Moreira (SETA), onde são repreendidos a permanecerem no seu devido lugar, os quais pelo visto findaram por se conformar, não dando sequência ao rompimento comunicado, lembrando que naquele tempo, sem o advento da internet, onde todos ficam sabendo dos fatos e atitudes em tempo real, era muito mais fácil se voltar atrás de uma atitude assim.

Como os tempos e as coisas mudaram, tanto do ponto de vista das tratativas espirituais, ministeriais e jurídicas, ao que parece desta feita o caso foi muito longe, tornando as decisões irrevogáveis e irretratáveis, no entanto fica claro, que os descontentamentos com o órgão maior por parte da Igreja do Norte, já somavam praticamente 40 anos.

O que muda é que, naquela época o rompimento se daria com todo o Estado do Pará, cuja convenção estadual era presidida também pelo Pastor Presidente da Igreja Mãe em Belém.

Veja os documentos abaixo, que constam como anexo da tese O AGGIORNAMENTO DO PENTECOSTALISMO: as Assembleias de Deus no Brasil e na cidade de Imperatriz-MA (1980-2010) de Moab César Carvalho Costa.   

* Carlos Roberto Silva é pastor da Assembleia de Deus em Cubatão (SP) e presidente da Convenção dos Ministros das Assembleias de Deus no Estado de São Paulo e Outros (Comadespe)








http://www.pointrhema.com.br/2017/12/ad-igreja-mae-em-belem-pa-rompeu-pela.html

sábado, 2 de dezembro de 2017

Convenção da Assembleia de Deus no Brasil - De volta ao lar

O dia 02 de dezembro de 2017, entrou para a história das Assembleias de Deus no Brasil. Depois de 33 anos filiado à Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), e de disputar diversas e polêmicas eleições para a presidência da entidade, o pastor Samuel Câmara da AD em Belém do Pará, apresentou ao país a Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB).

Para quem não conhece a história recente da denominação, a CADB é fruto de anos de discordâncias de uma boa parte dos pastores ligados à Convenção Geral com os rumos da política eclesiástica da instituição conduzida desde 1988, de forma quase interrupta pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Mas, deixando de lado as questões políticas (as quais serão tratadas no blog no seu devido tempo), a CADB nasce com fortes apelos à memória assembleiana. A nova convenção surge justamente onde nasceu as ADs no Brasil. Foi em Belém do Pará, que em 1911, Gunnar Vingren e Daniel Berg fundaram a Missão de Fé Apostólica, posteriormente rebatizada de Assembleia de Deus. A congregação pioneira é chamada de Igreja Mãe, onde tudo começou 106 anos atrás. Todas as outras Igrejas e Ministérios tem nela sua origem. 

CADB: história como legitimação social

A CADB resgata uma velha reivindicação nas ADs, que foi sufocada com a institucionalização da igreja: o ministério feminino. O estatuto da convenção declara, que um dos propósitos da convenção é "Congregar, congraçar e promover o ministério cristão, sem distinção da vocação e chamada divina de homens e de mulheres". Ou seja, a CADB já nasce em sintonia com o desejo de reconhecimento e valorização do ministério feminino, algo que foi negado às mulheres na CGADB de 1930.

Outro ponto de destaque: o informativo oficial da CADB será o jornal Voz da Assembleia de Deus. Em forma digital ou impressa, a intenção do periódico será continuar "a história pioneira" dos jornais Voz da Verdade, de 1917, e Boa Semente, de 1921, ambos publicados pela AD em Belém. O hino oficial será o de número 144 da Harpa Cristã (“Vem à Assembleia de Deus”). 

A CADB também abrirá representações em todo o Brasil e no exterior se assim precisar. Mas no Rio de Janeiro, a representação será no campo de São Cristóvão, 338, "ponto histórico da primeira sede da convenção e da casa publicadora, desde 1946, na antiga capital do Brasil." Vale lembrar, que a AD em São Cristóvão foi pioneira no Sudeste e mãe de todas as ADs e outras denominações pentecostais na região, e está fora da Convenção Geral desde 2002.

Ainda conforme o estatuto, sugere-se que o tratamento entre os convencionais seja "a palavra IRMÃO, e, no caso de Presidente, IRMÃO-presidente". Nos antigos documentos e periódicos assembleianos, essa era a forma que os crentes assim procediam. Com a institucionalização, o "irmão" desapareceu para dar lugar às nomenclaturas conhecidas (pastor, pastor-presidente, bispo, apóstolo).

