segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

IADJ - novos rumos ou extinção de uma igreja?

Durante quatro décadas, o Pastor Gilberto Malafaia foi líder da Igreja Evangélica Assembleia de Deus (IADJ), na região da Taquara, na época, um sub-bairro em Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

No dia 15 de novembro de 1996, a IADJ inaugurou seu grande templo com amplo auditório para realização dos cultos e salas bem estruturadas para os departamentos de ensino. Uma obra, que durou mais de uma década para ser concluída. Esforço e ânimo dos líderes e membros não faltaram em todo o período da construção. 

Ainda na década de 1990, um dos filhos do Pastor Gilberto Malafaia, Silas, já era um pregador muito conhecido no Rio de Janeiro. Com seu estilo direto, questionador e não-legalista, o caçula dos Malafaia ascendeu no ministério através do sogro, o Pastor José Santos da AD na Penha, a mesma igreja onde Gilberto congregava antes de sair para fundar a IADJ. Na AD na Penha, Silas chegou ao posto de vice-presidente. 

Paralelamente, Malafaia ganhou visibilidade através do seu programa televisivo "Vitória em Cristo" onde, além de fazer propaganda dos produtos da sua editora "Central Gospel", também defendia temas caros aos evangélicos. Aborto, cura gay, liberdade de culto e legislações voltadas para as minorias, foram (e são ainda) assuntos dos seus programas. 

Silas Malafaia, Gilberto e Silas Filho

Com a morte do sogro em 2010, Silas assumiu a igreja, rompeu com a CGADB, segundo ele "a cachaça de pastor", e mudou a nomenclatura da AD na Penha para "Vitória em Cristo" em consonância com seu projeto de expansão de novas congregações pelo Brasil. 

No ano de 2014, o nonagenário Gilberto Malafaia, até então o primeiro e único líder da IADJ, entregou numa cerimônia emocionante, a direção da igreja para o seu neto Silas Malafaia Filho. Dois anos depois, Gilberto Malafaia morreria como o patriarca bíblico Jó: "velho e farto de dias". 

Seu corpo foi velado na igreja que fundou. Silas Malafaia, na sua conta oficial no Twitter homenageou seu pai com as seguintes palavras: “Acaba de falecer meu pai, Pr. Gilberto Malafaia. No domingo, ele completou 95 anos. Meu referencial, meu herói, homem de Deus. Deixa um grande legado”. 

Mesmo antes da transferência efetiva de comando da igreja, alguns membros perceberam a forte influência da ADVC nos rumos da igreja. Anos temáticos adotados na ADVC para as suas congregações eram implantados simultaneamente na Taquara, preletores que pregavam na Penha também cumpriam agenda em Jacarepaguá, o estilo de liturgia, principalmente os denominados "cultos da vitória", estavam semelhantes aos das igrejas de Silas pai. 

Prevendo a total absorção da IADJ pela ADVC, um reduzido número de membros bateu em retirada; poucos é verdade, mas já era um sinal de descontentamento. Até que pouco tempo depois, a IADJ foi incorporada pela Vitória em Cristo. Uma decisão tomada pela família Malafaia com apoio de alguns obreiros fiéis. 

Diante da nova situação, muitos membros deixaram de congregar na IADJ. Foram pra outras denominações e ministérios. Contudo, com as reformas feitas no templo e com o apelo midiático da ADVC, a recém filiada do ministério de Silas pai não perdeu público. 

Obviamente, que no caso IADJ há versões e olhares conflitantes. Para os Malafaia, a posse de Silas Filho foi a confirmação de profecias e visões. Certamente, o fim da autonomia também foi direção divina. Ficou tudo em família e ponto final. Para os que saíram ficou o sentimento de nostalgia e a saudade de uma igreja que, segundo eles, está "extinta". Daqueles dias gloriosos do Pastor Gilberto só ficou o prédio. 

Mas o que diria o fundador da IADJ? Concordaria com a perda da independência da igreja que liderou por décadas? Em sua biografia lançada pela Central Gospel, Gilberto Malafaia ao narrar a história da congregação declarou: "A minha expectativa, por exemplo, era formar uma igreja. Nada de ficar como congregação de Madureira ou da Penha". 

Esse era o desejo de Gilberto Gonçalves Malafaia ao fundar o trabalho da IADJ.

Fontes: 

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Perfil do Bispo Daniel Malafaia

Por Pr. André Silva 

Daniel Fonseca Malafaia, nasceu em 28 de dezembro de 1950, teve a felicidade de nascer em um lar evangélico. Seus pais, pastor Carlos Malafaia e Marina Fonseca Malafaia, souberam o conduzir o filho a uma profunda comunhão e temor a Deus. 

O menino Daniel foi apresentado ao Senhor, pelo saudoso pastor Paulo Leivas Macalão, fundador do Ministério de Madureira. Desde cedo, envolveu-se com a igreja do Senhor Jesus Cristo, principalmente na área musical, fazendo parte, também, da diretoria da Mocidade da Assembleia de Deus em Campo Grande, Rio de Janeiro. 



Em 1974, transferiu-se para Brasília, DF, sendo muito abençoado por Deus em todas as áreas de sua vida. Foi professor da Escola Bíblica Dominical, Secretário, e, durante nove anos, líder da Mocidade. Na capital da República, casou-se com a jovem Jemina de Araújo Malafaia e, dessa união, nasceram-lhes quatro filhos: Alessandro, Daniel, Fábio e Samuel, todos envolvidos na obra do Senhor. 

Em Brasília, sua carreira ministerial sempre foi pautada de grandes vitórias, debaixo da unção do Espírito Santo. Em maio de 1986, foi consagrado ao Santo Ministério da Palavra, no cargo de pastor. Após oito anos dirigindo congregações do campo da Catedral das Assembleias de Deus em Brasília, foi convidado pelo então pastor Neuton Pereira Abreu, para ser o 1º vice-presidente do campo, função foi desempenhada por pouco tempo, apenas por dois anos. 

Chegou a ser um dos nomes cogitados para assumir presidência da Assembleia de Deus do Planalto Central, DF, vinculada a CGADB, mas Deus teve outros planos, pois em 29 de junho de 1993, foi indicado pelo Bispo Manoel Ferreira, presidente da CONAMAD, a assumir a presidência da Assembleia de Deus em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro, substituindo seu pai que, durante 34 anos, presidiu aquele abençoado e próspero campo. Nesse processo, Daniel contou com total apoio do ministério local.

