terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Ferros - da minissérie a vida real

A pequena cidade de Ferros, situada a menos de 200 quilômetros de Belo Horizonte (MG), ficou eternizada na minissérie Hilda Furacão exibida pela Rede Gobo de televisão em 1998, realizada com base na obra homônima do escritor Roberto Drummond.

Um dos aspectos ressaltados na história, foi a grande influência do pároco católico sobre a vida social dos habitantes da pacata Santana dos Ferros (Drummond usa no livro o nome antigo da cidade). No romance, o padre (interpretado pelo grande Paulo Autran) mandava e desmandava, sempre em nome da fé e dos bons costumes.

Essa realidade de grande poder católico e perseguição aos infiéis, foi sentida pelos membros da Assembleia de Deus. Um alvoroço tão grande, que chamou à atenção da imprensa na época. O jornal Diário Carioca (RJ) narrou aos seu leitores na edição do dia 26 de junho de 1962 a grande confusão liderada pelo padre, o qual liderando uma multidão "invadiu e destruiu" o templo da AD.


O caso é narrado com riquezas de detalhes no livro Entre Rosas e Espinhos: biografia do pastor Antônio Rosa da Silva, do escritor Jacó Rodrigues Santiago. Rosa na época era um jovem obreiro e estava noivo com casamento marcado. O trabalho do futuro pastor era levar capas para realização do batismo em águas em Santana.

Entre boatos e ameaças, no domingo pela manhã, quando os crentes ainda estavam na igreja, a turba se aglomerou na frente do templo. Gritando "Viva a senhora Santana, viva!" ou "Viva o padre Cassimiro!", a multidão armada com facas, porretes e armas de fogo, avançou enfurecida clamando "Fora com o pastor! fora com os protestantes!".

Segundo Santiago, o "padre com sua batina preta balançando, saltava no chão com tanto ódio dos crentes". Por segurança (se havia alguma), as portas do templo foram rapidamente fechadas. Mas pelas janelas, terra com pontas de faca eram jogadas. "De repente, uma pedra atravessou a nave do templo ao púlpito" e por pouco não atinge no rosto o evangelista Antônio Rosa.


Liderados pelo padre, mas com a intermediação de um Juiz de Paz, a multidão deu um prazo de alguns minutos para que os crentes saíssem do templo. Assustados, os assembleianos conseguiram com muita dificuldade sair da igreja. Logo que deixaram o templo, os fanáticos quebraram tudo o que viam pela frente. A casa pastoral foi depredada por completo.

Tamanha confusão, além de ser destaque nos jornais do Rio, causou problemas para a imagem da Igreja Católica na região, pois o padre Cassimiro foi processado e tempos depois removido da paróquia. O jovem evangelista Antonio Rosa, anos depois acabou sucedendo o pastor José Alves Pimentel na liderança da AD campo de Ipatinga e Coronel Fabriciano em Minas.

Perseguições como a relatada na biografia ainda eram comuns no interior do Brasil nesse período. Em algumas localidades, o poder da Igreja Católica se estendia muito além da comunidade de fieis. E os tumultos contra os "protestantes" marcaram a história de muitas denominações evangélicas por conta desses embates contra fanáticos que não aceitavam outra igreja na região.

Boa história para recordar a dominação do catolicismo no interior do país e os revesses dos pioneiros. Na minissérie Hilda Furacão não apareceu nenhuma perseguição aos pentecostais, mas o crentes de Santana dos Ferros sentiram o drama ao vivo e a cores.

Fonte - inclusive as fotos:

SANTIAGO, Jacó Rodrigues. Entre Rosas e Espinhos: Biografia do Pastor Antônio Rosa da Silva. Ipatinga: GCOM Comunicação e Marketing, 2016. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Nels Lawrence Olson - as glórias de um apóstolo

No editorial As glórias de um apóstolo no Mensageiro da Paz de março de 1989, é descrita "a importância" de Nels Lawrence Olson e de "sua participação pioneira em vários projetos que contribuíram para expansão da obra pentecostal em nosso país".

Realmente, a presença do missionário norte-americano no Brasil foi decisiva para a evangelização do interior de Minas Gerais, o desenvolvimento da CPAD, a utilização do rádio como meio de evangelização e, principalmente, a organização de institutos bíblicos (a famigerada fábrica de pastores) com o objetivo de formar obreiros e novos líderes na denominação.

Lawrence Olson: fundador do IBP

O editorial lembra as "tradicionais escolas bíblicas" em Lavras (MG), quando ainda havia a proibição do funcionamento dos institutos bíblicos dentro das ADs. Com duração média de 30 dias, Olson ministrava ensinos sistemáticos para prover os obreiros de conhecimentos teológicos "para um ministério mais proveitoso".

Já instalado na cidade do Rio de Janeiro, Lawrence foi mais além. Fundou o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) em 1961. Três anos antes, o casal Lemos, também ligado à missão norte-americana, havia fundado em Pindamonhangaba (SP) o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD).

Segundo Albertina Malafaia a "mentalidade" da época não aceitava os institutos. O motivo? Era "pecado" estudar. Havia o medo que os novos ministros saídos das instituições de ensino teológico tomassem "o lugar dos pastores". Conforme a mãe do polêmico Silas, tanto o casal Olson como os Malafaia tiveram "que pagar um preço muito alto" porque os líderes proibiam os crentes de frequentar a "Escolinha do Lourenço e do Gilberto". Mesmo assim, não foram poucos os obreiros que passaram pelos bancos do IBP.