O objetivo em tudo isso é claro: buscar legitimação institucional. A CADB não seria mais uma cisão no universo das ADs, e sim a continuação da história e do legado dos pioneiros. Para contrapor-se ao atual modelo de gestão da sua congênere (CGADB), vista como desvirtuada e engessada por décadas, os organizadores da nova convenção "resgataram" aspectos históricos e afetivos caros aos assembleianos.

O estatuto da CADB foi aprovado em um dia mais que simbólico para os evangélicos: 31 de Outubro de 2017, dia da comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante e por coincidência dos 60 anos do pastor Samuel Câmara.

Como toda nova organização vista como dissidente, a CADB terá apoios, críticas e vai render ainda muitos comentários nas mídias especializadas e redes sociais. Mas na questão da conquista de mentes e corações, pelo menos na área histórica, o pessoal da CADB fez a lição de casa...

Fontes:


ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

Acesse o estatuto da CADB no site http://portalcadb.com/

sábado, 25 de novembro de 2017

Ruptura na CGADB - detalhes da história

Alguns detalhes sobre a primeira grande ruptura institucional da CGADB, em 1989, sob à presidência do pastor José Wellington Bezerra da Costa devem ser conhecidos. Como já se postou nesse blog, as versões são conflitantes e os interesses para que a primeira grande cisão na Convenção Geral ocorresse foram diversos.

Entre as questões levantadas para a suspensão de Madureira da CGADB, na 29ª Assembleia Geral Extraordinária, realizada em Salvador (BA), estava a velha polêmica sobre a "jurisdição eclesiástica". Na década de 1980, a abertura de novas congregações de Madureira no Norte de Nordeste do Brasil, acirrou os ânimos dos convencionais.

Porém, David Cabral em seu livro A outra face da História, destaca que a nova Mesa Diretora da CGADB resolveu nesse tempo, "reacender as antigas questiúnculas sobre 'jurisdição eclesiástica'". Cabral observa, que tal debate já era obsoleto, pois o Ministério "não possuía um só campo onde não houvessem um ou mais ministérios atuando". Para os líderes na região Norte, tal discussão não era tão obsoleta assim...

Ainda em vida, Paulo Macalão negociava as tensões. Com sua morte em agosto de 1982, as pressões aumentaram sobre o Ministério em um momento de delicada transição. Um dos personagens, que colaborou na época para os descontentamentos, foi o pastor Luiz Gonzaga Medeiros da AD em Carapicuíba (SP). 

Fervoroso defensor do "Ide de Jesus", Gonzaga começou a abrir congregações ligadas ao seu campo eclesiástico por todo o Brasil. Tão identificado ficou o líder paulista com o expansionismo de Madureira, que Manoel Ferreira chegou a dizer que Gonzaga era um "ícone", e que, "Madureira sem o Luiz, não tem história."

Manoel Ferreira (CONAMAD) e José Wellington Bezerra da Costa (CGADB)

Gonzaga, contudo, não era o único líder a desejar a expansão do Ministério. Luiz Fontes, em 1983, fundou a AD de Madureira em Porto Velho, Rondônia. Na mesma década outros trabalhos foram abertos pelo país. Havia também os descontentamentos com obreiros excluídos de outros Ministérios recebidos em Madureira e vice-versa.

Derrotado na CGADB de 1987, na Bahia, Ferreira entrou em rota de colisão com Mesa Diretora da CGADB. Sob sua liderança, os líderes de Madureira reunidos em sua Convenção Nacional ainda em 1987, resolveram "abrir oficialmente" congregações "em todas a capitais e Estados da Federação, onde não os estivessem". Em outra reunião nacional realizada em 1988, na AD em Madureira (RJ), o tema "A marcha da igreja, vencendo os obstáculos sem recuar", já dava uma ideia do posicionamento do Ministério diante da crise.

