domingo, 7 de março de 2021

Os 90 anos da AD em Santa Catarina - O início no Quilombo

Para a grande maioria dos brasileiros, a imagem do estado de Santa Catarina está ligada à colonização açoriana, alemã e italiana. Esta é a imagem vendida pelas secretarias e empresas de turismo e veiculada amplamente pela mídia em épocas festivas. São os cabelos loiros, olhos azuis e as celebrações regadas com muita bebida e comidas tipicamente europeias que invadem o imaginário popular.

Chega a ser uma ironia, que essa imagem tão explorada sobre os catarinenses para fins comerciais e turísticos, não se refletiu na gênese da Assembleia de Deus no estado. A maior denominação pentecostal catarina, não nasceu entre os descendentes de italianos, alemães, portugueses, poloneses ou suíços que, evidentemente, em muito contribuíram para a formação do estado.

A Assembleia de Deus fundada por André Bernardino da Silva em 15 de março de 1931, teve sua primeira casa de oração e núcleo de evangelização num beco chamado de "Quilombo", onde a maioria dos moradores era, como o nome indica, de origem afro e reduto de ex-escravizados.

João Santana: o primeiro auxiliar em SC

Naquele local periférico da cidade, os novos convertidos construíram o primeiro templo da Assembleia de Deus no estado, num terreno doado por João Santana. Santana era negro e foi também o primeiro auxiliar da congregação assembleiana em Itajaí e um dos seus primeiros dirigentes ainda na década de 1930.

Na revista do  Jubileu de Ouro das Assembleias de Deus em Santa Catarina e Sudoeste do Paraná em 1981, narra que em regime de mutirão, os fiéis abriram uma rua para dar acesso ao terreno da igreja. A nova via foi denominada de "Rua Pentecostal". Não há referência ao beco do Quilombo ou do Inferninho, que era muito próximo. 

JP Kolenda pregando em Itajaí em 1943: grande presença de afrodescendentes

Ao construir sua primeira narrativa histórica, os editores da revista do Jubileu, por algum motivo deixaram esse detalhe de fora. Segundo alguns pesquisadores, na mesma década, o beco do Quilombo foi absorvido pela expansão do porto de Itajaí e pela crescente urbanização das áreas próximas ao centro da cidade. Ou seja, o Quilombo sumiu da geografia da região e da história assembleiana.

Mas como bem escreveu o historiador Eric Hobsbawm, o "ofício é lembrar o que os outros esquecem".

Fontes:

ADAMI, Saulo; SILVA, Osmar José da. André Bernardino da Silva: pioneiro da Assembleia de Deus em Santa Catarina. Blumenau: Nova Letra, 2011.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

LOUREIRO, Satyro (et al.). 1931-1981 50 anos: o jubileu de ouro das Assembleias de Deus em Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Itajaí: Maracolor, 1981.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Os 90 anos da AD em Santa Catarina - André Bernardino, o jovem rebelde

Neste mês de março de 2021, a AD em Santa Catarina completa 90 anos de fundação. Atualmente a AD catarinense mais as igrejas do Sudoeste do Paraná contam com 304 campos eclesiásticos, 2.800 templos e 300 mil pessoas entre membros e congregados. Para comemorar a data tão marcante, iremos destacar aqui no blog algumas fotos e histórias da AD em Santa Catarina e Sudoeste do Paraná. 

André Bernardino e sua esposa Dzidra Graudin

André Bernardino da Silva, na época com 27 anos de idade e solteiro, foi quem iniciou os trabalhos da AD em Santa Catarina, mais precisamente na cidade portuária de Itajaí, em 15 de março de 1931. Antes da sua conversão, Bernardino tinha dado muito trabalho à família. Era um jovem rebelde, fruto de um relacionamento pouco convencional para a época entre o seu pai, Bernardino José da Silva (quando estava viúvo) e a empregada. Após seu nascimento, a criança e a mãe foram enviados para Niterói, no estado do Rio de Janeiro.

Aos 10 anos de idade, André veio morar com o pai e irmãos, filhos de Bernardino José do primeiro e segundo casamento. As brigas entre os irmãos de mães diferentes eram constantes. Para tentar solucionar solução os conflitos familiares, André foi matriculá-lo na Escola de Marinheiros em Florianópolis de onde fugiu para o Rio de Janeiro. Lá foi internado no Colégio Marista em Niterói pela mãe. Mas de nada adiantou, pois o jovem rebelde e brigão envolveu-se na vida boêmia no Rio e adoeceu gravemente.

