Revisitando as Convenções Gerais - de 1987 a 1997

Está confirmado: na 45ª Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) prevista para abril de 2021, em Cuiabá, Mato Grosso, o pastor José Wellington da Costa Júnior será reconduzido à presidência da instituição, por aclamação. A chapa do atual presidente da CGADB foi a única inscrita no prazo legal. Como não surgiram concorrentes, a aclamação será inevitável.

Desde que o pai do pastor Wellington Júnior chegou ao poder na CGADB, em maio de 1988, já se realizaram 14 Convenções Gerais, sempre com vitória do grupo comandado pelo líder da AD do Ministério de Belém em São Paulo. Portanto, se confirmada a aclamação e posse do pastor Duéliton, serão mais de três décadas de continuidade na CGADB e controle da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), empresa que reforça a linha doutrinária e política do status quo dominante. 

Para melhor compreender a permanência do establishment, é importante, ainda que de forma sucinta, revisitar as convenções anteriores e perceber as transformações ocorridas nessas décadas.

CGADB de 1987 (Salvador/BA): foi a última Convenção Geral com a participação do Ministério de Madureira. Aliás, a década de 1980 foi marcada pela polarização Madureira x Missão. Havia, até então, um acordo firmado para que houvesse alternância entre os dois ramos ministeriais das ADs na presidência da CGADB. Mas alguns pastores insatisfeitos com o Ministério de Madureira articularam uma chapa para quebrar esse pacto. O pastor José Wellington foi eleito vice-presidente nessa convenção e, em maio de 1988, com a morte do então presidente da Convenção Geral, Alcebíades Vasconcelos, assumiu a liderança da CGADB. Começava a "Era José Wellington".

CGADB de 1990 (São Paulo/SP): o pastor José Wellington foi eleito à presidência da instituição assembleiana, derrotando o pastor Luiz Almeida do Nascimento. No interregno convencional, houve a suspensão de Madureira da CGADB, alterando, assim, de vez, a correlação de forças nas disputas internas da entidade. Um fato polêmico também foi a renúncia do pastor Wellington da presidência da CGADB, meses antes do conclave em São Paulo. Na época, foi alegado problemas de saúde, mas, na verdade, foi uma estratégia para driblar o estatuto da Convenção Geral, que não permitia a reeleição. Foi a primeira Convenção Geral informatizada.

CGADB de 1993 (Cuiabá/MT): o pastor da igreja hospedeira, Sebastião Rodrigues de Souza, elegeu-se presidente da Convenção Geral, derrotando, com folga, o jovem Samuel Câmara, após a desistência do pastor José Pimentel de Carvalho da disputa. José Wellington, dessa vez, ficou com a vice-presidência, mas sua influência nas instituições assembleianas foi consolidada com a posse de Ronaldo Rodrigues de Souza, membro da AD no Belenzinho, na direção executiva da CPAD. O controle e êxito da editora, representou o fortalecimento do establishment assembleiano, que nitidamente começava a se desenhar nesse tempo. Segundo o Mensageiro da Paz, a convenção em Cuiabá realçou o "perfil conservador da igreja". Era uma tentativa de colar a imagem de "liberal" na oposição.
Mesa Diretora da CGADB eleita em 1995

CGADB de 1995 (Salvador/BA): segundo o Mensageiro da Paz, foi a convenção do “consenso e concórdia”, onde houve a troca de cadeiras entre os pastores José Wellington (presidência) e Sebastião de Souza (vice-presidência). Sem disputas internas, a chapa encabeçada pelo presidente e vice da antiga Mesa Diretora eleita em Cuiabá foi "apresentada, aceita e aclamada". Geralmente, as manchetes do Mensageiro da Paz são reveladoras do clima de bastidores. Ao enfatizar o "consenso e concórdia", deixa nas entrelinhas o entendimento de que houve muita discórdia e dissenso. Detalhes: para o Conselho Administrativo da CPAD, um dos eleitos foi o pastor José Wellington da Costa Júnior, nome que seria também uma constante no Conselho da Casa Publicadora e a presença de Samuel Câmara na Mesa Diretora. Em pouco tempo ele voltaria a fazer oposição ao líder do Belenzinho.

CGADB de 1997 (Belo Horizonte/MG): pela primeira vez na década, o pastor José Wellington teve um concorrente de peso, o pastor Túlio Barros Ferreira da AD em São Cristóvão/RJ, que também presidiu a entidade por quatro vezes. É interessante notar os nomes de conhecidos na oposição: Ezequiel da Silva, Edgar Machado, Sóstenes Apolo, Francisco Libório e, principalmente, Gilberto Malafaia, que compunham o grupo de apoio ao pastor Túlio. Malafaia, na CGADB de 1987, foi um dos principais articuladores da vitória do grupo onde José Wellington estava inserido. Em BH, uma década depois, lá estava o pastor da AD em Jacarepaguá, na trincheira oposta. O pastor Wellington reelegeu-se com boa margem de votos (65,45%), mas tudo indicava uma crescente movimento de contestação ao establishment.

Esse movimento contestatório cresceria cada vez mais. Assunto para as próximas postagens! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1990, ano LX, nº 1237, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, março de 1993, ano LXIII, nº 1272, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1995, ano LXV, nº 1295, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1997, ano LXVII, nº 1319, Rio de Janeiro: CPAD.

Comentários

  1. Não larga nem a pau faminto pelo poder, é pôr isso que muitos ministério tem saindo da Cgadb

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  2. Sou filha de pastor e meu pai nos contava os entraves tenebrosos. Em uma convenção, houve ameaças. Em outro, um evangelista teve passagem paga, para ir votar. Fruto de uma instutalizacao sob regras humanas. Os adúlteros se esbaldando.

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