sábado, 31 de outubro de 2009

Paulo Leivas Macalão - um líder e vários olhares / 2º parte



Sobre Paulo Macalão, encontramos dentro das biografias oficiais alguns dados que podem ajudar a explicar seu pioneirismo nas Assembléias de Deus, e a independência de seu ministério já nos idos dos anos 30.

Um dos autores que analisou (ainda que de forma concisa a trajetória de Macalão) foi Paul Freston, sociólogo e historiador evangélico. Freston ressalta as origens atípicas de PLM para explicar a sua autonomia em relação aos missionários suecos com quem ele trabalhou. Para o historiador, por ser filho de um general, de família e educação culta, e com um futuro promissor nas Forças Armadas, Macalão demonstrava um status social visivelmente superior se comparado com os próprios suecos e os obreiros brasileiros. Para Freston "Macalão era um gaúcho numa igreja de nortistas e nordestinos. Era filho de general, numa igreja de pobres. Mas, longe de levar a AD a subir de nível social, ele tornou-se o líder absoluto dos mais miseráveis".

Sua formação militar, seu rigorismo e autonomia logo se refletiram em suas pregações, e o levaram a entrar em choque com os suecos, que por sua vez o permitiram formar um novo ministério na incipiente AD dos anos 30. Dos dados oficiais encontramos uma observação muito interessante sobre Macalão para comprovar esse fato quando se diz:
A força com que pregava a convicção com que dirigia seus ataques violentos contra o pecado, vinham sendo, há um tempo motivos de censura por parte daqueles que não viam no evangelho algo que tivesse de ser pregado daquela maneira, às pressas e com autoridade até nunca vista. Censurado e incompreendido, o irmão Paulo, em setembro de 1926, decidiu pregar exclusivamente nos subúrbios da Central... (ARAÙJO: 438)
Percebe-se nessa informação o desacordo entre ele e alguns irmãos da igreja sobre sua forma de pregar. Possivelmente essa discordância foi com a liderança de São Cristóvão, representados principalmente em seu pastor Gunnar Vingren e em sua esposa Frida. Paulo Macalão além de um dos primeiros membros da igreja foi também o formador da primeira banda de música da congregação e secretário de Vingren.

Porém a postura ousada e dinâmica desse jovem de classe média se manifestava não só nas pregações, mas também nas atitudes que desagradavam aos suecos. Gunnar Vingren já no ano de 1929 fez a famosa anotação em seu diário; registro esse que é usado pelo escritor Silas Daniel no livro "História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil" para revelar o caráter autônomo de Macalão e do ministério formado por ele. Segundo as anotações do pioneiro assembleiano Macalão teria batizado crentes no subúrbio do Rio sem lhe comunicar e observou "Ele é muito independente".

Mas como o movimento pentecostal estava em seu nascedouro, não havia estruturas denominacionais formadas, e assim a iniciativa de Paulo Leivas de se aventurar pela periferia da cidade, pregando e abrindo novas congregações não pareceu um sinal de formar uma nova denominação, e sim um novo ministério.

Quem sabe foi a melhor solução, pois Macalão trabalhou com os suecos por bom período e as divergências já deviam vir de algum tempo. Ficaria ele agora livre para evangelizar os bairros carentes do Rio de Janeiro, abrir congregações e consolidar sua liderança na Zona Norte da cidade.

Freston também aponta um detalhe interessante na trajetória de Macalão que nos ajuda a entender a própria história do Ministério de Madureira. Segundo esse autor a influência do nacionalismo seria um dos motivos para que Paulo Leivas (que durante toda a sua vida manteve vínculos como os militares) cultivasse certa autonomia ou desconfiança em relação aos missionários suecos. Afinal esse mesmo sentimento nacionalista levou em 1930 os pastores brasileiros a reivindicarem a liderança das principais igrejas no país, deslocando os suecos para a região sul.

Outra observação importante feita por Daniel é o fato das igrejas lideradas por Paulo Macalão serem mais rígidas em relação a usos e costumes dos que as subordinadas aos suecos, gerando desde os primórdios a distinção "Madureira" e "Missão" para identificar os respectivos ministérios. Essa diferenciação de ministérios pelo que se entende estava ligada não só a questão de costumes, mas também ao sentimento nacionalista. As igrejas dirigidas por suecos eram; além de serem mais liberais, também controladas por estrangeiros.

