O Centenário da AD em Santos - crise sucessória

Para melhor compreensão da crise eclesiástica na AD em Santos na década de 1960, no período anterior à posse do pastor João Alves Corrêa, é necessário fazer uma breve retrospectiva da história da igreja-mãe das ADs no estado paulista.

Em 1945, o então pastor da igreja, Francisco Gonzaga da Silva morreu vítima de um atropelamento. Após a morte do pastor Gonzaga, assumiu provisoriamente a igreja santista, o pastor Francisco Paiva Figueiredo, que entregou a direção dos trabalhos ao pastor Bruno Skolimowski.

Entre 1945 e 1953, Skolimowski pastoreou o campo eclesiástico no litoral paulista. Ainda durante a sua gestão em 1953, a igreja recebeu uma das mais tensas e controversas CGADB. Logo após a Convenção Geral, o pastor Geraldo Machado foi designado para liderar a AD em Santos.

Antigo templo sede da AD em Santos

Geraldo Machado permaneceu no cargo até 1961, ano em que foi afastado do pastorado por questões éticas. Em seu lugar, reassumiu a liderança da igreja, o pastor Bruno Skolimowski. Ao que tudo indica, o veterano obreiro de 77 anos, estava morando em Santos e com saúde já debilitada. Em outubro de 1961, o casal Skolimowski celebrou suas Bodas de Ouro e, em dezembro, Bruno faleceu.

“Com o falecimento do pastor Bruno Skolimowski, em 20 de dezembro último, esta igreja por um período que nos parecia sombrio”. Foi exatamente com essas palavras, que Roberto Rinaldi informou através do Mensageiro da Paz, a situação crítica da AD em Santos.

Segundo Rinaldi, a escolha do novo pastor pareceu ser uma questão “insolúvel” devido ao grande número de candidatos para assumir um campo eclesiástico vastíssimo que abrangia todo o litoral paulista e com congregações bem desenvolvidas. Sobre esse fato, o pastor João Corrêa comentou em sua biografia: todos queriam ser “o pastor da igreja de Santos”.

Para tamanha oferta de obreiros, o ministério delimitou a escolha entre pastores locais. Dois nomes despontaram para assumir o cargo: Henrique Lelis Conceição, que estava interinamente na presidência, e Francisco Paiva Figueiredo, líder da congregação de Vicente de Carvalho, no Guarujá. Paiva, inclusive, já havia liderado a igreja interinamente em 1945 com a morte do pastor Gonzaga.

Diante de dois nomes expressivos, foi proposto pelo ministério uma eleição. Todavia, em todo processo democrático, emergem preferências, críticas e rivalidades latentes na instituição ou sociedade. Não foi diferente em Santos. Rinaldi explicitou isso ao escrever “Não era esta [a eleição], porém, a vontade de Deus e isto compreendemos a tempo, visto que duas correntes se formaram na igreja em favor dos candidatos”.

Nesse contexto, antes que as coisas saíssem do controle, o pastor Henrique convidou o missionário Eurico Bergstén para pacificar os ânimos e preparar a igreja para receber o novo pastor. Como foi visto na postagem anterior, o missionário Eurico Bergstén relatou à revista O OBREIRO, que chegou ao estado de São Paulo em 1961 “às vésperas de uma grande divisão” envolvendo igrejas do interior.

No processo de pacificação, Bergstén realizou estudos bíblicos entre os dias 09 e 11 de fevereiro de 1962 e uma vigília com a congregação. Numa das noites de oração “recebeu a indicação de parte de Deus em apontar o pastor João Alves Corrêa” para ser o novo pastor em Santos.

João Corrêa era pastor na capital paulista, e vice-presidente do Ministério do Belenzinho. Durante a crise sucessória, ele e o pastor Cícero Canuto de Lima visitaram a cidade e sabiam das complicações ministeriais. Segundo consta em suas memórias, Corrêa recebeu revelações divinas designando-o para Santos. No dia 11 de fevereiro de 1962, o pastor Corrêa assumiu o pastorado da AD em Santos e por mais de três décadas liderou a igreja pioneira.

Interessante, é que a AD em Curitiba por aqueles dias também estava resolvendo a sucessão pastoral numa eleição entre dois candidatos (leia aqui). Porém, a solução democrática na capital do Paraná foi um fiasco com trocas de acusações e tumultos na igreja. Os crentes em Santos, pelo menos, evitaram um desastre maior. 

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011 (2ª edição ampliada). São Paulo: Recriar; Vitória: Editora Unida, 2019.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, David. Assembleias de Deus: a outra face da história. 3 ed. Rio de Janeiro: Betel, 2002.

CORRÊA, João Alves. Os passos de um homem bom. [s/l]: Alpha, 1996. 

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral dos Ministros das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus no Brasil -1930 a 2021 (Edição Revista e Ampliada). Rio de Janeiro: CPAD, 2022.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, ano 32, nº 21, 1ª quinzena de novembro de 1962.

OBREIRO - Liderança Pentecostal, ano 19 - nº 01/Rio de Janeiro: CPAD, 1997.

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