domingo, 12 de novembro de 2017

Missão Harpa - o projeto musical

A Harpa Cristã faz parte da tradição das Assembleias de Deus no Brasil. Fundada em 1911, pelos missionários suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg, logo a igreja começou a usar em seus cultos hinos congregacionais, até que em 1922, Adriano Nobre organizasse a primeira Harpa Cristã em Recife, Pernambuco.

Ao logo de mais de cem anos de história, o hinário oficial das ADs deu identidade à igreja e também se tornou parte da memória coletiva e individual dos seus membros. Hinos como o 15 são lembrados para testemunhar conversões, ou o 212  para inaugurações de templos.




As composições da Harpa Cristã preservam a teologia e os propósitos da vida cristã dos pioneiros assembleianos numa época de lutas, perseguições e muito sofrimento. Cantar seus hinos é voltar ao passado, é reviver tempos antigos e saber que cada canção foi marcante para os assembleianos do passado e será para os crentes do futuro.

Agora com o objetivo de apresentar os hinos da Harpa Cristã para a nova geração, a OincFilmes, produtora do 3Palavrinhas e Krozz, em parceria com a Rede Boas Novas, lançou no dia 31 de outubro, dia da Reforma Protestante, o Missão Harpa

O projeto é um musical em animação que conta a história de uma comunidade de cristãos vivendo num futuro distante, no qual o evangelho está quase extinto. Os irmãos Vini e Theo, netos de Adriano (referência ao organizador da primeira Harpa), o líder da resistência Cristã, partem numa viagem no tempo de volta ao passado para resgatar a inspiração e a essência do evangelho nos hinos da Harpa Cristã.

O Missão Harpa é um musical é voltado para o público de 3 a 12 anos, mas com certeza agradará os adultos, que terão acesso às músicas da Harpa Cristã de uma forma totalmente original. Os amantes das história das ADs também encontrarão referências históricas interessantes sobre alguns compositores e em especial ao hino Vencendo vem Jesus.

Além disso, o material poderá ser usado como estratégia de evangelização e auxiliará no ensino da Palavra de Deus em casa e nas Escolas Bíblicas Dominicais. Certamente, o material possibilita diversos enfoques e leituras do evangelho e da vida cristã.

O projeto já está disponível desde o dia 31 de outubro, no canal do YouTube “Missão Harpa” e, em breve, à venda nas melhores lojas e livrarias de todo o Brasil. 

Para mais informações e novidades, acesse os canais: 

Twitter e Facebook, Instagram e YouTube: Missão Harpa 

E-mail para a imprensa: missaoharpa@missaoharpa.com.br

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Ruptura na CGADB e suas histórias (1ª parte)

As Assembleias de Deus no Brasil estão em polvorosa. O anúncio do desligamento dos pastores Jônatas Câmara (AD Manaus), e Samuel Câmara (AD Belém/PA) foi o assunto mais comentado nos sites e redes sociais. Junto com os irmãos Câmara, os líderes das ADs em Macapá (AP) também divulgaram a mesma decisão.

A decisão dos líderes assembleianos anunciada recentemente, torna-se assim, a maior ruptura denominacional desde a suspensão do Ministério de Madureira em 1989, e é mais um capítulo da história de uma instituição (CGADB), que já nasceu em 1930 sob o estigma da divisão. Divergências sobre o ministério feminino, transferência dos templos e da liderança da Missão Sueca para os brasileiros foram os pontos mais polêmicos da primeira Convenção Geral.

Nem mesmo a história oficial assembleiana disfarça, que ao longo de todos esse anos, a CGADB foi palco dos mais diversos confrontos. Conforme cresciam as ADs, os embates também surgiam com mais força. Jurisdição eclesiástica, rejeição ao uso das mídias (rádio e televisão), formação de novos Ministérios e os dilemas da modernidade, foram alguns assuntos tratados e nem sempre superados com facilidade.

Na política eclesiástica desenvolvida nesses anos, surgiu a polarização entre as igrejas originárias da Missão Sueca e o Ministério de Madureira. No fim da década de 1980, as divergências chegaram ao ápice. Madureira foi suspensa da CGADB, gerando a primeira grande ruptura institucional.

