quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Aniversário de pastor - críticas de João de Oliveira

Há eventos dentro das Assembleias de Deus, que de tanto tempo instituídos parecem até ser "naturais". Gedeon Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, destaca que o período de 1946 à 1988, consolidou-se dentro das ADs as tradições. Tradições essas criadas ou (citando o historiador Éric Hobsbawn) "inventadas".

Porém, naquelas décadas de crescente institucionalização assembleiana, havia espaço para contestações nos periódicos da CPAD. Alguns pioneiros sempre se manifestavam sobre determinados temas através do Mensageiro da Paz ou da revista A Seara. Bons debates foram travados na imprensa denominacional, onde os diversos pontos de vista eram explicitados. 

Um dos questionamentos que veio a público, foi algo muito popular hoje em dia nas igrejas: as comemorações de aniversário dos pastores. E ironicamente, a objeção veio nas páginas da Seara, que tinha por hábito divulgar esse tipo de celebração.

Aniversário do pastor Corrêa

O artigo Deve a igreja promover aniversário de pastor? - escrito pelo pastor João de Oliveira levantou criticas sobre esse tipo de evento nas igrejas. No entender do veterano obreiro, sempre apareciam no "seio da cristandade, coisas que consideradas à luz dos Evangelhos estão fora do plano divino e muitas vezes essas coisas entram e crescem fortes raízes, tornando-se até como 'doutrina'...".

Na visão do pastor Oliveira, combatia-se tantas coisas necessárias à igreja como institutos bíblicos, caixa de auxílio de obreiros, orfanatos, escolas, etc. Mas as "festículas" com propósitos de agradecer a Deus pela vida do pastor, as quais acabavam por exaltar de forma exagerada a figura do líder, não eram contestadas. 

Pastor João comenta exageros do tipo "jogar pétalas de flores" e de "recitais de honra ao mérito". Afirma o escritor não ser contra celebrações na igreja ou em família. É provável, que a preocupação do obreiro era com àquilo que conhecemos de "culto à personalidade". 

Oliveira chega a ironizar certa comemoração do natalício de um pastor, onde houve alegria e "festejos" e tempos depois "já havia luta pela saída dele da igreja". A própria experiência do articulista parece que não foi muito boa nesse sentido. 

João de Oliveira fez suas observações em 1968. Faleceu aos 69 anos em 1980. O que diria ele ao ver as suntuosas festas e o glamour de certos eventos natalícios em algumas igrejas e ministérios da atualidade? 

Os pastores merecem reconhecimento pelo seu árduo trabalho? Óbvio que sim. Mas nunca as celebrações de aniversário dos ministros evangélicos revelaram tanto a distância social entre os líderes e membros da igreja. As ofertas e presentes oferecidos nas efemérides eclesiásticas, fazem o "jogar pétalas de flores" e os "recitais de honra ao mérito" citados pelo pastor Oliveira algo pueril.

Talvez, a principal preocupação dos crentes mais abalizados biblicamente é o culto à personalidade. Nas celebrações é flagrante o endeusamento dos líderes e das famílias pastorais. O que começou como ações de graças pela vida do pastor, hoje faz parte da agenda oficial dos ministérios. E ai do obreiro que faltar...

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

A Seara, nº 68, junho/julho de 1968, p.39.

Um comentário:

  1. Aqui no estado de São Paulo, com perdão da palavra, dá até nojo, as comemorações de aniversário de pastor presidente. Os homens são endeusados

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