sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Assembleia de Deus de São Cristóvão (RJ): a descaracterizarão de uma igreja histórica

Na grandiosa festa de comemoração do 60º aniversário da CEADAM (Convenção Estadual da Assembleia de Deus no Amazonas), cujo tema foi "Avivamento para transformar o Planeta", vários pastores, cantores e pregadores abrilhantaram os trabalhos. A multidão de membros e obreiros de todo estado lotaram o sambódramo da capital Manaus para celebrar o evento.

Entre os preletores nas noites festivas e das reuniões convencionais, estava um jovem pastor. Com pinta de galã, elegantemente trajado, penteado impecável, eloquente e teatral nas suas prédicas,o pregador fazia a multidão delirar com suas mensagens. 

Obreiros, crentes, homens e mulheres, caiam ao serem atingidos pelos "mísseis" divinos lançados sobre os fieis, ou com um simples sopro crentes caíam a chão extasiadas do "poder" de Deus. Ele mesmo, empolgado com os acontecimentos ao seu redor, entre efusivas manifestações de louvor do povo ali reunido, cambaleava como se estivesse embriagado.

O pregador, cuja performance foi brevemente descrita nas linhas acima, é o Apóstolo Jessé Maurício da Assembleia de Deus Missão Apostólica da Fé, igreja com sede na cidade do Rio de Janeiro. Com um templo amplo e espaçoso, a denominação apresenta em seu grande púlpito entre tantos objetos, um grande candelabro (símbolo da nação judaica), um globo representando a terra e vários banners demonstrando os propósitos da comunidade que ali se reuni. 

Tudo nessa Assembleia de Deus, a começar pela titulação eclesiástica de seu líder, pela teatralidade de sua liturgia, ou pela decoração exótica do interior do templo, faz parecer que estamos diante de mais uma denominação neopentecostal.

Seria mais uma "emergente" entre tantas outras, cujo exotismo de seus cultos e ministério visa uma clientela maior de membros e ouvintes (e contribuintes também). Porém todos esses pormenores chamam a atenção por um único detalhe, o qual daria um certo ar de igreja pentecostal clássica a essa denominação: o nome  Assembleia de Deus.

Na verdade, essa igreja, a qual em nada lembra uma Assembleia de Deus; a não ser pelo nome, é um dos ministérios mais antigos e relevantes para a história das Assembleias de Deus no Brasil. Conhecida até o ano de 2006 como Assembleia de Deus de São Cristóvão, essa igreja foi a pioneira das Assembleias de Deus no estado do Rio de Janeiro, e responsável pelo surgimento de muitas outras pelo país.

Templo da Assembleia de Deus Missão Apostólica da Fé

Organizada por Gunnar Vingren em 1924, a Assembleia de Deus de São Cristóvão deu origem ao ministério de Madureira (Paulo Macalão foi um dos primeiros crentes e secretário dessa igreja), Penha (hoje Assembleia de Deus Vitória em Cristo), Lapa e Leblon, entre tantas outras. André Bernardino, pioneiro do trabalho assembleiano em Santa Catarina, converteu-se e cooperou em São Cristóvão antes de retornar a Itajaí, e ali organizar a igreja em 1931.

Os principais missionários suecos no Brasil como Gunnar Vingren, Samuel Nyström, Nils Kastberg, Otto Nelson, e Nels Nelson dirigiram essa igreja. Pastores pioneiros como Francisco Pereira do Nascimento, Alcebiades Pereira Vasconcelos, José Pimentel de Carvalho e o grande nome do jornalismo assembleiano Emílio Conde contribuíram para o crescimento desse ministério. 

O Mensageiro da Paz e a CPAD iniciaram seus trabalhos e impressões nas dependências de São Cristóvão. O primeiro Curso de Aperfeiçoamento de Professores da Escola Dominical (CAPED) foi realizado nessa igreja. Enfim, essa igreja como nenhuma outra contribuiu para modelar e expandir o pentecostalismo no país. As Assembleias de Deus no Brasil tem uma dívida histórica para com São Cristóvão.

Mas o que aconteceu com esse ministério? Como uma igreja líder, pioneira e referência para tantas outras, ficou irreconhecível em sua liturgia e pregação? O que aconteceu para ela não estar mais filiada à Convenção Geral, ou sequer ser mencionada nos periódicos da CPAD.

Algumas pistas podem esclarecer os fatos. Um dos motivos ao que tudo indica, são as profundas divergências que nos últimos anos se agravaram, entre a liderança assembleiana. Há mais de vinte anos, o pastor presidente do ministério do Belenzinho em São Paulo José W. Bezerra da Costa, lidera juntamente com uma oligarquia de pastores de algumas convenções assembleianas espalhadas pelo Brasil, a CGADB. 

São vinte anos de absoluta hegemonia, sem alternância na condução da instituição e dos negócios da CPAD. As igrejas e ministérios do estado do Rio de Janeiro (principalmente a capital), que há alguns anos tinham tanta importância na CGADB, gradativamente foram perdendo espaço e poder dentro da Convenção Geral. Percebe-se que o eixo de influência e poder eclesiástico em nível nacional das igrejas do Rio, as quais anteriormente eram centro e referência para todo o Brasil, foi se deslocando em meados da década de 1980 para São Paulo; mais precisamente o Belenzinho.

Talvez a eleição para à presidência da CGADB em 1999, tenha agravado a situação. Concorrendo contra José Wellington nesse ano, estava o pastor Túlio Barros de São Cristóvão. Os convencionais reunidos na sede do Belenzinho em São Paulo, e com toda certeza havia um número expressivo de ministros desse ministério, concedeu uma vitória esmagadora ao seu presidente. 

Reeleito com 71% dos votos válidos contra 28% do seu oponente, a eleição revelava ainda mais o declínio das lideranças cariocas. Em seu discurso de posse, pastor José Wellington deixa transparecer a rivalidade desse pleito quando falou aos convencionais: "Eu e o pastor Túlio não somos adversários... A eleição terminou e nossa amizade e comunhão permanecem. vamos realizar a obra de Deus". (DANIEL 2004: 610)

A eleição terminou é verdade, mas o líder máximo de São Cristóvão resolveu iniciar seu processo de ruptura com a CGADB. Um ano após sua fragorosa derrota na Convenção Geral, segundo a revista Enfoque (junho de 2008) "pastor Túlio Barros desafiou a igreja a uma nova dimensão que, segundo membros e líderes, resultou em renovação e avivamento espiritual"

Esse desafio para uma "nova dimensão" foi à adoção do G12, polêmico método de crescimento e evangelização neopentecostal. Notas em alguns sites na internet comentam o fato do ministério ter perdido muitos membros de peso por esse decisão. Outros comentários  afirmam, assim como a revista Enfoque, que o crescimento foi acentuado. Mas é bem provável, pela sua tradição e história, que esse novo "desafio" não foi aceito sem enormes resistências. 

É bom deixar bem claro, e é um detalhe importante, que o genro do pastor Túlio Barros, Jonatas Câmara, é pastor presidente da igreja Assembleia de Deus em Manaus, e líder da Convenção do estado do Amazonas. Nessa igreja, ele adotou o método do G12, provocando enormes polêmicas e divisões em Manaus. Seu irmão Samuel Câmara por sua vez, na liderança da igreja de Belém, por força do ministério local não conseguiu esse feito com risco até de perder seu cargo se insistisse no projeto. Ou seja, o interesse de implantar um projeto como o G12 nas Assembleias de Deus era algo mais amplo, com referenciais no mínimo familiares. 