O fato, é que os pioneiros suecos resistiram em aceitar a participação dos norte-americanos dentro das ADs brasileiras. Por serem pioneiros no Brasil, os escandinavos consideravam o campo de trabalho sua área exclusiva. Os escandinavos queriam garantir sua "reserva de mercado" e os missionários dos EUA deveriam ser direcionados para outros países da América Latina.

Para cooperar no trabalho pentecostal tupiniquim, os estadunidenses tiveram que aceitar "os princípios e métodos da obra já existente". Por isso, as "inovações" propostas por Olson, JP Kolenda, Virgil Smith e companhia, eram vistos com má vontade pelos suecos e muitos pastores brasileiros. Não estavam eles em flagrante contradição com o que foi combinado na CGADB na década de 1930?

Porém o declínio da liderança sueca, mais o contexto mundial pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945) favoreceu os norte-americanos. Valores culturais hegemônicos vindos do norte com dólares para financiar projetos denominacionais, deram condições para que em alguns momentos "os princípios e métodos" das ADs brasileiras fossem superados.

Assim viveu irmão Lourenço. Amor, dedicação e boas propostas, mas sempre enfrentando os dilemas do seu contexto histórico. Morreu no seu país natal em 1993.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

Mensageiro da Paz, ano LIX, nº 1227 - março de 1989.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Nels Lawrence Olson - o missionário das mídias eletrônicas

Nels Lawrence Olson é um nome conhecidíssimo dentro das ADs no Brasil. Sobre ele está escrito no site da CPAD: "Missionário norte-americano nas Assembleias de Deus, pioneiro e pastor de igrejas Assembleias de Deus em Minas Gerais, pioneiro do radioevangelismo e do ensino teológico nas Assembleias de Deus, tradutor, editor, escritor, articulista, ensinador e comentarista de Lições Bíblicas da Escola Dominical".

Nas publicações da CPAD há um vasto material sobre esse estadunidense que desempenhou um importante trabalho dentro das ADs. Hoje, obviamente, à memória do irmão Lourenço é celebrada. Mas quando iniciou o programa de rádio no interior de Minas Gerais em 1947, e posteriormente abriu o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) no Rio de Janeiro em 1960, Olson causou desconforto entre as lideranças da época.

Apesar da utilização do rádio ser liberada para evangelização na Convenção Geral em 1937, o uso do mesmo ainda era um tabu dentro das ADs. Lideranças de expressão nacional (como Paulo Macalão para ficar apenas em um só nome) eram contra o uso e o fato de um crente possuir o aparelho em casa era motivo para exclusão sumária.



Nos Estados Unidos, país de origem de Olson, a utilização do rádio para fins evangelísticos era algo comum desde a década de 1920. Lourenço conhecia o potencial da radiodifusão. No Brasil, porém a mídia radiofônica era vista pelos pentecostais (e depois a televisão) com desconfiança, pois suas programações traziam para os lares os efêmeros valores mundanos.

Mas de Lavras (MG), Olson vencendo as resistências, levou posteriormente o programa para as principais emissoras do Rio de Janeiro. Quando do regresso do missionário para os EUA em 1989, o Mensageiro da Paz em editorial relembrou que os "meninos dos anos 40, 50 e 60 ainda hoje se recordam da preocupação com que seus pais saíam do santuário, na expectativa de chegar a tempo para ouvir o programa A voz das Assembleias de Deus".

Ainda segundo o editorial, quando começava o programa "todos se postavam em silêncio, pois um novo culto se realizaria através do rádio". Essa avidez gerou exageros por parte de muitos crentes e alguns faltavam aos cultos somente para ouvir as programações. O pastor Francisco de Assis Gomes chamou esse comportamento de "radiolatria".

Olson porém, sempre estava em verdadeira "sintonia" com o uso das novas mídias, pois via nelas possibilidades ilimitadas. Em entrevista a revista A Seara (maio/junho de 1957), Lourenço comentou: "Devemos estar com as vistas voltadas para a televisão que rapidamente vem substituindo o rádio como meio de difusão".

Talvez não imaginasse ele, que no caso da televisão os debates e resistências seriam maiores. Durariam décadas.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

A Seara, ano II, nº 3, vol. IV, maio/junho de 1957.

Mensageiro da Paz, ano LIX, nº 1227 - março de 1989.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Aniversário de pastor - críticas de João de Oliveira

Há eventos dentro das Assembleias de Deus, que de tanto tempo instituídos parecem até ser "naturais". Gedeon Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, destaca que o período de 1946 à 1988, consolidou-se dentro das ADs as tradições. Tradições essas criadas ou (citando o historiador Éric Hobsbawn) "inventadas".

Porém, naquelas décadas de crescente institucionalização assembleiana, havia espaço para contestações nos periódicos da CPAD. Alguns pioneiros sempre se manifestavam sobre determinados temas através do Mensageiro da Paz ou da revista A Seara. Bons debates foram travados na imprensa denominacional, onde os diversos pontos de vista eram explicitados. 

Um dos questionamentos que veio a público, foi algo muito popular hoje em dia nas igrejas: as comemorações de aniversário dos pastores. E ironicamente, a objeção veio nas páginas da Seara, que tinha por hábito divulgar esse tipo de celebração.

Aniversário do pastor Corrêa

O artigo Deve a igreja promover aniversário de pastor? - escrito pelo pastor João de Oliveira levantou criticas sobre esse tipo de evento nas igrejas. No entender do veterano obreiro, sempre apareciam no "seio da cristandade, coisas que consideradas à luz dos Evangelhos estão fora do plano divino e muitas vezes essas coisas entram e crescem fortes raízes, tornando-se até como 'doutrina'...".