Daniel Fonseca Malafaia era graduado em Administração Pública e Privada, e em Ciências Contábeis, como também formado em teologia pela Faculdade Teológica Batista de Brasília. Também foi mais de trinta anos, funcionário do Banco Central do Brasil. 

Primo do pastor Silas Malafaia, presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, RJ, o Bispo Daniel Malafaia foi um exemplo notável de homem de Deus. Respeitado e influente doutrinador, tornou-se um ícone das Assembleias de Deus no Brasil. 

Na 39ª Assembleia Geral Ordinária da CONAMAD foi ordenado bispo, realizada de 22 a 25 de março de 2017, no Brás, em São Paulo. Membro da Junta Conciliadora e secretário da Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Estado do Rio de Janeiro - Ministério de Madureira (CONEMAD-RJ) era também secretário da CONAMAD. 

O Bispo Daniel Malafaia faleceu em 12 de dezembro de 2020 devido a complicações causadas pelo corona vírus. Seu filho, o pastor Alessandro de Araújo Malafaia foi empossado como novo presidente da Assembleia de Deus em Campo Grande, RJ, no dia 13 de dezembro de 2020. 


FONTES: 

NOGUEIRA, Ivan Perdigão. Personalidades Evangélicas do Brasil, Volume II. RJ: Verbete Empresa Jornalística LTDA, 2001. 


Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Autor do Memorial das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A AD em Jacarepaguá - síntese histórica

A Igreja Assembleia de Deus em Jacarepaguá - IADJ nasceu na década de 1970, no auge da Ditadura Militar e cresceu velozmente em plena reabertura política no Brasil. Sua consolidação veio nos tempos áureos de implantação do Plano Real e da estabilidade econômica. Entre tantos ministérios assembleianos, a IADJ era uma igreja referência na educação cristã.

Seu início ocorreu em 1973, quando o Pastor Gilberto Malafaia foi procurado por alguns crentes metodistas insatisfeitos com a igreja onde congregavam. A proposta original do grupo era começar, de imediato, um novo trabalho em Jacarepaguá, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

Na época, Malafaia frequentava com a sua família a AD na Penha, Zona Norte da cidade. Experiente, orientou os metodistas descontentes a pedirem cartas de transferências e se integrarem na igreja do tradicional bairro carioca. A proposta de abertura de uma congregação somente seria acertada depois da aceitação dos metodistas na Penha. 

Vencida a primeira etapa, os agora ex-metodistas conversaram com o Pastor José Santos e pediram para abrir uma congregação em Jacarepaguá. O novo núcleo seria ligado a Penha e teria o Pastor Gilberto como seu líder. Com a autorização do Pastor Santos, foi alugada uma antiga oficina na Avenida dos Mananciais, onde se iniciaram os trabalhos IADJ que, segundo o comentário do Pastor Malafaia em sua biografia, "num instante encheu".

Vendo as possibilidades de crescimento, Malafaia logo tratou de procurar lotes para construir um templo próprio. Sem muito dinheiro em caixa e na base das campanhas para arrecadação de mais recursos, o terreno foi adquirido. O local não parecia ser lá muito promissor: era um brejo cheio de árvores, mosquitos e sapos, onde um pequeno caminho dava num buraco.

Templo da IADJ na década de 1970

Os bons contatos políticos do pastor Gilberto facilitaram as melhorias no local. Máquinas dragaram a água existente no local e os mutirões nos finais de semana prepararam o terreno para receber uma tenda para realização dos primeiros cultos. Do barracão, construíram um templo de madeira, e depois, uma pequena igreja.

Paralelamente, Jacarepaguá passava por transformações rápidas. A formação de grandes indústrias e o surgimento de enormes conjuntos residenciais com loteamentos legais e clandestinos fez a população crescer muito, fazendo da região uma cidade dentro de outra cidade.

Com o crescimento da congregação, o Pastor Gilberto decidiu, então, lançar os fundamentos de um templo muito maior. Isso somente foi possível com o senso de oportunidade do líder, que comprou terrenos próximos visando à futura ampliação da igreja. Há um detalhe: logo Malafaia conseguiu autonomia e quando a pedra fundamental da nova construção foi lançada em 1982, a IADJ possuía 300 membros, fora os congregados e as igrejas já emancipadas.

No dia 15 de novembro de 1996, finalmente o novo templo foi inaugurado. Com instalações modernas divididas em mais de 20 salas para Educação Cristã, Escola Dominical e funcionamento do Seminário Teológico Shalom, a obra era mais um sonho realizado na vida ministerial do veterano pastor.

Gilberto Malafaia, a essa altura, já contava com 75 anos de idade. Cedo ou tarde, a sucessão do líder da IADJ chegaria. Em 2014, Silas Malafaia Filho recebeu do avô a presidência da igreja e, para surpresa de uns, alegria de outros e descontentamento de muitos, mudou radicalmente a essência da congregação.

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007

COSTA, Jefferson Magno. Pastor Gilberto Malafaia - Homem de fé, visão e coragem. Rio de Janeiro: Editora Central Gospel, 2014.

Mensageiro da Paz, setembro de 1982.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

A recontagem dos votos na CGADB de 1983

O mundo acompanha com ansiedade a eleição presidencial nos Estados Unidos da América. De um lado, o atual Presidente dos EUA do Partido Republicano, Donald John Trump tentando a reeleição. Na oposição e, com grande chances de vitória está Joseph Robinette "Joe" Biden Jr.

O pleito está sendo marcado por polêmicas, acusações e ações judiciais. Trump, antes mesmo das eleições já falava em fraudes e em entrar na justiça contra supostas irregularidades. É o sistema democrático norte-americano sendo colocado à prova. Uma eleição disputada voto a voto e cheia de emoções.

Em 1983, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) realizada na AD em Aribiri, Vila Velha, no Espírito Santo, algo similar aconteceu envolvendo os dois principais líderes das ADs no Brasil na atualidade: o Bispo Manoel Ferreira e o Pastor José Wellington Bezerra da Costa.

Deve-se lembrar, que a CGADB em Vila Velha, em 1983, foi o primeiro concílio realizado sem a presença dos pastores Cícero de Lima do Belenzinho  e Paulo Leivas Macalão do Ministério de Madureira, que haviam falecido no ano anterior.

Manoel Ferreira e José Wellington

Havia também, uma enorme pressão para que o Ministério de Madureira perdesse sua unidade. Ferreira, assim como José Wellington, eram duas lideranças buscando afirmação e legitimidade entre seus pares. Assim sendo, os dois, mais Túlio Barros e Elizeu Menezes concorreram ao cargo máximo da convenção.

