sábado, 27 de maio de 2017

Rio 40 graus – Alcebiades no Distrito Federal

"Rio 40 graus/Cidade maravilha/Purgatório da beleza e do caos" – A música é de 1992, e faz referência, não só à temperatura média da cidade, mas também aos seus encantos naturais e, infelizmente, a constante situação de violência e abandono da sua população.

No final da década de 1950, o pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos sentiu ministerialmente a elevada temperatura das ADs no antigo Distrito Federal. Internamente, sérias questões com o presbitério de São Cristóvão; externamente, desentendimentos com o líder da AD em Madureira, Paulo Leivas Macalão.

Convidado oficialmente por telegrama pela igreja de São Cristóvão, Vasconcelos conta que foi surpreendido com sua indicação à presidência da igreja pelo presbitério em 21 dezembro de 1957. Percebeu à força do ministério carioca naquele mesmo dia.

Segundo conta em sua biografia, o missionário sueco Nels Nelson, então pastor da igreja, implorou: "Irmão Alcebiades, por favor aceite, porque caso contrário vai ser muito pior". Ao assumir, o experiente obreiro já havia feito à leitura da situação. Tinha diante de si um presbitério "todo-poderoso, que decidia pela igreja" e do qual ele deveria ser "100% dependente".

Conforme foi visto na última postagem, instabilidades ministeriais e administrativas e a inevitável fragmentação, levou o pastor da AD no Rio a propor autonomias controladas das congregações de São Cristóvão. Mas algumas cisões aconteceram e fortes acusações de Vasconcelos possuir "sentimento divisionista" foram feitas por um obreiro. 

É interessante notar, que o veterano pastor nas narrativas sobre sua passagem pela "Cidade Maravilhosa", enfatize mais os problemas e tensões, do que possíveis realizações do seu pastorado. A temperatura eclesiástica era alta no Rio.

Foto rara: casal Macalão e Alcebiades em viagem ao exterior

Paralelamente, Alcebiades teve sérias divergências com o líder de Madureira, Paulo Leivas Macalão. Em estudos no Mensageiro da Paz, escritos pelo pastor de São Cristóvão, há criticas ao líder de Madureira com sua concentração de poder ao ser nomeado "pastor geral" do campo.  Quase um "papado pentecostal brasileiro"– alfinetou. 

Obviamente, Macalão não deve ter gostado das observações. Dizem os mais antigos, que instalou-se um clima de animosidade entre os ministérios. Não havia mais cooperação entre as igrejas. A CGADB de 1959, realizada do Rio foi o auge das divergências. Alcebiades nessa convenção, teria exigido, por motivos não esclarecidos, à exclusão do pastor Paulo. Tentando contornar o mal-estar, o missionário Nels Nelson trabalhou nos bastidores para apaziguar os ânimos e propor mudanças.

Conta Vasconcelos, que durante os tumultos no Rio de Janeiro, nas constantes lutas com o presbitério, sentiu desejo de trabalhar na obra missionária. Evangelizar e abrir novas igrejas era menos desgastante do que lidar com os obreiros do seu ministério. Porém, tudo leva a crer, que o embate com Macalão, também contribuiu para sua transferência.

Ironicamente, depois de ir para terras bolivianas, passar por outras igrejas e pela própria CPAD, o experiente obreiro tenha, três décadas depois, sido eleito à presidência da CGADB, justamente contra uma chapa de Madureira. Não só isso: sua gestão foi marcada por sérias desavenças com o líder de Madureira, Manuel Ferreira.

A passagem de Alcebiades foi curta e intensa no antigo Distrito Federal. Realmente, o Rio 40 graus com toda a sua beleza, foi um "purgatório" para o antigo líder.

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de novembro de 1959.

domingo, 21 de maio de 2017

Bastidores das autonomias das ADs no RJ

Em julho de 1959, os leitores do Mensageiro da Paz, foram informados sobre uma considerável reformulação administrativa na Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), promovida na gestão do pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos.