Na visão do pastor Oliveira, combatia-se tantas coisas necessárias à igreja como institutos bíblicos, caixa de auxílio de obreiros, orfanatos, escolas, etc. Mas as "festículas" com propósitos de agradecer a Deus pela vida do pastor, as quais acabavam por exaltar de forma exagerada a figura do líder, não eram contestadas. 

Pastor João comenta exageros do tipo "jogar pétalas de flores" e de "recitais de honra ao mérito". Afirma o escritor não ser contra celebrações na igreja ou em família. É provável, que a preocupação do obreiro era com àquilo que conhecemos de "culto à personalidade". 

Oliveira chega a ironizar certa comemoração do natalício de um pastor, onde houve alegria e "festejos" e tempos depois "já havia luta pela saída dele da igreja". A própria experiência do articulista parece que não foi muito boa nesse sentido. 

João de Oliveira fez suas observações em 1968. Faleceu aos 69 anos em 1980. O que diria ele ao ver as suntuosas festas e o glamour de certos eventos natalícios em algumas igrejas e ministérios da atualidade? 

Os pastores merecem reconhecimento pelo seu árduo trabalho? Óbvio que sim. Mas nunca as celebrações de aniversário dos ministros evangélicos revelaram tanto a distância social entre os líderes e membros da igreja. As ofertas e presentes oferecidos nas efemérides eclesiásticas, fazem o "jogar pétalas de flores" e os "recitais de honra ao mérito" citados pelo pastor Oliveira algo pueril.

Talvez, a principal preocupação dos crentes mais abalizados biblicamente é o culto à personalidade. Nas celebrações é flagrante o endeusamento dos líderes e das famílias pastorais. O que começou como ações de graças pela vida do pastor, hoje faz parte da agenda oficial dos ministérios. E ai do obreiro que faltar...

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

A Seara, nº 68, junho/julho de 1968, p.39.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sem saber ler crente abre uma AD no Paraná

A cidade de Centenário do Sul, localizada ao norte do Paraná começou a ser formada na década de 1940. Em busca de riquezas e melhorias de vida, os primeiros colonizadores se estabeleceram na região. "A terra fértil atraiu grande número de homens de negócios, fazendeiros e agricultores que iniciaram o progresso e desenvolvimento" - narra o histórico do município.

No ano de 1946 foi construída a primeira capela católica. Em seguida surgiu uma pensão e uma padaria foi aberta. Logo, a cultura cafeeira dominou as paisagens rurais e a abertura de uma serraria trouxe grande desenvolvimento a região. 

Em 1948 é inaugurada a primeira escola. No ano seguinte, um campo de pouso para aviões de pequeno porte já era utilizado. No início dos anos de 1950, a energia elétrica chegou na localidade. A emancipação veio na sequência e a posse do primeiro prefeito ocorreu em dezembro de 1952.

Mas quando Centenário do Sul "estava ainda no seu embrião", um crente vindo de Minas Gerais de nome João Ambilino iniciou os primeiros cultos pentecostais na região. Ambilino tinha uma família numerosa e os cultos eram realizados em sua casa. Muito normal, até porque várias ADs tiveram origem na residência simples e humilde dos seus pioneiros.

MP: relato do início de uma grande obra

Segundo o relato do presbítero Osvaldo de Melo, que testemunhou os fatos ao Mensageiro da Paz, havia uma aparente dificuldade na evangelização: João Ambilino era analfabeto. Porém, o pioneiro "não se abalou com esta situação". Realizava os cultos como é de praxe: cantava e orava com sua família. Na hora da pregação, abria a Bíblia em cima da mesa e "começava a cantar hinos de louvor a Deus". 

A persistência rendeu frutos, pois em determinado dia "a primeira alma rendia-se a Cristo". O nome do convertido era João Rita. A conversão de Rita foi sentida como aprovação do esforço de Ambilino na "causa do Senhor". 

Tempos depois, chegou na cidade os Garcia e o núcleo assembleiano aumentou. No sítio da família Garcia foi construído um galpão para realização dos cultos. O trabalhou então desenvolveu-se e muitas almas foram conquistadas. 

A gênese da AD em Centenário do Sul é semelhante há muitas igrejas pentecostais no Brasil. Segundo o pastor Claiton Pommerening, autor da tese A relação entre a oralidade e a escrita na teologia pentecostal "O crescimento das Assembleias de Deus no Brasil se deve principalmente ao trabalho de obreiros leigos".

Pommerening ainda afirma, que os pioneiros "não tinham formação pastoral, não sabiam ler direito, falavam errado, mas tinham um ardor evangelístico que fez inflamar os corações convencendo de que a mensagem era verdadeira e eficaz". Claiton destaca a grande contribuição desses "evangelistas anônimos, homens e mulheres, que fizeram a história das ADs no Brasil e a tornaram a gigante que é" - concluiu o pastor na AD em Joinville (SC) e diretor do Centro Evangélico de Educação e Cultura (CEEDUC).

Obras como essa de João Ambilino, e dos muitos anônimos da história das ADs, não pode ficar desconhecida. Devem ser revisitadas. Até porque, essas memórias, são testemunhos eloquentes e contrários ao ethos e o modus operandi de muitos dos nossos líderes da atualidade.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan. A relação entre a oralidade e a escrita na teologia pentecostal: acertos, riscos e possibilidades. 2008. Dissertação (Mestrado) - Instituto Ecumênico de Pós-Graduação, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2008.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1965, p. 4.

www.centenariodosul.pr.gov.br/page/88/historico-do-municipio

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

AD em Santos - mais controvérsias

Não foi somente no Mensageiro da Paz, que o pastor da Assembleia de Deus em Santos recebeu críticas. A edição da revista A Seara de julho de 1997, também repercutiu de forma negativa a entrevista de Paulo Alves Corrêa em dois momentos.