Nesse processo de fragmentação do lado dos Ministérios da Missão, a chapa de Madureira conseguiu êxito. O Pastor (na época não era Bispo) Manoel Ferreira venceu o pleito com margem apertada de 20 votos sobre o segundo colocado, o Pastor Bezerra da Costa.

Ferreira conta em suas memórias, que houve "um alvoroço" e José Wellington pediu a recontagem dos votos. Na recontagem, para surpresa do próprio líder do Belenzinho, a diferença entre os dois aumentou. Diante da situação, o Pastor José Pimentel de Carvalho de imediato proclamou a vitória da chapa de Madureira.

Naquele tempo pediram a recontagem dos votos. Ainda não tinham entrado no campo jurídico. Mas não demorou muito para que algumas eleições fossem parar nos tribunais da justiça secular. É a política secular e eclesiástica com meios idênticos para alcançar o poder. 

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FERREIRA, Samuel (org.) Ministério de Madureira em São Paulo fundação e expansão 1938-2011. Centenários de Glórias. cem anos fazendo história 1911-2011 s.n.t.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

O Destino Manifesto de Madureira

"O Espírito Santo manifestou a sua aprovações aquele acontecimento, falando, por profecia, encorajando, incentivando ao trabalho pela causa de Cristo; uma mensagem por profecia, ordenou a igreja nessa tarde, que alargasse a sua tenda, pois prosperaria..." (Emílio Conde)

No dia 13 de fevereiro de 1938, num domingo à tarde, 67 crentes em Cristo desceram às águas batismais na Assembleia de Deus em Madureira, no Rio de Janeiro. Na condução dos trabalhos estava o Pastor Paulo Leivas Macalão. Nesse tempo, a congregação do bairro da Zona Norte do antigo Distrito Federal já era a maior das igrejas abertas por Macalão nos subúrbios do Rio.

Convidado para as celebrações vespertinas e atento a tudo o que acontecia, estava o jornalista Emílio Conde. Posteriormente, as considerações do escritor seriam publicadas na seção "Na Seara do Senhor", espaço privilegiado do Mensageiro da Paz para informar o progresso das ADs em todo o Brasil.

Naquela tarde, Conde encantou-se com o entusiasmo da "multidão de salvos" louvando a Deus e observou que, apesar da elevada temperatura daquele verão carioca, a intensidade do calor espiritual a tudo se sobrepunha. O povo, segundo o apóstolo da imprensa pentecostal, não se cansava de louvar e de se alimentar da Palavra de Deus. 

Em meio a tantas manifestações fervorosas de louvor, uma profecia se ouviu no recinto: Deus através do Seu Espírito aprovava aquela obra e ordenava "que alargasse a sua tenda, pois prosperaria". Talvez sem saber, Conde testemunhava a mensagem profética que confirmava o "Destino Manifesto" da AD em Madureira. 

Convenção Nacional de Madureira em 1960

O conceito de "Destino Manifesto" surgiu nos Estados Unidos da América, no século XIX. Era uma crença comum entre os norte-americanos, que deveriam se expandir pela América do Norte e colonizá-la. E isso se daria com a aprovação e bênção divina.

Obviamente, o "Destino Manifesto" foi contestado por muitos e justificou, infelizmente, a discriminação e massacre dos nativos no continente. Na política internacional, essa crença de superioridade ainda é sentida no olhar que a diplomacia norte-americana tem sobre os outros povos. 

Porém, a profecia, não somente prediz o futuro; ela capta o espírito de uma época. Quando a mensagem profética em Madureira foi ouvida, o ministério, além de estar presente nos subúrbios do antigo Distrito Federal, já havia se ramificado pelo território fluminense, mineiro, goiano e, ainda naquele ano, chegaria à cidade de São Paulo.

Contudo, o "Destino Manifesto" de Madureira seria interpretado por outros Ministérios como "invasão de campo". Criou-se, com o tempo, o conceito de "jurisdição eclesiástica" para delimitar a área de atuação e concorrência das ramificações assembleianas. 

Na autobiografia de Manoel Ferreira, o Bispo Primaz de Madureira destacou a essência evangelística do Ministério de Madureira e que a CGADB, "com seu pesado jogo burocrático", impunha regras às ações evangelísticas. Para Ferreira, o conceito de "jurisdição eclesiástica" era algo sem sentido numa nação carente de evangelização e igrejas nos seus mais distantes rincões. 

Assim, ao final da década de 1980, quando autorizou a abertura de novos trabalhos do Ministério em todo Brasil, Ferreira estava, de certa maneira, cumprindo a profecia de 1938. "Alargar as tendas" era, e sempre foi, uma ordenança divina para Madureira e seus líderes.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina. Assembleia de Deus: Ministérios, Carisma e Exercício de Poder. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

FERREIRA, Manoel. Bispo Manoel Ferreira: Vida, Ministério, Legado. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2020.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de março de 1938, ano VIII, nº 05, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

A força de uma mulher

O ano 2020 já entrou para a História como um ano atípico. A pandemia do COVID-19 afetou a economia mundial, desmontou discursos neoliberais, multiplicou o valor das "gigantes da tecnologia" e revelou amplamente as mazelas e inseguranças dos mais pobres. Enquanto essas linhas são escritas, o coronavírus segue atrapalhando planos de reeleição de governantes e, incrivelmente, já alterou uma calculada sucessão eclesiástica. A Assembleia de Deus (AD) em Cuiabá que o diga.

Pastoreada desde dezembro 1974 pelo Pastor Sebastião Rodrigues de Souza, que também era vice-presidente da CGADB, a AD na "Cidade Verde" parecia ter uma sucessão previsível. Com quase 90 anos de idade, o Pastor Sebastião tinha como vice-presidente o seu filho Rubens Siro de Souza de 68 anos. Como tantos outros ministérios assembleianos, o clã dos Souza aguardava o momento certo para a transição.

Mas a pandemia golpeou planos e criou um vácuo de poder na AD em Cuiabá. No final de junho, os pastores Sebastião e Rubens testaram positivo para a COVID-19. No início de julho, pai e filho faleceram em decorrência do coronavírus. O Mensageiro da Paz de agosto de 2020 deu amplo destaque à morte dos líderes da AD em Cuiabá, em especial ao Pastor Sebastião, que por muitos anos foi membro da Mesa Diretora da CGADB e seu ex-presidente.

Aliás, o Mensageiro da Paz de agosto é aparentemente contraditório: publicou uma matéria intitulada "Brasil supera EUA em curados de COVID: Dados mostram ainda diminuição da epidemia em todo mundo", onde a grave crise sanitária mundial é claramente minimizada. Em meio a dados de pessoas recuperadas (no Brasil e no mundo), o tradicional "órgão oficial" das ADs simplesmente ignora o número alarmante de mortes em decorrência do coronavírus.