Pastores Ailton, Samuel Câmara e JW da Costa

A suspensão, deu início ao que o historiador das ADs Maxwell Fajardo em seu livro Onde a luta de travar: uma história das Assembleias de Deus chamou de "Era Wellington". Nesse tempo igrejas históricas saíram da Convenção Geral. As ADs em São Cristóvão (RJ) e em Santos (SP), pioneiras em suas regiões por questões teológicas e políticas deixaram de ser representadas na CGADB.

Um ponto que parece ser positivo nesse período, é a recuperação da CPAD. A editora assembleiana por longo tempo apresentava problemas administrativos e financeiros. Hoje, a Casa Publicadora é uma potência, mas por outro lado foi instrumentalizada para garantir a hegemonia dos atuais líderes da Convenção Geral.

Quanto mais o pastor da Igreja-Mãe em Belém e seus aliados lutavam contra o status quo da Convenção Geral, menos visibilidade tinha no Mensageiro da Paz, no CPADNews ou nos programas do Movimento Pentecostal. Assim, ironicamente, a Igreja-Mãe sumiu da própria história recente da CPAD.

Entre os assembleianos, os que amam e acompanham sua rica e acidentada história, há um clima de consternação com mais esse cisma institucional. Para alguns estudiosos da denominação, o desligamento de pastores e convenções já era esperado. Outros interpretam como rebeldia as ações dos pastores do norte.

Mas isso não é tudo. Antigos desafetos aparecem como aliados e citam passagens bíblicas com grande ousadia. Assuntos para a próxima postagem...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi, Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FIDALGO, Douglas Alves. “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP.

FRESTON, Paul, Breve história do pentecostalismo brasileiro, In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.

domingo, 29 de outubro de 2017

Princípios da Reforma Protestante

No dia 31 de outubro de de 2017, celebra-se os 500 anos da Reforma Protestante iniciada pelo monge alemão Martinho Lutero. Será uma ótima oportunidade para refletir sobre os princípios do movimento que abalou as estruturas da poderosa Igreja Católica Romana.

Quando Lutero começou o movimento reformista, o contexto europeu era precário. "A peste avançava pela Europa" e as "revoltas camponesas brotavam onde os servos eram tratados como escravos por senhores feudais. Cidades insalubres cresciam sem infraestrutura." - destacou o jornal O Globo (28/10/2017).

A hegemonia da Igreja Católica foi abalada. O movimento ramificou-se em várias denominações com líderes, liturgia e enfoques teológicos diversos. O pentecostalismo é considerado herdeiro da Reforma Protestante e no Brasil foi implantado a partir da década de 1910.

Porém, depois de um século em terras brasileiras o pentecostalismo absorveu, em todos os sentidos, práticas questionáveis. O historiador Jesse Lyman Hurlbut, no livro História da Igreja Cristã, (editora Vida, 1996) destacou cinco princípios básicos da Reforma e que podem servir de padrão para analise do quanto as denominações, ministérios e comunidades estão em sintonia ou em contradição com o movimento iniciado pelo monge alemão.




Primeiro principio: a verdadeira religião está fundamentada nas escrituras. A tradição ou a autoridade eclesiástica não podem estar acima da Bíblia. Mesmo sendo uma vertente evangélica com forte ênfase nas experiências espirituais, os ensinadores pentecostais gostavam sempre de lembrar, que os dons, revelações, arrebatamentos e cânticos precisavam ser averiguados pela ótica bíblica.

Segundo princípio: a religião deveria ser racional e inteligente. Crenças irracionais, superstições e absurdos teológicos. Na concepção reformadora, a razão também é um dom divino, e a adoração não poderia violar a natureza racional do ser humano.

Terceiro princípio: o crente não precisa de intermediários para chegar-se a Deus. Sua relação com Cristo é individual e direta. A leitura da Bíblia começou a ser estimulada, pois o crente teria essa liberdade. A Reforma Protestante eliminou as barreiras litúrgicas e clericais, ou seja, cada crente é um sacerdote com acesso direto a Deus.

Quarto princípio: os reformadores queriam uma adoração espiritual e não formalista. A simplicidade da vida e culto cristão deveriam ser a tônica da verdadeira fé. Na época, as formalidades, cargos e nomenclaturas eram ambicionadas e valorizadas pelo clero romano.