O primeiro foi através da seção cartas do leitor. Nela, um dos leitores considerou equivocada as comparações e a lógica do pastor Paulo em suas declarações. Outro, porém, foi mais incisivo em suas contestações.

Laudinei Vicente, questionou se a "nova unção" não seria outro evangelho e, portanto, considerado biblicamente anátema. Argumentou, que as citações bíblicas usadas pelo líder santista estavam fora de contexto e considerou levianas as comparações do movimento da "nova unção" com o início das ADs no Brasil. Enfático, Vicente pontuou: "Gostaria de saber se 'nova unção', 'tombo no Espírito', e outras coisas novas fazem parte do credo das Assembleias de Deus".

Mas, foi no artigo intitulado Cair no poder: Há respaldo bíblico para a "nova unção"?, que o veterano obreiro Carlos Padilha, então líder da AD em Presidente Prudente, contrapôs de forma veemente as considerações de Corrêa.






Padilha, contesta "as interpretações defendidas pelo nobre pastor Paulo Alves Corrêa", as quais segundo ele, "não condizem com as quedas praticadas em sua igreja". Utilizando vários versículos bíblicos, o líder assembleiano refutou as práticas da "nova unção".

Ao citar as "hipnoses ensinadas por alguns pastores americanos", Padilha apontou para o perigo das supostas novidades importadas da América do Norte, que implantadas nas ADs causaria "dúvidas, sectarismo e constrangimentos". Isso porque, os obreiros "que sopram, ou ministram a queda, são apreciadas pela platéia como obreiros 'super-heróis'". Seguindo essa lógica, os crentes que não caíam nos cultos, poderiam ser considerados menos espirituais e insensíveis espiritualmente.

Não deixa de ser interessante notar, o uso político da controvérsia envolvendo o pastor santista nas edições da CPAD. Jovem, e à frente de um grande ministério, Paulo Corrêa despontava como uma alternativa em futuras eleições da CGADB. A entrevista com suas polêmicas poderia ter sido editada de forma a amenizar o desgaste do líder em Santos. Mas, ao contrário disso, foi exposta e polemizada ao máximo.

Uma curiosidade: o texto assinado pelo pastor Carlos Padilha era na verdade de autoria do seu filho Jesiel Padilha. Jesiel, nesse caso foi o ghost-writer do pai. Atualmente ele é pastor da AD em Santos vinculada ao Ministério do Belém em São Paulo, que recebeu milhares de membros egressos da AD pioneira na cidade.

O mundo dá muitas voltas mesmo...

Fontes:

Revista A Seara, julho de 1997.

Colaboração: Laudinei Vicente

sábado, 26 de novembro de 2016

Rede Latino Americana de Estudos Pentecostais (RELEP)

Em 1998, quatro pesquisadores pentecostais (oriundos do México, Brasil, Chile e Peru) se encontraram na Cidade do México para articular uma rede de estudos sobre o pentecostalismo na América Latina.

Assim foi criada a Rede Latino-americana de Estudos Pentecostais (RELEP). Segundo a página oficial o RELEP "é uma instância continental de produção e difusão de pesquisas sobre os pentecostalismos observados na América Latina".

Seus pesquisadores são pentecostais que desenvolvem estudos em diferentes áreas do conhecimento: ciências da religião, teologia, história, sociologia, antropologia, educação, etc. Desde sua primeira edição no Chile em 1999, outros encontros foram realizados na Costa Rica (2002), mais duas vezes no Chile (2008 e 2009) e Equador (2011).

RELEP: edição no Panamá

O Núcleo Brasil do RELEP é coordenado pelo Dr. David Mesquiati de Oliveira e três eventos nacionais já foram realizados. O primeiro deles em 2012 foi em Arujá (SP) e o segundo em 2014 em São Paulo (SP). O terceiro encontro ocorreu em julho de 2016 em Florianópolis (SC). A cada encontro o número de apresentações e a diversidade dos temas abordados aumenta, pois o movimento pentecostal proporciona aos pesquisadores muitas leituras e questionamentos.

Ainda entre os dias 24 a 26 de novembro de 2016, ocorreu mais um RELEP latino-americano. Desta vez o país escolhido foi o Panamá. Cerca de 50 participantes de toda a América Latina se fizeram presentes. O Brasil se fez representar com os seguintes pesquisadores: Gedeon Alencar, Claiton Pommerening, Marina Santos Correa, Ângela Maringoli, David Mesquiati, Maxwell Fajardo, Eunice Rios, Ruth Rios, Donizete Rodrigues, Saulo de Tarso Cerqueira e Paulo Ayres Mattos.

Pesquisadores do RELEP no Panamá

Para Claiton Pommerening, pastor na AD em Joinville (SC) e doutor em Teologia, o encontro "está sendo um momento para refletir sobre nossa teologia, história, sociologia e inserção do pentecostalismo na sociedade, bem como proposições e desafios a serem enfrentados".

Ainda segundo Gedeon Alencar, doutor em sociologia "o RELEP tem uma especificidade: são acadêmicos pentecostais falando do pentecostalismo. São doutores em teologia, história, sociologia, ciências da religião com uma grande produção acadêmica. Tem aqui pesquisadores de diversos países latinos do México ao Chile. Do Brasil temos 12 participantes, dos quais 9 são doutores".

Tal diversidade de pesquisadores é uma oportunidade de se "repensar o pentecostalismo, e suas experiências, independentemente de modelos de igrejas. Outra coisa que está sendo muito discutido é a unidade entre pentecostais" - afirmou Marina Correa, doutora em Ciências da Religião e uma das participantes do encontro.