Criou-se um impasse: Alcebiades foi eleito para deter Madureira; e esta por sua vez resolve enfrentar as determinações da CGADB. José Wellington em sua biografia, comenta que no decorrer da crise, Alcebiades e Manoel Ferreira chegaram a cortar relações. Ferreira por sua vez, em depoimento histórico afirmou o seguinte: "Eu tenho certeza que, se o Alcebiades estivesse vivo, talvez hoje nós estivéssemos na CGADB". Pensava Ferreira e seus aliados numa solução negociada e permanecer na Convenção Geral?

O fim da história é conhecida: Alcebiades Vasconcelos faleceu em maio de 1988, e assumiu seu vice, o pastor José Wellington Bezerra da Costa. Na opinião de Ferreira, se Alcebiades não falecesse, haveria a possibilidade de Madureira permanecer na CGADB. Mas, José Wellington e seus aliados não desejavam isso. 

Na AGE em Salvador votaram pela suspensão de Madureira 1.648 ministros. Oito pastores votaram contra: José Pimentel de Carvalho, Marinésio Soares da Silva, Silas Malafaia, Davi Nobre Rocha e Geremias Couto pela Missão. Nicodemos José Loureiro, Luis Francisco Fontes e Josué de Campos representando Madureira.

E entre os que votaram e exigiram a suspensão de Madureira da CGADB, estava o jovem pastor e sucessor do próprio Vasconcelos na AD em Manaus, Samuel Câmara.

Como se percebeu, a história é longa de cheia de detalhes. Alguns, como diz uma canção "são coisas muito grandes pra esquecer..."

Fontes:


ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

CABRAL, Davi, Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FIDALGO, Douglas Alves. “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP.

FRESTON, Paul, Breve história do pentecostalismo brasileiro, In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz, outubro de 1988. CPAD, RJ.

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

https://admadureiracarapicuibape.weebly.com/nossahistoria.html

domingo, 19 de novembro de 2017

Ruptura na CGADB (2ª parte)

A primeira grande ruptura institucional na CGADB, aconteceu no fim dos anos 80, com a suspensão do Ministério de Madureira. O Brasil vivia a chamada "década perdida" do ponto de vista econômico, mas muitos avanços democráticos com o fim do Regime Militar (1964-1985). No mesmo período as ADs mergulharam na política partidária com candidatos próprios à Assembleia Nacional Constituinte.

Só para lembrar: o Ministério de Madureira, desde os anos 20, sob à liderança de Paulo Leivas Macalão avançava nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Na década de 1950, Madureira já se firmava como um ministério inter-regional e de grande visibilidade política.

Nessa época surgem as polêmicas sobre as "invasões de campo" ou do eufemismo "jurisdição eclesiástica". O crescimento e consolidação dos Ministérios assembleianos, e os projetos de expansão eclesiástica muitas vezes chocavam-se entre si. Madureira quase sempre estava no centro das controvérsias.

Com a morte de Macalão em 1982, Madureira viveu uma encruzilhada. Os líderes das ADs ligadas à Missão pressionavam para a desagregação do Ministério, ao mesmo tempo que os principais obreiros de Madureira tentavam solucionar o vácuo deixado pela morte do seu fundador.

Ferreira: ressuscitou a passagem bíblica sobre Abraão e Ló 

Na CGADB de 1983, em Aribiri, Vila Velha (ES), a chapa de Madureira encabeçada pelo pastor Manoel Ferreira venceu a eleição. Era a afirmação da força do Ministério de Madureira, mesmo com o desaparecimento do seu mítico fundador. Mas Ferreira teve uma inusitada ajuda da Missão: seus principais líderes dividiram-se em outras três chapas concorrentes. 

Em 1985, em Anápolis (GO), houve um acordo prévio. Num clima de muita tensão foi aclamada, para a ironia da história, a famosa chapa do "consenso". Segundo Manoel Ferreira: "ficou acordado também que a partir dali, em todas as Convenções, nós acharíamos um entendimento de representação. Madureira teria sua representação e eles teriam outra representação".

Segundo essa versão, na CGADB em Salvador (BA) em 1987, só deveria haver uma chapa para ser apresentada e aclamada em plenário. Não foi o que aconteceu. Manoel Ferreira narra, que ao chegar em Salvador, se deparou com uma chapa da Missão já montada, e sem nenhum representante de Madureira. "Nós fomos totalmente ignorados..." afirmou ele recordando os fatos.

