quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um espectro ronda o Brasil

Um espectro ronda a Europa – o espectro do comunismo". Essa famosa frase do Manifesto Comunista escrito em 1848 por Marx e Engels, bem que poderia ser reescrito assim: "Um espectro ronda o Brasil  - o espectro do comunismo".

Antes, durante e depois das eleições presidenciais de 2014, principalmente nas redes sociais e em alguns blogs, a nação brasileira mais uma vez viu surgir esse velho fantasma. Conforme conhecido e apologista assembleiano, o país caminha para abraçar uma "ideologia gramscista, estalinista, hipermarxista, despótica, retrógrada, maquiavélica, antiamericanista, antissemita, anticristã e antidemocrática". Ou seja, rumamos para o caos socialista.

Medo do comunismo ressuscitado a cada eleição

Historicamente o discurso não é novo. No Brasil do século XX, essa falácia sempre foi um recurso das elites, quer o perigo da "invasão" comunista existisse ou não, para assegurar o status quo. Getúlio Vargas utilizou esse medo para dar o golpe do Estado Novo, onde implantou um regime fascista, de culto à personalidade e repressor. Em 1964, outro golpe foi desencadeado para "salvar" o país das mãos dos comunistas. Era o período da Guerra Fria, e novamente as nossa elites, juntamente com os militares, e com apoio dos EUA rasgaram a constituição e mergulharam o país em 20 anos de ditadura.

E os evangélicos? Os evangélicos, assim com boa parte da sociedade conservadora apoiou o golpe. Segundo Robson Cavalcanti, os evangélicos tornaram-se "sustentáculo" do regime. Da parte de algumas igrejas e lideranças houve até colaboração a repressão instalada nesses "anos de chumbo".

As Assembleias de Deus, representada na sua liderança não fugiu a regra, até porque os militares procuraram de muitas formas aliciar membros e pastores para se fortalecer. Nas páginas do Mensageiro da Paz encontra-se referencias elogiosas as autoridades que fizeram a "revolução" e salvaram o país do comunismo ateu.

Com a redemocratização ocorrida a partir da década de 1980, o velho fantasma do comunismo foi muito bem explorado. Nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte em 1986, nas eleições presidenciais em 1989 e, em momentos cruciais da vida política brasileira, os evangélicos foram e continuam sendo colocados diante desse falso dilema.

Aliás, um dos grandes problemas atuais é a simplificação de termos como "socialismo", "bolivariano" entre outros, e achar que o sistema capitalista é o melhor dos mundos. A sociedade, a economia e a política são muito mais complexas para se reduzir a certas simplificações, que são amplamente difundidas por setores da mídia conservadora.

O discurso do perigo comunista no Brasil é anacrônico, e fora de contexto. É desconhecer a pluralidade dos conceitos político-econômicos e da sociedade brasileira. Discordar das ações políticas de um governo é algo legítimo. A democracia se constrói no embate das ideias. Entretanto o nível dos debates nas redes sociais só mostra a grande despolitização dos nossos blogueiros de plantão.

Como diz certo colunista de um jornal, um bom livro de história ajuda muito nesses casos...

Fontes:

CAVALCANTI, Robison. Cristianismo e política. Niteroi: Editora Vinde, 1988.

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O crepúsculo de um ministério

Pastor José Pimentel de Carvalho, foi uma forte liderança que se consolidou nas Assembleias de Deus no Brasil. Nascido em 1916 em Santa Tereza, na cidade de Valença (RJ) em 1916, Pimentel iniciou seu ministério ainda muito cedo, e no ano de 1945 em uma Escola Bíblica de Obreiros na AD em São Cristóvão (RJ) foi separado ao pastorado. Teve o privilégio de conviver com os missionários suecos, os quais lideraram a igreja no Rio de Janeiro.

Pastoreou igrejas na cidade do Rio de Janeiro, e foi auxiliar do missionário Nels Nelson em São Cristóvão, tempo esse em que viu o processo de fragmentação dos ministérios assembleianos. Talvez por isso na gestão do pastor Alcebiades Vasconcelos foi contrário ao plano de emancipação das congregações maiores. Por pouco não se tornou o pastor-presidente da AD em São Cristóvão, mas uma reviravolta na assembleia geral da igreja impediu esse feito.

Pastor José Pimentel de Carvalho
Na biografia do pastor Vasconcelos, pode-se perceber que pastor Pimentel de Carvalho era uma liderança forte junto aos presbíteros da igreja, e como o presbitério era - segundo o próprio Alcebiades - "todo-poderoso", talvez por isso tenha sido providencial para a liderança do Rio sua mudança para a igreja de Curitiba em 1962.

Assumiu o pastorado da AD em Curitiba em um momento delicado, com uma igreja dividida e em crise. Sempre repetia que assumiu a igreja contra sua vontade, mas ali estabeleceu sua liderança. Foram quase 49 anos de pastorado, no qual o ministério da AD curitibana se estendeu por toda região metropolitana da capital paranaense. Em 2002, a igreja tinha aproximadamente 80 mil membros, 100 mil congregados e mais de 540 congregações na região da grande Curitiba.

Entretanto é bom lembrar que, pastor Pimentel durante todos esses anos de liderança não emancipou nenhum campo eclesiástico e concentrou muito poder em suas mãos. Toda essa representação seria importante para destacá-lo entre líderes de outros importantes ministérios e presidir a CGADB em seis oportunidades.

Líder conciliador, bem humorado, segundo Gedeon Alencar, o pastor de Curitiba representava um nome símbolo da modernidade na denominação. O moderno templo sede da AD em Curitiba, construído em sua gestão, seria um marco dessa postura. Tornou-se conhecido nas Convenções Gerais por trabalhar sempre pela unidade das ADs.

Com o passar do tempo, e o avanço da idade, o veterano pastor começou a abrir mão de tanto poder. Um tanto pessimista, via a AD em franco processo de fragmentação, o qual ele classificava como "irreversível". No ano de 2005, Pimentel resolveu por pressões internas, emancipar 20 campos eclesiásticos, que faziam parte da região de Curitiba. Sentia que seu fim estava próximo, e seu sucessor não teria mais a mesma representação que ele.