Outro fator importante para se identificar a ruptura, também está no fato da sucessão ministerial. Com idade avançada, como muitos outros pastores líderes de igrejas e ministérios, pastor Túlio transferiu a direção de São Cristóvão ao seu filho mais moço Jessé Maurício. Novas gerações são mais propensas a aderir a inovações e projetos de resultados práticos. Talvez sentido o vento das mudanças, e desejando a qualquer custo manter sua linhagem na direção da igreja, pastor Túlio entregou o ministério para o filho, pois nessas condições toda uma rede de interesses familiares também fica garantida. 

Nesse processo de adesão ao G12, outro passo foi a aceitação do chamado "Movimento de Restauração Apostólica", onde ministérios e igrejas reconhecem como apóstolos seus principais lideres. Pastor Túlio em 2004 ao ser jubilado (aposentado) das suas funções ministeriais, recebe a consagração de apóstolo, e seu filho o de bispo. 

Assim, pastor Ferreira tornou-se o primeiro apóstolo das Assembleias de Deus no Brasil, mesmo a denominação não reconhecendo a titulação eclesiástica. A mudança de nome para Missão Apostólica da Fé foi mais uma forma de romper com o tradicionalismo. Segundo seus lideres, seria um retorno às origens pentecostais, ou uma questão de marketing.

Com essas informações disponíveis, o leitor pode perceber como ocorreu a descaracterizarão dessa igreja histórica e de grande importância para o pentecostalismo brasileiro. Hoje, longe de ser uma referência, a Assembleia de Deus de São Cristóvão parece ser de um exotismo digno das mais jovens denominações neopentecostais.

Observação: para construir esse texto, foram consultados os livros História de Convenção Geral das Assembleia de Deus no Brasil, Dicionário do Movimento Pentecostal, revista Enfoque (junho de 2008), e alguns sites na internet. Alguns comentários de criticas favoráveis ou contrárias a implantação do G12 são interessantes para se ter um ideia das complicações que uma mudança drástica de liturgia causou na igreja. Sobre o "apóstolo" Jessé Maurício, basta consultar o YouTube e observar suas pregações teatrais, tanto em Manaus como na igreja de São Cristóvão.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Benedita da Silva - mulher, negra, favelada e política assembleiana

Para Paul Freston em seu livro Evangélicos na Política Brasileira, Benedita da Silva é uma pentecostal atípica. Filha de um operário de construção (décima-segunda numa prole de treze) e de uma lavadeira, ambos analfabetos, Benedita trabalhou de empregada e camelô. Tornou-se auxiliar de enfermagem, e posteriormente já vereadora, graduou-se em Serviço Social.

Freston observa ainda, que a sua politização se deve aos pais. Sendo filha de mãe de santo, ela herdou de sua genitora a capacidade de liderança, e nas associações comunitárias ela desenvolveu sua formação política. Tornou-se membro da Assembleia de Deus aos 24 anos, "adaptando-se aos costumes mas não ao apoliticismo." (Freston 1994: 108)

Durante toda sua atuação política foi vista com reservas e desconfianças pela liderança assembleiana. Era filiada ao PT numa época em que o partido era visto como a encarnação do mal. Ao defender os direitos dos negros, mulheres e homossexuais, ela causava desconfianças entre os evangélicos. Como podia uma cristã, ainda mais pentecostal defender temas tão antagônicos as diretrizes de sua própria denominação?

O fato é que, como bem foi observado por Freston é que: "ela não é produto político da AD. Nunca foi candidata oficial, e toda sua trajetória fere a mentalidade tradicional da igreja, que não incentiva membros comuns (sobretudo mulheres pobres) a conquistar posições na sociedade secular."

Logicamente pagou um preço por isso. Tendo carreira política independente, sendo de um partido de esquerda, e defendendo temas polêmicos, ela não foi apoiada pelos principais ministérios assembleianos na eleição para a prefeitura do Rio de Janeiro em 1992. Recebeu apoio de alguns segmentos, mas a liderança refutou sua candidatura.

No Mensageiro da Paz de setembro de 1986, uma matéria expôs alguns dos candidatos assembleianos a constituinte. No texto é destacado algumas informações e projetos políticos dos futuros constituintes, e na apresentação de Benedita, no registro de suas palavras e ideias, há a revelação de uma candidata que é uma verdadeira anomalia perto dos candidatos oficiais da Assembleia de Deus.

A vereadora Benedita da Silva, líder do seu partido na Câmara do Rio de Janeiro e membro da AD do Leblon, tem procurado levar sempre à comunidade evangélica a necessidade de um envolvimento maior do crente com a verdadeira justiça social. 

"Minha prática política é baseada na minha prática espiritual. Por isso quero que todos tenham direitos", ressaltou Benedita da Silva em entrevista recente ao MP. Ela disse, ainda, que, como mulher, negra e cristã, tem sofrido uma série de discriminações e preconceitos. Mas isso não a impede de continuar procurando defender a justiça para o povo: "Não compreendo como existem cristãos muito ricos e não dividem a riqueza com os empregados, deixando até de pagar férias, 13º salário... E à noite estão nas igrejas, dirigindo cultos."

"Essa discussão tem muita importância para mim, mesmo que tenha algum político evangélico e latifundiário querendo defender suas terras. Minha participação será sobretudo, a de uma serva do Senhor na Constituinte." (MP setembro de 1986)

É lógico que o tempo passou, e Benedita da Silva "amadureceu" politicamente. Chegou a ser a primeira mulher negra eleita senadora e governadora de um estado brasileiro (RJ). Foi ministra no governo Lula, e novamente consegue em 2010 se eleger deputada federal. Foi alvo de polêmicas envolvendo seus familiares e a si mesma. Nesse  percurso deixou de ser assembleiana, e hoje é filiada a igreja Presbiteriana.

Porém (provavelmente por um cochilo dos editores) suas críticas feitas no MP são de uma atualidade impressionante. São observações que revelam algumas facetas obscuras de políticos evangélicos, e revelam que infelizmente se aceitam certas injustiças sociais dentro do próprio rebanho. Ou seja, certas posturas conservadoras, são na verdade, o desejo de manter seus próprios privilégios e de uma minoria.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Memória fotográfica - Líderes da Assembleia de Deus em Santa Catarina

A fotografia nos permite reviver momentos alegres e tristes, permite também realizar uma viagem ao tempo. Ela capta um momento, um instante, um evento e o eterniza.

Nessa fotografia você observa um desse momentos eternizados. Cedida gentilmente pela família Loureiro, esse encontro de pastores e obreiros catarinenses ficou para posteridade através dessa foto.


No livro O Reino entre príncipes e princesas  - 75 anos de história da Assembleia de Deus em Joinville encontramos a informação de que esse registro se fez na Convenção de obreiros, realizada em Florianópolis em 1958.

Na primeira fila sentados da esquerda para a direita encontramos os pastores João Ungur e esposa, Antonieto Grangeiro, Antonio Lemos, missionário Simon Lundgren, Manoel Germano de Miranda, Agnelo José da Costa, Osmar Cabral e esposa, Satyro Loureiro e esposa.

Em pé, entre vários convencionais se observa a presença de Artur Montanha, Liosés Domiciano e José Vieira. Ainda em pé na quarta fila (o terceiro da esquerda para a direita, bem abaixo do bem-vindos), esta o pastor Nirton Santos.

Todos esses senhores, a grande parte de saudosa memória, outros ainda vivos, contudo já jubilados de suas atividades pastorais, foram realmente grandes pioneiros do trabalho pentecostal em Santa Catarina. Evangelizavam várias cidades de pé, bicicleta, cavalo, carroça ou qualquer outro veículo. 

