quinta-feira, 16 de julho de 2015

Costa x Costa - a luta pela AD no Ceará (2ª parte)

A morte do pastor José Teixeira Rêgo precipitou a sucessão que, em tese, deveria ser conduzida e controlada por ele mesmo. Sem a presença e autoridade conciliadora, a igreja testemunhou uma verdadeira guerra de interesses e luta pelo poder político-eclesiástico no Ceará.

De um lado, o representante do pentecostalismo moderno e urbano, o deputado estadual, advogado, pastor e genro do "apóstolo de Ceará", Luiz Bezerra da Costa. Do outro, o pastor Emiliano Ferreira da Costa, que não contava com um currículo secular tão expressivo como seu opositor, mas era o representante legítimo do pentecostalismo rural. No centro da disputa, o controle da igreja, e ao que tudo indica outras coisas mais.

O jovem Costa: pastor e deputado

Segundo o historiador Ruben Maciel, a própria perpetuação do mítico "apóstolo do Ceará", pastor José Teixeira Rego no comando da igreja já era alvo de contestações. Nos últimos anos antes da sua morte, o veterano obreiro preparava a sucessão, e claramente o nome do seu genro Luiz Costa despontava como seu herdeiro ministerial.

Luiz tinha uma carreira secular e profissional muito ativa na comunidade de Fortaleza. No período, em que eram raras as investidas de crentes na seara política, o jovem Costa construiu sua base eleitoral junto à igreja. E isso sem dúvida com o consentimento do sogro, que provavelmente via nesse apoio uma forma de trazer recursos e projeção social para a denominação.

Se ainda hoje as relações política e igreja trazem verdadeiros "calafrios" para muitos crentes, é de se imaginar como a igreja de Fortaleza viu essa proximidade há mais de 50 anos. E pode-se refletir, como a igreja também observou a ascensão ministerial de Luiz Costa, a qual diga-se de passagem foi rápida para os padrões da época. Maciel relata o teor de uma carta remetida por um adversário de Luiz, contestando a ordenação do jovem deputado, o qual "Sem condições de ser indicado por uma convenção plenária, foi graciosamente ordenado evangelista, em 1960, de modo inesperado...". Essa separação teria sido feita oportunamente durante uma visita do missionário sueco Nels Nelson a Fortaleza.

Ainda segundo o historiador da AD cearense, comentava-se sobre a "formação de um movimento subversivo que reivindicava o adiantamento da aposentadoria de José Teixeira Rêgo, alegando sua velhice e seus problemas de saúde". Logicamente que o grupo ligado ao pastor Teixeira Rego, também sustentava todo um discurso de defesa e legitimidade das ações do seu líder, mas fica evidente em todo o contexto as tensões dentro da comunidade pentecostal.

Talvez por isso, pastor Emiliano Ferreira tenho sido transferido nessa época de Bela Vista, que era a principal congregação do campo, para a região de Itapajé. Com histórico identificado com a ala mais tradicional da igreja, sendo líder em potencial - provavelmente uma das principais vozes contra a "modernidade" representada por Luiz Costa - Emiliano tenha sido visto como ameaça aos planos sucessórios e familiares do então pastor-presidente da AD cearense.

Refletindo sobre todo esse contexto de tensões e diferenças, Ruben Maciel observou:
Nos últimos anos da década de 1950, a pólvora estava despejada nas salas de reuniões, nos templos e, talvez, pelos campos do interior pertencentes à denominação. O "estilo cearense" erigiu lideranças fortes e autônomas e heterogêneas. Faltava apenas um evento para acender a chama. No dia 5 de dezembro de 1960, antes de ordenar seu genro à direção geral da instituição, José Teixeira Rêgo faleceu em um acidente automobilístico.
Na periodização do jovem historiador, a morte do "apóstolo do Ceará" foi o fim dos anos de "comunhão" da AD alencarina. O que viria a seguir, seria a oposição acirrada de parte do ministério as pretensões do Dr. Luiz Costa de assumir a igreja de Fortaleza. E um nome entre todos se destacaria: Emiliano F. da Costa.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRANKLIN, Ruben Maciel. A Chama Pentecostal chega à Terra da LuzBreve História das Assembleias de Deus no Estado do Ceará 1914-2014. Pindamonhangaba: IBAD, 2014.

Um comentário:

  1. Grande parte do problema se deve à vitaliciedade. Alguns líderes passam a tratar a igreja como extensão de sua própria casa, como explico em um documento sobre o assunto: http://www.daladierlima.com/uma-analise-sobre-vitaliciedade/

    Se interessar a alguém...

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