Não querendo talvez ter o dissabor de ver uma acirrada disputa pelo seu posto ainda em vida, o longevo obreiro permaneceu no cargo até sua morte em 2011 sem, contudo apontar claramente quem o sucederia, gerando com isso uma forte disputa entre seus obreiros. Dias depois do seu sepultamento, se iniciou um processo polêmico de sucessão com interpretações ambíguas do estatuto, que culminou com a eleição do pastor vice-presidente Wagner Gaby.

Eleição essa muito contestada em sua legitimidade, pois de 33 mil membros aptos a votar, pastor Gaby recebeu 3.814 votos, ou seja, pouco mais de 10% do eleitorado total. Pastor Wagner não era o candidato da convenção paranaense, a qual apoio seu opositor mais forte, o pastor Mirislan Douglas Scheffel (3.026 votos).

Uma ironia. Pastor Pimentel, certa vez denominado o "arquiteto da unidade" das ADs no Brasil, não conseguiu em vida encaminhar uma sucessão tranquila e, depois de sua morte, seus herdeiros não conseguiram chegar a um consenso. Do processo eleitoral restou desconfianças, mágoas e muita indignação.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


O ASSEMBLEIANO. Joinville ano II nº6 dez 87/jan.88 


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1999.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Pastor Epaminondas e as "doutrinas ferozes"

No início década de 1990, um pastor causou assombro no sul do país. Seus ensinamentos foram considerados esdrúxulos para a Assembleia de Deus, a qual passava por um período de transição com muitos questionamentos sobre os chamados "usos e costumes" de santidade.

Na Assembleia de Deus em Guaratuba, litoral norte do Paraná, o pastor Epaminondas José das Neves, 72 anos, colocava em prática ensinamentos considerados absurdos para a época: a autoexclusão. 

Entrevistado por Judson Canto, editor do jornal catarinense O ASSEMBLEIANO, o líder paranaense especificou sua prática ministerial, onde o membro da igreja não seria mais excluído pelo ministério, mas, ao contrário disso, ele mesmo tomaria tal atitude diante do reconhecimento do seu pecado. Para o veterano pastor, isso evitaria exposição e constrangimentos públicos para os que estavam em erro diante da igreja.

O caso fica ainda mais curioso se considerarmos que o simpático ancião era o mais legítimo representante da "velha guarda" de obreiros assembleianos. Baiano de Caculé, Epaminondas com 21 anos de idade foi residir no Paraná. Convertido ao evangelho, foi separado ao ministério, segundo ele, por "carência", pois não "tinha qualquer cultura e nunca cursei um dia de escola", porém era adepto de "doutrinas ferozes".

Epaminondas: ex-seguidor de "doutrinas ferozes"

O veterano líder deu exemplos das "doutrinas ferozes": a obrigação das mulheres usarem vestimentas com "as mangas dos vestidos fechadas até o punho, e as saias bem abaixo dos joelhos". Os cabelos das irmãs também mereceram atenção do cuidadoso obreiro, sendo que só poderiam "ser trançados, mas sem qualquer enfeite". Sapatos "só de salto baixo, e não podiam usar cinto". Os homens somente poderiam ir ao culto de terno e gravata. E caso o crente inventasse de tomar um simples guaraná ou refrigerante seria excluído sem piedade.

Irônico é o momento da entrevista, na qual Epaminondas relata que certa vez encontrou os pastores catarinenses Satyro Loureiro, Artur Montanha e João Ungur no município de Ibiporã (PR), e ficou escandalizado com eles porque estavam tomando refrigerante num bar. "Esses catarinas não são crentes, não têm doutrina" - pensou ele na ocasião.

Um belo dia porém, Epaminondas andava pelas ruas da cidade de Maringá "quando, de repente, uma espécie de relâmpago" foi ao seu coração. Segundo ele: "Deus num momento me revelou que eu deveria deixar tudo aquilo". Ao expor a sua nova visão a outro pastor, revelou que daquele momento em diante a igreja teria "paz e sossego".

Dessa forma, o saudoso pastor resolveu ser mais "liberal" no seu tratamento com as ovelhas. Abandonou as "doutrinas ferozes" adotando o ensino da autoexclusão. Como não poderia deixar de ser, num ambiente de amplo legalismo, suas ações foram alvo de fortes críticas na denominação. 

Contudo, Epaminondas tinha bons resultados. Quando chegou a Guaratuba a igreja estava em franca decadência com pouquíssimos membros, e na sua gestão o trabalho prosperou com novos templos construídos e aumento considerável do número de membros e batismos.

As memórias do pastor Epaminondas José das Neves servem como boa reflexão sobre questões não muitas vezes relembradas pelos saudosistas e nostálgicos dos velhos tempos da igreja. Casos de transgressões dos estatutos e da "doutrina" denominacional eram abertamente tratados na congregação. Por questões mínimas, um crente poderia ser disciplinado ou excluído, ao sabor do gosto ou desgosto pastoral. Muitos crentes tinham que conviver com um ambiente de rigoroso legalismo e fiscalização da vida alheia.

O conceito de autoridade também é colocado em questão na entrevista. O antigo líder relembrou que era respeitado porque excluía com rigor e "por ser autoritário". Muitas vezes o autoritarismo era tanto, que alguns pastores excluíam um membro na rua mesmo, sem precisar qualquer tipo de mediação. Como a "doutrina", muitos líderes eram "ferozes" com seus rebanhos. 

Mas eram outros tempos, e dentro do contexto social a igreja reproduzia as relações vigentes na sociedade, onde o conceito de líder era o de alguém implacável e ditador. Hoje muitos líderes mudaram sua postura. Os casos de transgressão são tratados com muito mais humanidade e recato, até porque os riscos de processos são grandes. 

Entretanto, autoritarismo ainda permeia os valores do ministério assembleiano. A igreja modernizou-se, mas certas estruturas e a mentalidades ainda não.

Fontes:

O Assembleiano outubro/novembro de 1991. Ano II nº9, p.9.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Perfil - Jacó Rodrigues Santiago

Na Assembleia de Deus em Ipatinga - Leste de Minas Gerais - congrega um talentoso presbítero, descrito por um conhecido blogueiro da região como uma "pessoa inteligente, curiosa, dinâmica, preparada, competente", sua presença, suas ideias e sugestões são sempre bem-vindas nas atividades especiais da igreja.

