sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os pentecostais de Trindade: um caso esquecido

Uma das últimas polêmicas envolvendo a Assembleia de Deus no Brasil, foi o caso da igreja de São José dos Campos (SP). Os que acompanharam cada capítulo dessa novela, perceberam como alguns líderes tratam a igreja: um mero negócio.

A igreja dessa cidade paulista pertencia ao Ministério do Belenzinho, o pastor titular da igreja desligou-se e ficou por anos presidindo de forma autônoma a congregação. Recentemente ele entregou os trabalhos a outro ministério situado no norte do Brasil, causando ainda mais polêmica na fratricida luta pela liderança da Convenção Geral. Passado alguns meses, o tal pastor resolve retomar na justiça a igreja. Pesadas acusações de ambos os lados foram levantadas, brigas dentro e fora da igreja foram testemunhadas por todos (inclusive pela imprensa), e tudo se resolveu através dos tribunais.

Casos como esse não são novidades no meio assembleiano. No passado já ocorreram fatos semelhantes, porém não foram divulgados e ficaram restritos ao bairro ou cidade do acontecimento. Hoje com a internet, a popularização de certas polêmicas e divisões ficam mais conhecidas. Mesmo que na história oficial da denominação não haja uma vírgula sobre fatos como esse, ele todavia será conhecido, discutido, comentado e propagado para várias regiões do Brasil.

Mas gostaria de lembrar dois acontecimentos semelhantes a esse ocorrido em São José dos Campos. Um deles se encontra no Dicionário do Movimento Pentecostal. Segundo Araújo o ministério da Assembleia de Deus em Vila dos Remédios em Osasco (SP) surgiu de uma reação dos membros da igreja com a possível saída do pastor João Tentiliano, o qual após vários desentendimentos com seu supervisor missionário Thomas R. Hoover, resolve juntamente com a congregação fundar um ministério autônomo. O boato de que Hoover estaria vendendo a igreja ao Ministério do Belenzinho foi o grande motivo da reação dos membros para abandonar a igreja, pois o terreno e o templo haviam sido comprados e construídos pelos próprios crentes da igreja. Numa atitude de grande coragem, parte da congregação iniciou um novo trabalho sob a liderança do pastor Tentiliano. Esse fato ocorreu no ano de 1965.

Outro acontecimento interessante, aconteceu no ano de 1978 numa pequena vila de pescadores no litoral do estado do Rio de Janeiro, num povoado localizado no município de Parati chamado de Trindade. Ali os moradores, em sua grande maioria de crentes da Assembleia de Deus e da Brasil para Cristo, estavam naquelas terras como posseiros há mais de 50 anos. A prefeitura de Parati nesse tempo, vendeu as terras para um poderosa empresa, a qual queria transformar a região em pólo turístico.

Resistentes, os posseiros não queriam entregar suas terras, devido a proximidade do mar para a pesca, ou por nela cultivarem suas plantações domésticas. A grande empresa porém, com ameaças e todo um aparato de repressão convenceu muitos deles a venderem suas propriedades. E para surpresa dos próprios crentes da cidade, os pastores, os quais nunca moraram no povoado venderam os templos construídos pelos próprios membros.


Parati: palco de uma manifestação de fé inusitada

Indignados, esquecidos e magoados, os fieis organizaram uma passeata em Parati reivindicando seus direitos e seus templos. Com faixas, cartazes e cantando hinos, os crentes manifestaram seu descontentamento. Nas palavras de Rolim "Era uma forma de dizer: estamos vivos e desejamos ficar em nossas terras." (ROLIM 1985: 88)

O acontecimento de Trindade chamou à atenção de vários jornais, que noticiaram a inusitada manifestação dos pentecostais, de um vilarejo remoto dos estado Fluminense. Até mesmo a revista semanal Veja, em uma reportagem especial sobre o crescimento dos pentecostais no Brasil, repercutiu o caso de Trindade. Segundo a revista "A fé pentecostal dos pescadores de Trindade - lugarejo plantado num deslumbrante pedaço do litoral fluminense, perto de Parati - sobreviveu até à traição de seus pastores."

Mesmo com todos esses reveses, os crentes construíram um novo templo e permaneceram firmes na sua fé. Nas palavras de uma fiel "... ficamos na religião, porque foi formada por nossos pais e não pelos pastores." (Veja 7 outubro de 1981 p.63)

Esses dois acontecimentos, são uma prova da resistência dos membros sobre os mandos e desmandos de certas lideranças, as quais se dizem representantes de Deus e do povo por eles dirigido. Muitos outros casos como esses ocorreram e ainda vão ocorrer, pois cada vez mais os membros são vistos simplesmente como massa de manobra, ou como consumidores de produtos evangélicos, ou ainda, como contribuintes para manutenção de uma elite eclesiástica. Elite essa cada vez mais divorciada dos anseios do povo de Deus. Elite essa cada vez mais voltada para si mesma, fazendo dos fieis e da fé uma simples mercadoria.

É por esse razão, que casos como o de Trindade ficam relegados ao esquecimento. Não interessa esse tipo específico de manifestação de fé, pois caso o exemplo seja seguido, pode-se alterar profundamente o modo como os negócios eclesiásticos são feitos.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostais no Brasil - uma interpretação sócio-religiosa. Rio de Janeiro: Vozes, 1979.

Revista Veja 7 outubro de 1981. (arquivo digitalizado disponível no site http://veja.abril.com.br/)

Um comentário:

  1. Desconhecia esses acontecimentos, elucidou-me. Parabéns pela pesquisa.

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