Unidade na diversidade e desafios do pentecostalismo: essa é a tônica dos seminários. Experiências e estudos sendo compartilhados em debate de alto nível. Essa é a marca do RELEP. Que venham outros encontros e novas participações, pois o pentecostalismo no Brasil e na América Latina merece esse olhar plural das ciências sociais e humanas.

Para mais informações sobre os objetivos, publicações e sobre seus membros acesse relepnucleobrasil.blogspot.com.br.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O debate sobre os ministérios em 1941

Qualquer pessoa, que tenha o mínimo de conhecimento sobre as Assembleias de Deus no Brasil, sabe o quanto a denominação é divida em Ministérios e Convenções. Essa fragmentação não é recente, pois desde a década de 1930 do século passado, as ADs vivem tensões provenientes desse modelo de administração e crescimento.

Porém, houve momentos em sua história que esse sistema foi questionado. Na CGADB de 1941, realizada na cidade do Rio de Janeiro, o missionário sueco Otto Nelson propôs "que deixassem de existir vários ministérios das Assembleias de Deus em uma única cidade". Argumentou o pioneiro, que tal medida fortaleceria a unidade e evitaria "lutas". Uma só grande igreja seria mais influente do que várias menores espalhadas pelas cidades.

Macalão: contra um só ministério nas cidades
Aproveitando a oportunidade, Gustavo Nordlund da AD em Porto Alegre, contou sua experiência na Suécia, onde pequenas igrejas estavam em torno da igreja sede e problemas surgiram. Segundo Nordlund, por seu conselho, o pastor local dissolveu as igrejas menores trazendo assim a paz eclesiástica.

Mal o líder de Porto Alegre terminou de falar, Paulo Leivas Macalão contrariou o ponto de vista dos suecos. Para o pastor de Madureira era um "perigo" ter uma só igreja dominando as outras nas cidades, pois as pequenas congregações ficariam sob uma "organização rígida".

Óbvio que Macalão falava em causa própria. Em 1938, ele e seu cunhado Sylvio Brito abriram uma filial de Madureira em São Paulo, onde já havia uma congregação pioneira desde 1927. A proposta era totalmente contra seus interesses.

É provável que à referência as "lutas", seja o caso da abertura da congregação do Brás. Algo tão traumático, que Brito teve seu nome apagado da história da igreja da Missão da qual foi pastor. Os problemas de transferências de membros e obreiros de um ministério para outro também era foco permanente de tensões.

E para ironia da história, o próprio Macalão colocou as suas igrejas filiadas sob uma "organização rígida" ao criar em 1958 a Convenção Nacional de Madureira e elaborar o Estatuto Padrão, instrumento jurídico que assegurava a unidade do ministério em todo o país.

Já se passaram sete décadas da discussão levantada por Otto Nelson e as ADs cresceram muito. Fragmentaram-se ainda mais em ministérios e convenções. Se em alguns locais a convivência entre as igrejas atualmente é pacífica, em outros é de total beligerância.

O caso mais conhecido é da AD em Pernambuco. A rivalidade entre os dois ministérios é enorme. Até termos pejorativos são usados nessa batalha. Exemplo: os assembleianos ligados a AD no Recife ironicamente chamam o ministério rival de Abreu e Lima de "Abreu e Lama"...

Fontes:

COSTA, Jeferson Magno, Paulo Macalão - a chamada que Deus confirmou, Rio de janeiro, CPAD, 1983. 

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A evolução dos templos nas Assembleias de Deus

O sociólogo Gedeon Alencar em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira trabalha a evolução funcional dos templos assembleianos. Ele divide as construções eclesiásticas em três modelos: o templo-casa que é a marca dos primórdios do pentecostalismo, o templo-pensão fruto da institucionalização da igreja, e por fim o templo-shopping, o qual representa a ascensão social dos crentes.

Mas é bom destacar: todos os três modelos ainda convivem no tempo e espaço em diversas regiões do país. Assim como ainda estão presentes os rituais, louvores e o ethos dos crentes que frequentam essas igrejas.

Para maior reflexão, deixo aos leitores fotos e fragmentos do texto da obra de Alencar sobre os templos que marcaram não só a história das ADs, mas também, as memórias de muitos crentes.

Templo-casa
Templo-casa: A igreja - não custa lembrar: nos primeiros anos não há templos - é uma extensão da casa e vice-versa. E os primeiros templos, quando construídos , não se diferiam muito das casas do membros. Os templos assembleianos não têm energia elétrica, som eletrônico, estacionamento, sanitários públicos, secretarias, tesouraria, salas de aula, luxo e não estão nas avenidas importantes da cidade; são apenas espaços carismáticos das reuniões. Ademais, construídos e mantidos pelos próprios membros. (p.144)

Templo-pensão
Templo-pensão: Então, a igreja-sede é uma grande pensão, onde se tem hospedagem e alimentação. Simples, porém gratuitas. São nos templos-sede que se realizam as EBs, as convenções, tanto nacionais quanto regionais, daí por que eles foram construídos com hospedagem. (p.200)

Templo-shopping
Os templos-shopping se distinguem dos demais em três aspectos: a nova membresia assembleiana em ascensão social exige o mínimo de (1) conforto, com seu aumento de renda tem mais possibilidades de (2) compras e, em processo de racionalização, a (3) celebração litúrgica se profissionalizou. (p.255)

Fonte:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

sábado, 12 de novembro de 2016

Mulheres pregadoras - Irmã Estacília

Stanislava Budkowski, ou simplesmente irmã Estacília (1885-1967), foi um dos principais nomes do ministério feminino das Assembleias de Deus no Brasil em seus primórdios. Revisitar a biografia da pioneira, é perceber que, mesmo com as limitações impostas pela Convenção Geral de 1930 à atuação das mulheres no ministério, algumas ainda se sobressaíram na obra pentecostal.