Apesar de ser citado de forma tão gentil, Jacó Rodrigues Santiago é um homem simples e recatado, e nem parece ser (para usar as palavras do blogueiro amigo) um "arquivo". Porém, o mineiro do Distrito de Cachoeira Escura, município de Belo Oriente possui um conhecimento invulgar sobre a história das Assembleias de Deus; resultado de anos de convivência, leituras e pesquisas sobre a denominação no Brasil.

Nascido em lar assembleiano no dia 27 de abril de 1959, o primogênito de Josias e Ana Santiago teve seu nome foi escolhido pela avó paterna que, ao abrir a Bíblia se deparou com o nome da antigo patriarca hebreu - Jacó. Nesse tempo, Josias passou a cooperar na obra de Deus como evangelista autorizado pelo líder do Campo de Coronel Fabriciano, pastor José Alves Pimentel. 


Jacó e família: apaixonado pela história das ADs
Morando na cidade de Governador Valadares, Jacó lembra que em sua infância seu "pai tinha uma barraquinha de bijuterias no Mercado Municipal". A família frequentava os cultos no templo-sede da Assembléia de Deus, onde Jacó se destacava como cantor mirim. A igreja era pastoreada pelo pioneiro pastor Ormídio Siqueira das Neves. 

Mas, a vida de um obreiro não era assim fácil naqueles tempos. Enquanto o menino Santiago crescia, ele e seus irmãos acompanhavam o pai em suas andanças de evangelista. Vale lembrar que naqueles dias, as igrejas, além de serem pobres e de recursos financeiros limitados, eram localizadas em áreas de difícil acesso. Para visitá-las eram necessárias longas caminhadas, ou o uso da bicicleta ou do cavalo.

Entre 1968 a 1971, Josias Santiago e família mudam-se para Belo Horizonte. Os ares da capital mineira foram excelentes para o menino, pois em BH Jacó tomou gosto pela música "aprendi a tocar um acordeon de 48 baixos que meu pai havia comprado" relata ele em suas reminiscências. Ao voltar para a cidade de Coronel Fabriciano, o então adolescente passa a conviver com dois obreiros que lhe marcaram profundamente a existência: pastor Antônio Rosa e José Alves Pimentel.

Foi justamente o pastor Rosa, que lhe convidou em 1974 para trabalhar alguns meses como secretário da AD em Ipatinga. Nesse curto espaço de tempo formou muitas e duradouras amizades. Enquanto seu pai trabalhava como obreiro, Jacó cuidou de seguir sua vida profissional. Com 17 anos incompletos ingressou na Usiminas onde ficou por 25 anos até se aposentar. 

Nesse período, o jovem Santiago se casou com a jovem Dalva. Um namoro, noivado e casamento rápido (máximo seis meses), pois Santiago estava longe da casa paterna e precisava constituir família para si. Tornou-se pai de três filhos (Josias Neto, Júnia e Débora), comprou casa e carro, mas nunca deixou de cooperar na igreja, principalmente na área musical.

Fascinado pela história, Jacó Santiago sempre foi leitor voraz das principais revistas editadas pela CPAD e do jornal Mensageiro da Paz. No ano de 1998, lançou com apoio do Ministério local a primeira edição do livro histórico Assembleias de Deus do Vale do Aço, ocasião em que a igreja na região comemorava o seu Jubileu de Ouro. Em maio de 2002, mais um livro: Entre Rosas e Espinhos: uma biografia do Pastor Antônio Rosa da Silva.

Com o advento da internet, Santiago criou um blog com textos variados sobre a história da igreja e de seus líderes. As redes sociais são também outro grande instrumento para a divulgação das memórias assembleianas. Sua fan-page Assembleia de Deus no Brasil e no Mundo (33 mil curtidas) trás fotos pacientemente "caçadas", as quais ele organiza em álbuns e compartilha com todos os internautas. Uma das curiosidades dessa página são as imagens dos templos assembleianos espalhados pelo Brasil. Um olhar atento a essas fotos revelará a diversidade e heterogeneidade das ADs representada em suas construções.

Jacó como bom estudioso da história das ADs, procura estar atento aos acontecimentos recentes que envolvem a denominação no país. As constantes fragmentações, escândalos e lutas internas são observados por ele com preocupação e temor. Conheceu pessoalmente muitos dos pioneiros, e lamenta que o legado dos patriarcas seja desperdiçado por novas gerações de obreiros imaturos e inconsequentes.

Seu blog e suas páginas nas redes sociais são de certa forma uma maneira de tentar resgatar antigos valores. Não é extremista, mas entende que servir a Deus, ou ser crente ainda envolve compromissos e dedicação. Dedicação essa que procura praticar sempre na área musical, uma das sua especialidades. Gosta de postar vídeos de corais e orquestras, e assim divulgar a boa música clássica. Enfim, como todo bom mineiro, Santiago trabalha quieto, mas de forma eficiente para a conservação das memórias das Assembleias de Deus.

Fontes:

blogdosilas.com

Jacorodriguessantiago.blogspot.com.br

Entrevista com Jacó Rodrigues Santiago via online.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Manoel Francisco da Silva - um pioneiro em Madureira

* Por André Silva

Manoel Francisco da Silva, nasceu no 14 de abril de 1895, na pequena cidade de Paty do Alferes (RJ), e desde cedo se dedicou inteiramente a Obra do Senhor, pois nascera em lar cristão. Seus pais, Jacinto Neres da Silva e Jovelina Maria da Conceição eram membros da Igreja Irmãos Unidos.

Porém, como todo rapaz do interior sonha com a cidade grande, Manoel veio para o Rio de Janeiro tentar uma vida melhor. Tendo chegado ao ano de 1930, com até então sua pequena família, passou a freqüentar a Igreja Irmãos Unidos, e depois a Igreja Congregacional em Bangu. Até que, ouvindo a poderosa mensagem pentecostal no dia 3 de janeiro de 1932, uniu-se a Assembleia de Deus em Bangu. No dia 20 de fevereiro de 1932, foi Batizado com o Espírito Santo, e no dia 28 de fevereiro do mesmo ano, passou pelo batismo nas águas.