Observe esses senhores. Não há o espírito triunfalista que hoje toma conta de tantos obreiros. Ao contrário de que acontece hoje, alguns deles largaram carreiras promissoras e bons empregos para se dedicar a tarefa árdua de pregar o evangelho. Um deles foi integrado, mas sem promessa de salário mensal garantido, outro ao morrer acabou por deixar a família sem casa ou algum imóvel para morar. Outros no desejo de agradar a Deus e a igreja, descuidaram dos próprios filhos e morreram vendo a família praticamente fora da denominação que ajudaram a construir.

Observe esses obreiros. Seus semblantes estão marcados pela dureza, vicissitudes e perseguições dos primeiros tempos de pregação pentecostal. Alguns morreram no total esquecimento, ou sem o devido reconhecimento por tantos anos de lutas. Longe se ser um bom negócio, ser obreiro pentecostal naquela época era optar pelo sacrifício, pelas lutas e por uma vida espartana, sem luxos ou ostentações.

Observar esse momento, refletir sobre a vida desse pioneiros é importante para repensarmos o que é ser ministro do evangelho hoje. É evidente que os dias são outros, a sociedade mudou e a igreja também. As circunstâncias nas quais são edificados muitos obreiros são muito diferentes das de antigamente, mas é também evidente que o ministério deixou de ser encarado por muitos como uma vocação, para se tornar simplesmente um meio rentável de ganhar a vida.

Então ao visualizar essa imagem, procure ir além dela e conheça as vidas e as várias histórias que estão por trás delas. Leia os semblantes, pesquise sobre sua época, e será grande seu aprendizado.

sábado, 27 de novembro de 2010

Tim Tones - paródia com ares proféticos

Você lembra de Tim Tones? Os mais jovens provavelmente nunca ouviram falar dele, mas Tim Tones era um personagem do famoso humorista Chico Anysio. Talvez seja um dos precursores da teologia da prosperidade no Brasil. O nome do cômico personagem lembrava o pregador norte americano Jim Jones, que alguns anos antes ficou famoso por liderar um suicídio coletivo na Guiana.

O quadro humorístico, era também uma clara alusão ao programa do famoso televangelista Rex Humbard, apresentado em vários países, inclusive no Brasil. Exibido em meados dos anos 80, o quadro causou forte reações no meio cristão (principalmente nas lideranças), os quais, não gostaram da forma estereotipada da representação dos evangélicos no horário nobre da Rede Globo de televisão. Tal foi a indignação, que a revista Veja numa matéria intitulada De mal humor: personagem de Chico Anysio descontenta igrejas descreve assim a polêmica:

O pastor Tim Tones, um personagem que Chico Anysio apresenta há dois meses na TV Globo, está provocando reações entre os membros de várias igrejas protestantes do país... O Tim Tones de Chico Anysio é um pastor esperto que se apresenta sempre junto com a família - a mulher e sete filhos - e explora seus fiéis. (Veja 07/11/1984)

No decorrer da matéria, dois lideres evangélicos são ouvidos sobre à polêmica. Um deles o pastor Nemuel Kessler da Assembleia de Deus do Rio de Janeiro, critica: "A questão é que, do jeito que Chico Anysio faz sua sátira, as pessoas não diferenciam um pseudomissionário de um verdadeiro". 

Tim Tones: paródia profética

Outro ponto interessante, é a menção do texto do pastor Paulo César Lima escrito no Mensageiro da Paz, cujo título Tim Tones: sátira ou blasfêmia? No artigo, o autor reconhece que o alvo do humorista são os "mercadores do evangelho", mas sua crítica principal é a maneira desrespeitosa como o nome de Deus é usado. Para Lima, o nome de Deus é "proferido no programa como se fosse um mero produto de utilidade pública." Ao ser procurado Chico Anysio respondeu simplesmente "Quem reclama do Tim Tones, Tim Tones é".

Ainda repercutindo a polêmica, o jornalista e pastor Joanyr de Oliveira no Mensageiro da Paz (fevereiro de 1985) dá a réplica ao humorista.

Será mesmo? Não! Aquela foi uma apressada conclusão que, em absoluto, não corresponde à verdade. Milhões e milhões de evangélicos se entristecem ao saber que se desacredita a nobre causa evangélica ao se caracterizar como pastor a um cínico aproveitador da ingenuidade popular - mas nada têm haver com tal procedimento. Portanto, muitos são os que não são Tim Tones nem gostam dele.

Porém, mais adiante, pastor Joanyr reconhece:

É verdade que o falso pastor criado pelo humorista não é um mero personagem de ficção. Ele encarna uma categoria de cidadãos em todos os Estados e que vêem enodoando o evangelismo pátrio. Eles exploram os crentes e exigem quase insuportáveis sacrifícios dos fiéis, prometem curas que nunca acontecem e, com as contribuições dos irmãos, avolumam seu patrimônio e o de familiares seus.

Joanyr de Oliveira reconhece, que o Tim Tones da TV era uma alusão verdadeira de falsos mestres, os quais deveriam ser denunciados com vigor. Por outro lado, Oliveira faz coro com Paulo César Lima e argumenta que realmente Chico Anysio estava sendo blasfemo e assegura "é bom que se diga, nosso Deus não se deixa escarnecer".

Há muito o programa deixou de ser apresentado, e Chico Anysio hoje está morto. Mas Tim Tones está vivo, presente e multiplicado mais do que nunca no meio evangélico. Àquilo que era um quadro cômico, num determinado programa, uma vez por semana; tornou-se uma tragédia, um drama dentro das denominações pentecostais. 

Tim Tones, hoje possui diferentes nomes, variados horários no rádio e na televisão brasileira e infelizmente está todos os dias na mídia, fazendo com o nome de Deus aquilo que Lima justamente criticou em seu famoso artigo, ou seja, transformando o evangelho em "mero produto de utilidade pública". Ou pior: entesourando para si e família milhões em dinheiro.

domingo, 21 de novembro de 2010

Refúgio para um pardal - a autobiografia do Pr. Nirton Santos

Deixando agora a política um pouco de lado, gostaria de informar que li recentemente o livro autobiográfico do Pr. Nirton dos Santos, intitulado Refúgio para um pardal (Editora Letra Moderna). O título é uma alusão ao pássaro que a Bíblia apresenta como o de menor valor. Pr. Nirton em sua trajetória de vida se compara a essa ave, a qual mesmo sendo de valor insignificante, contudo é alvo do cuidado divino.

Pr. Nirton: refúgio para um pardal

Nas páginas desse livro, encontramos a história de um menino, cuja vida é desde cedo marcada por tragédias familiares, abandono, trabalho árduo e solidão. É realmente comovente, e impressionante o relato do suicídio da sua mãe, bem como o destino trágico das suas irmãs. Entre tantas perdas, miséria e desconforto, o jovem Nirton se converte ao evangelho de Cristo, e consegue formar um lar, desenvolver seu ministério de pastor pentecostal.

Os pontos altos de sua narrativa são: o indiscutível pioneirismo, abnegação e renúncia do Pr. Santos e da sua falecida esposa, bem como os relatos de seu trabalho de evangelismo por regiões de difícil acesso. Seja de pé, bicicleta, moto ou de carro, Pr. Nirton se revela um obreiro incansável.