Quinto princípio: formar igrejas nacionais desvinculadas de Roma. Isso possibilitou os cultos nas igrejas reformadas na Alemanha, Inglaterra e outros países europeus abolir o latim das celebrações e usarem seus idiomas próprios.

Considerações: quando uma igreja ou líder evangélico "profetiza","declara" ou "exige" em nome de uma suposta revelação algo irracional ou extra-bíblico, ou valorize mais pompas e circunstâncias, essa instituição está negando os princípios da Reforma.

E por último: quando a fé e objetos são comercializados como garantia de bençãos, ou as ofertas e dízimos são colocados como condição sine qua non para a salvação, é sinal que o respeitável ministério ou igreja (grande ou pequena) precisa de uma nova Reforma Protestante.

domingo, 22 de outubro de 2017

O Escolhido

A matéria da revista semanal Veja (edição 18/10/2017), sobre a sucessão na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) é emblemática, e apesar de se tratar de uma denominação considerada neopentecostal com práticas sincretistas e polêmicas (mas diga-se de passagem muito imitada pelas concorrentes), aponta para tendências já consolidadas nos Ministério das Assembleias de Deus.

Na matéria O Escolhido, Veja informa que depois de quase dez anos de expectativas, Edir Macedo, líder máximo da IURD, anunciou o número 2 na organização religiosa e seu "provável sucessor e herdeiro" do império religioso-midiático-político erguido por ele em 1977, ano de fundação da Universal.



O número 2 da IURD anunciado por Edir é o seu genro Renato Cardoso, casado com Cristiane, a filha mais velha do Bispo. Contraditoriamente, Macedo sempre afirmava que "nenhum parente seria detentor de cargos-chaves na Universal", pois valeria mais o mérito na sucessão do que laços familiares, uma forma de estimular a competição interna.

Os possíveis sucessores de Macedo dedicaram-se então as metas de arrecadação e expansão da igreja nesse período. Mas agora, a escolha do genro teve efeito de uma verdadeira "traição", inclusive para o outro genro do bispo, Julio Freitas.

Dedicado ao ministério da IURD desde a adolescência, Renato é considerado o filho que Edir não teve. Casou com Cristiane em 1991, e seguiu para os Estados Unidos com o objetivo de expandir a Universal na terra do Tio Sam. Anos depois passou pela África do Sul, Inglaterra e retornou aos EUA.

Voltou em 2011 ao Brasil para ficar conhecido pelos conselhos matrimoniais dados na igreja e na TV. Lançou o best-seller Casamento Blindado, e é considerado "uma das estrelas mais fulgurantes" da IURD.

Porém, por outro lado, Cardoso é considerado dentro da denominação como um outsider, pois passou a maior parte do tempo do ministério fora do Brasil. Outros obreiros próximos à Macedo, que por muitos anos dedicaram-se à igreja, viram na nomeação do genro do Bispo uma verdadeira "rasteira".

Mesmo que o perfil do genro se encaixe mais nos rumos de modernização da Universal, em contraste com as pregações convencionais e práticas de arrecadação financeiras dos seus concorrentes, Renato vai ter que lutar para consolidar sua liderança. O descontentamento foi grande entre os aspirantes ao Reino Universal.

"O anúncio de Macedo encerrou uma guerra. O desafio do genro agora é não abrir outra guerra  e garantir a paz no império", conclui os jornalistas ao fim do texto.

Qualquer semelhança com a realidade de outros Ministérios não é mera coincidência.

Fontes;

Revista Veja - edição 18/10/2017 - acervo digital 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Televisão - O Canal 23

No Mensageiro da Paz, em fevereiro de 1967, foi publicado O Canal 23. É notório na história assembleiana, que a televisão, suas programações e uso, sempre foram alvo de acirrados debates nas Convenções Gerais. 

Criou-se toda uma mentalidade contrária a TV. Poucos tinham coragem de usar o aparelho abertamente em casa. A proibição era geral. Hinos eram compostos e gravados para combater a maléfica mídia. Um exemplo disso foi o LP da dupla Ageu e Mauro intitulado TV Tira a Visão.

O versículo 3 do Salmo 101, “Não porei coisa má diante dos meus olhos" era o texto áureo dos pregadores contrários à mídia televisiva. Profecias e visões eram recorrentes para confirmação das mensagens.