Tornou-se um grande evangelizador, sempre acompanhado de seu trombone de inteira dedicação à Obra de Deus. Paulo Macalão viu em Manoel Francisco um dinâmico obreiro; o consagrando a diácono em 22/07/1934 na Assembleia de Deus em Bangu, na Rua Ribeiro de Andrade, nº 13 (hoje, nº 65).

Pastor Manoel na década de 40: evangelismo com a Bíblia e trombone
Paulo Leivas Macalão, nunca havia separado alguém ao pastorado, e viu no Manoel Francisco as excelentes qualificações. Resolveu o consagrar ao pastorado no dia 10 de maio de 1938. Segundo o Pr. David Cabral, o primeiro pastor consagrado pelo pastor Paulo Macalão. Seu ministério foi marcado pelos lugares que percorria como um autêntico evangelista, evangelizando muitas vezes a pé ou de bicicleta, sem se cansar. Na página 32, do livro de Zélia Brito Macalão, Traços da Vida de Paulo Leivas Macalão – CPAD – (1986); ela chama o Pr. Manoel Francisco de “baluarte de fidelidade” e na página 32 de “grande cooperador”

Pastor jovem e dinâmico que enfrentava sol e chuva para visitar irmãos que residiam em colônias distantes, quando não existia pontes sobre os rios, não existia estradas e nem transportes. As boas novas do Evangelho espalhavam-se pelo interior da antiga capital da República. O progresso de evangelização no interior pelo pastor Paulo Leivas Macalão, centravam os esforços do cooperador inseparável do Manoel Francisco da Silva.

O pastor Manoel Francisco fundou e liderou muitas igrejas, entre as quais as Assembleias de Deus em Marechal Hermes, Campo Grande, Cosmos, Itaguaí, Km 50 (Seropédica), Santa Alexandrina, Santa Cruz, Maria da Graça, e no Brás, em São Paulo. No ano de 1933 o pastor Paulo Leivas Macalão, designou, Manoel Francisco da Silva, que ainda era diácono para a direção da Assembleia de Deus em Santa Cruz (RJ), onde permaneceu até 1939.

O pastor Macalão transferiu a sede de seu ministério para o bairro de Madureira, cuja sede na Rua João Vicente, nº 07, assumiu personalidade jurídica em 21 de outubro de 1941. E a igreja de Bangu ficou na direção com o pastor Manoel Francisco que também acumulou o cargo de vice-presidente da Assembleia de Deus em Madureira (RJ) (*Ata da AD Madureira).

Assumiu a vice-presidência da Assembleia de Deus em Marechal Hemes (RJ) em 29/03/1942. Época em que o pastor Macalão assumia a presidência das igrejas de seu ministério, e os líderes eram denominados de vices-presidentes. Manoel Francisco permanecendo em Marechal Hermes até 1944. Em abril de 1947 retornou a vice-presidência da Assembleia de Deus em Marechal Hermes, aonde permaneceu até 1949, sendo substituído pelo pastor Enoch Alberto da Silva.

Pastor Manoel: década de 70
Participou da 4ª Semana Bíblica de Obreiros das Assembleias de Deus no Brasil, realizada em São Cristóvão (RJ), em 1943, e das discussões na Convenção Geral em São Paulo, 1947 sobre a escolha do local para as instalações da CPAD – Casa Publicadora das Assembleias de Deus.

No ano de 1951, o pastor Manoel Francisco da Silva recebeu das próprias mãos do pastor Macalão a presidência da Assembleia de Deus em Bangu, assumindo o indeclinável compromisso moral e espiritual de apoiar por si e por seu presidente geral, pastor Paulo Leivas Macalão. Posteriormente Manoel Francisco ampliou o templo da Assembleia de Deus em Bangu.

Manoel Francisco também foi um dos pastores colaboradores na fundação da Convenção Nacional dos Ministros Evangélicos da Assembleia de Deus de Madureira e Igrejas Filiadas, que elegeram em 2 de maio de 1958, o pastor Paulo Leivas Macalão a pastor geral do Ministério de Madureira. Hoje conhecida pela sigla CONAMAD.

Em 23 de Junho de 1959 a Assembleia de Deus em Santa Cruz (RJ) deixa de ser congregação da Assembleia de Deus em Bangu, assumindo personalidade jurídica, ficando o novo campo sob a presidência do pastor Manoel Francisco de Bangu, que presidiu até 22 de outubro de 1963. Participou ainda da fundação da Convenção Estadual dos Ministros de Madureira no Rio de Janeiro, em 20/11/1962. Hoje conhecida pela sigla CONEMAD-RJ. Em 27/03/1963, assumiu a presidência da Assembleia de Deus no Brás (SP), na Rua Major Marcelino, nº 331, São Paulo, até 24/01/1964, quando retornou para Bangu.

O pastor Manoel Francisco da Silva, após sofrer um acidente; estando muito debilitado para o exercício das funções eclesiásticas, foi afastado da presidência da igreja, permaneceu até o dia 26 de setembro de 1971. No dia 10 de outubro de 1977, Deus leva para si o seu servo fiel, o pastor Manoel Francisco da Silva, que foi recolhido ao descanso eterno, deixando em Bangu um legado inestimável, o trabalho em favor do Reino de Deus. Manoel Francisco era casado com a irmã Umbelina Ferreira da Silva, com quem dividiu suas alegrias de homem de Deus, pai, avô e bisavô. 

* ANDRÉ SILVA foi ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

Fontes: 

ALCIDES, Pr. Antônio. Memorial Assembleia de Deus em Marechal Hermes – 2004, página 19, 20, Edição do autor.

CABRAL, David. Assembléias de Deus: A Outra Face da História - Editora Betel – 3ª Edição (2002), página 120

CONDE, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil: CPAD, 5ª Edição, 2006, páginas 218, 219

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil: CPAD – 1ª Edição – 2004. 

Estatuto da CONAMAD – Editora Betel (1997)

LUIZ, André. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da Vida de Paulo Leivas Macalão – CPAD – (1986).

Outras fontes: Ficha de Cadastro da Assembleia de Deus em Bangu (RJ) Dados pessoais fornecido pela família Rol de Membros da AD Bangu (1946) Atas da AD Bangu Atas da AD Madureira – Acesso com o consentimento do Pr. Atayde Ataliba (secretário da igreja).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Perfil - Antônio Negreiros

Quem viu aquele simples garoto aos 10 anos de idade, moreno e franzino, aceitar a Jesus juntamente com a sua mãe na congregação da Assembleia de Deus de Monte Castelo, em Teresina - Piauí, no ano de 1973, sequer imaginaria os caminhos que percorreria no ministério e seria um conhecido pastor da igreja.