Na realidade, entre 1985 à 1987, movimentações de bastidores ocorreram para que o acordo estabelecido em Anápolis não vingasse. Líderes do Norte e Nordeste estavam descontentes com a abertura de congregações de Madureira em suas regiões, algo que era visto na época como um verdadeiro sacrilégio.

A eleição de Alcebiades seria uma forma de deter esse expansionismo. Da eleição de Vasconcelos em 1987, até a suspensão de Madureira em 1989, as negociações foram tensas. Com a morte de Alcebiades em 1988, assume seu vice, o pastor José W. Bezerra da Costa. É justamente com ele que Madureira é desligada da Convenção Geral.

Agora, quase três décadas depois de todas essas controvérsias, o bispo Samuel Ferreira declara seu apoio ao atual presidente da CGADB, o pastor Wellington Júnior. Usa inclusive, a passagem bíblica sobre Abraão e Ló e a briga entre seus pastores, para justificar a nova cisão. Segundo o bispo "Deus livrou de Ló" o pastor Júnior, ou seja, os oponentes da atual diretoria da CGADB eram "incômodos". 

A maior ironia de todas essas histórias de indas e vindas na CGADB, é que na reunião convencional realizada em Salvador (BA), em 1989 para decidir a suspensão de Madureira, esse foi o mesmo argumento utilizado por um dos líderes da Missão. José Wellington pai estava na presidência da CGADB, e Manoel Ferreira no lado oposto. Agora Júnior tem como aliado o filho do Bispo Primaz.

Samuel ressuscitou à sua maneira o discurso. Mas um dia, o Ministério que lidera foi Ló...

Fontes:


ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

CABRAL, Davi, Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FIDALGO, Douglas Alves. “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP.

FRESTON, Paul, Breve história do pentecostalismo brasileiro, In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

domingo, 12 de novembro de 2017

Missão Harpa - o projeto musical

A Harpa Cristã faz parte da tradição das Assembleias de Deus no Brasil. Fundada em 1911, pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, logo a igreja começou a usar em seus cultos hinos congregacionais, até que em 1922, Adriano Nobre organizasse a primeira Harpa Cristã em Recife, Pernambuco.

Ao logo de mais de cem anos de história, o hinário oficial das ADs deu identidade à igreja e também se tornou parte da memória coletiva e individual dos seus membros. Hinos como o 15 são lembrados para testemunhar conversões, ou o 212  para inaugurações de templos.




As composições da Harpa Cristã preservam a teologia e os propósitos da vida cristã dos pioneiros assembleianos numa época de lutas, perseguições e muito sofrimento. Cantar seus hinos é voltar ao passado, é reviver tempos antigos e saber que cada canção foi marcante para os assembleianos do passado e será para os crentes do futuro.

Agora com o objetivo de apresentar os hinos da Harpa Cristã para a nova geração, a OincFilmes, produtora do 3Palavrinhas e Krozz, em parceria com a Rede Boas Novas, lançou no dia 31 de outubro, dia da Reforma Protestante, o Missão Harpa

O projeto é um musical em animação que conta a história de uma comunidade de cristãos vivendo num futuro distante, no qual o evangelho está quase extinto. Os irmãos Vini e Theo, netos de Adriano (referência ao organizador da primeira Harpa), o líder da resistência Cristã, partem numa viagem no tempo de volta ao passado para resgatar a inspiração e a essência do evangelho nos hinos da Harpa Cristã.

O Missão Harpa é um musical é voltado para o público de 3 a 12 anos, mas com certeza agradará os adultos, que terão acesso às músicas da Harpa Cristã de uma forma totalmente original. Os amantes das história das ADs também encontrarão referências históricas interessantes sobre alguns compositores e em especial ao hino Vencendo vem Jesus.

Além disso, o material poderá ser usado como estratégia de evangelização e auxiliará no ensino da Palavra de Deus em casa e nas Escolas Bíblicas Dominicais. Certamente, o material possibilita diversos enfoques e leituras do evangelho e da vida cristã.

O projeto já está disponível desde o dia 31 de outubro, no canal do YouTube “Missão Harpa” e, em breve, à venda nas melhores lojas e livrarias de todo o Brasil. 

Para mais informações e novidades, acesse os canais: 

Twitter e Facebook, Instagram e YouTube: Missão Harpa 

E-mail para a imprensa: missaoharpa@missaoharpa.com.br