Estacília nasceu em Varsóvia, capital da Polônia em 1885. As guerras na região levaram os Budkowski a sair do país de origem e migrar para o Brasil. Posteriormente, por motivos de enfermidade paterna, à família polonesa voltou à Europa (Portugal).

De volta ao Brasil, ainda muito jovem, Stanislava casou com Manoel Inácio de Araújo, militar que cumpriu serviços em várias cidades do Rio Grande do Sul e do nordeste. Entre idas e vindas, fixaram residência na cidade do Rio de Janeiro. No então Distrito Federal, após experimentar uma cura divina, começou a frequentar a Igreja Batista.

Estacília e seu esposo Manoel: ministério intenso nas ADs

Passados muitos anos, Estacília conheceu o Batismo do Espírito Santo na AD em Marechal Hermes (RJ). Cultos começaram a ser realizados na casa dos Araújo e o casal passou a congregar tempos depois na AD em Madureira liderada pelo pastor Paulo Leivas Macalão.

Um dia, Estacília notou que o pastor Paulo olhava para ela "fixamente" no culto. Temia estar fazendo algo de errado, pois Macalão "era temido por sua severidade". Em determinada manhã, durante a escola dominical em Marechal Hermes, o líder de Madureira a designou para executar uma missão importante: orar e ungir com óleo uma irmã tuberculosa, a qual foi curada.

Sim, Macalão ordenou uma mulher orar e ungir. Uma ação em muitos ministérios somente realizada por presbíteros e pastores. O caso revela à autonomia do líder de Madureira e uma faceta não muito conhecida do seu ministério: o apoio ao ministério feminino.

Ao descrever para o Mensageiro da Paz sobre campanhas evangelísticas de missionários norte-americanos no Rio na década de 1950, Zélia Macalão observou: "há muito tempo vinhamos lutando por essa fé, e através de algumas lutas, o Senhor tem usado as irmãs Estacília e Dorinha e inúmeros doentes têm sido curados e salvos". Pode se perceber no relato, que as irmãs sofriam resistências no desempenho do seus ministérios.

Segundo consta em sua biografia, a missionária ministrava curas "através do envio de lenços ungidos com azeite" e dava "azeite para ser tomado pelos enfermos". Talvez, o fato de ser mulher e de usar meios considerados "exóticos" no meio assembleiano, foram os motivos das resistências e desconfianças contra Stanislava.

Mas vencendo opiniões contrárias, Estacília desenvolveu um profícuo ministério de revelações e cura divina nas ADs que durou 40 anos. Ela também integrava as comitivas de obreiros lideradas por Macalão em visitas as igrejas de Madureira no interior do Brasil. Pregava em cultos e cruzadas evangelísticas.

Nas fotos antigas dos cultos em Madureira, Estacília está sempre no púlpito acompanhada de Florinda Brito (sogra de Macalão e pioneira da AD no Rio) e Zélia Macalão, esposa do líder do ministério. Autoridades e políticos frequentavam sua casa em busca de orações e possíveis revelações, inclusive presidenciáveis da época.

A pioneira tombou em combate enquanto voltava de uma campanha evangelística de Cabo Frio (RJ). Passou mal e faleceu aos 82 anos de vida deixando grandes marcas na AD em Madureira.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. 100 mulheres que fizeram a história das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2011. 

SÁ, Natanael Germano de; SÁ, Loides dos Santos. Cura Divina e Milagres, Hoje! Vida e Obras de Stanislava Budkowski (Irmã Estacília). Rio de Janeiro: Lenan Editorial, 2010.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1951.

sábado, 5 de novembro de 2016

O templo de Cordovil - Deus e o ateu

No dia 5 de maio de 1989, o jornal O Globo, destacou que em Brás de Pina (RJ) corria "o boato" de que o grandioso templo da Assembleia de Deus - Ministério de Cordovil, em fase final de construção seria um projeto de Oscar Niemeyer.

Segundo o periódico, a suposta autoria do famoso arquiteto fez com que os moradores da região, evangélicos ou não, se enchessem de orgulho. Mas "para a frustração de muitos", a obra era na verdade um projeto de "um desconhecido colega de Niemeyer" e membro da igreja, Rubens Farias.

Como toda grande obra, a construção do templo foi um desafio para o ministério carioca e seu pastor Waldyr Neves. A pedra fundamental foi lançada em 1979, mas somente em 1984 é que as obras começaram de fato. Foram anos de dificuldades. 

Templo da AD em Cordovil inaugurado em 1991

"Muitas compras de materiais, preocupações com os preços, afinal de contas, o dinheiro tinha que render. Muitas observações negativas por parte de pessoas que não entendiam nada do assunto" - comenta o site da igreja. As observações se justificam devido ao contexto econômico da época. O Brasil vivia dias de alta inflação e carestia de preços. Era a chamada "década perdida" da economia brasileira.

Soma-se a isso, as muitas "modificações no projeto original para atender necessidades, ora da legislação, ora para adaptação às necessidades da igreja". Já naquele tempo, as leis municipais para obras como igrejas, hipermercados e apartamentos estavam mais rigidas. Fugir dos padrões estabelecidos era arranjar dor de cabeça.