A Assembleia de Deus entrou na história da família Negreiros quando em 1952, a bisavó de Antônio, dona Maria Luíza Negreiros com o esposo e filhos aceitaram a Cristo em um culto realizado em sua casa. Tempos depois, dona Maria resolveu presentear o neto Francisco (pai de Antônio) com um exemplar da Bíblia quando ele ainda era um adolescente. Anos depois, aquela semente germinaria, pois já adulto e casado, o neto de dona Maria iria levar sua própria família ao evangelho.

Assim, aos 10 anos de idade, o bisneto da anciã começava a dar seus primeiros passos no movimento pentecostal. Iniciou seus trabalhos na igreja como professor da Escola Bíblica Dominical. Depois foi tesoureiro, secretário, regente de conjunto juvenil e líder de mocidade. Eram tempos românticos para o jovem Antônio, tempos de dificuldades, mas de muita fé e devoção.

 Negreiros com o pastor Firmino: admiração pelo veterano obreiro

Na memória do pastor Negreiros ainda há muitas lembranças dos cultos fervorosos, das grandes manifestações espirituais, línguas estranhas, profecias, revelações, curas, expulsão de demônios e revelações. Nas celebrações - recorda ele - irmãos doavam seus instrumentos musicais e utensílios para serviço e uso exclusivo no templo. Costume esse praticamente extinto nas igrejas atualmente.

Com apenas 21 anos, Antônio Negreiros ingressou no seminário teológico da Assembleia de Deus em Belém do Pará. Na verdade seu sonho era ser engenheiro, mas devido às circunstâncias imediatas, optou por ser seminarista. Foi uma rica experiência, pois além do aprendizado com excelentes professores, Negreiros ainda desfrutou da companhia de pioneiros da Assembleia de Deus ainda vivos naquele período.

Formado em teologia em 1987, estagiou como dirigente de uma congregação em Belém. Dois anos depois, em uma convenção regional na cidade de Capanema (PA), o jovem obreiro foi separado para o ministério de evangelista. A data não poderia ser mais simbólica: 18 de junho, dia em que a Assembleia de Deus no Brasil foi fundada.

Tempos depois, graduou-se em pedagogia, e trabalhou durante 18 anos como professor, secretário e diretor da escola teológica em Belém e Teresina. Lidando com alunos, e outros mestres, Negreiros somou mais experiências ministeriais. Na verdade, Antônio se sente um eterno aprendiz das verdades bíblicas.

Das experiências de vida, Negreiros recorda com certo orgulho das suas viagens. A primeira foi ao Recife, em um marcante congresso de jovens no ano de 1983 quando ela ainda era líder de mocidade. Depois, sempre que aparecia uma boa oportunidade, lá estava ele de malas prontas para conhecer outros locais. Com o tempo de ministério, as pregações e os contatos obtidos, Antônio passou a visitar vários estados do Brasil (19 ao todo),e países na África, Europa, Ásia e América.

Todas essas viagens deram-lhe uma boa experiência para pregar e ensinar com uma visão mais crítica das culturas e realidades no qual está inserido. Seus horizontes culturais se expandiram, transformando suas concepções de igreja e sociedade. Porém, para o pastor Negreiros, sempre foi de suma importância compartilhar todas esses conhecimentos com seus irmãos de fé, principalmente aqueles que não tiveram o as oportunidades que ele mesmo teve. Ao pensar nessas ricas oportunidades gosta de recordar o versículo bíblico (Samuel 7.12) "...Até aqui nos ajudou o Senhor".

Durante esse tempo de ministério conviveu com alguns renomados líderes assembleianos, que aprendeu a respeitar e admirar. Paulo Belisário Carvalho, Firmino de Anunciação Gouveia, Raimundo de Oliveira, Samuel Câmara e José da Silva Neto. Do atual pastor em Teresina Nestor Henrique Mesquita, além da admiração, Negreiros ainda lembra o culto, no qual pastor Mesquita foi enviado como missionário para a Espanha em 1973.

De todas as reminiscências da vida e ministério, pastor Negreiros gosta de recordar de "como os irmãos se empenhavam em ganhar e discipular uma pessoa". Em suas lembranças, essa atitude era tão forte na vida dos crentes, que a mulher que ganhou sua mãe para Jesus, vivia no encalço da sua família para levá-los para os cultos na igreja. Valeu o esforço, pois da família saiu um pastor. Santa persistência...

Fonte:

Entrevista com o pastor Antônio Negreiros via e-mail.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

CGADB de 1987 - a eleição

Descrita como "monumental" e "a maior de todas" por um dos seus participantes, a CGADB de 1987 entrou para a história das Assembleias de Deus, infelizmente, como a manifestação de um monumental conflito entre os Ministérios da Missão e Madureira.

No dia 20 de janeiro no Centro de Eventos em Salvador (BA) ocorreu a eleição da nova Mesa Diretora da CGADB. Antes mesmo da votação, alguns líderes já manifestavam que as tentativas de novamente se chegar a um acordo não seriam possíveis. Havia um exacerbado clima de rivalidade, e o discurso de união já estava sendo abandonado para frases cuidadosamente construídas, as quais, lidas dentro do contexto histórico apontava para as incontornáveis dissenções assembleianas. 

Pouco antes da votação, o pastor Luiz Bezerra da Costa, falou em "não ter favoritismo, mas esperava que a unidade permanecesse intacta". O irmão de José Wellington, como bom político, adotava o discurso da neutralidade. Mas era evidente em suas palavras a fragilidade da suposta "unidade" assembleiana.

O abraço de Ferreira em Alcebiades: gesto longe da realidade 

O líder do Ministério do Belenzinho José Wellington disse na ocasião ser favorável a uma chapa de união. Para ele sendo a igreja única, não deveria haver um "grupo vencedor ou perdedor", mas "como igreja, nós devemos estar sempre juntos, combinar e juntos escolher os irmãos que irão compor a Mesa." Porém, naquele momento, o futuro presidente da CGADB  não observava "ambiente favorável a uma chapa do consenso".

