sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Manoel de Mello - entre a AD e O Brasil para Cristo

"Um homem aparentemente comum, baixo, quase gordo e de voz potente" com a capacidade de reunir cerca de 30 mil pessoas na cidade de São Paulo, sendo "a maioria delas doente, à procura de lenitivo para seus males físicos". Assim a Folha da Manhã descreveu o missionário Manoel de Mello da Silva (1929 - 1990) fundador e líder da Igreja O Brasil para Cristo (BPC) em seus dias de glória nos 50.

Natural de Água Preta, cidade da Zona da Mata pernambucana, região conhecida pelas revoltas e guerras do período imperial e, como aponta o hino municipal, "Altiva por ter ilustres filhos", entre eles o mítico missionário pentecostal líder da BPC, considerado pelo estudioso Paul Freston "a sensação religiosa dos anos 50 e 60."

Criado na conservadora AD e membro de uma família de nove irmãos, Manoel se tornou menino-pregador em sua terra natal. Com sete anos de idade ao ouvir uma desconhecida profetizar que "ele edificaria o maior templo evangélico do mundo", convenceu-se de sua predestinação ao sucesso. A lembrança dessa mensagem talvez tenha sido o grande impulso para superar os obstáculos que ainda estariam por vir.

Manoel de Mello: sensação religiosa do anos 50 e 60

Em 1947, como milhares de nordestinos na esperança de uma vida melhor e próspera, mudou-se para São Paulo onde trabalhou na construção civil chegando a ser mestre-de-obras. No campo religioso atuou como diácono na AD paulista que na época era liderada por outro nordestino: Cícero Canuto de Lima. Cícero estava na cidade havia um ano e liderava com rigidez a igreja. O veterano obreiro era um dos representantes máximos do que o sociólogo Gedeon Alencar denominou de tradicionalização assembleiana. Ou seja, eram "contra 'fábricas de pastores' (seminários), o uso do Rádio e TV", e mais: "zelosos da doutrina; conservadores da tradição, preservadores do poder. De seu próprio poder."

Dessa forma, o personalismo do recém chegado pernambucano sob a tutela de Cícero não poderia ir longe. Sobre a saída do fundador da BPC da AD, Freston afirmou que Mello "sentia-se limitado pela metodologia assembleiana". A revista Veja em matéria dos anos 80, fala do desentendimento do missionário com a "hierarquia da denominação quando resolveu ampliar sua autonomia de voo".

Muitos anos depois, em entrevista à Folha de SP, Cícero afirmou ele mesmo ter expulsado Manoel de Mello da AD. Na visão do patriarca, Mello (e Davi Miranda) estavam apenas "comercializando e abusando da fé de milhares de crentes, sem a mínima consideração e sem o mínimo respeito para com Deus." A declaração do pastor do Belenzinho feita décadas depois da ruptura, dá ideia do incômodo sofrido pela concorrência das novas vertentes pentecostais surgidas no período.

Nesse contexto, o presidente do Ministério do Belém apenas procedeu como a grande maioria dos líderes das ADs da época. Qualquer sinal de independência por parte de algum subordinado era tratada como rebeldia e o "aventureiro" era sumariamente excluído. As argumentações de Cícero refletiam as convicções teológicas dos pioneiros. Não era a oração em si que curava, mas a fé em Deus, por esse motivo Manoel de Mello não teve a aceitação devida e foi expulso.

Com a saída da AD, Mello aderiu a Cruzada Nacional de Evangelização. Trabalhou com os norte-americanos fundadores da Cruzada, e com o seu testemunho de cura de uma grave enfermidade aliado ao seu talento para pregação, seu ministério literalmente explodiu. "Enquanto o país vencia 50 anos em cinco, um operário nordestino em São Paulo sintetizava o espírito nacionalista e populista, construindo um império religioso autônomo jamais visto até então no Brasil." analisa Paul Freston.

Em pouco tempo, com ousadia, polêmicas e sempre chamando a atenção de políticos, líderes religiosos e da imprensa, Manoel de Mello marcou o mundo evangélico e pentecostal da sua época. Diga-se de passagem em nada se diferenciando de outros destacados pastores, bispos e "apóstolos" da atualidade. Assunto para as próximas postagens.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

*Arquivos digitais da Folha de São Paulo

- Folha da Manhã: quarta-feira, 02 de abril de 1958 - assuntos gerais, p.9.
- Folha de São Paulo: segunda-feira, 18 de janeiro de 1982 - religião, p.15

Veja acervo digital: 07 de outubro de 1981, p.58.

Um comentário:

  1. Meu papai aceitou a CRISTO há 34 anos atrás numa IBPC lá no interior do Piaui. Hoje o serve numa Assembleia de Deus. É o Evangelho genuinamente bíblico que liberta o homem.B

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