Segundo o responsável pelas novas divulgadas no jornal, o pastor Antônio Gilberto, à cúpula da AD carioca, com o objetivo de "promover maior incremento na difusão do Evangelho e, progresso geral da obra de Deus", realizou sua Assembleia Geral Ordinária, onde "deliberou outorgar autonomia a doze de suas principais congregações, transformando-as em igrejas". Ainda, conforme Gilberto, "Tudo decorreu num ambiente da maior cordialidade, espiritualidade e compreensão".

"A história oficial, seja religiosa, seja política" escreveu o saudoso poeta, jornalista e pastor Joanyr de Oliveira, é em parte "uma grande farsa". Quatro décadas depois, Alcebiades contaria em sua autobiografia o contexto das autonomias dadas as congregações de São Cristóvão. E pelo relato, não teve nada de "cordialidade" ou "espiritualidade" nas decisões.

Alcebiades e família: passagem difícil pelo RJ

Vasconcelos assumiu a AD no Rio de Janeiro em janeiro de 1958. Foi o primeiro pastor brasileiro da AD carioca em mais de três décadas da existência da igreja. Logo percebeu, já em sua nomeação à presidência, que conviveria com um presbitério forte. Experiente, sabia que em tais circunstâncias, suas ações seriam limitadas e controladas pelo ministério local.

Constatou com desagrado a total independência administrativa dos dirigentes das principais congregações da AD da Missão. Eles compravam, vendiam, compravam, assinavam documentos e tudo mais, sem pedir consentimento à sede. Paralelamente, disciplinavam, reconciliavam e batizavam sem comunicar ao pastor-presidente da igreja.

Para seu desespero, ao final do mês, os obreiros das congregações não prestavam contas na tesouraria central. Com pagamentos obrigatórios vencendo, Alcebiades pedia aos pastores Nels Nelson, Marcelino Margarida e José Pimentel de Carvalho que percorressem às congregações em busca de recursos para quitação das dívidas.

Ao tentar controlar os mandos e desmandos dos presbíteros, Vasconcelos teve que enfrentar à saída de dois obreiros objetivando dividir suas congregações. Criou-se um clima de instabilidade e os acontecimentos foram o alerta que faltava para o experiente pastor. Dedicou-se então a estudar um plano de autonomia das filiais. A emancipação seria seguida da organização de uma convenção para dar suporte as obras sociais da igreja.

Ao apresentar o plano de autonomia o ministério de dividiu: Nelson e José Pimentel foram contrários. Marcelino Margarida, Moisés Malafaia, Álvaro Cardoso e Joaquim Ferreira apoiaram o projeto. Nels Nelson consulta o sueco Samuel Nyström, e este por sua vez apoiou a proposta. Formou-se um certo consenso entre os principais pastores.

Para "surpresa" de Vasconcelos, reunido o presbitério, houve o consentimento do plano. Conta o reverendo, que nessa reunião ele "foi considerado" um "enviado de Deus" para estabelecer o projeto. Mas a alegria durou pouco. Em outra reunião de presbíteros, Alcebiades foi acusado (sem ninguém contradizer o acusador) de possuir "sentimento divisionista" e que encaminhava a igreja para a "desagregação".

Desgastado com as oposições, na última reunião de presbitério, Vasconcelos renuncia ao cargo. José Pimentel de Carvalho é eleito o novo pastor da igreja. Porém, no culto administrativo houve um grande tumulto e novas votações. Alcebiades é reconduzido ao posto e consegue aprovar as autonomias. Ao fim da confusão, quatro presbíteros saíram da reunião dispostos a dividir as congregações que lideravam.

Ao ler o Mensageiro da Paz, mal sabiam os crentes das discórdias escondidas debaixo do discurso produzido pelas fontes oficiais. Até hoje isso continua assim. Mas a internet e as redes sociais modificaram esse quadro. 

Outras polêmicas ocorreram no processo das autonomias. Fica, porém, para as próximas postagens...

