terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Contribuições financeiras: história e atualidade

Desde que foi implantada no país, o recolhimento dos dízimos e ofertas foi uma constante nas Assembleias de Deus. Duas modalidades de contribuição financeira se consolidaram na denominação: as ofertas voluntárias e sem valor determinado, e o dízimo que é dez por cento da renda do fiel. Ambas possuem o mesmo objetivo: manutenção da obra do Senhor.

Segundo o historiador Maxwell Fajardo em sua tese de doutorado Onde a luta se travar, é no período de institucionalização da igreja, que "os apelos para a contribuição financeira aparecem vinculados à necessidade de manutenção das Igrejas e e seus instrumentos de expansão".

A história da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) mostra que a editora só foi levantada e mantida com muitas ofertas das igrejas no Brasil e do exterior, principalmente dos EUA. Mas anteriormente, os jornais Boa Semente e Som Alegre foram mantidos com ajudas financeiras avulsas.



Ainda segundo Fajardo, a obrigatoriedade dos dízimos ainda não estava definida até a década de 1950. Articulistas do Mensageiro da Paz expressavam pontos de vista diferentes sobre à clássica contribuição pentecostal. Adauto Celestino escreveu no MP que na dispensação da graça, os dízimos e ofertas "não deveriam ser impostos por lei", mas "voluntários" e dados "com alegria".

João de Oliveira, conhecido pastor das ADs em 1949, escreveu que era errado "cobrar" o dízimo, pois as contribuições deveriam ser "movimentos voluntários" do crente. Mas Celestino e Oliveira foram exceção, pois ao fim da década de 1950, o ensino sobre a obrigatoriedade dos dízimos foi "incorporado ao aparato institucional" de vez. Fajardo, identificou nesse período, a declaração de quem não contribui com seu dízimo "está roubando a Deus".

Com o advento das igrejas neopentecostais, a pregação sobre as contribuições financeiras passou de um ato de gratidão ou devolução a Deus ao de investimento (com promessa de retorno garantido). E com o tempo, a teologia da prosperidade, à princípio combatida, conseguiu adentrar nos apriscos assembleianos.

A concorrência e os projetos de expansão de muitos ministérios, fizeram que lentamente, muitos dos argumentos e métodos da teologia da prosperidade fossem adotados. Primeiro de forma sutil e depois escancaradamente. A própria pregação da obrigatoriedade do dízimo foi radicalizada. Os princípios da exegese e da hermenêutica em Malaquias 3.10 são ignorados para arrecadar mais contribuições. Implantou-se a soteorologia do dízimo.

Táticas de contribuição foram incentivadas ou inseridas: metas de arrecadação, valores iniciais para as ofertas (quem dá mil reais?), cultos de prosperidade e (para muitos o escândalo e símbolo maior da financeirização da igreja) a adoção da máquinas de cartões. Em uma igreja no norte do país, o líder, que segundo alguns "flerta com o neopentecostalismo", para bancar seus projetos, além de estimular a constante contribuição, permite arrecadações entre a celebração da ceia. Durante o ato do tomar o pão e o vinho, é arrecadado mais ofertas.

E o ímpeto de otimizar as arrecadações só cresce. Certo evangelista usa a palavra "semente" em vez de oferta. Ignora até a procedência das "sementes" em sua conta pessoal. Enquanto isso, em 1971, um pastor em Belém do Pará rejeitou uma expressiva contribuição de um crente que ganhou na loteria e ainda o ameaçou de exclusão. Os tempos mudaram mesmo...

Fontes:

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980)  - Assis, 2015.

acervo.folha.com.br - dias 16 e 17 de junho de 1971 - Primeiro Caderno p. 17 e 26.

2 comentários:

  1. É fato que, no Antigo Testamento, o dízimo era dado em cereais, azeites, especiarias enfim, não era dado em dinheiro. Penso que, no Novo Testamento, ao invés de darmos como era feito na Antiga Aliança, podemos SIM, entregar em espécie pois é com dinheiro que se compra inclusive produtos alimentícios e se mantém o Templo MAS...
    O que biblicamente temos respaldo pra não concordarmos é o mal uso do dízimo e das ofertas ! Infelizmente tá um descaso. Pra poucos, muito e pra muitos (Missionários principalmente) é entregue (muito) pouco. A ordem está invertida ! Seria cristão se os nossos líderes equilibrassem esta distribuição. Jamais vou me levantar contra meu Pastor e minha liderança porém minha opinião é esta.

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  2. No VT, o Dizimo, ou a décima parte de algo, faz parte da tradição judaica que depois se tornou lei judaica, e nem assim cumprem a lei. No NT, na era da Graça, Deus por meio de Jesus, ampliou a visão e entendimento do VT em tudo, e a ordem é contribuir(seja ofertar, seja dizimar) conforme a vontade do coração, óbvio que um coração generoso agrada a Deus, mas um coração disposto também, ou seja, não importa a quantidade e sim a qualidade. Ninguém rouba Deus pois tudo é Dele e para Ele, a oferta é um ato gratidão a Deus de um coração bom e generoso para com a casa e a obra. Igrejas que não são filiais de uma central, que são independentes financeiramente de qualquer outra igreja ou matriz, fiscalizada pelos seus membros costumam ser mais corretas que aquelas que possuem filiais que arrecadam milhões que vão para uma matriz em favor e beneficio de fulano ou beltrano.

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