Infelizmente, por interesses diversos, um grupo teria que sair derrotado. E esse grupo, seria o Ministério fundado por Paulo Leivas Macalão. O próprio pastor José Wellington estava nas articulações para derrotar Madureira. E de fato foi uma vitória esmagadora para a Missão. O Mensageiro da Paz informava a inscrição de três mil obreiros, e Alcebiades venceu a disputa com 2.140 votos.

Após a proclamação do resultado, pastor Alcebiades declarou: "O meu sentimento é favorável a que desapareça todo e qualquer sentimento de divisão e haja paz em nossa igreja...porque unida a igreja pode fazer um grande trabalho, enquanto que, com essa aparente divisão, poderá ser um desastre muito grande." Como se percebe, amenizava-se as grandes discórdias com belas declarações de unidade, como se as palavras fossem criar um sentimento diferente daquele vivido antes, durante e depois da convenção.

Com a confirmação da vitória da Missão, pastor Manoel Ferreira diplomaticamente se dirigiu ao seu oponente para um "afetuoso" abraço. Esse gesto, muito bem explorado na matéria do Mensageiro da Paz, na verdade não refletia a realidade, e nem sua declaração de que "Deus fez sua vontade e o nosso propósito é o de somar.... Colocamo-nos ao lado da nossa presidência, para lutar em favor da unidade de nossa Igreja e esperamos que a nova Mesa Diretora seja um canal aberto para o diálogo." 

Meses depois essas palavras não teriam mais sentido. Segundo José Wellington em suas memórias, Alcebiades e Manoel Ferreira entraram em uma triste rota de colisão, a ponto de cortarem relações. Contraditoriamente, a Mesa Diretora para o líder de Madureira não se tornou um canal de diálogo e sim um instrumento de pressões para que o ministério se enfraquecesse, o que levou a diretoria da CGADB, já na gestão de José Wellington a desligar Madureira da Convenção Geral.

Assim, a CGADB de 1987 terminou: entre discursos vazios, abraços teatrais e uma crise que se prolongou até 1989, com a saída de Madureira da Convenção Geral. Porém, a história mostrou que a saída de Madureira só amenizou momentaneamente a antropofagia ministerial assembleiana. Outras crises como uma tempestade se formariam, tendo como consequências outros embates nas convenções seguintes.

Para suprema ironia, o jornal do Ministério de Madureira O Semeador (edição de fevereiro de 1987) informava aos seus leitores que Alcebiades havia tomado posse da Mesa Diretora da CGADB "num ambiente de paz e harmonia..."

Fontes

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, janeiro de 1985

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, julho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, março de 1987

sábado, 18 de outubro de 2014

CGADB de 1987 - as versões

O moderno e bem situado Centro de Convenções na cidade de Salvador (BA), foi o palco decisivo das disputas envolvendo as principais lideranças das Assembleias de Deus no Brasil. Com mais de três mil obreiros assembleianos inscritos, o conclave de 1987 foi o ápice das graves discordâncias entre os ministérios das ADs.

Duas chapas concorrentes, com dois líderes de expressão nacional. De um lado, o veterano e conceituado pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos; do outro, Manoel Ferreira, um dos principais líderes do Ministério de Madureira. Em jogo vários interesses político-eclesiásticos.

É interessante, porém, conhecer as observações dos dois protagonistas daquela fatídica convenção. São relatos antagônicos, mas é importante saber o contexto para se ter um maior entendimento das declarações dos conhecidos líderes. Manoel Ferreira em suas memórias recorda que na CGADB de 1985, com a eleição da famosa chapa do consenso "ficou acordado também que a partir dali, em todas as Convenções, nós acharíamos um entendimento de representação. Madureira teria sua representação e eles teriam outra representação".

Segundo essa versão, naquela convenção (1987) só deveria haver uma chapa para ser apresentada e oportunamente ser aclamada em plenário. Em 1985, um presidente ligado a Missão foi eleito. Na CGADB na Bahia deveria ser eleito um presidente de Madureira. Ferreira conta que, ao chegar em Salvador, se deparou com uma chapa da Missão já montada, e sem nenhum representante de Madureira. "Nós fomos totalmente ignorados..." afirmou ele recordando os fatos.


Alcebiades e Ferreira: versões antagônicas para CGADB de 1987
Tomados de surpresa, e desorganizados para enfrentar os oponentes liderados por Alcebiades, os líderes de Madureira ainda testemunharam a omissão e o constrangimento de vários pastores da Missão, os quais viam o acordo de 1985 ser quebrado. Segundo essa versão apresentada pelo Bispo Ferreira, a apresentação da chapa ligada a Missão foi uma deslealdade, um golpe.

Porém há um detalhe. Um ano antes da CGADB de 1987, no Encontro de Líderes realizado em São Paulo, vários pastores postulavam a presidência da Convenção Geral. Nesse encontro, segundo Alcebiades foi decidido que ele seria o cabeça de chapa. Houve embates, e uma visita do então presidente da Convenção Geral, pastor José Pimentel de Carvalho foi feita a convenção de Madureira para amenizar os ânimos.

Além de confirmar que o acordo ratificado em 1985 não seria honrado, o Encontro de Lideranças em 1986 já apontava, segundo Vasconcelos, que haveria sim uma chapa concorrente. E o líderes de Madureira sabiam disso. Como explicar então a surpresa esboçada por Ferreira em suas memórias? Teria a Missão guardado em segredo esse plano durante meses, ou sabendo de tudo isso, Madureira foi para uma verdadeira quebra de braço com a Missão?

Manoel Ferreira, lembra com orgulho em seu depoimento, que após a morte de Paulo Leivas Macalão em 1982, o Ministério conseguiu se organizar e vencer a CGADB de 1983. Mesmo abalados com a morte de seu mítico fundador e desacreditados, a chapa de Madureira venceu, ainda que por margem mínima de votos. Não seria essa a tática a ser novamente posta em prática? Derrotar as tramoias inimigas e sair de Salvador engrandecidos como Ministério.

Pastor Alcebiades, relata em suas reminiscências sobre a polêmica convenção, o fato de que Madureira para vencer a eleição indicou dois reconhecidos pastores ligados a Missão em sua chapa e "lançou falação em propaganda a seu favor, de modo nitidamente político partidário". Segundo Vasconcelos os convencionais ainda "se defrontaram com a propaganda acintosa de pastor Manoel Ferreira, candidato à presidência pelo Ministério de Madureira, até na antecâmara do plenário da eleição".

