terça-feira, 3 de novembro de 2020

O Destino Manifesto de Madureira

"O Espírito Santo manifestou a sua aprovações aquele acontecimento, falando, por profecia, encorajando, incentivando ao trabalho pela causa de Cristo; uma mensagem por profecia, ordenou a igreja nessa tarde, que alargasse a sua tenda, pois prosperaria..." (Emílio Conde)

No dia 13 de fevereiro de 1938, num domingo à tarde, 67 crentes em Cristo desceram às águas batismais na Assembleia de Deus em Madureira, no Rio de Janeiro. Na condução dos trabalhos estava o Pastor Paulo Leivas Macalão. Nesse tempo, a congregação do bairro da Zona Norte do antigo Distrito Federal já era a maior das igrejas abertas por Macalão nos subúrbios do Rio.

Convidado para as celebrações vespertinas e atento a tudo o que acontecia, estava o jornalista Emílio Conde. Posteriormente, as considerações do escritor seriam publicadas na seção "Na Seara do Senhor", espaço privilegiado do Mensageiro da Paz para informar o progresso das ADs em todo o Brasil.

Naquela tarde, Conde encantou-se com o entusiasmo da "multidão de salvos" louvando a Deus e observou que, apesar da elevada temperatura daquele verão carioca, a intensidade do calor espiritual a tudo se sobrepunha. O povo, segundo o apóstolo da imprensa pentecostal, não se cansava de louvar e de se alimentar da Palavra de Deus. 

Em meio a tantas manifestações fervorosas de louvor, uma profecia se ouviu no recinto: Deus através do Seu Espírito aprovava aquela obra e ordenava "que alargasse a sua tenda, pois prosperaria". Talvez sem saber, Conde testemunhava a mensagem profética que confirmava o "Destino Manifesto" da AD em Madureira. 

Convenção Nacional de Madureira em 1960

O conceito de "Destino Manifesto" surgiu nos Estados Unidos da América, no século XIX. Era uma crença comum entre os norte-americanos, que deveriam se expandir pela América do Norte e colonizá-la. E isso se daria com a aprovação e bênção divina.

Obviamente, o "Destino Manifesto" foi contestado por muitos e justificou, infelizmente, a discriminação e massacre dos nativos no continente. Na política internacional, essa crença de superioridade ainda é sentida no olhar que a diplomacia norte-americana tem sobre os outros povos. 

Porém, a profecia, não somente prediz o futuro; ela capta o espírito de uma época. Quando a mensagem profética em Madureira foi ouvida, o ministério, além de estar presente nos subúrbios do antigo Distrito Federal, já havia se ramificado pelo território fluminense, mineiro, goiano e, ainda naquele ano, chegaria à cidade de São Paulo.

Contudo, o "Destino Manifesto" de Madureira seria interpretado por outros Ministérios como "invasão de campo". Criou-se, com o tempo, o conceito de "jurisdição eclesiástica" para delimitar a área de atuação e concorrência das ramificações assembleianas. 

Na autobiografia de Manoel Ferreira, o Bispo Primaz de Madureira destacou a essência evangelística do Ministério de Madureira e que a CGADB, "com seu pesado jogo burocrático", impunha regras às ações evangelísticas. Para Ferreira, o conceito de "jurisdição eclesiástica" era algo sem sentido numa nação carente de evangelização e igrejas nos seus mais distantes rincões. 

Assim, ao final da década de 1980, quando autorizou a abertura de novos trabalhos do Ministério em todo Brasil, Ferreira estava, de certa maneira, cumprindo a profecia de 1938. "Alargar as tendas" era, e sempre foi, uma ordenança divina para Madureira e seus líderes.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938, ano VIII, nº 05, Rio de Janeiro.

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