quinta-feira, 23 de maio de 2013

A Harpa Cristã: a resistência da antiga teologia nas Assembleias de Deus

Um conceito interessante no estudo da História é o das temporalidades históricas. Por esse conceito, se entende que, diversos tempos históricos podem conviver no presente, e no mesmo espaço geográfico. Exemplo: agora mesmo no século XXI, em tempos de globalização, verifica-se o uso do trabalho escravo no Brasil, ou constata-se as formas de sobrevivência pré-capitalista no sertão brasileiro, ou nas comunidades indígenas da Amazônia. Moderno e arcaico, novo e antigo, presente e passado, disputam um lugar no sistema de valores das pessoas. Não há portanto, segundo esse conceito, linearidade na história, e sim vários tempos históricos convivendo entre si.

Harpa Cristã: uma teologia antiga num contexto de modernidade
Dentro de uma denominação centenária como as Assembleias de Deus não é diferente. Um dos casos mais emblemáticos é o uso do hinário oficial da denominação: a Harpa Cristã. Com 90 anos de uso, mesmo com algumas modificações e edições ao longo do tempo, ela é a representação máxima da teologia do compromisso e do sofrimento esposadas pelos pioneiros no início do movimento pentecostal no Brasil. Como afirmou para esse blog o historiador Maxwell Fajardo: 
As letras dos hinos refletem a forma como seus autores liam sua realidade, quais as representações criavam em sua mediação com a sociedade. Sem dúvida tais representações contrastam com aquelas produzidas hoje, já que hoje a igreja lê a realidade baseada em outros aspectos. Hoje a igreja é menos "sectária", é influenciada pelo discurso midiático e está muito próximo a teologias elaboradas em outras igrejas que acabam sendo transportadas para o ambiente assembleiano. No entanto, a HC carrega o peso de uma tradição que se mantém apesar de tais mudanças sociais.
Assim, com as transformações ocorridas na igreja nos últimos anos, a teologia expressa, tanto nas pregações como nas canções evangélicas se modificou de forma acelerada evidenciando as teologias contemporâneas. O triunfalismo das composições, a performance dos cantores e as marcas do espetáculo,  revelam as tendencias do mundo evangélico, onde a teologia da prosperidade e a guerra espiritual ocupam seu espaço.

Porém, mesmo com toda essas transformações, algumas mais acentuadas outras menos, grande parte das ADs mantêm em sua liturgia os hinos da antiga Harpa Cristã. E ai que se percebe a convivência de tempos distintos, e de teologias marcadas por tempos e contextos diferenciados.

De um lado, as composições de Frida e Gunar Vingren, Samuel Nyströn, Paulo Leivas Macalão, Otto Nelson, Emílio Conde e outros. Homens e mulheres marcados pelas circunstâncias de perseguições, necessidades e preconceito social. Sem riquezas e muito menos glamour, as letras de suas composições retratam o sentimento de compromisso, sacrifício e perseverança. E por questões de distância temporal, até mesmo algumas expressões dos velhos hinos são totalmente desconhecidos da novos crentes. Lá estão na letra dos hinos, palavras que falam de "serras escarpadas", "coroas e lauréis", "excelso amor", "um pendão real" e por ai vai...

Do outro lado, no mesmo culto, na mesma igreja, e as vezes sendo entoados pelos mesmos cantores, as letras e hinos, cujas letras vibrantes e ritmos contagiantes, expressam as vitórias espirituais e materiais, decretos, ufanismos e superioridade espiritual dos crentes nesse mundo. Ou seja, representam uma teologia e um mundo totalmente antagônico dos pioneiros.

Dessa forma, entre a tradição e as inovações, símbolos novos e antigos, caminha a AD. São tensões permanentes que convivem na centenária denominação.

Nenhum comentário:

Postar um comentário