terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Assembleia de Deus em Porto Alegre: sucessões tumultuadas (parte 2)

O missionário norueguês Nils Taranger assumiu a AD gaúcha no ano de 1955 em substituição ao missionário sueco Gustavo Nordlund, depois que uma crise político-eclesiástica levou Nordlund à renuncia do comando da denominação no estado. Taranger, já estava trabalhando no RS desde o ano de 1946, mas sempre em cidades do interior, quando em meio a uma enorme turbulência, assumiu a igreja.

Nils Taranger e família: crise sucessória e vontade negada

Nesse contexto de crise, pacificou os ânimos dos revoltosos, e criou a Convenção Estadual, dando autonomia a 15 campos eclesiásticos, todos porém subordinados à igreja de Porto Alegre. Na sua longa gestão à frente da igreja, autorizou a emancipação de outros campos, investiu em mídia (programas de rádio e revistas) e em obras assistenciais.

Porém, depois de 43 anos à frente da igreja, em 1998 Taranger sofre uma isquemia cerebral, a qual o leva ao afastamento do pastorado. Nas versões oficiais é comunicado que Nils Taranger "entregou" o pastorado ao pastor João Ferreira Filho, na época pastor da igreja da AD no município de Ijuí. Mas conforme informa Deivis V. Lopes na sua tese de mestrado, o missionário norueguês teria se afastado temporariamente, mas caso não tivesse condições de retornar, o seu sucessor seria o pastor Edgar de Souza Machado, então presidente da AD em Canoas. Essa vontade inclusive, segundo Deivis, teria sido formalizada em uma carta escrita pelo próprio Taranger. Ao tomar conhecimento do teor da carta, a cúpula da Convenção Estadual, principalmente o jovem pastor Humberto Schmidt, ficaram inconformados com tal decisão.

Uma nova crise se instala, e para contornar a situação, os principais pastores do estado destituem Taranger de todos os seus cargos alegando não haver mais condições de exercê-los devido a sua frágil saúde; ignoram sua última vontade e "somem" com o documento escrito pelo missionário.

Na sequencia dos fatos, o pastor João Ferreira Filho (presidente da Convenção Estadual) autoproclama-se pastor da igreja de Porto Alegre, sendo que Nils, só fica sabendo dos acontecimentos dias depois do pastor Ferreira assumir os cargos que lhe pertenciam. Um desfecho no mínimo cruel e irônico para o norueguês, pois assumiu a igreja em meio a uma grave crise, mas deixa o pastorado em meio a outra crise de consequências mais duradouras.

Somente algumas considerações devem ser feitas, pois algumas informações disponíveis se chocam, sendo necessário esclarecê-las.  Deivis afirma em sua tese que as ambições são sempre pelo comando da igreja de Porto Alegre e da Convenção Estadual. Mas acontece, que o comando da Convenção Estadual há muito tempo (ao que tudo indica) estava nas mãos de outros pastores. Ferreira Filho, nesse momento de crise, já era presidente da Convenção do estado gaúcho, e assim, talvez o motivo em ignorar as orientações de Taranger e se autoproclamar líder da igreja da capital. Presidir a igreja pioneira, a mais importante e expressiva no RS seria o ápice do seu ministério.

Assim, a disputa é somente pela igreja da Capital e não pela Convenção do Estado. É no mínimo estranha essa confusão institucional por parte do autor. Pode-se pensar, que parte dessa confusão se deve ao fato de Taranger durante muitos anos presidir a Convenção Estadual, mas há registros que há muito tempo ele não mais presidia a mesma.

Com toda essa crise, o que se destaca é a ânsia por parte da cúpula ministerial gaúcha, de controlar a igreja de Porto Alegre. Terminada a crise, o pastor João Ferreira Filho presidiu a AD da Capital por 5 anos. Acometido por um câncer, uma nova sucessão se inicia, e uma nova crise desponta no horizonte...

Fontes:

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.


LOPES, Deivis Vânio. A Organização eclesiástica da Assembléia de Deus em Canoas/RS. – Porto Alegre, 2008. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, PUCRS.

3 comentários:

  1. Parabéns por escavar a história e trazer à lume coisas que a história "não conta". Este é um excelente serviço que se presta às futuras gerações assembleianas, porque a tendência da "história oficial" é, sempre, contar os fatos de forma épica, "espiritualizada e perfeita".

    Venho sempre aqui.

    Abraços!

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  2. Bom dia, caro professor Mário Sérgio!

    Sou seu aluno da Etap Turma "G" e não sabia deste blog...pois o Sr. não o divulgou!

    Quanto a matéria exposta,é muito relevante saber destes fatos "ocultos" que historiadores escondem da membresia não sei o motivo, mas sempre alguém tem a coragem de mostrá-los, neste caso com propriedade e imparcialidade. Porém é lastimável conhecer querelas eclesiásticas e mal-resolvidas. Lógico que não sou desconhecedor de relatos bíblicos sobre Paulo e Barnabé quanto à contendas na disputa por João Marcos e nem de outros pontos de discussões acerca dos negócios do Reino e não do "Reino dos Negócios", todavia isso não dá margem para que nossos líderes tenham tanta sede pelo poder, disse Rosseau: "O poder corrompe, mas o poder absoluto corrompe absolutamente". Sinceramente falando, tive a impressão de estar lendo uma matéria secular, tal é a disputa pelo controle da igreja. Já não se fazem homens abnegados, humildes e espirituais que conduzam a igreja de Cristo de forma sensata e sabiamente. Faço esta breve oração: "Senhor Jesus, abra os olhos dos nossos amados líderes e leva-os a se colocar diante de ti e dos teus filhos como servos!" Amém!

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  3. Lamentável conhecer estes fatos que por si só comprometem a lisura do Evangelho de Cristo e transparecem a secularização da igreja. Nossos líderes devem ser servos humildes, abnegados e zelosos para com o rebanho de Cristo é Ele quem cobrará de cada Pastor suas obras. Franck Sinatra - aluno Etap Turma "G"

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