sábado, 23 de julho de 2016

Pastor Carneiro - autonomia, exclusão e tensões na CGADB

Ao trocar Brasília por Anápolis, Antônio Carneiro exigiu autonomia e, Paulo Macalão, para não perder a estratégica AD na futura capital do país fez a barganha. Para facilitar as negociações, Macalão apelou para uma profecia que, infelizmente, não previu as dificuldades futuras e a perda da igreja anapolina.

Não há informações claras sobre as razões da cisão, mas há possibilidade do rompimento estar ligado à centralização de poder feita por Macalão em 1958, quando ele é eleito pastor geral do Ministério e cria a Convenção Nacional de Madureira. Para assegurar a unidade institucional elabora o "Estatuto Padrão", visando "garantir a comunhão fraternal, espiritual, doutrinária e patrimonial".

É provável, que a centralização tenha desagradado o pastor da AD em Anápolis. Carneiro era um obreiro dinâmico, ousado e empreendedor. A personalidade dele, talvez não se moldasse às imposições vindas do Rio de Janeiro. 

Carneiro: exclusão e autonomia

Por sua vez, Macalão não aceitava arroubos de autonomia. Obreiros "que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos" - conforme informa Jason Tércio em seu livro Os Escolhidos

Portanto, o choque foi inevitável. No fim de 1960, pastor Carneiro com apoio da maioria dos membros, rompe com Madureira e funda o Ministério de Anápolis. A exclusão é decretada. Ou será, que a cisão, na visão do líder anapolino seria uma ação legitima e necessária para preservar a (prometida por Macalão) autonomia?

Na CGADB de 1962, realizada em Recife, o assunto entre Madureira e Anápolis foi tratado com grande tensão. Havia a resistência por parte de alguns pastores em publicar, como era de praxe, a exclusão de Carneiro no Mensageiro da Paz. Macalão em protesto não participa da convenção. 

Pastor Alípio da Silva, representando Madureira "fez um apelo à Convenção para que autorizasse a exclusão" no Mensageiro e não fosse permitida a entrada de Carneiro e do pastor José Rodrigues de Sobradinho no plenário convencional. 

Estevam Ângelo de Souza, líder da AD no Maranhão, por sua vez, defendia o direito de defesa, mas Alípio insistia "para que fosse respeitada a decisão" do Ministério. Após várias observações por parte de outros pastores, criou-se, a contragosto de Madureira, uma comissão para analise do litigio. 

Depois de muitas negociações, ficou acertado entre os obreiros de Madureira e Anápolis que "mutuamente" se esforçariam para "desarmar os espíritos" e selar um acordo de "reconciliação" e "pacificação" entre eles. Segundo a narrativa oficial, após o divulgação do acordo "o poder de Deus se manifestou" e houve "lágrimas sinceras". Somente depois dessa difícil negociação, os pastores Carneiro e José Rodrigues foram aceitos na convenção.

Assim, a própria história oficial deixa explícito o incômodo e as tensões derivadas das promessas e expectativas geradas pela expansão das ADs no coração do Brasil. Ironicamente, Brasília precocemente gerava (direta ou indiretamente) seus golpes. Nesse caso, um golpe eclesiástico.

Outros golpes viriam na "Capital da Esperança". Antônio Carneiro e a AD em Anápolis ainda seriam assunto nas CGADBs, no Mensageiro da Paz e na imprensa secular anos depois. 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

d'AVILA, Edson. Assembleia de Deus no Brasil e a política: uma leitura a partir do Mensageiro da Paz. Dissertação (Mestrado) - Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, Curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião. São Bernardo do Campo, 2006.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997. 

http://www.jornalcontexto.net/admin/images/71238100_1267185454.pdf

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