Fonte:

VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de julho de 1959, p. 8.

sábado, 6 de maio de 2017

José Wellington – "não contavam com a minha astúcia"

"Como é que nós perdemos o Belém para aquele menino? Onde é que nós estávamos?". Teria sido esse o comentário dos principais líderes das Assembleias de Deus no Brasil, ao perceber que o comando do Ministério do Belém em 1980, foi para o "menino" José Wellington Bezerra da Costa, na época com 45 anos idade.

Talvez, o vice-presidente do Belenzinho tenha sido subestimado, ou quem sabe, simplesmente encarado como um concorrente secundário na disputa. Mas a história mostra, que José Wellington não possui perfil para ser coadjuvante.

Radicado na cidade de São Paulo desde 1954, Costa iniciou uma bem sucedida carreira de comerciante. Quase ao mesmo tempo ingressou no ministério. Dirigiu congregações, setores, secretariou a AD no Belém por uma década e em 1973, foi escolhido para ser vice-presidente do campo.

JW: não contavam com a minha astúcia 

Uma leitura atenta na biografia de José Wellington, escrita pelo jornalista Isael de Araújo, é suficiente para notar que na condição de vice-presidente, o jovem pastor soube construir apoios e alianças dentro do ministério, possibilitando sua ascensão à presidência do Belém.

Exemplo disso, é um caso relatado sobre uma possível desvinculação das igrejas do Mato Grosso do Belém. Wellington viaja até a região e convence seus pastores a desistir do intento. Posteriormente, já como presidente do Ministério, ele dá autonomia aos campos eclesiásticos. Percebe-se as possíveis negociações de bastidores e a conquista de simpatias estratégicas do futuro sucessor de Cícero.

Paralelamente, conforme a saúde de Cícero deteriorava-se, alguns líderes de destaque das ADs frequentavam o Belém de olho na sucessão. Companheiros de Wellington "o aconselhavam para tomar cuidado". Contudo, o maior obstáculo as pretensões do vice subir mais um degrau na hierarquia da igreja, seria à família do próprio Cícero.

Por motivos desconhecidos, familiares do veterano pastor eram frontalmente contra o vice-presidente. Desejavam que o pastor João Alves Corrêa assumisse à igreja. Desde 1962 na liderança da AD em Santos, Corrêa articulava nos bastidores para assegurar o Belém para si. Via inclusive em José Wellington um aliado para seus intentos. Mas o cearense tinha outros planos e alianças para superar os concorrentes.

Nos relatos da sucessão há versões conflitantes e contradições. Na biografia, evidentemente Wellington se esforça para amenizar os fatos. Conta, para se legitimar, que Cícero ao ser questionado sobre o sucessor afirmava: "Deus já me deu o homem" e ele "está trabalhando comigo". Mas na hora decisiva, Canuto entrou com o pastor João Alves Corrêa na igreja para fazê-lo presidente do Ministério.

Só não conseguiu o intento, porque o seu vice já havia lhe esvaziado o poder. Ao apresentar o pastor João Alves para ser o novo líder, Cícero obteve simplesmente, o silêncio da congregação e dos seus obreiros. Um constrangimento para o velho "timoneiro". Experiente, percebeu a situação e declarou: "não estou mandando em mais nada".

Por esse motivo, em sua histórica entrevista à Folha de São Paulo em 1982, Cícero declarou que Costa "teria assumido a presidência da Assembleia de Deus sem seu consentimento, sendo aclamado pela assembleia de pastores". Constatação correta, pois o poder já havia lhe escapado das mãos.

Mas, a transição não seria de forma alguma pacífica. Logo após a posse de Wellington em janeiro de 1980, um documento registrado em cartório, circulou convidando os "Irmãos Pastores das Assembleias de Deus no Brasil" para uma reunião na sede do Belém. O texto, assinado por Cícero, trás à acusação de que o vice-presidente teria passado por cima de "preceitos estatutários" na eleição da diretoria no 1º dia do ano.

