domingo, 28 de julho de 2013

CGADB de 1985: um pouco além da história oficial

A história trás respeitabilidade e legitimidade a uma instituição, seja ela política, financeira, empresarial ou religiosa. Sendo assim, todo grupo institucional procura não só contar sua história, mas também controlá-la. E nesse processo, selecionam-se as informações, omitem-se outras, e na construção da narrativa histórica procura-se dar um tom edificante e moralista para os fatos que serão escritos e perpetuados no imaginário coletivo. 

Com as Assembleias de Deus no Brasil não é diferente. Com as proximidades do centenário, e de outras datas significativas, sua liderança através da CPAD, procurou contar (ou recontar em alguns casos) a história da igreja e de seus líderes. Porém, como também é de praxe em toda instituição, passa ao largo de vários pontos polêmicos, e deixa vácuos enormes no entendimento da história. Somente nas entrelinhas que se percebe que algo não foi bem.


Livro da CPAD: história na ótica oficial da liderança atual
Um claro exemplo disso acontece no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, quando se conta sobre a CGADB de 1985. Foi nessa convenção nacional, que se elegeu a chamada "chapa do consenso", ou seja, uma chapa única, eleita por aclamação para presidir a CGADB no biênio (1985-87). A eleição, conduzida pelo presidente do biênio (1983-85) Manuel Ferreira da AD de Madureira foi descrito como o "grande acontecimento da Convenção Geral" e representava a unidade da igreja, sendo idealizada num encontro de lideranças ocorrido em João Pessoa/PB.

Na leitura que se faz dessa eleição - segundo Silas Daniel - "histórica e emocionante" há sempre um clima de expectativa, de interrogação, de apreensão caso a "chapa do consenso" não fosse eleita. Porém, não há menção direta aos conflitos, ou as divergências motivadas por políticas eclesiásticas. O que estava acontecendo? Na leitura, pura e simples dos fatos e da forma como foram colocados os acontecimentos, o leitor fica no vácuo.

Segundo Edson d'Avila, em sua tese Assembleia de Deus no Brasil e a política: uma leitura a partir do Mensageiro da Paz  havia o temor de que Manuel Ferreira buscasse a reeleição dentro da instituição. Percebendo a manobra, líderes assembleianos teriam idealizado a "chapa do consenso" meses antes, justamente para evitar a reeleição do líder de Madureira. A expectativa era de que a Mesa Diretora da CGADB (formada em grande parte por pastores de Madureira) não homologasse a "chapa do consenso", mesmo sendo apresentado um documento com 101 assinaturas em apoio a mesma. Caso Manoel Ferreira buscasse a reeleição, poderia haver uma ruptura na denominação naquele momento. Por isso o clima de tensão evidenciado na leitura da obra de Silas Daniel.

Manuel Ferreira, em suas memórias conta que, pelo trabalho de união, reconhecimento de ministérios e organização de encontros de lideranças em nível nacional, sua reeleição teria sido até sugerida por outros pastores não ligados ao ministério de Madureira, porém ele não teria aceito a proposta, e num acordo de cavalheiros prevaleceu o apoio a "chapa de consenso". 

Mas segundo o Bispo, nessa Convenção Nacional "trabalharam muito para desmanchar esse acordo". Resta saber o seguinte: quem teria trabalhado para frustrar um acordo da liderança nacional? Obreiros ligados a Madureira ou a Missão? Ou simplesmente jogo de palavras para não admitir e pressão dos líderes descontentes com a proposta de um recondução ao cargo máximo da instituição?

Segundo Ferreira, houve também um entendimento, no qual haveria sempre na CGADB uma Mesa Diretora representando tanto Madureira como a Missão. Acordo esse não honrado na CGADB de 1987. Mas não deixa de ser uma ironia, de que a "chapa do consenso" revelava mais desunião do que o nome supostamente queria evidenciar. Coisas da história assembleiana, contradições da história contada pela ótica oficial.

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

d'AVILA, Edson. Assembleia de Deus no Brasil e a política: uma leitura a partir do Mensageiro da Paz, 2006. Dissertação (Mestrado) - Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião.

PRATES, Denise; FERNADES Renato. Tributo ao Centenário da Assembleia de Deus no Brasil. Madureira, RJ, 2011.

2 comentários:

  1. Ironicamente (ou propositadamente), por "consenso" todos os ministros de Madureira foram desligados da CGADB em 1989, evidenciando tramas políticas da denominação que se arrastavam a muito tempo e que logicamente não são lembradas pela historia oficial, mas podem ser percebidas nas entrelinhas.

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  2. então hoje nos falta !consenso"? Ou será que está a nos faltar outras coisinhas mais? Paz.

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