Porém, para os que estudam a história do pentecostalismo, ou das Assembleias de Deus, fica uma certa decepção, pois sempre se espera mais detalhes de alguém que conviveu com tantos líderes, participou e influenciou nas mudanças da denominação no estado catarinense. Todavia a obra escrita por esse pioneiro (com possível ajuda de seu filho) segue à risca as demais do gênero. Ou seja, o livro esta mais para uma hagiografia, do que propriamente uma biografia. Nesse tipo de trabalho biográfico as polêmicas ficam ao longe, enquanto que as virtudes são destacadas; tudo com vista a edificação dos fiéis.

A trajetória de vida e ministério do Pr. Nirton é um dos exemplos mais exatos do que ocorre na Assembleia de Deus nos dias atuais. É a história do patriarca que se converte ainda na juventude, com muito sacrifício desenvolve igrejas, passa até necessidades, e gradualmente ascende no ministério. Conforme a denominação cresce e enriquece, a família do líder se beneficia, e assim com o passar do tempo, quase todos estão de uma forma ou de outra colhendo os frutos do seu progenitor. Dos seus quatro filhos, dois são pastores de importantes igrejas no estado (sendo que um deles já conseguiu sua jubilação), outro com apoio da denominação conseguiu se eleger vereador em Blumenau, e em 2010 conquistou um mandato para deputado estadual em Santa Catarina. Um de seus genros teve uma ascensão meteórica no ministério, sendo seu vice-presidente em algumas igrejas por onde Pr. Nirton passou, e assumiu a presidência da Assembleia de Deus em Blumenau, quando o reverendo Santos se jubilou e passou a se dedicar somente a convenção estadual.

Mas nem tudo é perfeição. A transição que deveria assegurar o controle da igreja de Blumenau ao clã dos Santos se comprovou uma lastimável decisão. E essa é uma das notas do livro, e da vida do Pr. Santos que ainda lhe causam constrangimento. Sem mencionar para quem entregou a igreja, e os motivos de tal decepção, ele resume os acontecimentos com as seguintes palavras "minha família passou por um vendaval destruidor". Assegura que pagou "um preço desnecessário e a igreja enfrentou um tempo considerável de turbulências".

Para finalizar minhas considerações, parece-me que o pardal encontrou um refúgio. Mas sem dúvida, sua prole também conseguiu um excelente ninho do qual se provém com abundância. A história de vida desse pioneiro é somente um retrato fiel de várias famílias pastorais, que hoje controlam a Assembleia de Deus em todo Brasil.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ainda sobre as eleições: o perfil dos candidatos pentecostais

Ainda continuando sobre a eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, é importante destacar o perfil dos candidatos apoiados pelas igrejas, ou seja, quem a liderança buscou para fazer a representação da denominação como um todo.

Paul Freston descreve em seu livro Evangélicos na Política Brasileira, as qualidades ou as qualificações dos primeiros candidatos pentecostais. Em suma eles eram pregadores ou cantores conhecidos dos fiéis. Portanto tinham projeção eclesiástica, pois numa eleição majoritária, ter um nome já conhecido ajudava no projeto de eleição do candidato oficial. Lançar um desconhecido talvez não seria um bom negócio. Outra qualificação era a de empresário de origem humilde, mas bem sucedido na carreira profissional. Outro fator para indicação foi a ligação do pretendido candidato com a mídia evangélica.

Geralmente um candidato reunia em si duas , ou senão três dessas qualificações citadas acima. Um exemplo é o caso de Matheus Iensen. Eleito deputado constituinte em 1986 pelo estado do Paraná, Iensen atuava como empresário de mídia (controlava emissoras de rádio e uma gravadora evangélica), mantinha programas próprios  em suas rádios, e com isso, alimentava juntamente com a família, uma bem sucedida carreira de cantor sacro.

Iensen: cantor, comunicador e empresário. Qualidades de um candidato evangélico.

Certamente, uma coisa pelo menos unia a grande maioria dos candidatos: a falta de experiência política. Segundo Freston sete dos deputados pentecostais eleitos em 1986, "surgiram politicamente do nada". Esse dado simplesmente revela o caráter imediatista que as eleições tiveram para os evangélicos. O importante era a garantia da liberdade religiosa, e a defesa dos valores culturais tidos como importantes para os mesmos.

Mas outra característica, ou qualidade, a qual poderia fazer de alguém um potencial candidato oficial da igreja, seria sua ligação familiar com o principal pastor da Assembleia de Deus do estado ou região. Foi à partir desse momento, que em todo o Brasil, familias pastorais passaram a investir em seus membros como futuros candidatos. 

Não bastava mais aos líderes assembleianos constituírem seus filhos, genros ou apadrinhados no ministério da igreja. Era preciso de agora em diante, alcançar maior status; e esse status a política poderia oferecer, engrandecendo o nome da dinastia e consolidar ainda mais o poder do líder religioso, o qual era, a partir desse momento, o grande patrocinador e cabo eleitoral de seu "escolhido". Interesses de família se mesclam com interesses denominacionais. Prováveis candidaturas são desestimuladas, e potenciais líderes comunitários e sociais, ainda que pertencentes a denominação, são preteridos por projetos familiares.

Essas marcas da política assembleiana e pentecostal, ainda são visíveis em nosso meio. Cantores e pregadores com destaque no meio religioso, sem ter um projeto, ou preparação política se aventuram a cada eleição. E alguns infelizmente conseguem se eleger. Pastores de grandes igrejas lançam seus protegidos do nada, e usam seus obreiros como verdadeiros cabos eleitorais, para muitas vezes tentar o êxito de um desconhecido na eleição. Felizmente muitos naufragam nessa tentativa.

Com algumas modificações e particularidades, ainda é esse o retrato dos candidatos oficiais da quase centenária Assembleia de Deus no Brasil.

sábado, 30 de outubro de 2010

Constituição: liberdade religiosa ameaçada?

Um dos capítulos mais interessantes da história dos pentecostais é justamente a adesão desse grupo religioso a política partidária. O sociólogo Paul Freston em seu clássico livro Evangélicos na Política Brasileira: história ambígua e desafio ético trata com muita propriedade essa questão. Para o referido autor questões como a consciência de crescimento numérico, e as disputas no campo religioso por acessos e meios de fortalecimento das instituições evangélicas (esses meios seriam segundo o autor: concessões de rádio e televisão, bem como doações e verbas para as entidades filantrópicas dirigidas pelas igrejas), são um exemplo dos motivos da adesão pentecostal a política partidária. Soma-se a isso o status que a política pode dar a uma família pastoral, e o desejo dos partidos políticos de diversificarem sua clientela.

Porém, para romper com as resistências históricas de um povo, que não via a política dentro das igrejas com bons olhos, qual fator ou discurso se destacou naquela época?

Congresso: "ameaça" à liberdade religiosa impulsionou a eleição dos pentecostais

Para Freston o discurso de "ameaça" à liberdade religiosa foi a grande justificativa das lideranças, para explicar o envolvimento das denominações evangélicas pentecostais (principalmente a Assembleia de Deus) na política. Segundo as lideranças, a Igreja Católica estaria se preparando para voltar a ser a religião oficial do país. O Mensageiro da Paz colaborava com essa informação quando divulgava notícias, nas quais em tom alarmista, deixava claro o perigo iminente que os evangélicos corriam, caso a igreja romana voltasse a ser a religião oficial do estado. Segundo o sociólogo:

"As histórias são sempre vagas e levam as marcas clássicas da boataria. Como entender tudo isso? A ideia de um retorno a uma religião oficial, quase cem anos após a separação de Igreja e Estado e sem campanha pública preparatória, é estranha. Será que os líderes assembleianos estavam totalmente alienados do momentos histórico? Ou era a manipulação cínica dos fiéis em função de objetivos inconfessáveis? Ou devemos entender "liberdade religiosa" como código para algo maior e mais ancorado na realidade?" (FRESTON 1994: 65)

Robson Cavalcanti também corrobora esse raciocínio em seu livro Cristianismo e Política: teoria bíblica e prática histórica ao afirmar que "Durante a campanha de Constituinte a maioria dos candidatos evangélicos pediam que os elegessem para "garantir a liberdade religiosa", que em nenhum momentos esteve ameaçada".