Irmã Nilda orando pelo recém-eleito pastor da AD em Cuiabá, Sila Paulo

Entre a propagada superação e cura de infectados, o periódico noticiou a morte do vice-presidente da CGADB, do seu filho Rubens Siro e do Pastor Alberto Resende de Oliveira, primeiro-secretário da CONFRADESP. Em julho, o Mensageiro também informou a morte do Pastor Florêncio Nunes Neto, aos 52 anos. Pastor Neto era presidente de uma das convenções das ADs no Ceará, filiadas a CGADB. Em suma: enquanto a mídia oficial assembleiana (e de outras denominações) atenuam o impacto da COVID-19 na sociedade, alguns de seus líderes seguem morrendo em decorrência da pandemia.

Mas voltemos ao Centro-Oeste! Com a morte do presidente e vice-presidente da AD em Cuiabá e da Convenção de Ministros da AD no Estado do Mato Grosso (COMADEMAT), o ministério deu posse ao Pastor João Agripino de França para a presidência da convenção estadual.

Mas a vaga de presidente da AD em Cuiabá foi um processo mais complicado. O candidato ao posto era o Pastor Silas Paulo de Souza, filho primogênito do Pastor Sebastião. Sem o carisma do pai, Silas estava longe de ser uma unanimidade para o cargo. Todavia, foi indicado pela convenção e eleito numa Assembleia Geral Extraordinária considerada por muitos "atropelada", ou seja, sem um clima de consenso.

Porém, Silas Paulo foi eleito e tão logo seu nome foi confirmado para presidir a AD em Cuiabá, o primogênito do casal Souza foi à casa da mãe, a irmã Nilda de Paula. A matriarca da família também havia sido infectada com o coronavírus, esteve internada, mas sobreviveu ao mal que assolou ao esposo e filho. 

Assim, o novo pastor da AD cuiabana foi buscar a intercessão da anciã de 90 anos. A cena onde Silas, de joelhos e muito emocionado, recebeu a oração da matriarca rodou o Brasil. A eleição por parte do ministério não era tudo. O sucessor do Pastor Sebastião precisava da oração e benção provinda de uma pioneira.

É uma ironia que, num processo todo conduzido por homens, a legitimidade ao sucessor seja dada por uma mulher. 

Fontes:

Mensageiro da Paz, ano 90 - nº 1623 - agosto de 2020, CPAD: Rio de Janeiro.

Mensageiro da Paz, ano 90 - nº 1624 - setembro de 2020, CPAD: Rio de Janeiro.


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais: 1999 - A CGADB da liminar

"São teus inimigos todos aqueles que se sentem ofendidos pelo fato de ocupares o principado; e também não podes conservar como amigos aqueles que te puseram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pensam." 
Nicolau Maquiavel, O príncipe, capítulo III


Certamente, a CGADB, realizada no Palácio de Convenções do Anhembi, na cidade de São Paulo/SP, entre os dias 11 e 15 de janeiro de 1999, foi a mais polêmica da década que se encerrava. Cyro Mello, colunista do Mensageiro da Paz, chamou-a de "Convenção da liminar", onde os "discursos e assuntos discutidos ficaram 95% só para quem entendessem de leis". As liminares (ordem judicial provisória que analisa um pedido urgente) foram a parte visível e pública das intensas disputas de bastidores pelo controle da CGADB. 

No Anhembi, em 1999, o pastor José Wellington da Costa disputou novamente a presidência da CGADB com o pastor Túlio Barros Ferreira, da AD em São Cristóvão/RJ. Na Convenção Geral em Belo Horizonte, em 1997, Wellington havia vencido o pastor Túlio com 65,45% dos votos válidos, mas o movimento de líderes descontentes com os rumos da CGADB voltou à carga naquele conclave. 

Wellington confessou em sua biografia que o pastor Túlio foi seu "concorrente mais temido". O líder da histórica AD carioca criticava o abandono da igreja na parte doutrinária e a apatia da administração Costa à frente da entidade. O líder do Belenzinho, por sua vez, questionava o legado do pastor Túlio que, segundo ele, em quatro gestões como presidente da CGADB, havia deixado somente uma fotografia sua na parede da sede da instituição. 

Meses antes da convenção, o pastor Túlio Barros distribuiu entre os ministros presentes em São Paulo um panfleto crítico à Mesa Diretora da Convenção. O impresso recebeu o sugestivo título de "Mudança de rumo" e era direcionado "aos pastores das Assembleias de Deus no Brasil, cuja visão está acima de qualquer interesse pessoal...". 

Em seus "considerandos", o libelo alertava que a CGADB, "há algum tempo", estava operando "fora dos seus propósitos" e que a instituição deveria "atender aos interesses comuns da Igreja, sem que isso se tornasse um meio de promoção pessoal ou de interesse grupais ou mesmo o uso de nepotismo contrário aos ensinamentos bíblicos". 

José Wellington e Túlio Barros na CGADB da liminar

Os demais parágrafos refletiam os ânimos de muitos caciques da CGADB: falta de oportunidades e participação na Mesa Diretora e seus órgãos "tomados em rodízio constante, por longos anos, por grupos de interesse". O documento revelava a insatisfação das lideranças mais expressivas das ADs, que se sentiam alijados pelo status quo. 

Em suas últimas linhas no livrete, conclamava-se os convencionais a reivindicar "os princípios históricos de uma Convenção democrática, sem que novamente caíssemos nas mãos de um governo autocrático e caudilhístico". As palavras eram fortes e reveladoras do clima de bastidores da Convenção Geral daquele ano. 

Líderes expressivos endossavam o manifesto: João Alves Corrêa, Paulo Alves Corrêa, José Ezequiel da Silva, José Clarimundo César, Israel Pimenta, Uriel de Jesus, Samuel e Jonatas Câmara, Delfino Brunelli, Josias de Almeida Silva, Horácio da Silva Júnior, Alfredo Reikdal, Eliseu Menezes entre outros. O pastor João Alves Corrêa, inclusive, tinha presidido a CGADB por três vezes. Como se percebe, era uma oposição considerável ao pastor José Wellington. 

Porém, os planos da oposição foram abaixo, quando do lado do grupo "Mudança de rumo" começaram a aparecer liminares contra a Mesa Diretora, antes da nova eleição. Nunca, até aquela CGADB, as questões internas da instituição haviam parado nos tribunais da justiça secular. Fato que o pastor Wellington soube explorar entre os convencionais presentes no Anhembi. Tal situação de perplexidade gerada entre os ministros por causa das liminares permitiu que a reeleição do pastor José Wellington da Costa fosse absoluta e ele conquistasse 71% dos votos válidos. 

