sábado, 16 de fevereiro de 2013

Televisão nas ADs: proibições, debates e contexto histórico

O sociólogo Gedeon Alencar em seu livro Assembleia de Deus: origem, implantação e militância (1911-1946), diz que as Assembleias de Deus, tiveram uma "luta inglória contra o rádio e posteriormente contra a TV". Analisando a  história das ADs, é fácil perceber, o quanto esses meios de comunicação geraram discussões acaloradas entre as lideranças. No caso da TV especificamente, os debates se intensificavam  na medida em que esse veículo de comunicação, transformava os hábitos sociais e influenciava os valores da sociedade.

Nas Assembleias de Deus o hábito de assistir TV foi chamado de "televisolatria"
Inaugurada em 1950, a TV durante alguns anos foi um objeto raro no lar dos brasileiros. Sérgio Mattos, estudioso da mídia televisiva, afirma em seus estudos que, no ano de seu surgimento até 1964, a TV viveu sua fase elitista, ou seja, somente os mais abastados tinham acesso ao aparelho e seus programas. Segundo dados oficiais da história das ADs, já na convenção de 1957, foi decretada a proibição e exclusão de qualquer membro que tivesse ou assistisse a TV. A medida, em tese afetava a poucos, mas já se percebia por parte da liderança, certa repugnância ao invento que Chateaubriand chamou de "... o mais subversivo de todos os veículos de comunicação do século, a televisão".

A partir de 1964, segundo Mattos, a TV vive sua fase populista. O Regime Militar (1964-1985), percebeu o uso estratégico da televisão, estimula seu desenvolvimento e aquisição por parte da população das grandes cidades. Com maiores inovações tecnológicas, e a invenção do videoteipe no início dos anos 60, as emissoras criaram uma estratégia em que era possível a apresentação de um mesmo programa vários dias da semana. Surge assim o hábito de assistir televisão, em dias e horários determinados pela emissora. Surge a "televisolatria", expressão utilizada pelo pastor Francisco de Assis Gomes.

Com a popularização da TV, percebe-se na historiografia assembleiana o acirramento dos debates sobre o aparelho. Na CGADB de 1968, um pastor levantou a seguinte questão: "É lícito ao crente possuir televisão em casa?" A grande maioria dos líderes se posicionou contra, mas nessa mesma convenção, o pastor José de Castro divergiu ao comentar que estava "achando um absurdo tanta condenação e dizendo que é favorável ao que possui uma televisão ser ensinado quanto e como deve usá-la". Outro pastor alertou sobre o "perigo em se estabelecer regras drásticas" contra quem possuía uma TV.

Ficava assim evidente, o reconhecimento da popularidade e uso da TV, e que muitos assembleianos já possuíam o aparelho. Sensatamente, alguns pastores alertavam sobre a necessidade, não da simples proibição da TV, mas da instrução de como utilizá-la. Articulistas do Mensageiro da Paz nesse período, endossavam esse discurso de moderação. Porém, a ala mais conservadora da igreja, conseguiu na CGADB de 1975 em Santo André - SP, produzir um documento aconselhando entre outras coisas, a abstenção da televisão "tendo em vista a má qualidade da maioria dos seus programas, abstenção essa que se justifica, inclusive, por conduzir a eventuais problemas de saúde." Era uma crença na época que a TV prejudicava a saúde. Um bom argumento, além dos malefícios espirituais que provocava nos crentes.

A medida da Convenção Geral foi tomada justamente no momento no qual, além de popularizada, a TV entrava - conforme Mattos - em sua segunda fase: a de desenvolvimento tecnológico. Com estímulos oficiais, as emissoras se aperfeiçoavam e profissionalizavam, visando inclusive o mercado externo. A produção televisiva era intensa, e a medida da CGADB pode ser visto por muitos como um retrocesso cultural. A televisão, ainda era encarada como subversiva, e não como uma possível aliada na evangelização. Fato esse comprovado pelas discussões sobre a campanha de Billy Graham no país, o qual pregaria na TV brasileira, e a propaganda feita no MP mencionava isso. Para muitos líderes, isso era um estímulo à compra e ao hábito de assistir TV.

Somente com o aparecimento das igrejas neopentecostais, gradativamente as ADs foram pouco a pouco, abandonando a postura de hostilidade em relação a TV, para encará-la como uma grande aliada na evangelização. Até porque, a concorrência exigia tal postura como garantia de sobrevivência e crescimento. Mas como observou Alencar, foi uma luta inglória, pois quantos membros foram disciplinados, excluídos e envergonhados por assistirem, ou possuírem uma TV? Ainda que o verbo usado na resolução da CGADB em 1975 fosse abster, o qual indica segundo o dicionário Houaiss "privar(-se) do exercício de qualquer função ou direito", ou seja, indica o exercício da vontade pessoal do sujeito, a verdade é que era uma proibição unilateral, taxativa e imposta pela liderança da AD brasileira. E essa forma de "abstenção" durou ainda muitos anos para os assembleianos.


Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MATTOS, Sérgio Augusto Soares. História da televisão brasileira – Uma visão econômica, social e política. 4.ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2009.

MORAIS, Fernando. Chatô: o rei do Brasil. A vida de Assis Chateaubriand. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

MOTA, Alice Agnes Spíndola. A Influência da Televisão no Desenvolvimento Regional da Zona Rural no Município de Palmas-TO.Palmas. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Tocantins, Curso de Mestrado em desenvolvimento Regional e Agronegócio, 2010.

3 comentários:

  1. Vale a pena lembrar que ainda hoje há lideranças locais que "torcem o nariz" para o uso da TV, ao mesmo tempo em que a CPAD e Rede Boas Novas mantém programas em Rede Nacional, o que aponta para a fragmentação de costumes na AD

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  2. Na época não tinhamos televisão, mas comprei um radio PX, e um dos membros perguntou-me, seguindo o seguinte dialogo:
    - meirmão, como o meirmão está na igreja?
    - estou bem, graças a Deus, respondi.
    - a minha mulher disse que o meirmão está desviado...
    - porque???? perguntei assustado.
    - por que o meirmão tem uma televisão.
    - ela viu televisão lá em casa?
    - não, mas viu a antena bem lá no alto..
    Comecei a rir, ri muito, e depois expliquei que aquela antena era na realidade uma antena do meu radio PX.
    Ufa, não estava desviado.

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  3. Naquela época ouvi um programa evangálico pela rádio no momento em que o apresentador colocou no ar um "hino" com o título; A TV TIRA VISÃO. Em um dos refrões dizia assim; Muita irmãs usando mini-saia, outras irmãs cortando seus cabelos, outras irmãs querendo ir a praia tudo por causa do ensino da televisão.....e assim em diante....Que horror!!!!

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