Pode ser que as lideranças realmente acreditaram na versão da "ameaça à liberdade religiosa", pois a história do pentecostalismo no Brasil, é recheada de perseguições. Nos primeiros anos de sua existência, os pentecostais tiveram muitos de seus líderes e membros presos, suas igrejas forma apedrejadas e depredadas. E muitas dessas perseguições eram movidas por sacerdotes católicos ou membros do catolicismo. Nesse período eleitoral vários dos pioneiros ainda eram vivos, e as lembranças das dificuldades dos primeiros anos permanecia.

A falta de sintonia dos líderes assembleianos com o momento histórico é simplesmente um reflexo da pobre formação cultural e política dos mesmos. Muitos deles, analfabetos, aprenderam a ler na Bíblia. Como muitos dos brasileiros de hoje, não entendiam as estruturas políticas e sociais do Brasil. Facilmente se alarmavam com qualquer coisa que ameaçasse seus direitos e privilégios religiosos, conquistados a duras penas durante tantos anos.

Pode ser que o discurso da "ameaça à Liberdade religiosa" foi uma invenção, ou exagero de alguns partidos políticos para a adesão dos evangélicos, e principalmente dos pentecostais a um envolvimento direto nas campanhas políticas. Ao entrevistar pessoalmente algumas lideranças catarinenses ou membros mais antigos sobre o assunto, percebe-se que era realmente esse o receio dos crentes: o medo das restrições religiosas que uma nova Constituição poderia trazer. Então eleger representantes para a nova Carta Magna se tornou um imperativo naquele momento.

Mas passados alguns anos das eleições legislativas que marcaram a entrada dos assembleianos (e pentecostais em geral) na política partidária, o que se percebe é um silêncio sobre essa questão. Obras recentes da Casa Publicadora das Assembleias de Deus no Brasil passam ao largo dessa polêmica.

Exemplo mais marcante desse silêncio é o do Dicionário do Movimento Pentecostal escrito e organizado por Isael de Araújo. Apesar de no verbete Política o autor "copidescar" trechos quase que inteiros de livros e textos dos mais variados autores sobre a inserção dos pentecostais na política, em nenhum momento se refere a "ameaça" da liberdade religiosa como impulso das candidaturas assembleianas a Constituinte. O autor chega a afirmar que somente em 2001 com a criação do projeto "Cidadania AD Brasil" é que a denominação se organizou nacionalmente para eleição de parlamentares ligados a mesma, "esquecendo" assim de mencionar o grande esforço de 1986.

Resta saber o porque desse aparente "esquecimento"? Será que os rumos tomados pela denominação nas questões políticas teriam tornado o discurso da "ameaça" à liberdade religiosa, assumido naquele momento pela cúpula assembleiana, algo totalmente obsoleto e digno de ser apagado da sua história?

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A Assembleia de Deus e eleições: 1986 um ano decisivo

Uma das notícias mais comentadas nos meios de comunicação a cada eleição legislativa, é o aumento, ou a diminuição da chamada "bancada evangélica" no Congresso Nacional. Nesse ano de 2010, verificamos que o número de parlamentares evangélicos aumentou, saltando de 43 para 71 congressistas.

A Assembleia de Deus maior igreja protestante e pentecostal do Brasil, fez jus ao seu gigantismo, e agora na proximidade do seu centenário, conseguiu eleger (ou em alguns casos reeleger) 23 deputados federais, superando assim as dificuldades da eleição legislativa de 2006, quando vários de seus representantes não conseguiram a reeleição.

Mas como será que a maior denominação evangélica do país se comportava em matéria de política partidária  há alguns anos atrás?

Segundo alguns estudiosos, a origem estrangeira dos missionários suecos que fundaram a Assembleia de Deus no Brasil, a baixa condição social dos seus membros nas primeiras décadas de sua expansão e as perseguições ferrenhas enfrentadas, teriam sido alguns dos fatores para seu apolitismo institucional durante muitos anos. Afinal, a luta dos primeiros crentes era pela sobrevivência, suportando as perseguições e esperando a volta de Cristo para qualquer momento. Não se pensava em outras conquistas ditas "mundanas", incluindo o poder político.

Porém alguns membros se destacaram na seara política. O caso mais notável é o de Antônio Torres Galvão, o qual construiu uma carreira política interessante em Pernambuco, tendo chegado a ocupar a chefia do governo desse estado por alguns meses em 1952. Outro exemplo é o de José Fernandes, o primeiro membro da Assembleia de Deus a chegar ao Congresso Nacional em 1978 pelo estado do Amazonas.

Mas a grande entrada e mobilização das Assembleias de Deus na arena política tem um ano como marco: 1986. Nesse ano, os cidadãos brasileiros elegeram a nova Assembleia Nacional Constituinte, que teria a responsabilidade de formular uma nova Carta Magna para o país. Estaria em jogo, segundo os líderes evangélicos em geral, a liberdade de culto e religião, a qual somente seria assegurada com uma ampla mobilização e eleição de representantes para atuar na constituinte.

Constituição: sua mística garantiu a eleição de muitos pentecostais 

Cada convenção estadual ou regional das Assembleias de Deus no Brasil, escolheu ou apoiou candidatos, e realmente se mobilizou para a eleição dos mesmos. O esforço conjunto foi um sucesso, pois dos 32 deputados evangélicos eleitos, 14 eram assembleianos. Porém na eleição seguinte, sem "a mística da constituinte" como bem afirmou Freston, e com maior concorrência e desilusões por parte do eleitorado protestante, o número de deputados ligados a denominação (e aos evangélicos em geral) caiu drásticamente. Em 1990 a Assembleia de Deus somente conseguiu reeleger 5 dos deputados da legislatura de 1986, e 4 conseguiram assumir como suplentes.

Com o maior número de candidaturas por parte de seus membros a cada eleição, e as consequentes derrotas dos chamados chamados "candidatos oficiais", a liderança assembleiana chegou a lançar em 2001 o projeto político "Cidadania AD Brasil". O projeto estimulava em linhas gerais, a candidatura de políticos comprometidos com a igreja, e procurava fortalecer através dos mesmos, a influência da instituição nos rumos políticos do país. Como resultado desse esforço institucional a Assembleia de Deus conseguiu eleger em 2002, 22 deputados. Porém com a CPI dos "Sanguessugas" (a máfia das ambulâncias), e o envolvimento de alguns parlamentares evangélicos (muitos deles assembleianos), o número de parlamentares pertencentes a denominação caiu para 9 nas eleições de 2006.

Agora em 2010, a Assembleia de  Deus voltou a eleger um número significativo de congressistas. Porém algumas questões levantadas por estudiosos do tema, ainda continuam atuais. Quais motivos realmente incentivaram as igrejas e seus líderes a lançarem candidatos próprios? E o mais importante: quem são na sua maioria os candidatos oficiais da denominação? Mas esse é um assunto para se discutir nos próximos textos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Uma visita histórica na CGADB de 1959

A CGDB de 1959, realizada na Assembleia de Deus em São Cristóvão (RJ), foi marcada por uma visita ilustre. Os convencionais receberam a visita do então ministro da Guerra, o marechal Henrique Dufles Teixeira Lott. Segundo o escritor Silas Daniel em seu livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CPAD 2004), essa "visita foi considerada histórica porque foi a primeira vez que uma autoridade pública do alto escalão do estado visitava a Convenção Geral". 

