O caso Luís Fontes

"A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer". 
Peter Burke


Durante a 50ª AGE da Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério de Madureira (CONAMAD) realizada entre os dias 01 a 04 de maio de 2024, foi lançado o livro comemorativo dos 70 anos da Catedral Histórica da Assembleia de Deus em Madureira, no Rio de Janeiro.

Como toda obra de história institucional, o nome dos pioneiros recebem destaque, juntamente com a liderança da igreja fundada pelo saudoso pastor Paulo Leivas Macalão. Personagens do passado e do presente são enaltecidos, mas há esquecimentos e omissões (deliberadas ou não). É o caso do pastor Luís Francisco Fontes (1930-2003).

Convertido ao evangelho ainda na infância, Luis Fontes construiu, além de uma brilhante carreira profissional, um ministério frutífero na área do ensino. Em 1966, foi enviado para ser missionário em Arequipa, cidade próxima a Cordilheira dos Andes no Peru, onde permaneceu até 1972. Tempos depois retornou ao Brasil para atuar no Ministério de Madureira em cargos administrativos e pedagógicos.

Na década de 1980, quando os líderes da CGADB ainda debatiam intensamente sobre as “invasões” de campos, Fontes foi enviado a Porto Velho, RO, com o objetivo de implantar uma congregação de Madureira. Mas em 1988, ele voltou ao Rio para assumir o pastorado da AD em Madureira no lugar do veterano pastor Orosman Dagoberto dos Santos.

Ferreira e Luís Fontes: sérias divergências

E foi durante a sua gestão no histórico templo, que as incompatibilidades entre o pastor Luís e a presidência da CONAMAD se exacerbaram. Considerado um tanto desapegado às tradições do Ministério e de perfil independente, algumas ações do antigo missionário foram questionadas. A gota d'água foi, supostamente, quando ele mandou cobrir com tinta branca todo interior do templo histórico durante uma reforma.

Assim, sem ter o apoio da antiga diretoria da CONAMAD que patrocinou sua volta ao Rio, Luís foi destituído pelo pastor Manoel Ferreira. Valendo-se de uma resolução convencional que determinava: o líder da Convenção Nacional seria também o pastor da igreja histórica em Madureira, Ferreira aproveitou a tradicional ceia de consagração de novos obreiros do Ministério e exonerou o sucessor de Orosman Dagoberto.

Logicamente houve resistência, mas em vão. Ferreira já havia se consolidado na presidência do Ministério e a diretoria estava fechada com ele nesta questão. O caso foi parar na justiça secular sem, contudo, reverter a decisão unilateral da CONAMAD.

Em 1990, após deixar o pastorado da AD em Madureira, o pastor Luiz Fontes fundou a AD Central de Cascadura, no Rio, com um grupo de membros aliados a ele. O novo trabalho contou com exponencial apoio da CGADB, que naquele momento histórico, também procurava minar as bases de Madureira na cidade. Atualmente, a AD em Cascadura é liderada pelo filho do pastor Luís Fontes.

O episódio se deu num momento de acomodação de forças dentro de Madureira. No final da década de 1980 e início dos anos 90 do século XX, por disputas internas e pressões externas, Ferreira teve que conciliar interesses e enfrentar problemas que poderiam pôr em risco a unidade do Ministério.

O caso Fontes é um exemplo de como a historiografia oficial ainda é implacável para com os dissidentes. Em Madureira o lema: “unidade, hierarquia e disciplina” é levado a sério e qualquer tentativa de afrontar essa cultura ministerial é repelida. Por isso, o saudoso pastor da AD Central em Cascadura pouco é mencionado no livro da Catedral Histórica.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011 (2ª edição ampliada). São Paulo: Recriar; Vitória: Editora Unida, 2019.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, David. Assembleias de Deus: a outra face da história. 3 ed. Rio de Janeiro: Betel, 2002.

CATEDRAL HISTÓRICA - Assembleia de Deus em Madureira - Editora Betel 1° edição/abril de 2024.

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

COSTA. Moab César Carvalho. O Aggiornamento do Pentecostalismo Brasileiro: as Assembleias de Deus e o processo de acomodação à sociedade de consumidores. São Paulo: Recriar, 2019

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Brasil -1930 a 2021 (Edição Revista e Ampliada). Rio de Janeiro: CPAD, 2022.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Comentários

  1. Triste episódio... A lição da EBD de amanhã não foi sequer lida por eles .

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  2. Li todo o livro (gigante) Catedral Histórica e, ao contrário do que foi dito no final do post, o nome do pr. Fontes aparece três vezes (uma especialmente, quando fala que ele assumiu no lugar do pr. Orosman). Ele não recebeu o mesmo destaque dado aos demais presidentes da AD Madureira nem outros nomes importantes na história da referida igreja, como Balbino da Silva, José Leite de Lacerda e Alípio da Silva, mas foi mencionado sim.

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  3. Infelizmente o pastor Luiz Fontes é a principal vítima desse processo de apagamento conduzido pela liderança-mor do Ministério de Madureira, mas há muitos outros pioneiros que tiveram suas histórias registradas neste livro e que mereciam muito mais destaque, como Balbino da Silva e Jácomo Guide da Veiga, que estiveram ombro a ombro com o pastor Paulo Macalão nos primeiros anos da AD Madureira.

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