sábado, 4 de abril de 2015

Pastor Marinésio - o começo do fim

Brasil, início dos anos 90. As Assembleias de Deus no Brasil viviam dias alvissareiros. Desde meados da década de 1980, a denominação se descobriu como grande força política do país. Da marginalização social e religiosa para o Congresso Nacional e a Constituinte. Seus líderes estavam eufóricos e seus membros orgulhosos pelo sucesso nas urnas. Foram 13 deputados federais eleitos em 1986, evidenciando a força política da denominação.

Porém, o mundo não é perfeito, o clima de ufanismo aos poucos foi se desvanecendo, e aqueles que um dia surgiram como promessa de regeneração política do país tornaram-se fonte de constantes preocupações e vergonha para os crentes comprometidos com o evangelho.

Uma das histórias mais emblemáticas de todo esse processo de desencanto com o mundo da política, ocorreu na cidade de Campinas (SP), onde as ADs se viram diante de um escândalo de proporções nacionais. Um caso que revelou a promiscuidade das relações entre a liderança eclesiástica e a política partidária, situações que ainda permanecem nas estruturas do poder assembleiano.

Durante os anos de 1972 até 1995, a AD em Campinas - ligada ao Ministério do Belenzinho (SP) - esteve sob a responsabilidade do pastor Marinésio Soares da Silva. Filho mais novo de uma prole de onze rebentos de um lavrador pobre, Marinésio nasceu no interior da Paraíba. Convertido ao evangelho tornou-se obreiro e pastoreou igrejas da AD por muitos estados, até que em 1972 deixou a igreja da Lapa em São Paulo para assumir o rebanho em Campinas.

Templo da AD em Campinas: crise nos anos 90
Com 600 membros e poucas congregações a igreja era promissora. Sendo um centro industrial, com perspectivas de crescimento, Campinas entre a década de 1970/80 viu praticamente sua população dobrar. Com estratégias evangelísticas e boa gestão administrativa, pastor Marinésio aproveitou o boom de crescimento da cidade e fez paralelamente a denominação se expandir.

Dois anos após assumir o campo, pastor Marinésio conseguiu a autonomia administrativa da igreja, a qual apenas uma congregação ligada a AD do Belenzinho (SP), na época pastoreada por Cícero Canuto de Lima. De estilo conservador e autoritário, se adaptou aos novos tempos, sobreviveu as mudanças na denominação, e se tornou um dos obreiros mais influentes no Belenzinho.

Em 1978, num sinal de inequívoco de crescimento e riqueza, a igreja inaugurou seu novo templo sede com capacidade para mais de três mil pessoas. Considerado "um dos mais belos e funcionais do Brasil" (MP novembro de 1978), sua inauguração foi um momento apoteótico. Com a presença de destacadas lideranças civis e eclesiásticas, as quatro portas principais da nova casa de oração foram abertas por pastores de ministério expressivo dentro das ADs. Cicero Canuto de Lima pelo Ministério do Belém (SP), João Batista da Silva de Natal (RN), José Bezerra da Silva (RJ) e o missionário Eurico Bergstén representando a missão sueca.

Segundo ainda a matéria do Mensageiro da Paz, a igreja em Campinas desfrutava de "elevado conceito" na cidade, fato comprovado pela doação do terreno feito pela prefeitura e o nome da rua onde se encontrava o templo ter sido batizada de Cícero Canuto de Lima. Mais que homenagens inocentes, as ações do poder local lideradas por Orestes Quércia revelava as íntimas ligações do líder da AD com a política local.

Quando as ADs se organizaram para lançar candidatos próprios a Assembleia Nacional Constituinte em 1986, pastor Marinésio optou por fazer algo que se tornou corriqueiro nas ADs: buscou um nome muito próximo ou alguém da própria família para "representar" a igreja. No seu caso, o veterano pastor apoiou o genro Manoel Moreira, casado com sua filha Marinalva. A eleição de Moreira foi um sucesso, aumentando ainda mais o prestígio do líder assembleiano.

Tudo parecia estar dando certo. A igreja era próspera, o genro deputado constituinte, e pastor Marinésio tinha influência política no Ministério, com a família bem colocada na sociedade. Como bem observou o sociólogo Paul Freston, a trajetória da família Soares no ministério assembleiano simboliza de forma cabal a metáfora da "escada rolante" do pastorado, ou seja, a gradativa ascensão social dos membros da casta sacerdotal.

Porém, as ambições desmedidas, e o jogo de interesses mesquinhos e mundanos fizeram que o "elevado conceito" da igreja virasse pó. No ano de 1993, políticos brasileiros foram atingidos por uma série de denúncias. Um escândalo de desvio de verbas do orçamento da União levou a formação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), a qual investigou 37 parlamentares, entre eles Manoel Moreira.

O grupo de congressistas que foi investigado, com alguns cassados e outros inocentados, ficou conhecido na imprensa como os "anões do orçamento" (devido à baixa estatura dos mesmos). Moreira passaria ileso das acusações, até que para sua desgraça Marinalva (agora sua ex-esposa) veio a público denunciar as armações do deputado evangélico e ex-marido. Começou nesse ponto o princípio do fim para o ministério de Marinésio da Silva Soares...

Fontes:

FRESTON, Paul. Evangélicos na política: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, novembro de 1988.


http://confradesp.blogspot.com.br/2014/07/parte-para-eternidade-o-pastor.html

5 comentários:

  1. É assim de Norte a Sul. A lamentável representatividade de boa parte dos deputados e vereadores eleitores depõe contra esta estratégia. Que Deus tenha misericórdia de suas ovelhas.

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  2. Faça um bem à sua assembléia de Deus, não vote em politicos indicados pelos seus lideres

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  3. Hoje posso dizer com muita tristeza que a igreja assembleia de Deus é uma das organizações criminosas mais organizada do Brasil.
    Anônimo.

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    1. Vai devagar, meu amigo. Devagar que a Igreja está acima destes que um dia darão contas a Deus.

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  4. Conheci de perto essa história, uma lamentável história

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