Ainda, segundo a circular, Costa teria no dia 06, transformado o culto de ceia em assembleia geral, "constituindo-se presidente da igreja" destituindo Cícero "indevidamente do Pastorado" e das "funções de Presidente Vitalício". Interessante, que alguns anos antes, em determinado momento de tensão com Wellington, Cícero o acusou de fazer a mesma coisa na congregação de Indianópolis. Era uma postura que o ancião realmente não tolerava.

Mas, o pioneiro estava com a saúde fragilizada. Há desconfianças, de que os familiares de Cícero estivessem articulando a reunião para enfrentar o ministério. Porém, na já citada biografia, está a declaração de que a escolha de José Wellington pela igreja "desagradou os principais líderes veteranos das Assembleias de Deus em São Paulo". A família do pioneiro não estava sozinha no intento.

Um desses líderes inclusive, teria enviado, ao que tudo indica, a tal carta para a CGADB contestando a escolha do vice-presidente. Informações de bastidores apontam João Alves Corrêa, pretendente ao trono e diretamente prejudicado com à sucessão como o autor da missiva. Corrêa na verdade, foi atropelado pela astúcia do futuro presidente da CGADB.

O perigo de uma reviravolta, parece só ter sido debelada com a morte do velhinho em 1982, quando os pastores do Belém divulgaram um documento "manifestando total apoio" e "reafirmando o reconhecimento" de que José W. Bezerra da Costa era verdadeiramente o legítimo sucessor de Cícero Canuto de Lima.

Firmado como presidente do Belém, o cearense logo disputaria em 1983 à presidência da CGADB. Perdeu para o líder de Madureira, Manuel Ferreira. Seria eleito vice-presidente em 1987, na chapa encabeçada por Alcebiades Vasconcelos. Mas, Alcebiades faleceu no ano seguinte. A história em seguida é bem conhecida: José Wellington não têm vocação e nem perfil para ser coadjuvante.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Ministério do Belém – candidatos à sucessão

A década de 1970, seria decisiva para a Assembleia de Deus - Ministério do Belém (SP). Em 1973, o "timoneiro" Cícero Canuto de Lima faria 80 anos de idade e um clima de expectativa se formava em torno da sucessão.

José Wellington, comenta em sua biografia, que o pastor Joaquim Marcelino da Silva, na época influente líder das ADs em São Paulo, manifestou preocupações com à sucessão ao próprio Cícero. Mas o veterano desconversava, não alimentava polêmicas e negava-se a apontar diretamente um herdeiro ministerial.

Comenta-se nos bastidores, que um dos grandes favoritos para suceder o pioneiro, seria o pastor Eliseu Feitosa de Alencar. Amazonense de Lábrea, Alencar destacou-se na década de 1960 na evangelização dos povos indígenas em Roraima. Em 1964, divulgou esse trabalho na CGADB em Curitiba (PR), e "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima" – segundo o próprio José Wellington.


Cícero e alguns candidatos à sucessão (JW sentado à direita)



Em 1965, convidado por Cícero, Alencar transfere-se para o Belém. Nesse tempo, um grupo de pastores do ministério, desconfiados das histórias de evangelização dos indígenas, prepararam um dossiê denunciando a suposta farsa. Demonstrando apreço ao obreiro, Cícero de Lima não aceitou as acusações, causando uma crise no ministério.

Porém, não seria o objetivo do dossiê, mais do que o desejo de transparência, a obstrução do nome de Eliseu à sucessão ministerial? Intenções à parte, o plano não deu certo. Todos os pastores envolvidos na preparação do documento foram transferidos para o interior. José Wellington, na época não era obreiro sustentado pela igreja, mas ficou sem atividades durante um ano no ministério.

Pressões e hostilidades foram contantes contra Eliseu de Alencar. Havia, conforme os mais antigos membros, uma bem articulada rede de difamações contra ele. Talvez por isso, sentindo-se impossibilitado para se efetivar como sucessor de Cícero, ele aceita voltar a Campo Grande (MS) em 1970, deixando o caminho livre para outros pretendentes. Em 1972, rompeu com o Belém. Fato que causou um profundo desgosto e decepção no antigo protetor.