Ainda segundo Daniel, a visita "teve um significado enorme para os convencionais", pois a igreja estava sofrendo perseguições por parte de líderes católicos, os quais mantinham um vínculo muito estreito com as autoridades brasileiras. No registro de seu discurso na CGADB, o marechal cita suas "origens evangélicas de sua ancestralidade", e promete que a "liberdade será por ele defendida a todo o transe e os crentes gozarão de todas as garantias que a lei prescreve na Magna Carta".

Mas a visita de Lott pode ter tido também uma outra intenção. No ano seguinte (1960), ele concorreria a presidência da república. Usando como símbolo uma espada, seria derrotado por Jânio Quadros; o qual por sua vez utilizaria uma vassoura como símbolo de campanha.

 Lott com alguns pastores: atrás se encontra o pastor Satyro Loureiro (de óculos)

Essa visita, pode ser também considerada como um indício, já naquela época, de que os crente não eram vistos apenas como uma massa de religiosos ignorantes, mas também como um forte reduto eleitoral. Num regime democrático, o voto, tanto de católicos, como de evangélicos é alvo de grande disputa. 

Seria o marechal Lott o precursor dos atuais candidatos a presidência (ou qualquer outro cargo), que nos dias de hoje lutam por conseguir a preferência dos evangélicos nas urnas?

Momento em que Lott fala aos convencionais

As fotos que ilustram essa postagem, foram gentilmente cedidas pela família do pastor Satyro Loureiro (in memórian). O livro História das Assembleias de Deus, trás algumas imagens dessa convenção, mas essas fotos são preciosidades conservadas pela família desse grande pioneiro do evangelho em terras catarinenses.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Assembleia de Deus e a Revolução Cultural

Um dos momentos mais interessantes da História das Assembleias de Deus no Brasil foi o encontro da CGADB ocorrido em 1968 na cidade de Fortaleza, Ceará. Segundo o escritor Silas Daniel no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil “os reflexos da Revolução Sexual já atingiam as igrejas, preocupando os convencionais”. As discussões começaram por um pastor catarinense; Satyro Loureiro, que perguntou: “Qual a atitude das Assembleias de Deus no Brasil em relação às minissaias e aos cabeludos que estão tentando invadir as igrejas?”

Não é preciso dizer que nas páginas seguintes os debates foram intensos, sobrando até para o respeitável Mensageiro da Paz, órgão oficial da igreja, pois segundo um pastor, estaria o MP publicando em suas matérias “fotografias de moças e senhoras com vestidos curtos e cabelos com penteados fora do comum”. Como não poderia deixar de ser, as deliberações dos convencionais foram de condenação aos “costumes mundanos”, e de maior rigor nesses casos.

 Anos 60: transformações na sociedade, sentida até  nas Assembleias de Deus

Entrou também na pauta dessa convenção o uso de anticoncepcionais. A pergunta surgiu do pastor Álvaro Motta que questionou: “Qual a posição das Assembleias de Deus no Brasil com relação ao uso das pílulas anticoncepcionais, com finalidade de controlar a natalidade, ou melhor, limitar o número de filhos? Devemos permitir ou não?” Segundo Daniel o “plenário se manifestou em peso contrário ao uso de anticoncepcionais”.

É interessante observar esses debates, pois através deles, podemos analisar as pressões sociais que viviam os membros das Assembleias de Deus no Brasil. Os anos 60 foram de profundas mudanças no mundo capitalista e ocidental. Grandes transformações culturais estavam perpassando toda a sociedade e influenciando a música, moda, comportamento e sexualidade. A descoberta e a comercialização da pílula anticoncepcional estava revolucionando as práticas sexuais, onde até então, o sexo era visto simplesmente como meio de reprodução e não de prazer. O anticoncepcional dava à mulher a oportunidade de uma relação sexual mais livre e sem medo de uma gravidez indesejada. 

Pode-se perceber que justamente no auge desses anos de mudanças mundiais, a igreja sente em seu interior a influência de tais transformações. Está implícito no texto, que os membros, principalmente os mais jovens, estavam aderindo a essas mudanças. Ou seja, os pastores percebiam que seus membros não estavam imunes ao “mundo”, mas desejavam como parte da sociedade da época seguir as tendências do momento.

É comum ao ler essas deliberações da CGADB, julgar os líderes assembleianos com as informações que dispomos hoje, e taxá-los de atrasados ou coisa parecida. Devemos sempre lembrar que os pastores eram homens na sua maioria de origem rural, com pouco grau de instrução e fortemente apegados aos valores conservadores da sociedade vigente. A sociedade também era conservadora. Não eram só os pentecostais que condenavam as modas e costumes gerados durante os anos 60. Não eram só os assembleianos que condenavam o uso de anticoncepcionais, mas grande parte do corpo social no qual estavam inseridos. Tanto é assim, que nas leituras sobre os debates, alguns pastores se utilizavam de artigos escritos por não evangélicos para reforçar seus pontos de vista.

O único problema talvez seja que, enquanto as mudanças avançaram na sociedade, as Assembleias de Deus se fecharam, continuando numa postura ultraconservadora, e assim perderam muitos membros nascidos ou criados nessa geração, durante ou pós 68.

domingo, 18 de julho de 2010

Algumas curiosidades da história assembleiana

Meu propósito é pontuar algumas curiosidades históricas da Assembléia de Deus no Brasil. As informações aqui contidas nesse post estão disponíveis no livro História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil (CPAD 2004). Apenas estarão inseridos alguns comentários procurando contextualizar alguns fatos para que o leitor possa entender as razões de certas decisões ou debates.

Na Convenção Geral de 1937 os convencionais desaprovaram uma proposta do missionário sueco Algot Svenson, líder da Assembléia de Deus em Belo Horizonte, de criar hospitais evangélicos em parceria com outras igrejas. A proposta foi rejeitada, pois entendiam os pastores que a função da igreja de Cristo deveria ser exclusivamente espiritual. Acreditavam ainda que a construção de hospitais fosse uma contradição à fé pentecostal, pois os enfermos deveriam antes de tudo receber orações e serem curados.

Ainda na mesma convenção foi discutida pela primeira vez a utilização do rádio como forma de evangelização. A proposta partiu de Albert Widmer, que na época trabalhava como missionário no estado de Santa Catarina. A convenção decidiu aprovar a utilização do rádio como forma de evangelização, mas não a liberação para os fiéis terem um aparelho em casa. O rádio na época era o grande meio popular de comunicação, que desde seu início no Brasil em 1922 ia ganhando cada vez mais espaço nos lares da nação. A programação radiofônica que no inicio era cultural, foi se transformando, e voltada para as massas, buscava nas músicas populares e programas de auditório maior retorno comercial. O samba, as programações esportivas e as novelas (radio novelas) representavam o secular e o mundano para os crentes desse tempo. O rádio foi sem dúvida nesse período, o que a televisão foi há alguns anos atrás para os assembleianos, um verdadeiro “bicho papão”. Ou seja, quem tinha um deles em casa, já estava fora da comunhão.

