sábado, 28 de novembro de 2009

A Assembleia de Deus e a educação teológica: uma difícil aceitação (2º parte)


Kolenda: incentivador do preparo teológico

Foi na Convenção Geral das Assembléias de Deus em 1943 que o tema sobre educação teológica passou a ser debatido com mais intensidade. Paulo Macalão nessa convenção nacional sugeriu a criação de uma escola bíblica noturna, em dias da semana sem cultos na igreja, para não atrapalhar os obreiros em suas tarefas eclesiásticas.

Lawrence Olson foi mais além, e propôs a criação de seminários e institutos bíblicos pelo país, mas foi rechaçado pelo próprio Macalão, pois para o líder de Madureira seria "perigoso" investir em educação formal, com possibilidades de o obreiro cristão ficar somente no intelectualismo. Essa opinião de Paulo Macalão seria sentida por Joanyr de Oliveira vinte anos mais tarde em Brasília, quando percebia, que ao insistir na necessidade de institutos bíblicos era como "pregar no deserto".

Percebe-se claramente nos relatos convencionais, a plena consciência que os missionários tinham da necessidade de maior preparação dos obreiros. Porém queriam uma solução intermediária, ou seja, deveria o obreiro estar preparado para atender as carências da obra, mas por outro lado queriam evitar o intelectualismo teológico. Para esses pioneiros a prática, a experiência seria a grande escola teológica de um obreiro e não um seminário qualquer.

Apesar de os missionários americanos relutarem e enfatizarem suas experiências, citando suas próprias formações como modelo, os convencionais preferiram o modelo de Escolas e Semanas Bíblicas como forma de preparação teológica. Nesta convenção ainda foi proposto por J. P. Kolenda os cursos bíblicos por correspondência, com uma lista de livros predeterminada para leitura dos alunos.

Porém os missionários norte-americanos não desistiram da idéia da preparação teológica de obreiros através de seminários e institutos bíblicos. Na Convenção Geral de 1948 o tema voltou a ser debatido com mais intensidade pelos os obreiros, com divergências que perduraram por muitos anos dentro das Assembléias de Deus no Brasil.

Foi a partir de uma pergunta do missionário sueco Leonard Pettersen que indagava sobre os meios de preparação para obreiros, é que as discussões começaram. Fica evidente que no decorrer da reunião que os argumentos contra a criação de institutos bíblicos foram cada vez mais se avolumando. Expressões como permanecer no "colégio de Jesus" para enfatizar a dependência que o obreiro somente deveria ter do Espírito Santo em sua preparação, e a observação de que os institutos bíblicos seriam uma "fábrica de pastores" foram já nessa época termos consagrados para combater a educação teológica formal.

Na verdade todo o debate tinha como alvo combater as intenções do missionário Kolenda, que defendia abertamente a necessidade do ensino teológico formal e a criação de institutos bíblicos. Na biografia de Kolenda temos a informação de que em uma viagem aos Estados Unidos, ele havia conseguido uma generosa oferta de 20.000 dólares, a qual seria destinada à compra de um prédio para início de um instituto bíblico para obreiros.

Sabedores das intenções de Kolenda, o qual além da proposta, já havia conseguido recursos materiais para concretização de seus objetivos, os missionários suecos; e não só eles, mas também os obreiros brasileiros resolveram contra-atacar e não permitir a criação do instituto projetado por J. P. A divergência nesse assunto foi assim comentada em sua biografia escrita por um sobrinho seu:

Tio João se encontrava na Convenção Geral das Assembléias de Deus em Natal, Brasil. Infelizmente, ele era o único missionário norte-americano presente. Naquela ocasião sentiu muito a falta do irmão Lawrence Olson. Por outro lado, ali estavam nove missionários suecos. Tinham ouvido dizer que esses dois homens procuravam começar no Brasil o treinamento através de institutos bíblicos, e estavam resolvidos a impedir a aprovação dessa obra (...) Tio João propôs na Convenção que institutos bíblicos fossem iniciados, mas cada vez que se levantava e falava, havia nove discursos dos seus irmãos suecos, manifestando-se contra a iniciativa proposta. (BRENDA 1984: 119)

Tanto Kolenda, como os outros missionários norte-americanos tinham se comprometido a cooperar e a adotar os princípios e métodos da obra existente. Essa foi à condição para a aceitação da presença da missão americana nas Assembléias de Deus no Brasil, sendo assim, se quisessem trabalhar filiados a denominação, deveriam seguir as orientações da Convenção Geral.