O ministério tinha mais alguns candidatos. Pastores mais antigos como Odilon Issa Karam, Manoel Bezerra e Antonieto Grangeiro Sobrinho, poderiam estar no páreo. Grangeiro inclusive, havia exercido à presidência da Junta Executiva da CGADB na década de 1960. Contudo, os "cardeais" do Belém apoiaram José Wellington na hora decisiva.

Também eram potenciais candidatos os dois últimos vices de Cícero: João Alves Corrêa e João Pereira de Andrade Silva. Corrêa estava em Santos desde 1962, mas distante da capital foi atropelado pelos acontecimentos. João Pereira em 1973, convencido por seus pares, ou por problemas internos, trocou à vice-presidência do Belém pela direção da CPAD no Rio de Janeiro. Era um a menos na disputa...

Com tudo isso, abriu-se o caminho para o então secretário da igreja, o pastor José Wellington Bezerra da Costa. Alçado em 1973 a condição de vice, Wellington sabia muito bem que o poder se conquista. Experiente e bem sucedido comerciante, o cearense precisaria de muita paciência, ousadia e jogo de cintura para chegar ao topo.

Por fim, muitos estavam de olho nos derradeiros anos do "timoneiro". Queriam herdar o leme da grande embarcação chamada Ministério do Belém. Os próximos lances da sucessão seriam decisivos. Sairia do controle até do próprio Cícero.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sábado, 22 de abril de 2017

Ministério do Belém – Cícero, o ocaso do timoneiro

José Wellington Bezerra da Costa, o cearense de São Luis do Curu, assumiu em janeiro de 1980, na cidade de São Paulo, o Ministério do Belém, um dos mais importantes das Assembleias de Deus no Brasil. Seu antecessor, foi nada mais nada menos que o veterano e o respeitado pastor Cícero Canuto de Lima.

A história oficial passa longe dos detalhes da conturbada sucessão. Mas há indícios nas publicações da CPAD, através do Mensageiro da Paz e das biografias autorizadas, que o pastor Cícero em sua derradeira década à frente do ministério, sofreu um grande processo de desgaste em sua liderança. Soma-se a isso, o intenso clima de disputas internas pelo cargo do pioneiro.

Signatário da convocação para a primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) em 1930, o nordestino Cícero pastoreou por 15 anos da AD em João Pessoa (PB). O desejo de trabalhar no sul do país surgiu em 1937. Em entrevista ao Mensageiro da Paz em 1974, declarou: "puseram muitos obstáculos" para impedir sua vinda a São Paulo. Mas persistiu e convidado por Samuel Nyström, o pastor paraibano ganhou a oportunidade de cooperar na AD em São Cristóvão no Rio de Janeiro de 1939 à 1946.

Cícero: o "timoneiro"

Sobre a transferência do veterano, observou o historiador Maxwell Fajardo no livro Onde a luta se travar, que o "fato de uma liderança de destaque no Nordeste, com quinze anos de pastorado na mesma igreja", e com influência para articular "um grupo de pastores contra os suecos e criar um órgão institucional de nível nacional, ter sido designado para vir ao Sudeste, não para dirigir uma igreja, mas para ser auxiliar" seria uma evidência das questões ainda não totalmente superadas entre os obreiros nacionais e os suecos. 

Mas, em 1946, o sonho de tornar-se pastor na pauliceia se realizou. E como temiam os suecos, Cícero à frente da igreja na dinâmica metrópole sul-americana, consolidou sua liderança e estilo conservador dentro das ADs. 

Paulo Macalão, do Ministério de Madureira (RJ), passou ao imaginário dos assembleianos como ícone do conservadorismo. Porém, foi na direção do nobre potiguar, que o Ministério do Belém proibiu e ameaçou de exclusão os membros com televisão em suas casas; não permitiu congressos de jovens e se opôs ferozmente aos institutos bíblicos, a tal "fábrica de pastores". Alguns até falam, mas não é informação comprovada, que Cícero em tempos remotos, seria até contra o uso das lições de escola dominical na igreja.