Diante desse quadro, Alcebiades declarou usar como arma o silêncio e distribuiu um "pequeno impresso com os nomes dos candidatos integrantes da chapa". Afirmou ainda, que a CGADB daquele ano poderia ter "produzido melhores frutos" caso não fosse realizada com o "espírito político". É lógico que a narrativa de Vasconcelos é sua versão dos fatos, ou seja, contempla só uma lado da crise envolvendo os Ministérios das ADs.

Realmente, a Convenção de 1987, além de ser uma disputa de votos e influências, passou para a história como a guerra de versões. Cada lado procurando legitimar suas ações, dentro da complexa rede de interesses ministeriais. 

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, janeiro de 1985

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, julho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, março de 1987

sábado, 11 de outubro de 2014

CGADB de 1987 - a busca pela (des) união

Na postagem anterior, se observou que a CGADB de 1987 foi desastrosa para a unidade das ADs. Esse encontro convencional, com certeza foi um dos últimos capítulos da conturbada convivência entre os ministérios ligados a Missão e Madureira. Mas quais teriam sido as cenas finais dessa tumultuada relação?

Primeiro é bom lembrar que, a aclamação da famosa "chapa do consenso" na CGADB de 1985, a qual foi resultado de um acordo das lideranças para contornar uma possível divisão, era tão somente um sinal da precária harmonia das ADs. Após a ratificação da "chapa do consenso", uma das matérias de destaque do Mensageiro da Paz (janeiro de 1985) sobre a Convenção Nacional intitulada "Preservada a unidade nas Assembleias de Deus" denunciava o clima de desunião entre os convencionais.

Chapa do consenso: manobra para contornar divisão nas ADs

Um ano depois, outra reunião de pastores preconizaria um forte confronto de lideranças. Alcebiades Pereira Vasconcelos, conta em sua biografia, que no início do ano de 1986 em uma reunião extraordinária de líderes das ADs do Norte em Porto Velho, foi lançado o "Manifesto das Lideranças das Assembleias de Deus no Norte do Brasil", o qual deveria ser apresentado em um Encontro de Lideranças em abril do mesmo ano em São Paulo. O Manifesto tinha como última cláusula a "proposta de uma chapa completa para a próxima Mesa Diretora da CGADB, a reunir-se em janeiro de 1987, em Salvador, BA". Nessa chapa, o pastor Vasconcelos seria apresentado como presidente.

Era evidente nesse manifesto, dois possíveis descontentamento dos líderes do Norte. Primeiro era a reação ao domínio nas últimas convenções de Mesas Diretoras com presidentes da região Sul e Sudeste. Afinal foi no Norte que a AD iniciou seus trabalhos, e agora a liderança dessa região ficava à margem do posto máximo da CGADB, assistindo a polarização entre Madureira e os ministérios ligados à Missão. Segundo: Madureira havia aberto nos últimos anos trabalhos no Norte. Um claro sinal de que o expansionismo do ministério assustava.

Para piorar, no Encontro de Lideranças, segundo o reverendo Vasconcelos "foi notado que havia seis candidatos postulando a presidência" da CGADB. Mesmo assim, houve acordo e Alcebiades foi escolhido para concorrer a presidência, em uma chapa com fortes representantes das ADs de todas as regiões do Brasil, e sem nenhum nome de Madureira.

Do tal encontro é certo que as rivalidades se acentuaram. A desagregação era tamanha, que no editorial do Mensageiro da Paz em junho de 1986, Nemuel Kessler fez a observação sobre alguns problemas (não revelados) do encontro de líderes em São Paulo, os quais somente foram atenuados com uma diplomática visita do então presidente da CGADB José Pimentel de Carvalho, e José Wellington Bezerra da Costa do Belenzinho entre outros, a Convenção Nacional de Madureira realizada no Rio de Janeiro. Segundo Kessler "A partir desse encontro começaram a dissipar-se os efeitos de desagregação proveniente do último encontro de lideranças realizado em São Paulo..."

Segundo a matéria do MP (julho de 1986), nessa Convenção de Madureira, o discurso de união dos cardeais da AD mais uma vez, implicitamente, deixava transparecer o contrário. Pastor Pimentel declarou na convenção que "nosso desejo maior é a união, queremos ter paz, queremos viver unidos até a vinda de Cristo...". Por sua vez, pastor Lupércio Vergniano polidamente desconversou e respondeu que a "Esta é uma Obra de Deus, se o nosso Deus fosse morto nós não estaríamos aqui porque a mesma não existiria".

Assim, entre artigos e discursos conclamando a unidade da igreja, e interesses controversos, a liderança assembleiana rumava para a Convenção de 1987. O quente janeiro daquele ano teria sua temperatura potencializada com a disputa acirrada, e a polêmica vitória do veterano Alcebiades Vasconcelos. Mas isso é assunto para a próxima postagem...

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, janeiro de 1985

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, julho de 1986

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, março de 1987

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

CGADB de 1987 - um desastre para a unidade da igreja

Centro de Convenções, Salvador, Bahia. Foi nesse local que, entre os dias 19 e 23 de janeiro de 1987, a CGADB realizou uma das mais disputadas convenções de sua história. Nesse conclave, o Ministério de Madureira e os representantes da Missão travariam um embate acirrado.

Apesar de historicamente ser um fato recente, o evento ainda é cercado de polêmicas e versões desencontradas. Mas, em um ponto há algo nessa CGADB, que é inegável: o conflito de interesses, os quais colocaram as lideranças da Missão e Madureira em forte antagonismo, mesmo que em anos anteriores as tentativas de conciliar as divergências tenham sido constantes.

MP de 1987: CGADB desastrosa para a unidade das ADs
É fato que, depois do falecimento de Paulo Leivas Macalão em 1982, as cobranças sobre Madureira se intensificaram. Tido como expansionista Macalão e seu ministério eram vistos com reservas por muitos pastores da AD. Freston fala que a morte de Macalão "foi o sinal para que os outros líderes assembleianos aumentassem a pressão contra Madureira, talvez esperando que implodisse". Sem seu respeitado e mítico fundador, a liderança de Madureira lutou e se articulou para superar as dificuldades.