Assim sendo, restou a Kolenda se conformar com a decisão dos convencionais, e a oferta financeira acabou não sendo enviada, adiando em alguns anos a implantação do sonhado instituto bíblico no Brasil. Ainda segundo o relato de seu sobrinho, assim se manifestou J. P. Kolenda sobre esses acontecimentos e sua experiência com os suecos:

"Esses preciosos homens de Deus", declarou tio João, referindo-se aos missionários suecos, "que foram usados por Deus de modo muito maravilhoso para fixar os alicerces das Assembléias de Deus no Brasil e estabelecê-las, temiam que o treinamento em institutos bíblicos levasse os obreiros brasileiros a dependerem do seu conhecimento e capacidade intelectual, ao invés de confiarem unicamente na direção do Espírito Santo e na Palavra de Deus". (BRENDA 1984: 119).

Kolenda reconhecia o valor do pioneirismo sueco, mas percebeu que firmados em conceitos e experiências próprias, os missionários suecos nunca aprovariam um instituto bíblico, mesmo reconhecendo as grandes carências teológicas dos obreiros no Brasil.

Somente em 1959, quase  dez anos depois é que um sobrinho de Kolenda, o missionário João Kolenda Lemos e sua esposa a americana Ruth Dorris Lemos, juntamente com alguns obreiros nacionais, fundaram o Ibad (Instituto Bíblico das Assembléias de Deus), na cidade paulista de Pindamonhangaba, o qual, ironicamente apesar do nome não recebeu apoio da cúpula  assembleiana. Em 1961, também a contragosto dos líderes assembleianos, foi fundado o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP) na cidade do Rio de Janeiro, por iniciativa do norte-americano Lawrence Olson e do pastor Gilberto Malafaia.

Com dois institutos bíblicos em atuação, a Convenção Geral, voltou a debater esse tema em 1966. O próprio João Kolenda nessa convenção defendeu; como seu tio no passado, sobre a importância dessas instituições para a igreja evangélica no Brasil.

Mais uma vez, as opiniões contrárias em muito excederam os argumentos em favor de tais instituições. Mas nesse momento histórico, já se percebe certo apoio de algumas lideranças brasileiras (como no caso do pastor Alcebíades P. de Vasconcelos). Por já estarem em funcionamento, e por prever uma discussão interminável, a Convenção Geral adiou os debates para os próximos encontros.

Passados sete anos, na Convenção Geral de 1973, com a criação do Conselho de Educação e Cultura, é que o Ibad foi oficialmente reconhecido pelas Assembléias de Deus no Brasil. Dois anos depois, em 1975 foi à vez de o IBP receber seu aval da liderança assembleiana.

Com o decorrer dos anos, muitos outros institutos bíblicos de caráter regional foram fundados. Como não conseguiram barrar a criação das escolas de ensino teológico formal, as lideranças assembleianas passaram a formar em suas próprias igrejas esse novo modelo de educação bíblica. A adesão, muito mais que reconhecimento da necessidade de ministros realmente preparados, pode ter significado outra percepção sobre os institutos pioneiros (Ibad / IBP), ou seja, evitar um deslocamento geográfico de obreiros, e de que os seminários ditassem o futuro da igreja.

Fontes

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

BRENDA, Albert W. Ouvi um recado do céu: biografia de J. P. Kolenda. Rio de Janeiro: CPAD 1984.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

VASCONCELOS, Alcebiades Pereira. Alcebiades Pereira Vasconcelos: estadista e embaixador da obra pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.



3 comentários:

  1. Paz do Senhor!

    Maravilhoso o conteúdo deste blog.

    estou há horas lendo postagem por postagem.

    Parabéns!

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  2. Obrigado pela visita. procuro, na medida do possível, divulgar informações que sejam relevantes e esclarecedoras para a história das Assembleias de Deus. Em breve, mais postagens e informações serão divulgadas.

    Um grande abraço!

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