A animosidade ficou flagrante quando o vencedor, o pastor Costa, fez os protocolares agradecimentos a todos os que participaram da eleição e afirmou que ele e o pastor Túlio não eram adversários, mas irmãos em Cristo, sendo assim, "a amizade e comunhão" permaneceriam após a eleição. A relação fraterna pode até ter continuado, mas o fato é que Túlio Barros Ferreira se desligou não muito tempo depois da convenção que liderou por quatro vezes. 

Na próxima postagem a continuação dos debates e fatos da CGADB de 1999. Aguardem! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1999, ano LXIX, nº 1343, Rio de Janeiro: CPAD

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Revisitando as Convenções Gerais - de 1987 a 1997

Está confirmado: na 45ª Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) prevista para abril de 2021, em Cuiabá, Mato Grosso, o pastor José Wellington da Costa Júnior será reconduzido à presidência da instituição, por aclamação. A chapa do atual presidente da CGADB foi a única inscrita no prazo legal. Como não surgiram concorrentes, a aclamação será inevitável.

Desde que o pai do pastor Wellington Júnior chegou ao poder na CGADB, em maio de 1988, já se realizaram 14 Convenções Gerais, sempre com vitória do grupo comandado pelo líder da AD do Ministério de Belém em São Paulo. Portanto, se confirmada a aclamação e posse do pastor Duéliton, serão mais de três décadas de continuidade na CGADB e controle da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), empresa que reforça a linha doutrinária e política do status quo dominante. 

Para melhor compreender a permanência do establishment, é importante, ainda que de forma sucinta, revisitar as convenções anteriores e perceber as transformações ocorridas nessas décadas.

CGADB de 1987 (Salvador/BA): foi a última Convenção Geral com a participação do Ministério de Madureira. Aliás, a década de 1980 foi marcada pela polarização Madureira x Missão. Havia, até então, um acordo firmado para que houvesse alternância entre os dois ramos ministeriais das ADs na presidência da CGADB. Mas alguns pastores insatisfeitos com o Ministério de Madureira articularam uma chapa para quebrar esse pacto. O pastor José Wellington foi eleito vice-presidente nessa convenção e, em maio de 1988, com a morte do então presidente da Convenção Geral, Alcebíades Vasconcelos, assumiu a liderança da CGADB. Começava a "Era José Wellington".

CGADB de 1990 (São Paulo/SP): o pastor José Wellington foi eleito à presidência da instituição assembleiana, derrotando o pastor Luiz Almeida do Nascimento. No interregno convencional, houve a suspensão de Madureira da CGADB, alterando, assim, de vez, a correlação de forças nas disputas internas da entidade. Um fato polêmico também foi a renúncia do pastor Wellington da presidência da CGADB, meses antes do conclave em São Paulo. Na época, foi alegado problemas de saúde, mas, na verdade, foi uma estratégia para driblar o estatuto da Convenção Geral, que não permitia a reeleição. Foi a primeira Convenção Geral informatizada.

CGADB de 1993 (Cuiabá/MT): o pastor da igreja hospedeira, Sebastião Rodrigues de Souza, elegeu-se presidente da Convenção Geral, derrotando, com folga, o jovem Samuel Câmara, após a desistência do pastor José Pimentel de Carvalho da disputa. José Wellington, dessa vez, ficou com a vice-presidência, mas sua influência nas instituições assembleianas foi consolidada com a posse de Ronaldo Rodrigues de Souza, membro da AD no Belenzinho, na direção executiva da CPAD. O controle e êxito da editora, representou o fortalecimento do establishment assembleiano, que nitidamente começava a se desenhar nesse tempo. Segundo o Mensageiro da Paz, a convenção em Cuiabá realçou o "perfil conservador da igreja". Era uma tentativa de colar a imagem de "liberal" na oposição.
Mesa Diretora da CGADB eleita em 1995

CGADB de 1995 (Salvador/BA): segundo o Mensageiro da Paz, foi a convenção do “consenso e concórdia”, onde houve a troca de cadeiras entre os pastores José Wellington (presidência) e Sebastião de Souza (vice-presidência). Sem disputas internas, a chapa encabeçada pelo presidente e vice da antiga Mesa Diretora eleita em Cuiabá foi "apresentada, aceita e aclamada". Geralmente, as manchetes do Mensageiro da Paz são reveladoras do clima de bastidores. Ao enfatizar o "consenso e concórdia", deixa nas entrelinhas o entendimento de que houve muita discórdia e dissenso. Detalhes: para o Conselho Administrativo da CPAD, um dos eleitos foi o pastor José Wellington da Costa Júnior, nome que seria também uma constante no Conselho da Casa Publicadora e a presença de Samuel Câmara na Mesa Diretora. Em pouco tempo ele voltaria a fazer oposição ao líder do Belenzinho.

CGADB de 1997 (Belo Horizonte/MG): pela primeira vez na década, o pastor José Wellington teve um concorrente de peso, o pastor Túlio Barros Ferreira da AD em São Cristóvão/RJ, que também presidiu a entidade por quatro vezes. É interessante notar os nomes de conhecidos na oposição: Ezequiel da Silva, Edgar Machado, Sóstenes Apolo, Francisco Libório e, principalmente, Gilberto Malafaia, que compunham o grupo de apoio ao pastor Túlio. Malafaia, na CGADB de 1987, foi um dos principais articuladores da vitória do grupo onde José Wellington estava inserido. Em BH, uma década depois, lá estava o pastor da AD em Jacarepaguá, na trincheira oposta. O pastor Wellington reelegeu-se com boa margem de votos (65,45%), mas tudo indicava uma crescente movimento de contestação ao establishment.

Esse movimento contestatório cresceria cada vez mais. Assunto para as próximas postagens! 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. 2 ed. São Paulo: Recriar, 2019.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1990, ano LX, nº 1237, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, março de 1993, ano LXIII, nº 1272, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1995, ano LXV, nº 1295, Rio de Janeiro: CPAD.

Mensageiro da Paz, fevereiro de 1997, ano LXVII, nº 1319, Rio de Janeiro: CPAD.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ensino teológico na AD em SC - oportunidade e oposição

O ensino de teologia sempre foi um tema marcado pela discórdia dentro das Assembleias de Deus (ADs) no Brasil. Desde a CGADB de 1943, até meados da década de 1970, o debate sobre a necessidade de instrução teológica formal gerou discussões veementes. Para além das questões aparentes, Claiton Pommerening aponta em sua tese de doutorado "Fábrica de pastores", (referência pejorativa dada aos institutos bíblicos) a problemática das "relações de poder entre norte-americanos e suecos" que permeavam essas questões.