Mas, contraditoriamente, o discurso naquela década era de união, e quando mais as lutas se intensificavam, mais a ênfase na unidade era exaltada. Porém, a realidade das convenções era incompatível com a retórica oficial. Na CGADB de 1981, os pastores Luiz Bezerra da Costa e José Pimentel de Carvalho concorreram à presidência da instituição. Luiz Costa afirmou estar convicto de sua candidatura, porém alguns "convencionais se manifestaram não concordando com a candidatura" do irmão mais velho de José Wellington.

Em 1983 na cidade de Vila Velha (ES), a convenção ocorreu sob o tema "A unidade da Igreja". Mas de forma irônica, o encontro nacional foi marcado com a disputa de quatro chapas concorrentes, numa eleição polarizada entre Manoel Ferreira e José Wellington, onde houve até recontagem de votos e grande celeuma. Em Anápolis (GO) em 1985, sob fortes tensões e expectativas, foi aclamada a "chapa do consenso", a qual revelava de forma velada o enorme dissenso das lideranças.

Em 1987, o nível de tensões na CGADB chegou a um ponto máximo, as quais se arrastavam durante anos, pois em cada conclave as divergências aumentavam. Porém, alguns fatores contribuíram para arruinar a frágil conciliação entre os ministérios. Grandiosa em números de participantes, a CGADB daquele ano foi desastrosa para a unidade das ADs. 

Ainda que o Mensageiro da Paz tenha observado que "A maior preocupação de todos...era com a unidade da igreja", a qual "deveria ser preservada qualquer que fosse o resultado da eleição", as ações por parte de muitos obreiros visou justamente o contrário. Em suma: para a Missão foi uma grande vitória. Para Madureira um golpe, uma traição.

Na próxima postagem as versões dos acontecimentos serão detalhadas. A narrativa dos principais atores dessa disputa revistas, e assim um novo quadro histórico poderá ser construído daquela memorável convenção.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, março de 1987

sábado, 6 de setembro de 2014

Manoel Ferreira e José Wellington - caminhos cruzados

No dia 03 de setembro de 2014, durante a 4ª Escola Bíblica Nacional (EBN) da CGADB no templo sede da Assembleia de Deus em Uberlândia (MG) ocorreu um encontro memorável. Manoel Ferreira (presidente da CONAMAD) foi homenageado no evento promovido pela Convenção Geral e congratulou-se com o pastor José Wellington Bezerra da Costa (presidente da CGADB).

Na época, divulgadas amplamente nas redes sociais, as homenagens foram um bom momento para reflexão da vida e trajetória dos dois aclamados líderes assembleianos, que apesar das gentilezas trocadas, há 25 anos chegaram a um ponto de discordância insuperáveis.

Turbulências no passado, amizade no presente

Líderes de ramos assembleianos divergentes, Ferreira e José Wellington possuem muitos pontos em comum em suas carreiras ministeriais. Nascidos na década de 1930, tanto Manoel como José Wellington são de origem nordestina, mas com vida profissional e familiar construída em São Paulo. Ambos foram ordenados ao pastorado nos anos 60, e chegaram ao topo ministerial em seus respectivos ministérios na década de 80. Os filhos dos dois cardeais das ADs, também são pastores das principais igrejas de Madureira e do Belenzinho, e seguem nos conselhos das editoras ligadas a cada Ministério.

Nos anos 80, mais precisamente em 1982, Paulo Leivas Macalão (PLM) de Madureira e Cícero Canuto de Lima (Belém) faleceram após longos anos de liderança e trabalho. José Wellington já havia assumido o Ministério do Belém (SP) dois anos antes. Ferreira ainda antes da morte de PLM era um nome em ascensão em Madureira, e em parceria com Lupércio Vergniano conseguiu superar as pressões sobre o Ministério após à morte de Macalão.

Portanto, ainda experimentando o reconhecimento e as responsabilidades de liderar grandes igrejas, Ferreira e José Wellington encabeçaram duas das 4 chapas concorrentes à presidência da CGADB em 1983. Foi uma eleição muito disputada, onde a diferença de votos entre os dois foi pequena. O líder de Madureira recebeu 683 votos e José Wellington 655. Segundo o próprio Ferreira em suas memórias, após a divulgação dos votos "houve um alvoroço", sendo que o próprio Wellington pediu uma nova apuração dos votos. Para sua decepção, na recontagem a diferença aumentou...

Quatro anos depois estariam de novo em lado opostos. Ferreira na chapa de Madureira como presidente e José W. B. da Costa como vice na chapa encabeçada por Alcebíades P. Vasconcelos. Foi uma eleição polêmica, onde as diferenças entre os Ministérios se exacerbavam. O abraço cordial que o derrotado Ferreira deu no recém-eleito Alcebíades (foto de destaque no Mensageiro da Paz) não correspondia à realidade daquela eleição. A cisão seria uma questão de tempo.

Pastor José Wellingon conta em sua biografia, que as diferenças entre pastor Alcebíades e pastor Manoel eram agudas, mas à morte do presidente da CGADB em maio de 1988, fez com que nesse momento de crise, mais uma vez os dois destacados líderes se antagonizassem. Foi na liderança de Wellingon que ocorreu o desligamento da Convenção de Madureira da CGADB.

Mas a vida segue. Manoel Ferreira hoje é presidente vitalício da Convenção Nacional de Madureira. O poder do clã Ferreira é evidente no Ministério, assim como certos exotismos para os antigos padrões assembleianos, como por exemplo, a titulação de bispo dada aos Ferreiras.

Pastor José Wellington, após a crise que culminaria com a saída de Madureira, se consolidou como presidente da CGADB, e agora tenta conduzir um dos filhos à presidência da Convenção Geral. Possui, ao contrário de Ferreira um discurso mais conservador e, aglutina em torno se si, muitos dos principais líderes das ADs no Brasil.

Sobre os rumos que cada um deles tomou depois de 1989, hoje eles reconhecem ter sido melhor assim, pois são líderes com muitos interesses e representatividade para conviver em uma única convenção. Como bem salientou o próprio pastor José Wellington "Hoje somos amigos. Eles tocam a vida deles e nós tocamos a nossa".

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

www.pastorjosewellington.com.br