Tudo isso ajudava, de uma maneira ou outra a dar a Macalão destaque e liderança entre as igrejas no Rio de Janeiro, pois se deve considerar que a principal Assembléia de Deus na cidade (Campo de São Cristóvão) fundada em 1923 somente veio a ser pastoreada por brasileiros em fim dos anos 50, ou seja, mais de trinta anos depois de seu início.

Ainda no livro da História da CGADB, Macalão aparece como centro de várias discussões sobre o desrespeito as normas convencionais onde estabeleciam limites aos ministérios (jurisdição eclesiástica) em seus campos de trabalho. Ficam evidentes nas páginas dessa obra as discussões, ambições, calunias e jogo de interesses eclesiásticos não só por parte de Macalão, mas de outros líderes assembleianos. Mas fica claro também que o expansionismo de Madureira e a forte personalidade de seu fundador incomodavam a todos os líderes, e as pacificações dos conflitos foram ficando mais complicadas com o passar do tempo.

Nesses debates surge o lado inflexível, rígido e opiniático do "Apóstolo do Século XX". Seu pioneirismo tão louvado em outros escritos oficiais é retratado nessa obra como "invasão de campo" e puro expansionismo. Várias páginas revelam um Macalão intransigente, onde por discordâncias ministeriais ele deixou de ir a uma Convenção Geral para demonstrar seu desgosto, em outra convenção ele rebate calúnias e difamações e apresenta documentos e versões que são colocados em dúvida por outros pastores. Em outra reunião nacional ele ameaça que se não for resolvida uma questão envolvendo o Ministério de Madureira, abrir uma igreja em outro estado fora de sua jurisdição eclesiástica, gerando com isso mais polêmicas.

Já no início dos anos 70, um sério desentendimento ministerial com o pastor Túlio Barros, levou os convencionais a mediarem um acordo e um encontro público de perdão, onde uma visita mútua seria feita entre os líderes de Madureira e São Cristóvão. Deve-se imaginar a repercussão de tal desacordo, que envolveu cartas escritas com termos duros, mudança de pastor, extinção de convenção criada em Brasília e culto específico para reconciliação.

Nesse ínterim de polêmicas e acirradas discussões, Paulo Macalão constrói em 1953 o majestoso templo sede de Madureira no Rio. Edificado com grande esforço dos fiéis, o templo de amplas dependências, estilo gótico e exuberantes vitrais eram e ainda é considerado um dos templos mais belos entre as Assembléias de Deus no Brasil. Na inauguração as presenças de autoridades e de milhares de crentes davam a todos dimensão da força e liderança de seu ministério perante as outras igrejas co-irmãs.

Em 1958 funda a Convenção Nacional de Ministros de Madureira unindo juridicamente o ministério e segundo as informações oficiais tinha a intenção de com isso evitar a divisão do trabalho pelo Brasil. Macalão fez isso justamente num momento em que as Assembléias de Deus começavam a se fragmentar em vários ministérios, que eram criados em torno de lideranças personalistas como ele próprio.

Só para se ter a idéia de como ele se preveniu; o Ministério de São Cristóvão um ano depois, portanto em 1959 através de seu pastor Alcebíades Vasconcelos resolveu dar autonomia a determinadas congregações, pois segundo o próprio Alcebíades em suas memórias, as igrejas fatalmente iriam se desligar de São Cristóvão devido a insubordinação de seus presbíteros.

O ministério de São Cristóvão se fragmentou, outros ministérios seguiriam esse caminho, mas enquanto isso acontecia Paulo Leivas conduzia com vigilância e rigidez o Ministério de Madureira.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

VASCONCELOS, Alcebiades Pereira. Alcebiades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

3 comentários:

  1. Muito bom Mário Sérgio a riqueza das análises prós e contra de Paulo Leivas Macalão.

    Creio que revendo os erros e acertos do passado podemos sonhar em trilhar um caminho com "menos erros" no futuro...

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  2. É interessante, assim como na Bíblia, os grande homens de Deus também tiveram seus impasses,e isso tudo para melhor servir ao Senhor. Parabéns meu irmão...

    Jorge Luiz

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  3. oi mario, ficou muito bom este artigo em!!! parabèns.

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