sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A rebelião feminina em Piedade (RJ)

Existem as mais variadas histórias na centenária Assembleia de Deus (AD). Algumas heroicas, outras dramáticas. Há memórias tristes de divisões, disputas de poder e jogo de interesses. Mas, também existem narrativas de pioneirismo, sacrifícios e amor à obra de Deus.

Entre tantas histórias, algumas são celebradas e outras esquecidas. Isso faz parte da construção da escrita memorialística: a seleção, edição, interpretação e o uso político dos fatos. É assim na história política e na eclesiástica também.

Nesta postagem, relembraremos um caso inusitado dentro da histórias das ADs. Um episódio que, obviamente jamais ficaria registrado na história "oficial" da denominação, a qual, diga-se de passagem, deve sempre estar voltada para a edificação do santos.

No mês de outubro de 1958, a congregação da AD em Piedade no Rio de Janeiro virou notícia no jornal Correio da Manhã (RJ). Sim, por meio de um periódico secular, os habitantes da cidade do Rio ficaram sabendo de uma inusitada "rebelião" das irmãs da igreja no bairro da zona norte carioca.

Correio da Manhã: notícia inusitada

Segundo a reportagem, os fieis da igreja reuniam-se no templo e o "culto desenvolvia-se sem novidades" com os hinos e orações costumeiras. A pregação da noite ficou sob a responsabilidade do pastor local Antônio de Oliveira.

Ao que tudo indica, o culto teria terminado dentro da normalidade, até que ao fim da mensagem, pastor Oliveira abordou o tema "O uso de adornos e a vaidade feminina". Usando tom "agressivo", exortava o obreiro às irmãs a "deixarem de usar jóias".

Conforme desenvolvia sua prédica, a irritação do público feminino aumentava. No auge da pregação, as assembleianas resolveram atender aos insistentes apelos do pastor. Mas não exatamente da forma como ele desejava: "não mais resistindo aos ataques, começaram a retirar os adornos, e em seguida à atirá-lo no seu guia espiritual".

Surpreendido pela fúria das irmãs, o corajoso obreiro "defendia-se de qualquer maneira, até que, esgotado o estoque de jóias, foi executado novo ataque, agora por intermédio de bíblias e outros objetos ao alcance de suas agressoras" - relatou o Correio. A revolta só terminou com a intervenção policial e de populares.

Geralmente, um jornal só registra o fato, mas não dá o seu contexto. É provável, que em outras oportunidades o nobre pastor tenha exortado daquela forma. Pode ter ocorrido (como acontece muito ainda nas ADs), que o distanciamento cultural e teológico do líder e dos fieis sobre o tema (e outros) ser muito grande.

A igreja, gradativamente tornou-se uma "panela de pressão". Explodiu! E as consequências foram as piores possíveis para a imagem da denominação. Foi um escândalo na visão dos assembleianos mais antigos. Mas quebra o mito da passividade das mulheres crentes diante da rígida imposição dos usos e costumes de santidade.

Mas é interessante notar a postura da igreja. Em 1958, pelo que se sabe, as ADs ainda eram marcadas pela rigidez da "doutrina". Estaria a AD em Piedade fora dos padrões assembleianos da época? Seria uma precursora das ADs atuais?

Quantas situações como essa ocorreram dentro da denominação? Quantas ainda acontecem? Quantos obreiros ainda conservam suas mensagens, administração e interesses totalmente divorciados das igreja que lideram?

Fonte:

Acervo digital da Biblioteca Nacional - Correio da Manhã, quinta-feira, 16 de outubro de 1958.

2 comentários:

  1. É de se estranhar este fato ocorrido em 1958, numa época em que as igrejas AD eram constituídas de pessoas humildes e sem cultura e talvez por causa disso, alguns líderes se sentiam mais à vontade para impor suas normas rígidas, em nome da "boa doutrina". Ainda mais sendo no Rio de Janeiro, onde até pouco tempo se dizia que as AD eram mais "avançadas"...

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