Contudo, na sua última década de pastoreio, o "timoneiro" – assim foi chamado em uma celebração de aniversário – acumulou desavenças com a CGADB. Por conta de uma antiga ligação com a AD em Aribiri, Vila Velha (ES) e com o intuito de ajudar a igreja em dificuldade, filiou o campo do ministério capixaba ao Belém.

A suposta ajuda, ao que tudo indica, aprofundou à crise. A Junta Executiva da Convenção Geral, em meados de 1976, através do Mensageiro da Paz, divulgou o acordo entre a igreja em Aribiri e a convenção estadual. No documento, entre algumas determinações do acordo, está a declaração que ambas as partes "não aceitarão a interferência de outros Ministérios Estaduais" – referência indireta ao Belém.

No livro História da CGADB, destaca-se graves reclamações internas na convenção de 1975. Segundo os membros da Junta Executiva, havia deliberado desrespeito às decisões da instituição por um "vulto", o qual, "passava por cima da autoridade da Junta como se um trator fosse". Há desconfianças, que o tal "vulto" seja o pastor Cícero.

Em 1979, novamente Cícero vê seu prestígio em decadência. Na CGADB realizada em Porto Alegre (RS), o líder do Belém quis continuar na presidência do Conselho Administrativo da CPAD. Os membros do conselho manobraram para não permitir os intentos do ancião. Na mesma convenção, em gesto de desagravo aos assuntos tratados, o veterano se retirou do plenário levando consigo muitos obreiros de São Paulo.

Assim, ao entregar (ou ser deposto) à liderança do ministério, o ancião já não possuía mais àquele prestígio de outras décadas. Não fez seu sucessor e posteriormente em entrevista à Folha de São Paulo em 1982, reclamou do esquecimento e dos rumos do ministério que conduziu com mão forte.

O "timoneiro", talvez não tenha notado com clareza, mas na década de 1970, internamente no Belém  já se pensava na sua tão aguardada sucessão. Histórias para a próxima postagem.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. 

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz, 30 de junho de 1973. nº 12, ano 43, CPAD: Rio de Janeiro.

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/09/sucessao-na-ad-do-belenzinho-golpe-ou.html

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/09/cicero-canuto-de-lima-herdeiro-da.html

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2013/03/ad-ministerio-do-belenzinho-proibicao.html

terça-feira, 18 de abril de 2017

Onde a luta se travar - o livro

* Por Gedeon Freire Alencar

Maxwell Fajardo, um intelectual orgânico e ministro assembleiano, se insere na pesquisa como um exemplar tipo de pesquisador da Rede Latina de Estudos do Pentecostalismo – RELEP. Uma rede articulada nos dos anos 90, com pesquisadores do México, Chile, Peru e Brasil que tem uma especificidade: um grupo de pesquisa sobre o pentecostalismo formada por pesquisadores pentecostais. 

Não tem a pretensão de reserva de mercado, a RELEP apenas indica: nós também temos algo a dizer sobre nós mesmos. Os estudos pós-coloniais nos legitimam. Sim, os subalternos tem voz. Segundo alguns, não deveriam, mas tem. E falam. E o fazem muito bem, como o Fajardo, em sua tese de doutorado em historia na UNESP.


Os colonizadores acadêmicos talvez não consigam entender – por ignorância ou má fé, ou pela conjugação das duas - que os índios pentecostais, talvez, não se sintam perfeitamente alcançados com as descrições realizadas. Algumas assumidamente preconceituosas, outras dissimuladamente piegas ou passionalmente incompletas. Há alguma dissonância entre os registros e a realidade; ha alguns aspectos que pesquisadores exógenos não percebem. Ou percebem distintamente dos nativos. Por que, então, somente há legitimidade da analise externa?

A pesquisa sobre o pentecostalismo, ou particularmente sobre as Assembleias de Deus no Brasil, começou sendo feita por intelectuais católicos e, posteriormente, por intelectuais das igrejas tradicionais. Não passa pela cabeça de alguns que também intelectuais pentecostais possam também fazer pesquisa? Acrescentar algo? Pode, mas precisa? Aqueles outros já não deram conta do recado?