No início, vários obreiros e irmãos ajudaram na edificação. Quando O Globo visitou às obras, havia dez operários de uma construtora. Custos e orçamentos eram altos, mas o engenheiro responsável afirmou que nunca faltou recursos "graças à ajuda incondicional de irmãos empresários e trabalhadores".

Após anos de esforço, o novo templo da AD em Cordovil foi inaugurado no dia 26 de maio de 1991. Vários líderes da denominação estiveram presentes para as festividades. Orgulhosos pela imponência e beleza das linhas arquitetônicas da nova casa de oração, os crentes celebraram à vitória.

Feliz, Rubem Farias declarou que "Deus o inspirou em cada linha traçada". Porém, ao Globo, Farias explicou que toda arquitetura moderna no Brasil "paga tributo às obras do gênio Oscar Niemeyer, e talvez eu tenha pago sem saber".

Niemeyer era um comunista e ateu declarado. Mas nada o impediu de projetar a Igreja de São Francisco de Assis da Pampulha, Belo Horizonte (MG), e a Catedral de Brasília. É irônico, que na junção dos relatos sobre o templo de Cordovil, Deus e o descrente arquiteto apareçam como inspiradores da obra.

Fontes:

O Globo, 05 de maio de 1989, Jornais de Bairro, p.7 (acervo digital).

http://www.admc.com.br/2014/nossa_historia.html

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

AD em Santos - explicações de Corrêa e as criticas de Reikdal

A edição de abril de 1997 da revista A Seara com a entrevista do pastor da AD em Santos Paulo Alves Corrêa causaria grandes polêmicas. Diante da repercussão, a CGADB promoveu durante os dias 16 e 17 de julho do mesmo ano, o 1º Simpósio Nacional de Doutrinas.

Com a presença de mais de 200 líderes de todo o país, os debates pró e contra as declarações do pastor santista se acirraram no evento. Tanto, que a defesa do líder foi considerada pelo Mensageiro da Paz (MP), o "momento de maior interesse" do encontro, pois em Santos (segundo alguns pastores) "estaria ocorrendo casos de heresias, com pretensa direção do Espírito Santo".

Corrêa, em sua defesa, contou que ao assumir a AD em Santos rogou a Deus "algo novo para renovação dos cultos, porque eram frios". Percebeu algo diferente acontecendo quando, ao orar, as pessoas caíam sem que ele notasse. Seria, segundo ele, a resposta à oração, à "nova unção".

Mensageiro da Paz: artigo de Alfredo Reikdal
Contou ainda, que obreiros do próprio ministério criticaram as manifestações atribuindo-as ao demônio. O próprio pai, o veterano João Corrêa ficou contrariado com o que viu, mas também teria sido alcançado pela "nova unção", caindo e orando por três pessoas "com os mesmos resultados". 

Paulo afirmou, não tocar nas pessoas para que caíssem, não soprar sobre elas e muito menos ser seguidor de Benny Hinn. Refutou ser adepto de modismos provenientes da América do Norte. Em suma: havia muitas distorções nas informações sobre o que estava acontecendo em Santos. Porém ficou claro na matéria do Mensageiro, que ele não convenceu a todos no simpósio.

O debate não ficaria na matéria sobre o evento da Convenção Geral. Na mesma edição do MP, Corrêa seria veementemente refutado por um dos mais proeminentes líderes das ADs no Brasil: Alfredo Reikdal (1910-2010), antigo pastor do Ministério do Ipiranga em São Paulo.

Reikdal, não poupou críticas à "nova unção" e muito menos as declarações do pastor santista sobre o "ranço das tradições". Confessou ter ficado "chocado e angustiado por muitas noites" com a entrevista publicada na A Seara. Censurou àquilo que ele chamou de "movimentos estranhos, inovações e artificialismos" introduzidas dentro das ADs por "alguns obreiros". 

O veterano ainda considerou ofensivo a expressão "ranço da tradição" usada pelo seu colega de Santos. Para ele, o termo afrontava os pioneiros que através de muitos sacríficos e lutas ergueram as ADs no Brasil. Ranço, segundo o octogenário obreiro, apoiando-se no sentido etimológico da palavra, seria o mesmo que dizer que os desbravadores pentecostais eram "velharia... bafo malcheiroso". 

Não por acaso, Alfredo Reikdal em 1999, desligou-se da convenção regional presidida por Paulo Corrêa para fundar a Convenção dos Ministros Ortodoxos das Assembleias de Deus do Estado de São Paulo (Comoespo). 

Mas as controvérsias se estenderiam ainda mais alguns anos e chegariam a um ponto máximo de questionamentos do ministério do pastor Paulo Alves Corrêa, o sucessor do respeitado João Alves Corrêa.

Fontes: 

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

Mensageiro da Paz, ano LXVII - nº 1326/setembro de 1997, p. 3 e 7.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

AD em Santos - a entrevista do pastor Paulo Corrêa

Há quase duas décadas, o líder da AD em Santos (SP), pastor Paulo Alves Corrêa tem se envolvido em polêmicas. Tudo começou com declarações dadas por ele à revista A Seara - edição de abril de 1997.

Intitulada "Creio na nova unção" - Líder da AD na Baixada Santista desenvolve estilo ministerial que inclui o "cair no Espírito" e defende tese da prosperidade para o crente, à entrevista, como se verá adiante em outra postagem, causou acirrados debates entres os pastores assembleianos.

Paulo A. Corrêa: entrevista polêmica em 1997

Porém, é bom registrar, que na mesma edição, Corrêa também abordou temáticas relevantes sobre às ADs. Juventude, missões, evangelismo e crescimento da igreja foram assuntos tratados de forma muito coerente.