Em meio aos embates nesse período, João Kolenda Lemos e sua esposa Ruth fundaram o Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, em Pindamonhangaba no interior de São Paulo, em 1958. João Kolenda era sobrinho do missionário John Peter Kolenda, que por sua vez foi árduo defensor da criação dos seminários teológicos.

J. P. Kolenda, Virgil Smith e Orlando Boyer (este por bem menos tempo) foram os missionários dos EUA que trabalharam por anos nas ADs em Santa Catarina. Eles construíram templos, organizaram a convenção estadual, a Caixa de Evangelização e a Caixa de Socorro de Obreiros (uma espécie de aposentadoria e ajuda para os ministros aposentados e viúvas de pastores).

Kolenda com o ministério da AD em Santa Catarina

Todas as estratégias dos norte-americanos renderam muitos frutos para a AD catarinense. Mas a tentativa de implantação de um instituto bíblico na década de 1950, no estado não prosperou. Esse é um capítulo pouco conhecido da história da AD em Santa Catarina e reflete muito bem o clima de disputas entre os obreiros nativos e os missionários do exterior.

Ismael Santos em seu livro "Raízes da nossa fé" destacou o fato de Kolenda ter sempre a "preocupação com o treinamento teológico sistematizado dos obreiros cristãos". Virgil Smith na mesma linha, ministrou aulas de Cristologia, Geografia Bíblica e Bibliologia aos professores da Escola Dominical da AD em Joinville. Não por acaso, os dois aparecem nos registros da CGADB como grandes defensores do ensino teológico.

Coerente com a causa pela qual lutava, Kolenda projetava fundar um instituto bíblico em Santa Catarina. Seria o primeiro no Brasil. As cidades de Joinville, Brusque e Blumenau eram cotadas para receber o seminário, mas J.P. esbarrou na oposição da mesa diretora da convenção de pastores de Santa Catarina, na época presidida pelo pastor João Ungur. 

Eufemisticamente, Santos relatou que "parte da liderança não estava preparada" para a criação de um seminário. Porém, o fato é que ao se discutir a implantação de um instituto bíblico, gerou-se um exaltado debate, onde até mesmo "sonhos de sentido pejorativo que alguns pastores catarinenses tiveram com J.P. Kolenda" foram considerados contra a proposta do missionário. Pommerening destacou, que "a experiência" se sobrepôs "à racionalidade".

Ironicamente, Kolenda e seu amigo João de Oliveira usaram a mesma tática na CGADB de 1966, em Santo André/SP, quando em meio aos debates sobre os institutos bíblicos, Oliveira testemunhou sobre a sua morte, a oração de Kolenda em seu favor e sua ressurreição. Ao narrar os acontecimentos, o pastor João, que era líder da AD em Pindamonhangaba, um dos professores do IBAD e o principal fiador da instalação do IBAD na cidade, tentava derrubar preconceitos sobre o seminário.

Infelizmente, o dinheiro que seria utilizado na criação do seminário em Santa Catarina foi destinado para a obra na Alemanha que estava devastada pela Segunda Guerra Mundial e para onde Kolenda foi trabalhar depois de deixar o Brasil. Contam os obreiros mais antigos, que posteriormente a liderança se arrependeu da atitude tomada, porém, Kolenda avisou que a oportunidade havia passado e não teria mais volta.

Talvez, esse sentimento de pesar manifestou-se duas décadas depois pelo pastor Satyro Loureiro na Curso de Aperfeiçoamento de Professores de Escola Dominical (CAPED) realizado em Itajaí, em 1976. Loureiro como orador dos formandos do curso, expressou a gratidão por tão ricos ensinamentos ministrados e confessou: "lamentamos profundamente que CAPED não tenha chegado até nós trinta anos atrás".

Grande parte dos obreiros que participou da reunião onde a proposta de Kolenda foi rejeitada na década de 1950, estava presente no CAPED em Itajaí. As palavras de Satyro seriam um mea culpa do ministério catarina? 

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

POMMERENING, Claiton Ivan. Fábrica de pastores: interfaces e divergências entre educação teológica e fé cristã comunitária na teologia pentecostal. 2015. 219 f. Tese (Doutorado em Teologia) - Faculdades EST, São Leopoldo, 2015.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinqüentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

Mensageiro da Paz, ano 46, número 06, 1976.

domingo, 28 de junho de 2020

O "Timoneiro" e o "Trovão" - epílogo

Nas postagens anteriores, o leitor pode acompanhar as circunstâncias da cisão ocorrida em 1972, quando o pastor Eliseu Feitosa de Alencar, na época líder da AD em Campo Grande/MS, rompeu com o Belenzinho/SP e causou grande alvoroço dentro do Ministério.

O principal veículo de comunicação das ADs, o Mensageiro da Paz informou a exclusão do pastor Eliseu feita por uma comissão de 21 pastores, a qual foi referendada por mais de 100 ministros no dia 02 de maio do mesmo ano, na antiga sede do Belenzinho na Rua Antônia Alcântara Machado, nº 616. 

Tempos depois, com o remanescente dos fiéis que não seguiram o pastor Eliseu, o Belenzinho iniciou outra congregação em Campo Grande. Para a árdua tarefa do recomeço, Cícero de Lima chamou o pastor Vicente Guedes Duarte, que já havia trabalhado na cidade anos antes. Para marcar a reabertura dos trabalhos da congregação filiada ao Belém, estudos bíblicos foram realizados e muitos líderes compareceram para dar seu apoio.

Mas é importante destacar, que a cisão em Campo Grande não foi um acontecimento isolado dentro do contexto em que vivia o Ministério do Belenzinho. Seu líder máximo estava em idade avançada, sem sucessor definido e questões ministeriais minavam a autoridade do pastor Cícero.

O pastor José Wellington comenta em sua biografia sobre a formação de uma convenção e o desejo de autonomia das igrejas do Cento-Oeste em relação ao Ministério do Belém. Fato que trouxe muita tristeza ao velho "timoneiro" e só não prosperou devido as hábeis negociações do pastor Wellington.

Outro caso desgastante foi por conta de uma antiga ligação do pastor Cícero com a AD em Aribiri, Vila Velha (ES). Com o intuito de ajudar a igreja que passava por dificuldades, Lima filiou a congregação capixaba ao Belém. O auxílio a AD em Vila Velha gerou uma enorme crise só resolvida pela Junta Executiva da CGADB.

