sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Samuel Câmara - a igreja equilibrada

Em abril de 1991, o extinto jornal O ASSEMBLEIANO, editado em Joinville, Santa Catarina, pelo jornalista Judson Canto, publicou uma entrevista com o pastor Samuel Câmara. Câmara, na época, com apenas 33 anos de idade, desde 1988 era líder da tradicional e histórica Assembleia de Deus (AD) em Manaus, no Amazonas.

O jovem obreiro, filho e genro de pastores, casado com a talentosa Rebekah, filha dos pioneiros do ensino teológico nas ADs no Brasil, o casal João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos; Samuel apresentava-se, naquele momento, como uma nova alternativa e modelo de liderança para a denominação no país. Era um menino entre os patriarcas da CGADB.

Na matéria d'OASSEMBLEIANO, enfatizou-se, que apesar de ter sucedido o veterano pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos na presidência da AD em Manaus e na convenção estadual, Samuel imprimia "sua marca pessoal na AD amazonense". Segundo o jornal, o jovem Câmara havia desobrigado a igreja de cumprir as tradições e costumes de santidade assembleianos, algo que seu antecessor já estava fazendo.

O ASSEMBLEIANO: Rebekah e Samuel Câmara em 1991

Conforme informações recebidas por quem acompanhou de perto a transição Vasconcelos/Câmara, não houve uma ruptura drástica com os dogmas assembleianos naquele período. Ao ser indagado se sua liderança da AD em Manuas era uma continuidade ou não da gestão do pastor Alcebiades, Samuel respondeu: "...eu diria que em cinquenta por cento do meu ministério mantenho os ingredientes pastorais daquele que sucedi. Outros cinquenta por cento são uma tentativa de cumprir e responder aos desafios que Deus fez a minha pessoa."

Questionado se a igreja em Manaus era "liberal" e se ele (Samuel) havia "libertado" os membros das conhecidas imposições, até então hegemônicas nas ADs brasileiras, o futuro pastor da Igreja-Mãe respondeu: "Hoje temos no Brasil uma dicotomia, dois pólos, o 'tradicional' e o 'liberal' e os pastores se alegram quando podem dizer que suas igrejas são tradicionais ou liberais. Considero minha formação equilibrada e procuro fundamentá-la na Bíblia Sagrada...".

Em suma: Câmara não considerava-se nem "tradicional" ou "liberal". Acima das questões controversas sobre os usos e costumes, o ex-aluno do Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD) em Pindamonhangaba, apresentava-se apenas como um ensinador da Bíblia, crente na ação do Espírito Santo. "Se vejo excessos, corrijo individualmente. Para mim a igreja é santa e é o Espírito Santo quem a dirige. Eu sou apenas um vigia...".

Na sequência, Samuel afirma: "Somos rotulados de liberais, mas diria que a AD em Manaus é uma igreja equilibrada" - o próprio pastor reconhece, que o rótulo de "liberal" já tinha se espalhado pelo Brasil. Tanto, que o repórter Ildo Campello começou a entrevista nessa linha de questionamentos.

Fato que é, que a AD em Manaus viveu seu momento de igreja "liberal" com o sucessor de Samuel, o pastor Jonatas Câmara. Na liderança da AD amazonense desde 1997, Jonatas implantou métodos heterodoxos de evangelização e discipulado. Uma grande cisão aconteceu nos anos 2000, e o resultado disso foi a criação da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Tradicional (IEADTAM), uma ramificação ministerial que carrega no nome a rejeição as "inovações" adotadas pela gestão do Câmara mais novo.

Mas os assuntos da entrevista com o jovem pastor de Manaus não terminam por aqui. Samuel Câmara ainda falou sobre evangelização e a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Percebe-se, em relação a CGADB, um tom crítico sobre a instituição. Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

O ASSEMBLEIANO - o jornal da nova geração: Joinville, 30 de abril de 1991, nº 5/ano I.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Os pastores da IEADJO no Jubileu de Ouro

A foto em destaque nessa postagem é emblemática. Trata-se do registro de quatro ex-pastores da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO). Eles estavam reunidos nas comemorações do Jubileu de Ouro da denominação na cidade em 1983.

