quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ensino teológico na AD em SC - oportunidade e oposição

O ensino de teologia sempre foi um tema marcado pela discórdia dentro das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil. Desde a CGADB de 1943, até meados da década de 1970, o debate sobre a necessidade de instrução teológica formal gerou discussões veementes. Para além das questões aparentes, Claiton Pommerening aponta em sua tese de doutorado "Fábrica de pastores", (referência pejorativa dada aos institutos bíblicos) a problemática das "relações de poder entre norte-americanos e suecos" que permeavam essas questões.

Em meio aos embates nesse período, João Kolenda Lemos e sua esposa Ruth fundaram o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, em Pindamonhangaba no interior de São Paulo, em 1958. João Kolenda era sobrinho do missionário John Peter Kolenda, que por sua vez foi árduo defensor da criação dos seminários teológicos.

J. P. Kolenda, Virgil Smith e Orlando Boyer (este por bem menos tempo) foram os missionários dos EUA que trabalharam por anos nas ADs em Santa Catarina. Eles construíram templos, organizaram a convenção estadual, a Caixa de Evangelização e a Caixa de Socorro de Obreiros (uma espécie de aposentadoria e ajuda para os ministros aposentados e viúvas de pastores).

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas em pé, multidão e atividades ao ar livre
Kolenda com o ministério catarinense na década de 1950

Todas as estratégias dos norte-americanos renderam muitos frutos para a AD catarinense. Mas a tentativa de implantação de um instituto bíblico na década de 1950, no estado não prosperou. Esse é um capítulo pouco conhecido da história da AD em Santa Catarina e reflete muito bem o clima de disputas entre os obreiros nativos e os missionários do exterior.

Ismael Santos em seu livro "Raízes da nossa fé" destacou o fato de Kolenda ter sempre a "preocupação com o treinamento teológico sistematizado dos obreiros cristãos". Virgil Smith na mesma linha, ministrou aulas de Cristologia, Geografia Bíblica e Bibliologia aos professores da Escola Dominical da AD em Joinville. Não por acaso, os dois aparecem nos registros da CGADB como grandes defensores do ensino teológico.

Coerente com a causa pela qual lutava, Kolenda projetava fundar um instituto bíblico em Santa Catarina. Seria o primeiro no Brasil. As cidades de Joinville, Brusque e Blumenau eram cotadas para receber o seminário, mas J.P. esbarrou na oposição da mesa diretora da convenção de pastores de Santa Catarina, na época presidida pelo pastor João Ungur. 

Eufemisticamente, Santos relatou que "parte da liderança não estava preparada" para a criação de um seminário. Porém, o fato é que ao se discutir a implantação de um instituto bíblico, gerou-se um exaltado debate, onde até mesmo "sonhos de sentido pejorativo que alguns pastores catarinenses tiveram com J.P. Kolenda" foram considerados contra a proposta do missionário. Pommerening destacou, que "a experiência" se sobrepôs "à racionalidade".

Ironicamente, Kolenda e seu amigo João de Oliveira usaram a mesma tática na CGADB de 1966, em Santo André/SP, quando em meio aos debates sobre os institutos bíblicos, Oliveira testemunhou sobre a sua morte, a oração de Kolenda em seu favor e sua ressurreição. Ao narrar os acontecimentos, o pastor João, que era líder da AD em Pindamonhangaba, um dos professores do IBAD e o principal fiador da instalação do IBAD na cidade, tentava derrubar preconceitos sobre o seminário.

Infelizmente, o dinheiro que seria utilizado na criação do seminário em Santa Catarina foi destinado para a obra na Alemanha que estava devastada pela Segunda Guerra Mundial e para onde Kolenda foi trabalhar depois de deixar o Brasil. Contam os obreiros mais antigos, que posteriormente a liderança se arrependeu da atitude tomada, porém, Kolenda avisou que a oportunidade havia passado e não teria mais volta.

Talvez, esse sentimento de pesar manifestou-se duas décadas depois pelo pastor Satyro Loureiro na Curso de Aperfeiçoamento de Professores de Escola Dominical (CAPED) realizado em Itajaí, em 1976. Loureiro como orador dos formandos do curso, expressou a gratidão por tão ricos ensinamentos ministrados e confessou: "lamentamos profundamente que CAPED não tenha chegado até nós trinta anos atrás".

Grande parte dos obreiros que participou da reunião onde a proposta de Kolenda foi rejeitada na década de 1950, estava presente no CAPED em Itajaí. As palavras de Satyro seriam um mea culpa do ministério catarina? 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

POMMERENING, Claiton Ivan. Fábrica de pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal. 2015. 219 f. Tese (Doutorado em Teologia) - Faculdades EST, São Leopoldo, 2015.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinqüentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

Mensageiro da Paz, ano 46, número 06, 1976.

2 comentários:

  1. A epoca em que os obreiro e os crente de modo geral acreditavam na unção da palavra de Deus, qualquer interferância liturgica era considerado uma blasfemia á vontade de Deus falar com o seu povo, dos anos 60 a 70, me lembro com muita clareza que os crentes eram mais fieis na doutrina da palavra

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  2. Sinto muita saudades da igreja dos anos 60, época em que os obreiros e os crentes de moda geral eram mais fiéis as doutrinas da palavra, e qualque interferência liturgica era considerada uma blasfemia a vontade de Deus na vida dos crentes, sou grato a Deus por fazer parte da velha igreja, em que o crente é crente para ir para o Céu.

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