À beira da morte recebeu a oração de  Gunnar Vingren e foi curado instantaneamente. Após meses no Rio, pregando e auxiliando na área musical, voltou a Itajaí. Nesse momento todos já sabiam que o filho rebelde agora voltava como herege “que havia abandonado o catolicismo”. A presença do ex-boêmio com sua "nova religião" causou alvoroço e espanto.

Com tantas expectativas e curiosidade em torno de sua pessoa, o Bernardino "herege" fez um culto na casa de uma tia com a presença de duas primas. Logo depois, uma anciã ofereceu sua casa para o primeiro culto oficial da AD em Santa Catarina, no dia 15 de março de 1931. A primeira mensagem pregada foi em Marcos capítulo 16, e logo ocorreram as primeiras conversões.

Com a expansão da obra, Gunnar Vingren visitou o estado e ordenou André Bernardino ao ministério pastoral. Mas observou: "Não deveria consagrá-lo ao ministério. Você tem muito pouco tempo de conversão e é solteiro, mas devido à falta de obreiros vou separá-lo ao pastorado".

Tempos depois, André casou-se Dzidra, filha de um pastor leto-batista que havia recebido o batismo com o Espírito Santo em Guaramirim, em 1909. Pelas informações colhidas, Bernardino ficou na liderança da AD catarina por cinco anos. Os motivos? Conto em outra postagem!

Fontes:

ADAMI, Saulo; SILVA, Osmar José da. André Bernardino da Silva: pioneiro da Assembleia de Deus em Santa Catarina. Blumenau: Nova Letra, 2011.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

LOUREIRO, Satyro (et al.). 1931-1981 50 anos: o jubileu de ouro das Assembleias de Deus em Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Itajaí: Maracolor, 1981.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Uma Assembleia de Deus na "sucursal do inferno"

No Rio de Janeiro entre as décadas de 1950/60 uma pequena "Veneza" foi revelada pela imprensa: a comunidade da Praia das Morenas ou Moreninha. Espremida numa faixa de cinco quilômetros, que margeavam a Avenida Rio Branco, as palafitas ficavam entre o Quartel do Marinheiros e a Fábrica Kelson’s, no bairro da Penha, na Zona Norte da cidade.

A favela surgiu em 1948, com a chegada de oito famílias de pescadores e poucos anos depois o local já contava com 500 famílias e mais 300 crianças vivendo em completo abandono. A miséria do local contrastava com a beleza da Baía da Guanabara e o luxo dos carros em trânsito aos locais de veraneio. Retrato perfeito de uma cidade, onde riqueza e pobreza sempre andam próximas. 

Assim, sem esgoto, água tratada, sem atenção das autoridades competentes e muito menos assistência médica a "Veneza Carioca" resistia sem "condições de vida compatíveis com a dignidade humana" — afirmou o extinto jornal Diário da Noite. A escritora Rachel de Queiroz, na revista A Cigarra, descreveu os casebres como "um pequeno e pungente mundo palafítico".


A precariedade da região levava os moradores dos barracos a constatar com certa ponta de ironia: "as crianças [na favela] sobrevivem por teimosia". Para os editores do Diário da Noite, "O mocambo é a sucursal do inferno. Ou o próprio inferno". 

Mas em meio a tanta desgraça revelada pelo Diário da Noite e pela A Cigarra, uma foto chamou a atenção: uma congregação da Assembleia de Deus, que na época era ligada a AD em São Cristóvão. Era um templo erguido na "sucursal do inferno", onde a miséria humana chocava até mesmo os mais experientes moradores do Rio.

Já se dizia, que onde tivesse uma máquina Singer ou uma lata de Coca-Cola estava a Assembleia de Deus. Parece que no caso da "Veneza Carioca" não havia nem Singer nem Coca-Cola, porém, a congregação da Assembleia de Deus estava firme e forte! Era o pentecostalismo levando dignidade, paz e amor aos perdidos desse mundo.

Fontes: 

 A revista com as fotos e o jornal usados para essa postagem estão disponíveis no:


A Cigarra ano 47 nº 4 - abril de 1961 - São Paulo

Diário da Noite, terça-feira, 30 de agosto de 1955, ano XXVII - Rio de Janeiro.