São memórias, que fazem parte do vasto folclore assembleiano. Em tempos de internet, as discussões sobre ter ou não televisão soam anacrônicas. Mas diante da baixa qualidade das programações (reality shows, novelas, seriados, programas de auditórios e policiais) O Canal 23, cinquenta anos depois, permanece atual. 





sábado, 23 de setembro de 2017

Paulo Macalão - origem e autonomia

O Ministério de Madureira é uma das maiores ramificações das Assembleias de Deus no Brasil. Está presente em todo território nacional, e é inegável a força política de sua Convenção Nacional. Desde a suspensão da CGADB em 1989, Madureira tem se destacado por suas supostas inovações. 

Mas, ao longo da história das ADs, percebe-se, que o signo das inovações está presente em Madureira desde sua origem na década de 1920 na cidade do Rio de Janeiro, na época, Capital da República do Brasil. E isso se deu por obra de um novo convertido de perfil inusitado para a maioria dos líderes assembleianos: Paulo Leivas Macalão.

Nascido em Santana do Livramento (RS), em 1903, Macalão era filho de um general, procedia de família culta e havia estudado em bons colégios no Rio. A conversão ao pentecostalismo se deu na incipiente AD em São Cristóvão, bairro operário no Rio de Janeiro.

"Macalão era gaúcho numa igreja de nortistas e nordestinos. Era filho de um general numa igreja de pobres", observou o sociólogo Paul Freston. A origem social do líder de Madureira nunca escapou das narrativas oficiais e das análises acadêmicas. Gedeon Alencar destaca ainda, que além da origem culta e abastada, o nacionalismo do líder de Madureira teria sido a possível causa da cisão informal com a AD da Missão Sueca.

Diário de Vingren: à direita observações sobre Macalão

Na versão da história oficial das ADs, fala-se de certa "censura" e "incompreensão" sentida por Macalão na igreja de São Cristóvão, causa da suas incursões evangelísticas a partir de 1926 nos subúrbios do Rio. Estudos acadêmicos apontam para o "desentendimento" entre ele os suecos, como a causa da criação do ministério. É clássica a citação do diário de Vingren com a seguinte observação: "Elle é muito independente."

Douglas Fidalgo, em sua dissertação de mestrado De Pai para Filhos, aponta para essa postura autônoma de Macalão, pois "não sendo ele submisso aos suecos e nem aos nordestinos, uma vez que nunca precisou deles, nem na fundação da AD de São Cristóvão, muito mesmo nas igrejas que iam surgindo no subúrbio carioca." Tanto que criou um ministério inter-regional e manteve o controle sobre todas a congregações espalhadas pelas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil.

David Cabral, pastor do Ministério de Madureira em seu livro Assembleias de Deus: A Outra Face da História, argumenta anda que Macalão não se aliou aos brasileiros na reivindicação dos trabalhos abertos no Brasil. Por isso ele sempre teve "deferência muito especial" da Missão Sueca. Constata-se também, a presença do líder de Madureira como preletor em várias Escolas Bíblicas da AD em São Cristóvão na época da liderança dos escandinavos no Rio.

Para os familiares, o patriarca teria saído aos subúrbios do Rio, porque ninguém queria deixar o conforto da igreja em São Cristóvão e pregar nas áreas mais distantes da cidade. André Macalão (neto do pastor Paulo e líder da AD em Caldas Novas/GO), destaca que seu avô era forte aliado de Gunnar Vingren e de Lewi Pethrus (pastor da Igreja Filadélfia na Suécia). O fato de Macalão ter sido presidente da 8º Conferência Mundial Pentecostal realizada no Brasil em 1967, seria a confirmação das afinidades com os suecos e não o contrário.

Aliás, parece que foi com os brasileiros, sucessores dos suecos, é que o líder de Madureira se desentendeu no Rio de Janeiro. Há memórias e registros de sérios desacordos com Alcebiades Vasconcelos e Túlio Barros Ferreira.

Por ter essa origem social diferenciada, Macalão impôs um ritmo de administração singular em seu ministério. Causava admiração e desconforto ao mesmo tempo. Era afável e conciliador, porém, não cedia às pressões externas. Queria e fez da sua Assembleia de Deus referência em unidade e estética.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi, Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro, “Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), (Tese de Doutorado em História) Assis-SP: UNESP, 2015.