Nessa mesma convenção foi discutido sobre o uso da cruz nas fachadas dos templos assembleianos espalhados pelo Brasil. Em sua resolução a convenção decidiu pela não utilização, pois no contexto brasileiro a cruz tem um forte apelo idolátrico e supersticioso. Como alternativa a maioria das igrejas adotou textos bíblicos nas fachadas das igrejas, ou dentro delas. O interessante é que, se a cruz foi rejeitada e ainda não é utilizada como símbolo religioso, a proliferação de candelabros e símbolos ligados a fé judaica são uma constante nas igrejas assembleianas. Isso também não seria uma forma velada de superstição? Ter um símbolo judaico deixa a igreja mais abençoada? É bom refletir sobre a utilização desses símbolos nas igrejas e sua finalidade também.

A Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD) foi fundada em 1940. Nos anos seguintes, a CGADB, fez um grande esforço para concretizar o objetivo de tornar a CPAD uma empresa viável em todos os sentidos. Na convenção nacional de 1947 se discutiu o local de instalação da empresa. Logo se percebe como as preferências ficaram divididas entre as cidades do Rio de Janeiro (capital federal nesse período) e São Paulo. Preferências à parte, o certo é que o Rio de Janeiro ficou sendo o local de instalação da Casa Publicadora. Mas, o interessante foi o comentário do escritor e funcionário da CPAD Emílio Conde. Segundo ele:


A opinião de pessoas experimentadas apontam para São Paulo como o local apropriado para as instalações, em face de diversos fatores, tais como: grande centro industrial, facilidade em aquisição de matéria prima, rendimento do trabalho manual em conseqüências do clima etc.



São Paulo: segundo Emílio Conde teria maior "rendimento do trabalho manual".


Parece uma coisa esquisita, mas não era. Observar esses fatores como o “rendimento do trabalho manual em conseqüências do clima”, foi algo que o grande empresário e editor Victor Civita fez ao chegar ao Brasil e fundar a Editora Abril em 1950. Segundo o jornalista Mario Sérgio Conti em seu livro “Notícias do Planalto”, Victor Civita teria escolhido São Paulo como local apropriado para sua empresa, ao invés do Rio, pois para Civita os paulistas seriam mais empreendedores, ou seja, pegavam no “batente” mesmo.

sábado, 22 de maio de 2010

Um editorial histórico e polêmico

No ano passado o Centro Evangélico de Educação e Cultura (CEEDUC) recebeu uma preciosa doação. A irmã Ady Lopes, conhecida historiadora e memorialista da Assembléia de Deus em Joinville, doou exemplares da revista evangélica “A Seara”. Entre os exemplares doados encontramos as primeiras edições da revista (fundada em 1957), e edições das décadas de 60, 70, 80 e 90.

Capa da revista: em seus primeiros anos causou polêmicas dentro das Assembleias de Deus
Para quem gosta de navegar nas páginas do tempo, as revistas oferecem um excelente panorama das Assembléias de Deus no Brasil. As primeiras edições são as mais emblemáticas, pois conforme registros, a “A Seara” foi criada para tentar quebrar certos paradigmas dentro da denominação. 

E é através de seus artigos e reportagens que se percebem as tensões internas de uma denominação em franco processo de crescimento e consolidação no território nacional.

Esse editorial escrito pelo saudoso pastor João Pereira de Andrade e Silva fala por si só. Aponta falhas no consagrado método de ensino assembleiano, e como se diz popularmente “cutuca” as lideranças com observações, que revelam bem as carências e os desejos de muitos obreiros por um ensino teológico mais qualificado.

Reproduzo o editorial publicado na revista “A Seara”, dos meses de julho à agosto de 1957.

Escola Bíblica, Instituto ou Seminário?

Por João Pereira

Em quase todas quinzenas do “Mensageiro da Paz”, lemos “convites” para Estudos Bíblicos que se realizam em diversos pontos do território nacional. É um hábito seguido pelas Assembléias de Deus, desde os primórdios do Trabalho Pentecostal, no Brasil. De um modo geral, tem sido uma benção, não somente para os obreiros como para as igrejas. Os ministros e cooperadores que a esses “Estudos” comparecem num verdadeiro espírito de “estar a sós com o Mestre”, são beneficiados. Todavia, o grandioso desenvolvimento da Obra Pentecostal neste país, está exigindo um sistema melhor de ensino e exposição da Palavra de Deus, o que em outros termos quer dizer, uma concatenação melhor (ou assuntos) sejam explanados com mais clareza, para maior aproveitamento daqueles que os assistem.

As reuniões de “Estudos Bíblicos”, como estão sendo realizadas, atuam mais como fator de comunhão entre “Obreiros”, numa emulação constante daqueles que tem dedicado suas vidas ao Santo Ministério, mas não satisfazem plenamente ao ponto de vista pedagógico, porque é ínfimo, o rendimento do aprendizado dos que participam dessas reuniões. Acontece muitas vezes a ocorrência de falta de professores ou doutrinadores em condições de satisfazerem às necessidades dos “alunos”. Quanto à escassez do tempo, é notória. Pois, há reuniões com a duração de três ou quatro dias... Como poderá um professor (ou doutrinador) desenvolver um tema ou “assunto” que o Espírito Santo lhe houver concedido para expor aos eventuais “alunos”? – E o resultado, são lacunas que todos conhecemos. Uns confundem Doutrina Bíblica com costumes. Outros continuam a dizer: no “campo” onde trabalho a “doutrina”, é assim. Quando o certo deve ser, a Doutrina segundo a Bíblia, a Palavra de Deus. E isso se dá justamente por falta de ensino. E falta ensino ou Doutrina, não por carência de doutrinadores nas Assembléias de Deus. Eles aí estão graças a Deus. Muitos, com chamados para esse Ministério importante.

Têm surgido nos últimos anos, “Escolas Bíblicas” em várias regiões do Brasil, mas, também, de um exíguo período. O ciclo dessas “Escolas Bíblicas” é pequeno, quando muito funcionam durante trinta dias, por ano. Algumas são freqüentadas até por trezentos “Obreiros”, no entanto os “alunos” chegam em tempos e semanas diferentes. Uns chegam no início e saem no meio, outros no meio e viajam na semana seguinte. Não podem, com raras exceções, freqüentar o tempo suficiente, para melhor assimilação dos ensinos apresentados pelos professores. No término da Escola, todos saem “alegres”, mas com pouco aproveitamento de essencial que foi ensinado.

Não queremos menosprezar as “Escolas Bíblicas” ou reuniões de Estudos Bíblicos, como estão sendo realizados. O que desejamos deixar claro é que não estão satisfazendo plenamente, dado o crescimento do Trabalho do Senhor.
O que as Assembléias de Deus, precisam, e com urgência, é criar e organizar uma Escola Bíblica, permanente, que deverá ser instalada sem mais delongas, por uma necessidade inadiável. O trabalho das Assembléias de Deus, o seu desenvolvimento causa admiração a todos. Por isso mesmo, está a exigir a criação imediata da Escola Bíblica, permanente, aqui no Rio ou outra região de fácil acesso aos interessados. Nessa escola deverão ser ministradas as principais doutrinas, e, tanto quanto possível, outras matérias de conhecimento gerais. Uma Escola Bíblica onde possa haver um verdadeiro congraçamento dos Obreiros, produzindo como resultado um maior entendimento ministerial. Os professores, nós os temos. É uma questão apenas de proceder-se a uma seleção dos abalizados servos de Deus, antigos Obreiros experientes, e outros, ainda jovens, mas com a chamada e capacidade para o desenvolvimento de tão importante missão. 