Em um evento acadêmico, vez certa, ao terminar uma pessoa me disse: “Gostei, mas você é pentecostal, portanto tenho reservas com sua analise”. Ao que respondi: “Analise minhas ideias, não minha pessoa.  Por ser pentecostal não posso falar do pentecostalismo? Então, avise para os marxistas que eles não podem falar do marxismo, católicos do catolicismo, mulheres do feminismo. Aliás, humanos não podem falar de temas humanos. Por que um pentecostal é suspeito a priori? ” Impossível não lembrar do já clássico texto da cientista social indiana, Gayatri C. Spivak, “Pode o subalterno falar? ”.

Como alguns são mais iguais que outros, algumas subalternidades têm legitimidade a priori, outras, porém, suspeição. Por que a subalternidade pppp (pobre, preto, periférico e, majoritariamente, pentecostal) não pode. Ou não deve. O subalterno pppp é, de início, suspeitoso, pois, não é que ele não possa falar, ele não tem o que falar. Já falaram por ele...  

A ciência moderna tem como característica inerente a necessidade de avanço e essa superação pode e deve incluir novos atores, novos modelos. Novas controvérsias e polemicas. Como diz uma frase da moda: “A casa grande pira quando a senzala aprende a ler. ” Pois então, o pppp sempre foi apenas lido, de fora, de longe, com exotismo, mas agora ele também ler. Mais grave ele também ler a si mesmo;  tem uma leitura própria da sua realidade. E a coloca no páreo.  Afinal, o espelhinho/método do colonizador acadêmico tinha que ter alguma serventia. 

“Onde a luta se travar”: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) ” é a história de uma identidade militante com embates internos e externos. (Por puro corporativismo não vou falar das lutas internas; não vou dá oxigênio ao inimigo. Passionalidade não existe somente no outro lado. E o faço propositalmente no momento em que o crítico). Essa militância apaixonada é tipificada a partir de uma frase de um hino clássico assembleiano como chave hermenêutica da historiografia construída pelo Fajardo. Original.  

Quem conhece as entranhas desse pentecostalismo estigmatizado desde suas origens como um movimento incomodo e suspeitoso, pois, formado por pobres, pretos, analfabetos, periféricos sabe o quanto a identidade interna do grupo foi formada pela musicalidade inspiradora do cantar apaixonadamente a plenos pulmões: “Eu quero estar com Cristo, onde a luta se travar! ”. 

A luta inicialmente era contra a marginalidade do grupo, a indiferença das demais igrejas, o estranhamento do modelo eufórico, a suspeição da tradição reformada e do racismo do qual o movimento pentecostal foi vítima. A luta era a favor da informalidade litúrgica, da leitura bíblica mais experiencial que teórica, da espiritualidade empírica, da liberdade de expressão dos pobres inclusive com glossolalia, da oportunidade ministerial aos negros, da transgressora liderança feminina. 

Os tempos mudam, mas as lutas continuam. A luta da subalternidade pentecostal pode, inclusive na atualidade, ser travada em outros lugares. Na academia, por exemplo.  E meu amigo Maxwell Fajardo, indica a mim e toda uma nova geração de pesquisadores pentecostais, o caminho a ser percorrido.
  
Doutor em Ciências da Religião pela PUC/SP, Mestre em Ciências da Religião pela UMESP, Graduado em Filosofia e membro da Igreja Betesta de São Paulo/SP.

Pedidos para Maxwell Fajardo no e-mail max.fajardo@yahoo.com.br

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Assembleias de Deus - feudalismo e nobreza

Em 1994, o sociólogo Paul Freston escreveu que as Assembleias de Deus possuía um sistema de governo "oligárquico e caudilhesco". Observou à concentração de poder na "complexa teia de redes compostas de igrejas-mães e igrejas e congregações dependentes". Seria, segundo ele, um "sistema de feudos", cujo propósito era conservar o poder e a expansão do ministérios.