Eliseu e Nicodemos no Diário da Serra 12/06/83

Nove anos depois, em janeiro de 1983, a AD em Campo Grande liderada pelo pastor Eliseu foi admitida na CGADB em Aribiri/ES cujo tema foi "A unidade da Igreja". É importante destacar, que a integração aos quadros da Convenção Geral só se deu, após a morte do pastor Cícero (1982) e sob protestos de alguns convencionais da região Centro-Oeste. Ainda em março de 1983, Eliseu Alencar com mais 170 ministros foram admitidos na Convenção Nacional de Madureira. 

Aliás, a relação do pastor Alencar com o Ministério de Madureira já vinham sendo trabalhadas há muito tempo. Pregações de Eliseu disponíveis no YouTube falam da solidariedade hipotecada a ele em momentos cruciais pelo Bispo Manoel Ferreira. O jornal Diário da Serra (edição 12/06/1983) informa a visita a Campo Grande do pastor Nicodemos José Loureiro da AD em Volta Redonda para, juntamente com Eliseu Feitosa, supervisionar e organizar uma convenção de Madureira no estado de Rondônia. 

Voltando para a CGADB, o pastor Eliseu voltou a fazer parte da Mesa Diretora e a escrever artigos para o Mensageiro da Paz e na CONAMAD fez parte da diretoria da instituição. Quis o destino, que em 1989, o pastor Alencar e seu campo eclesiástico fossem suspensos novamente da CGADB pela desvinculação do Ministério de Madureira da Convenção Geral.

O pastor Eliseu Feitosa de Alencar faleceu em 23 de agosto de 2007. Na biografia do pastor Wellington consta a seguinte informação: "pastor Eliseu pediu perdão ao Ministério do Belém. Também pastor José Wellington o perdoou". Para confirmar essa fato, o Mensageiro da Paz noticiou a morte do "Trovão".

Agora, sem juízos de valor ou condenações, Cícero e Eliseu repousam em paz. O que aconteceu faz parte de um dos capítulos mais tensos da história das ADs. História essa escrita por homens falhos, limitados e nem sempre conscientes do alcance das suas decisões. Todavia deixaram seu legado ministerial.

Fontes:

 ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

Diário da Serra, Campo Grande/MS, 12 de junho de 1983.

Mensageiro da Paz, ano 42, 30 de julho de 1972, nº 14, p.10.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O "Timoneiro", o "Trovão" e a tempestade (2ª parte)

Como se observou na postagem passada, o pastor Eliseu Feitosa de Alencar voltou a Campo Grande/MS, em março de 1970, depois de cinco anos trabalhando em São Paulo, capital. Foi um tempo de acentuado progresso ministerial, mas também de desconfianças por parte dos principais pastores de Ministério do Belenzinho ao "Trovão Brasileiro".

Em jogo, a sucessão do velho "timoneiro". Cícero já estava quase octogenário e ainda não havia definido um sucessor. Vale lembrar, que nas páginas da biografia do pastor José Wellington Bezerra da Costa essa inquietação era constante: Joaquim Marcelino da Silva, da AD em Santo André/SP, manifestou preocupações em relação à sucessão do veterano. Mas ele desconversava e negava-se a apontar diretamente alguém.

Sendo um forte concorrente ao posto de líder máximo do Belenzinho, Eliseu Feitosa viveu dias tensos em São Paulo. A volta para Campo Grande, pode estar relacionada ao tal dossiê rejeitado por Cícero e motivador da crise no Ministério. Sair do clima impregnado de ciúmes, talvez fosse uma boa alternativa. Na distante "Cidade Morena" haveria quem sabe menos patrulhamento.

As versões para a cisão em 1972, como toda boa história das ADs é controversa. Em casos assim, sempre há narrativas conflitantes, mas é certo que a ruptura em Campo Grande, fizeram dos últimos anos de ministério de velho Cícero mais sofridos e tristes.

Sabe-se oficialmente, que todo patrimônio da AD campo-grandense pertencia ao Ministério do Belém. Depois de tomar posse em Campo Grande, Eliseu teria procurado o pastor Cícero com uma proposta aparentemente vantajosa: a anistia concedida pelo prefeito da cidades aos impostos atrasados; desde que a igreja local estivesse suas propriedades registradas em seu nome. Cícero concordou e decidiu doar todos os templos com registro em ata da decisão.

Pastor Eliseu e a AD em Campo Grande/MS

Nada de anormal até esse momento, mas o "timoneiro" estava sendo constantemente instado a tomar cuidado com seu protegido. Há relatos, que Cícero foi convencido da iminente ruptura e de que a proposta de mudança de registro dos templos fazia parte dessa estratégia. 

Induzido pelos seus obreiros, o ancião enviou uma comissão de pastores para tratar do caso. O grupo de pastores, liderados pelo vice-presidente do Belenzinho, João Pereira de Andrade e Silva, não foi com a intenção de conciliar. A determinação era a exclusão, ainda que não houvesse consenso entre todos eles. Todavia, o pastor Eliseu tinha os fiéis ao seu lado e condições jurídicas para dar independência a igreja.

Em março de 1972, o pastor Eliseu rompeu com o Ministério do Belém. A AD em Campo Grande se tornou autônoma e no embalo dos acontecimentos Alencar fundou mais um Ministério na cidade de São Paulo, a AD Paulistana. Muitos crentes do Belenzinho mudaram-se para a nova ramificação assembleiana na capital.

Segundo o pastor José Wellington Bezerra da Costa em sua biografia, Cícero ficou com medo de uma divisão em todo o Ministério. O "Trovão" causou uma grande tempestade e assustou o "timoneiro". Os candidatos à vaga do veterano obreiro é que devem ter se sentido aliviados. Era menos um na disputa...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O "Timoneiro", o "Trovão" e a tempestade (1ª parte)

Quase todos os grandes Ministérios ou igrejas dentro das ADs no Brasil têm um caso de divisão em sua história. Madureira, na década de 1960, perdeu a AD em Anápolis/GO para o pastor Antônio Carneiro. Ainda na mesma época, a AD em Fortaleza/CE viu sua congregação em Bela Vista conseguir sua emancipação por mãos e obra do pastor Luiz Bezerra da Costa.

Porém, uma das rupturas mais traumáticas foi realizada pelo pastor Eliseu Feitosa de Alencar da AD em Campo Grande, no estado de Mato Grosso do Sul, no ano de 1972. Alencar, que na época dirigia a AD campo-grandense pela segunda vez, causou uma enorme decepção ao seu protetor, o octogenário pastor Cícero Canuto de Lima líder do Ministério do Belenzinho em São Paulo, que caminhava para seus últimos anos de carreira.