Naturalmente, não aceitamos nem estamos defendendo o princípio de que somente “passando” pela Escola Bíblica, se poderá ser Pastor. Não, em absoluto. Ninguém deverá ir a escola Bíblica para “sair” Pastor. Porém, deverá freqüentá-la, estagiando por um prazo mínimo de seis meses, justamente por ser vocacionado e, talvez, já consagrado ao Santo Ministério. Cremos, segundo a palavra de Deus, que o Senhor é quem chama e envia. A Escola será o lugar onde aqueles que foram chamados pelo Senhor, terão oportunidade de receber melhor conhecimento da Doutrina Básica e de comezinhos princípios tão necessários àqueles cujas vidas tem sido postas nas mãos do Senhor, para a Obra do Ministério.

A criação de uma Escola Bíblica, permanente, trará grandes benefícios, sanando falhas existentes em nosso meio.

Sendo um trabalho das Assembléias de Deus, no Brasil, um dos maiores trabalhos Pentecostais do mundo, não podemos atinar com o motivo porque ainda não foi criada a Escola Bíblica, permanente. O trabalho Pentecostal, na Suécia é tomado por alguns como modelo para o nosso aqui no Brasil, entretanto, neste particular, isto é, na criação de uma Escola ou Instituto, não quiseram seguir o seu exemplo. Há na Suécia, próximo a Estocolmo um Instituto Bíblico, a famosa “KAGGEHOLM”, onde missionários que são chamados para trabalhar fora, em países estrangeiros, fazem um estágio, um período de preparação. E nessa escola Bíblica (ou Instituto) em Estocolmo os candidatos a missionários estudam além da Palavra de Deus, línguas, e até química... Há, também em Chicago, Estados Unidos, um Instituto pertencente ao trabalho sueco naquele país, onde são ministrados todas as matérias relacionadas com a doutrina bíblica e conhecimentos gerais.

Ora, se as Escolas (ou Institutos) tem sido uma benção para os irmãos na Suécia e nos EE.UU., por que não serão também no Brasil? Lá constituem uma benção, aqui no Brasil?... Serão os Obreiros inferiores? Cremos que não. Pois um grande educador, diz: “As divergências de cultura decorrem das oportunidades desiguais em desenvolvê-las”. E nós afirmamos que o fato de um povo habitar esta ou aquela região do globo não implica absolutamente em superioridade ou facilidade de assimilação dos indivíduos que o compõem. “De maneira alguma se pode avaliar, à justa, a cultura de um povo pelo ambiente fisiográfico”. Portanto, com a graça de Deus, todos os fatores contribuem para que criemos sem mais detença, a Escola Bíblica, permanente. Tudo para honra e glória do Senhor Jesus Cristo!

sábado, 27 de março de 2010

O Mito Fundador e as Assembleias de Deus no Brasil

Há três anos atrás, alguns blogs e postagens fizeram propaganda sobre o lançamento do selo comemorativo do centenário das Assembleias de Deus no Brasil. O selo possui a logomarca oficial do centenário, porém em forma de um quebra-cabeça, querendo assim demonstrar o grande mosaico que é a denominação, composta de vários ministérios e convenções. No selo aparecem ainda quatro mãos que ajudam a montar o quebra-cabeça, o qual significa a unidade dos diversos segmentos da denominação em torno do centenário.

A iniciativa é louvável, e o selo é realmente um símbolo da realidade de uma denominação que a cada dia que passa mais se fragmenta em ministérios e convenções concorrentes entre si, tendo à única coisa em comum o nome: Assembleia de Deus. 

Mas, não é só o selo comemorativo que simboliza a tentativa de unir facções assembleianas em torno de tão aguardada data. Já há algum tempo, a história da denominação tem sido um instrumento para de alguma forma, unir as igrejas em torno de objetivos comuns. Chamo à atenção para o “mito fundador” que se evidencia na história assembleiana. Estes atendem pelo nome de pioneiros ou missionários suecos, ou mais especificamente Daniel Berg e Gunnar Vingren. 

Berg e Vingren: ícones de uma igreja fragmentada

Quando se fala de mito, logo nos vem em mente a ideia de uma narrativa imaginária e fantástica de um acontecimento, ou seja, uma história fictícia. O chamado “mito fundador” (ou mito fundante por outros autores) é um conceito usado pela escritora Marilena Chauí não no sentido que se habitualmente se conhece e usa, mas no sentido antropológico “no qual essa narrativa é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade”.

Segundo a autora o “mito fundador” impõe um “vínculo interno com o passado de origem, isto é, com um passado que não cessa nunca, que se conserva perenemente presente...”. (CHAUI 2000 p.9)

Alguns exemplos do mito fundador em nossa sociedade são: Descobrimento do Brasil, os Bandeirantes, Proclamação da República, entre outros. Esses acontecimentos são fatos históricos reais, porém são utilizados de forma grandiosa e mítica para legitimar a nossa cultura ocidental e européia, justificar o genocídio dos indígenas, e principalmente entre outras coisas, assegurar o status quo de um determinado grupo no poder.

Assim a cada ano que se passa, o mito sueco mais se faz presente no contexto assembleiano. Seja para legitimar lideranças, doutrinas e costumes, ou para conclamar a união de todos os ministérios, pois afinal de contas todos os assembleianos têm nos suecos sua origem espiritual comum. Basta verificar como a imagem dos pioneiros escandinavos é usada nos históricos das igrejas e convenções. 

O que essa supervalorização dos missionários suecos esconde na verdade, são as contradições e os muitos embates que houve entre eles e os pastores brasileiros durante os primeiros anos, e o período de formação das Assembléias de Deus no Brasil.

Basta uma leitura atenta para os livros de história da Assembleia de Deus no Brasil lançados pela própria CPAD, para perceber como os pastores brasileiros pressionaram os suecos  em 1930 e exigiram uma maior participação nas decisões dentro da denominação. O risco de um cisma ficou tão evidente, que Vingren foi buscar Lewis Petrus para mediar a primeira Convenção Geral.

No livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil é relatado um intenso debate ocorrido em 1947 entre as lideranças sobre a “superioridade dos missionários”. Nessa convenção ficaram evidentes as tensões entre os pastores nacionais e os suecos, pois as questões debatidas foram justamente sobre a liderança e pastorado dos escandinavos nas igrejas brasileiras. O desconforto e ressentimentos são visíveis em cada colocação de ambos os lados.

Em toda a sua história, fica também evidente que a formação de ministérios e convenções da Assembleia de Deus, teve origem no nacionalismo de certos líderes, que procuravam distinguir suas igrejas das dos suecos por serem elas conduzidas por pastores nacionais. Paulo Macalão e Ministério de Madureira é o caso mais conhecido.

Porém, a evidencia histórica que desmonta a excessiva valorização do mito sueco no meio assembleiano é o caso de Gunnar Vingren. Como bem observou em entrevista o sociólogo Gedeon Alencar, Vingren hoje é laureado com herói, mas foi voto vencido em todos os seus projetos (principalmente na questão do ministério feminino na igreja).

É realmente uma ironia da história que, hoje os suecos sejam aclamados, celebrados e relembrados para se manter a união dos ministérios (como disse Chauí sobre o mito fundador: é o passado que não cessa, é o vínculo), mas anteriormente eles foram a causa do inicio da fragmentação denominacional.

É lógico que a formação dos primeiros líderes se deve a esses homens. Até hoje a denominação carrega suas marcas. Porém na proximidade do centenário, com sua evidente e escandalosa fragmentação, a liderança procura de alguma forma “resgatar” símbolos, ícones e heróis para que - ainda que precariamente - manter uma unidade e legitimar sua liderança, a qual vive em processo de antropofagia.

Somente uma breve e irônica observação: se fosse escolher um símbolo, escolheria a Torre de Babel para representar as Assembleias de Deus no Brasil.

CHAUI, Marilena. Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2000.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

 gracaplena.blogspot.