O primeiro pastor Manoel Germano de Miranda (1933-1941), nesse tempo já era falecido. Também foi sentida a ausência do pastor Liosés Domiciano, que chegou à cidade em 1972 e, depois de lutar contra um câncer durante muito tempo, partiu para a eternidade em 1978.

Na foto histórica, identificam-se da esquerda para à direita, os pastores: Antonieto Grangeiro Sobrinho (1957-1967), Virgil Smith (1941-1953), Satyro Loureiro (1953-1957/1979-1990) e Artur Montanha (1967-1972). Faltou ainda na fotografia, Henrique Altherutemeyer, que respondeu pela igreja durante sete meses em 1957, até a efetivação do pastor Grangeiro no cargo.

Grangeiro, Smith, Satyro e Montanha

Virgil Smith era norte-americano com passagem missionária por Pernambuco, Alagoas e Ceará. Conheceu Lampião e o padre Cícero, grandes mitos da região nordeste. Junto com JP Kolenda, organizou a AD em Santa Catarina, construiu templos e ensinou teologia aos obreiros nativos. Toda uma geração de pastores catarinenses foi por ele muito bem preparada para servir na obra.

Grangeiro era cearense e trabalhou anteriormente com Smith na região nordeste. Convidado pelo norte-americano, Antonieto foi trabalhar em Tubarão, no Sul de Santa Catarina. Tempos depois, transferiu-se para Florianópolis e, em 1957, assumiu a IEADJO. Empreendedor, Grangeiro na presidência da igreja ganhou notoriedade em nível nacional na CGADB e CPAD. Sua família também atuava com dedicação nos trabalhos evangélicos e sociais.

Artur Montanha, por sua vez, era um evangelista nato. Ficou famoso por suas pregações eloquentes e na área musical pela habilidade em tocar sua sanfona. "Só faltava fazer o acordeon falar" - diziam os mais antigos. Na IEADJO, Montanha organizou a antiga Sociedade de Assistencial Social e Educacional Deus Proverá (SASEDEP). Mas do que o antigo obreiro gostava mesmo era das campanhas evangelísticas. Nelas sentia-se à vontade.

Satyro Loureiro por sua vez, era um administrador nato. Atuou em dois períodos na IEAJO e na sua gestão foi construído o atual templo sede da igreja em 1988. Satyro tinha bom trânsito entre as autoridades políticas e na CGADB e CPAD ocupou vários cargos de destaque. Sisudo e de voz inconfundivelmente rouca, Loureiro também incentivou a participação da AD na política partidária.

Na sua segunda passagem na presidência da IEAJO, Loureiro organizou com sua equipe as celebrações do Cinquentenário da Igreja em 1983. Todos os pastores da foto são de saudosa memória. Mas nas comemorações do Jubileu de Ouro, eles tiveram a oportunidade de rever amigos, aparar antigas arestas ministeriais e reviver os bons momentos na edificação da maior igreja pentecostal de Joinville e Santa Catarina.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A Assembleia de Deus na Cidade das Bicicletas

Houve um tempo em Joinville, Santa Catarina, que o progresso do município era observado não pela quantidade de automóveis em circulação, mas pelo número de bicicletas conduzidas pela grande maioria dos operários das principais empresas cidade.

Essa era pelo menos a observação dos jornalistas que visitavam a cidade e ficavam admirados com a grande circulação de ciclistas por suas vias. Em junho de 1941, a revista semanal Carioca  destacou em uma matéria especial sobre Joinville a quase onipresença dos "automóveis de pedal" na Cidade das Flores. Segundo a publicação, o município possuía uma frota de 5 mil bicicletas.

Em carta à extinta revista O Cruzeiro, Gilberto J. Campos morador de Joinville, em 1950, destacou dados da Prefeitura Municipal e da Delegacia de Polícia para afirmar a circulação de 8 mil "magrelas" na cidade. Os números oficiais de 1950, porém, apontam para uma quantidade maior: 9.795 bicicletas para 46.550 habitantes, fazendo da cidade uma referência na prática do ciclismo.

É desse período (década de 1950), que o título de joinvilense de "Cidade das Bicicletas" começou a tomar forma. Fato é que em outra reportagem, desta vez na Revista da Semana em 1956, garantiu-se que a "Manchester Catarinense" não tinha problemas em relação aos transportes, pois 25 mil ciclistas desfilavam "num espetáculo magnífico" pelas "amplas e bem calçadas" ruas da cidade.