Declarou que "a principal causa de não crescermos é a divisão entre nós". Comparou a denominação a uma "concha de retalhos" e expôs a fragilidade da CGADB ao afirmar "a nossa Convenção Geral determina e ninguém cumpre".

Mas a declaração: "Creio na nova unção. Um dia orei por algumas pessoas e elas começaram a cair. Hoje imponho minhas mãos e as pessoas caem", ganhou uma indesejada repercussão no meio das ADs. A tal ponto das outras questões serem esquecidas por seus futuros acusadores. 

Outra assertiva, posteriormente muito atacada por parte de um veterano obreiro das ADs, foi o desejo manisfestado de que a igreja crescesse e "que os pastores não estivessem atrelados ao ranço da tradição". Mais à frente volta a repetir: "A igreja não cresce porque tem o ranço da tradição". 

Afirmou não se considerar neopentecostal, "mas alguém que dá vazão ao mover do Espírito". Ao ser perguntado se convidaria Benny Hinn para pregar em sua igreja, o pastor santista disse considerar Hinn "um servo de Deus com experiências práticas da ação milagrosa do Espírito Santo". 

Mencionou o milagre, presenciado por ele pessoalmente, em que o famoso evangelista orou por uma criança deficiente e o osso da perna dela cresceu instantaneamente. "Por isso, entre a teoria e a prática, escolho a prática" - considerou. Mais à frente, ao ser perguntado sobre a personalidade evangélica de destaque no exterior, Paulo citou justamente Benny Hinn. 

Hinn, nessa época, já era questionado por seus ensinamentos e profecias duvidosas. Mas ignorando todas as polêmicas, Corrêa declarou que o convidaria "simplesmente porque ele é um homem de Deus". 

Todas essas declarações caíram como uma bomba no meio das ADs. Tanto que meses depois, o pastor santista teve que se defender em um tenso encontro de líderes. Ainda não se tinha certeza, mas as respostas de Corrêa na entrevista, apontavam para as tendências litúrgicas e doutrinárias que levariam a AD em Santos em poucos anos à decadência. 

Fontes:

A Seara , ano 40, n. 5, abr. de 1997. págs.7-9.

Meus agradecimentos à equipe do Centro de Estudos do Movimento Pentecostais (Cemp), pela preciosa ajuda na pesquisa para esse texto.

sábado, 15 de outubro de 2016

Medo: antigos e novos receios nas ADs

Houve um tempo, em que os temores dos pastores assembleianos eram somente de natureza externa. As lutas eram as perseguições movidas por fanáticos religiosos. A intolerância, as vezes vinha do clero e dos fieis da Igreja Católica, mas os pentecostais também eram censurados e difamados pelos evangélicos de denominações históricas.

Veio posteriormente as lutas internas e o perigo das heresias surgiram. Afinal, nossos pioneiros desejavam à pureza doutrinária. Na história das ADs, um grupo de crentes calvinistas na década de 1930 foram desligados da denominação e fundaram a Igreja de Cristo.

Tempos depois, como a vinda dos missionários norte-americanos, o grande medo foi a criação dos institutos bíblicos. As tais "fábricas de pastores" seria para muitos veteranos obreiros, um grande mal para as ADs. Foi contra a vontade dos caciques assembleianos e correndo o risco de serem expulsos da AD, que o casal Lemos implantou o IBAD em Pindamonhangaba (SP).

A vaidade e o mundanismo também rendeu grandes preocupações e debates. Os líderes, zelosos pelos bons costumes combateram modas, penteados, jóias, broches e enfeites. Outro ponto de polêmicas foi a mídia audiovisual (rádio e televisão). Pastores se orgulhavam em informar nas convenções, que em sua gestão os membros haviam se desfeito do aparelho de TV.

Antigos e novos medos nas ADs

Com o advento das igrejas neopentecostais entre as década de 1970/80, o Mensageiro da Paz dedicou algumas matérias combatendo a teologia da prosperidade, maldição hereditária, G12 entre outras aberrações e modismos teológicos.

A lista poderia ainda contar com as questões políticas. O medo do comunismo e de ter suas portas fechadas, rondou as ADs. Poderia se incluir, o receio de uma velhice no esquecimento, abandono e sem proventos. Quantos pastores passaram (ou passam) por essa situação.

Muitos desse medos já foram superados ou esquecidos. Vez por outra, nas eleições o receio do comunismo é ressuscitado. A importância do ensino teológico é consensual. Quanto aos modismos teológicos, pelo que se percebe, em nome do "progresso" da obra vários deles são adaptados ou aceitos para a alegria de muitos e tristeza de outros.

Mas, contraditoriamente, alguns receios rondam a liderança assembleiana. Hoje, a denominação orgulhosamente exibe pessoas de várias classes sociais em seu meio. E entre esse fieis, há um tipo de ovelha, que ultimamente têm tirado o sono de muitos pastores.

Membros de destacada condição social e profissional, estão provocando reviravoltas em muitas igrejas. Ao questionar a aplicação dos recursos financeiros, os nobres irmãos que, por serem profissionais abalizados e independentes causam receios profundos nas convenções.

Em Santa Catarina, a diretoria de uma AD no sul do estado estava em apuros com uma situação dessas. No litoral algo semelhante ocorreu com alterações no estatuto. No Rio de Janeiro, dentro de uma AD de Madureira, mudanças ocorreram por conta da insatisfação dos membros. Soma-se a isso à força das redes sociais. Algo que era antigamente era segredo, hoje é espalhado ao vento com o surgimento da internet.

Novos tempos, novos medos. E assim caminha as ADs no Brasil.