Além de conturbada, a perda da filial, ao que tudo indica, teve um contexto de ciúmes ministeriais e disputa pela sucessão de Cícero. A AD no Belenzinho era (e ainda é) o maior Ministério da Missão no Brasil e, na medida que o tempo avançava, pastores de dentro e fora da instituição almejavam suceder o veterano líder assembleiano. Entre os possíveis sucessores estava o pastor Eliseu Alencar.

Cícero, o "Timoneiro" e Eliseu, o "Trovão"

Nascido na pequena cidade de Lábrea, no interior do estado do Amazonas, Eliseu se destacou ao evangelizar tribos indígenas na região na década de 1960. Na CGADB de 1964, em Curitiba/PR, Alencar promoveu uma campanha para doação de roupas para os nativos convertidos
.
Foi nessa convenção que o missionário das tribos indígenas em Roraima "ganhou a simpatia, confiança e apoio do pastor Cícero de Lima para esse trabalho, incluindo envio de recursos financeiros" – conta Isael de Araújo, na biografia do pastor José Wellington. Mais do que isso, Eliseu conquistou o coração do velho obreiro.

Cícero o integrou ao Ministério do Belenzinho, onde Eliseu assumiu a AD na Lapa em São Paulo, depois de uma breve passagem por Campo Grande/MS, em 1965. No tempo em que ficou no setor transformou os cultos e a dinâmica do trabalho na região. Nesse tempo, Alencar viajou para a Europa acompanhado do pastor Anselmo Silvestre e Eurico Bergstén. Na Suécia, a imprensa local o chamou de "O Trovão Brasileiro". Na CGADB de 1966, em Santo André/SP, Eliseu foi escolhido para ser o 1º secretário da Mesa Diretora dos trabalhos convencionais.

Como se percebe, o "Trovão Brasileiro" estava em pleno vigor e ascendência ministerial. O carisma do jovem pregador do Amazonas era incontestável e Cícero dava demonstrações de querer prepará-lo para a sua própria sucessão no Belenzinho. Mas, havia desconfianças dentro do ministério e uma bem articulada rede de difamações contra o amazonense.

Segundo Araújo, um grupo de pastores do Belenzinho, incluindo o seu atual presidente, desconfiou das histórias de evangelização entre os indígenas e elaboraram um dossiê contra Eliseu. Cícero não aceitou as acusações, gerando uma forte crise dentro ministério. Vários pastores foram transferidos da capital para o interior. José Wellington, que não era pastor assalariado, ficou um ano sem atividades na igreja.

Havia pedras no caminho para o possível sucessor do pastor Lima. Nomes de peso no Belenzinho se postaram contra Alencar. Talvez as denúncias não tenham sido feitas com desejo de transparência, mas para barrar a visível ascensão do notável pregador. Foi nesse clima, que em 1970, Campo Grande recebeu novamente Eliseu para liderar a próspera igreja.

O contexto dentro do Ministério do Belenzinho, portanto, indicava contínuas hostilidades para os planos de Cícero em relação ao seu protegido. Chamado de "timoneiro" pela liderança assembleiana pela experiência e segurança, o pastor Lima estava prestes a enfrentar uma grande tempestade.

Dois anos depois de assumir a AD campo-grandense, o "Trovão" iniciou a turbulência nos mares do Belenzinho.

Assunto para a próxima postagem!

Fontes:

ARAÚJO, Isael. José Wellington – Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil - Curitiba: Editora Prisma, 2017.

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Eliete Velloso - das igrejas para os palcos

Ela viveu e conviveu com os principais nomes do movimento musical iniciado na década de 1960, chamado de "Jovem Guarda". Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia, Jerry Adriani e Wanderley Cardoso foram seus companheiros de apresentações. 

Nascida no dia 2 de junho de 1940, em Deodoro, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Eliete Velloso era de berço evangélico. O pai era da Igreja Congregacional e a mãe, da Assembleia de Deus em Madureira, do pastor Paulo Leivas Macalão. 

O talento foi descoberto precocemente dentro das igrejas. Com oito anos de idade, a menina Eliete já cantava nos cultos e corais. Mesmo no auge da fama, ela sempre que podia, cantava na igreja; sentia-se "mais perto de Deus".

Eliete posando para a Revista do Rádio em 1964

O sonho da moça evangélica era ser professora, mas o Rádio a seduziu. Ao se inscrever nos disputadíssimos programas de calouros que, na época, abriam o caminho para o sucesso e estrelato, ela foi descoberta e encaminhada para uma gravadora CBS, onde foi contratada. Um dos principais sucessos da efêmera carreira da garota de Deodoro foi "Igual a ti não há ninguém", composição também conhecida na voz de Rosemary, outra cantora popular da "Jovem Guarda". 

Entrevistada pela Revista do Rádio, a jovem revelou um pouco da sua moral puritana: não gostava de posar de maiô para as fotos embora tivesse um "corpo perfeito". Entusiasmada com a carreira, que parecia ascendente, Eliete declarou que não casaria tão cedo. Mas no meio artístico nem sempre é fácil permanecer nas paradas de sucesso. 

O momento da Jovem Guarda passou e Eliete não conseguiu mais apoio das gravadoras para seguir sua carreira. Aos repórteres da Revista do Rádio, a jovem cantora declarou não querer casar tão cedo, pois a carreira era seu objetivo máximo. Entretanto, tão logo a carreira de cantora começou a definhar, Eliete se casou e, desiludida, abandonou o meio artístico no fim da década de 1960.

Eliete Velloso Voltei Para Ficar Lp Cid 1990 Estéreo - R$ 28,00 em ...
LP da década de 1990 da cantora Eliete

No começo da década de 1990, houve tentativas de voltar a brilhar. Lançou pela gravadora CID o LP "Voltei para ficar" e apresentou-se em shows com antigos companheiros da Jovem Guarda. Porém, um Acidente Vascular Cerebral (AVC), em 1995, acabou de vez com os sonhos da cantora. Somente 

Eliete, assim como Ângela Maria e Aracy Cardoso, foi uma cantora que transitou entre o sacro e o profano. Elvis Presley foi também um caso conhecido de artista que agradou crentes e descrentes. Todos deixaram suas marcas e fãs.

Fontes:

Acervo digitalizado da Biblioteca Nacional (Revista do Rádio, edição de 1964) e do Jornal  O Globo.