sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O crepúsculo de um ministério

Pastor José Pimentel de Carvalho, foi uma forte liderança que se consolidou nas Assembleias de Deus no Brasil. Nascido em 1916 em Santa Tereza, na cidade de Valença (RJ) em 1916, Pimentel iniciou seu ministério ainda muito cedo, e no ano de 1945 em uma Escola Bíblica de Obreiros na AD em São Cristóvão (RJ) foi separado ao pastorado. Teve o privilégio de conviver com os missionários suecos, os quais lideraram a igreja no Rio de Janeiro.

Pastoreou igrejas na cidade do Rio de Janeiro, e foi auxiliar do missionário Nels Nelson em São Cristóvão, tempo esse em que viu o processo de fragmentação dos ministérios assembleianos. Talvez por isso na gestão do pastor Alcebiades Vasconcelos foi contrário ao plano de emancipação das congregações maiores. Por pouco não se tornou o pastor-presidente da AD em São Cristóvão, mas uma reviravolta na assembleia geral da igreja impediu esse feito.

Pastor José Pimentel de Carvalho
Na biografia do pastor Vasconcelos, pode-se perceber que pastor Pimentel de Carvalho era uma liderança forte junto aos presbíteros da igreja, e como o presbitério era - segundo o próprio Alcebiades - "todo-poderoso", talvez por isso tenha sido providencial para a liderança do Rio sua mudança para a igreja de Curitiba em 1962.

Assumiu o pastorado da AD em Curitiba em um momento delicado, com uma igreja dividida e em crise. Sempre repetia que assumiu a igreja contra sua vontade, mas ali estabeleceu sua liderança. Foram quase 49 anos de pastorado, no qual o ministério da AD curitibana se estendeu por toda região metropolitana da capital paranaense. Em 2002, a igreja tinha aproximadamente 80 mil membros, 100 mil congregados e mais de 540 congregações na região da grande Curitiba.

Entretanto é bom lembrar que, pastor Pimentel durante todos esses anos de liderança não emancipou nenhum campo eclesiástico e concentrou muito poder em suas mãos. Toda essa representação seria importante para destacá-lo entre líderes de outros importantes ministérios e presidir a CGADB em seis oportunidades.

Líder conciliador, bem humorado, segundo Gedeon Alencar, o pastor de Curitiba representava um nome símbolo da modernidade na denominação. O moderno templo sede da AD em Curitiba, construído em sua gestão, seria um marco dessa postura. Tornou-se conhecido nas Convenções Gerais por trabalhar sempre pela unidade das ADs.

Com o passar do tempo, e o avanço da idade, o veterano pastor começou a abrir mão de tanto poder. Um tanto pessimista, via a AD em franco processo de fragmentação, o qual ele classificava como "irreversível". No ano de 2005, Pimentel resolveu por pressões internas, emancipar 20 campos eclesiásticos, que faziam parte da região de Curitiba. Sentia que seu fim estava próximo, e seu sucessor não teria mais a mesma representação que ele.

Não querendo talvez ter o dissabor de ver uma acirrada disputa pelo seu posto ainda em vida, o longevo obreiro permaneceu no cargo até sua morte em 2011 sem, contudo apontar claramente quem o sucederia, gerando com isso uma forte disputa entre seus obreiros. Dias depois do seu sepultamento, se iniciou um processo polêmico de sucessão com interpretações ambíguas do estatuto, que culminou com a eleição do pastor vice-presidente Wagner Gaby.

Eleição essa muito contestada em sua legitimidade, pois de 33 mil membros aptos a votar, pastor Gaby recebeu 3.814 votos, ou seja, pouco mais de 10% do eleitorado total. Pastor Wagner não era o candidato da convenção paranaense, a qual apoio seu opositor mais forte, o pastor Mirislan Douglas Scheffel (3.026 votos).

Uma ironia. Pastor Pimentel, certa vez denominado o "arquiteto da unidade" das ADs no Brasil, não conseguiu em vida encaminhar uma sucessão tranquila e, depois de sua morte, seus herdeiros não conseguiram chegar a um consenso. Do processo eleitoral restou desconfianças, mágoas e muita indignação.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Rio de Janeiro: Novos Diálogos, 2013.


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


O ASSEMBLEIANO. Joinville ano II nº6 dez 87/jan.88 


VASCONCELOS, Alcebíades Pereira; LIMA, Hadna-Asny Vasconcelos. Alcebíades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro: CPAD, junho de 1999.

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