domingo, 13 de julho de 2014

Assembleias de Deus - Patrimônio Cultural

Por ser uma igreja centenária, as Assembleias de Deus no Brasil também já possuem algumas gerações de crentes dentro de si. São aquelas famílias tradicionais, que junto com outros pioneiros fizeram a história da denominação. E não só isso. As ADs também têm seu patrimônio cultural.

Segundo a Constituição de 1988, em seu artigo 216, patrimônio cultural no Brasil é definido como "...os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira..." São exemplos de patrimônio cultural secular as manifestações artísticas ou folclóricas, construções, culinária, diversões, religião e indumentária de um povo. Tudo aquilo que dá sentido ou referência a uma comunidade pode ser considerado patrimônio cultural. 

 AD Madureira: construído para ser um patrimônio
Seguindo esse raciocínio, um exemplo de patrimônio cultural das ADs é a Harpa Cristã. Fazer adaptações e mudanças nela, ainda hoje se constitui um trabalho árduo. Tentativas de modificações ou reformas na década de 1990 no tradicional hinário naufragaram devido às resistências do povo. Há uma relação sentimental e espiritual de muitos crentes com a Harpa Cristã. Certos hinos como o 15 (Conversão), 169 (Hó Jesus me ama!) e outros mais estão marcados nas memórias de muitos assembleianos. O antigo hinário também é a expressão da teologia dos pioneiros. É um simples livro com cânticos, mas em meio a toda suposta modernidade das ADs, ele ainda dá sentido e identidade ao povo.

É irônico que, tempos atrás, por conta dos direitos de publicação, a CPAD e o Ministério de Madureira travaram uma batalha na justiça secular por causa do hinário. Mesmo sendo evidente que a questão era de forte teor financeiro, não deixou de ser relevante o aspecto paradoxal do caso. A Harpa Cristã, a mesma que durante décadas uniu os ministérios, também os dividiu em determinado momento. Felizmente um acordo selou a paz entre Ministérios divergentes.

Outro exemplo é a tradicional saudação a "Paz do Senhor". Consagrada e oficializada na CGADB ainda nos anos 40, a breve alocução, é de norte a sul do país utilizada para identificação dos irmãos entre si. Os mais antigos devem lembrar que não saudar outro irmão com a "Paz do Senhor", poderia significar fraqueza ou desvio da fé. Outras igrejas poderiam até ter outra saudação, mas os assembleianos era (bem firme e com bastante clareza) a "Paz do Senhor".

A lista poderia ser acrescentada com os antigos templos. Porém, em meio ao seu crescimento, e com objetivos de propor melhorias e conforto aos seus membros, as lideranças de muitas ADs acharam por bem demoli-los. E foi ai, mesmo com boas intenções, e por falta de consciência histórica, que muito do patrimônio material e cultural da igreja se perdeu. Um dos casos mais emblemáticos que se tem notícia é da demolição do antigo templo da AD em Belém do Pará.

Por outro lado, a AD em Madureira (RJ) construiu seu templo sede para ser um monumento. Desde o lançamento da pedra fundamental, até sua inauguração no dia 1º de maio de 1953, a obra já se destinava a grandiosidade. A construção, a qual consumiu enormes somas de dinheiro e esforços, era (ou é) em si, a representação do passado, presente e futuro do ministério fundado por Paulo Leivas Macalão. Suas linhas arquitetônicas e seus lindos vitrais, propositalmente possuem a meta de deslumbrar os vistantes e frequentadores. É o retrato do seu líder Paulo Macalão: arrojado e conservador ao mesmo tempo.

Breve em outras postagens esse tema será novamente abordado. Mas sempre é bom refletir sobre nossas referências históricas e culturais. A lista pode ser aumentada, com a inclusão da CPAD ou da EBD. É um tema abrangente e interessante para se pensar a identidade do povo assembleiano. Identidade essa cada vez mais difusa.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.


ARAUJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Um comentário:

  1. Não concordo que o Templo Antigo seja demolido ! Penso que há opções de se construir ao lado ou em outro lugar o novo Templo, preservando a memória viva e histórica daquela Igreja. Citarei um bom exemplo : A AD/Parnaíba - PI, há mais de 30 anos, construiu seu atual Templo (hoje reformado e climatizado) num terreno ao lado do Templo antigo, até porque ele foi o 1o Templo Evangélico daquela cidade, Igreja da qual minha falecida avó fez parte.
    Heitor Folgierini

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