FIDALGO, Douglas Alves. “De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP.


FRESTON,  Paul, Breve história do pentecostalismo brasileiro, In:  ANTONIAZZI, Alberto.  Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. 

domingo, 10 de setembro de 2017

Presbíteros - o ministério da resistência

Toda denominação religiosa possui sua hierarquia. As ADs, ao longo dos anos cristalizaram a sua: cooperador/auxiliar, diácono, presbítero, evangelista e pastor. Atualmente, em alguns ministérios outras nomenclaturas foram admitidas como a de apóstolo, bispo (a) e pastoras.

Cooperador, diáconos e presbíteros dentro da denominação, caracterizaram-se por serem ministérios voltados para a igreja local, enquanto que evangelistas e pastores tem seu foco mais no contexto regional ou nacional das ADs. Mas é o presbítero ou o presbitério, o alvo das maiores controvérsias na história da AD, tanto teologicamente como administrativamente.

O historiador Maxwell Fajardo, em seu livro Onde a luta de travar, destaca que os presbíteros (chamados anciãos nos primeiros tempos), na CGADB de 1933, foram autorizados a ministrar os sacramentos antes efetuados somente pelos pastores, no caso unção dos enfermos e batismo nas águas. Era a padronização das atividades do presbitério entre as diversas ADs espalhadas pelo Brasil.

Nelson e Nyströn com o presbitério da AD em São Cristóvão (RJ)

Na mesma década, o missionário sueco Nils Kastberg, em um artigo publicado no Mensageiro da Paz, em 1936, defendeu a necessidade de mais presbíteros para a igreja. O sueco também argumentava, que o presbíteros deveriam atuar como pastores, pois a única diferença entre eles era o fato do pastor ser um "presbítero de tempo integral".

Com o passar do tempo, porém, a Convenção Geral colocou por interesses ministeriais, a função de presbítero em submissão ao pastor local. Enquanto Kastberg propunha (em tese) a limitação e a divisão do poder pastoral com o presbitério, as deliberações da CGADB restringia o acesso destes obreiros ao poder administrativo.

Mesmo com divergências sobre as funções dos presbíteros, o certo é que ao chegar em determinadas igrejas, presbitério era sinônimo de "problemas" para muitos pastores. Podia o grupo de obreiros contrapor os poderes dos pastores e interferir na administração local.

Caso emblemático foi o da AD em São Cristóvão (RJ) na década de 1950, a mesma anos antes liderada por Kastberg. Alcebíades Vasconcelos, ao assumir a igreja carioca conta em sua biografia, que se deparou com um "presbitério todo-poderoso", o qual comandava a igreja e do qual deveria ser "100% dependente".

Aliás, Vasconcelos criticou essa interferência do colegiado de obreiros comparando-o com o "sinédrio judaico". Em sua gestão em Manaus entre 1972/88, diante de problemas com alguns presbíteros, Alcebíades, após estudos bíblicos para justificar a decisão, extinguiu o cargo.

Em outros ministérios as coisas foram diferentes: com o crescimento das igrejas, o presbitério foi de certa forma "vulgarizado". Relaxou-se as exigências bíblicas para a separação dos presbíteros, gerando ordenações em grande número. Tal ação, diluiu o poder do colegiado e facilitou o controle por parte do pastores-presidentes dos obreiros (pastores, evangelista e presbíteros) sustentados diretamente pelas igreja locais.

Nas igrejas menores, o presbitério ainda concentra determinada força, pois o pastor não dispõe de tantas alternativas para contrapor o poder desses obreiros. Como disse um saudoso pastor catarinense, antigamente, o presbítero era visto como um "coronel" com grande influência sobre os membros na congregação.

Mas hoje, há para os líderes das ADs um perigo maior que o antigo presbitério. É o membro consciente dos seus deveres e direitos, com formação jurídica e intelectual, o qual simplesmente contesta os mandos e desmandos do pastor. Por não depender financeiramente da igreja, e desfrutar de considerável prestígio social, esse tipo de membro não é facilmente cooptado com cargos ou privilégios.

É o poder do presbitério "reencarnado" e o fantasma de muitas administrações eclesiásticas.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.