Há evidentemente, outras tentativas e formas de explicar as ADs. Mas a comparação com o sistema de feudos, talvez seja uma das mais adequadas. As ADs atualmente, em suas práticas litúrgicas e honras ministeriais, em nada fica a dever à antiga forma de governo medieval.

Somente para relembrar: o feudalismo surgiu em parte da Europa (séculos V ao X), onde o poder se baseava na posse da terra também chamada de feudo. A sociedade era estamental, ou seja, cada classe social era fixa em suas atribuições e deveres. No entendimento da época, a nobreza, e tão somente ela, podia governar. O clero detinha o saber e a mediação diante de Deus. O povo (todo àquele que não era nobre ou não fazia parte do clero) possuía a obrigação de trabalhar e pagar impostos, pois viviam nas terras da nobreza. 

Antigos líderes das ADs: feudalismo eclesiástico

O poder era fragmentado, e a nobreza juntamente com o clero vivia em privilégios. Para conservar o poder, os nobres casavam-se entre si formando dinastias que se perpetuavam nos tronos. O povo, sem terras, tinha por obrigação acatar às ordens dos superiores dos que eram considerados "donos" do poder por direito divino.

Bem, não precisa ser expert para fazer as analogias. O pastor-presidente, hoje é um senhor feudal, mas com forte concentração de poder. A ascensão ministerial dos demais obreiros passa por seu crivo. É ele quem reconhece vocações ou relega ministros ao esquecimento. Isso explica tantas bajulações e honrarias, pois agradar o "anjo" da igreja é fundamental para viabilizar projetos e carreiras eclesiásticas.

É dentro desse contexto, que os aniversários de muitos pastores (ou das esposas), tornou-se um verdadeiro retrato da submissão feudal. No natalício dos líderes, os responsáveis pelos setores ou distritos devem recolher uma oferta com valores pré-determinados e entrega-lá ao seu presidente em sinal de gratidão e honra. São quantias expressivas, um tipo de tributação deixada aos pés do monarca.

Há ainda outra situação. Douglas Fidalgo registra em sua dissertação de mestrado "De Pai pra Filhos”, o pagamento de "pedágios" dentro de Madureira para que determinados obreiros possam assumir um campo de trabalho "lembrando práticas da vassalagem feudal". Mas seria só o Ministério dos Ferreiras a permitir tal prática?

Porém, a situação que mais lembra o feudalismo é a integração de famílias pastorais. Na época dos nobres, os casamentos arranjados era uma forma de preservar a herança ou a concentração de terras nas mãos de poucos. Atualmente, além do forte nepotismo, verifica-se o mesmo fenômeno dentro das ADs.

Pode-se argumentar que, sociologicamente, as relações matrimoniais são determinadas pela classe social na qual o sujeito está inserido. Contudo, o contexto de privilégios em que vivem muitos obreiros, faz com que tais práticas pareçam a consolidação de castas sacerdotais predestinadas ao poder. Um grupo seleto, intocável e sempre, mas sempre com alguma igreja para se servir.

Por conta dessa situação, há uma ironia que corre em São Paulo com um clã entronizado em uma AD. O patriarca é líder inconteste do ministério. O filho preside uma grande igreja na capital e o neto por sua vez lidera uma importante congregação na região. Ao saberem que o neto será pai, os irmãos já se perguntam qual campo estará reservado para a criança vindoura. Provavelmente não faltará jurisdição eclesiástica para o pequeno príncipe.

E o povo? Aos humildes é dada a tarefa de trabalhar nos departamentos e contribuir com suas ofertas e dízimos sem nada questionar. Pois essa é a vontade divina...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

FIDALGO, Douglas Alves. "De Pai pra Filhos”: poder, prestígio e dominação da figura do Pastor-presidente nas relações de sucessão dentro da “Assembleia de Deus Ministério de Madureira”. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Orientador: Prof. Dr. Dario Paulo Barrera Rivera.

http://mariosergiohistoria.blogspot.com.br/2016/12/aniversario-de-pastor-criticas-de-joao.html