Em 1958, outro leitor d'O Cruzeiro (Hamilton Rocha de Curitiba) indicou dados do IBGE contabilizando 22.181 bicicletas licenciadas no município. Conforme as indústrias e a urbanização se expandiam na região, os números dos "automóveis de pedal" evoluíam: no ano de 1972, havia 70 mil bicicletas para 126 mil habitantes; em 1987, 100 mil bicicletas para 350 mil joinvilenses.

Não por acaso, que as "cabrinhas" eram dominantes na paisagem local e provocavam congestionamentos nas saídas das fábricas e nas ruas. Sinais específicos de trânsito destinavam-se aos ciclistas e na hora do rush, os motoristas de automóveis davam passagem para as bicicletas. Era um tempo, em que a supremacia do ciclismo desafiava carros, motos, caminhões e até pedestres.

Supremacia hoje impensável na Joinville do século XXI, com seus quase 400 mil veículos para uma população em torno de 600 mil habitantes, onde os ciclistas disputam espaço com muita desvantagem - no caótico trânsito da maior cidade catarinense.



Dentro desse contexto, ao observar a foto acima, onde vários membros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Joinville (IEADJO) enfileiraram suas bicicletas em frente ao antigo templo sede na Avenida Getúlio Vargas, pode-se considerar então, que a denominação estava em franco progresso.

O ano do registro, possivelmente foi feito na década de 1940, quando a hegemonia das "magrelas" em Joinville era notável. Nessa época, para muitos romântica e cheia de saudosismo, as preocupações dos pastores nas construções não era com estacionamentos, mas com os bicicletários.

Aliás, nas memórias e fotos dos pioneiros das ADs no Brasil, destaca-se o uso da bicicleta para a evangelização e visitas às congregações. Os automóveis só começariam a ser utilizados, quando as igrejas tiveram condições de comprar seus veículos próprios.

O missionário norte-americano Virgil Smith (último à direita) foi feliz no emblemático registro. Conseguiu eternizar uma cultura e prática de uma Joinville que não existe mais.

Fontes:

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinquentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

https://ndonline.com.br/joinville/noticias/confira-como-joinville-ganhou-o-titulo-de-cidade-das-bicicletas

https://acervo.oglobo.globo.com/

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

As revistas Carioca, O Cruzeiro, Revista da Semana estão disponíveis no site da Biblioteca Nacional. Sistema de buscas do acervo é prático e de fácil acesso.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Frida Vingren - e o suposto affair

Um dos pontos mais discutidos da matéria da BBC Brasil sobre Frida foi o suposto affair da missionária com um obreiro brasileiro. Isael de Araújo, biógrafo da senhora Vingren, afirma no Mensageiro da Paz (edição de outubro de 2018), que o affair tratar-se "apenas de um boato" sem comprovação. O tal "boato" apareceu em cartas da época e não há confirmação alguma do fato em si.

Para reforçar seu argumento, Isael diz que na reportagem da BBC, a jornalista Kajsa Norrel "não consegue confirmar com segurança" a história, pois há "inconsistência" em seu conteúdo, ou seja, falta base documental para corroborar o rumor do romance.



Mas, na mesma matéria, Norrel afirmou crer na veracidade do affair, pois "entrevistou um dos filhos de Frida e algumas de suas netas enquanto escrevia o livro e que identificou o assunto em cartas enviadas à Suécia por pessoas que não eram hostis a ela'".

Gedeon Alencar em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, comenta que para os pastores mais antigos, o suposto caso extraconjugal da missionária seria o motivo para a campanha dos obreiros brasileiros e suecos contra ela. Alencar, porém, observa que na carta enviada a Pethrus em 1932, não há menção ao deslize e, portanto, tudo parece uma orquestração para derrubá-lá.

Por sua vez, Valéria Vilhena em sua dissertação de mestrado sobre Frida Strandberg detalha que o affair foi descoberto por Paulo Macalão. Vilhena (citando Kajsa) escreve que Macalão: "ao abrir a porta do quarto do rapaz que morava na casa da família Vingren, vê Frida em trajes íntimos junto ao rapaz".

O rapaz, de nome não mencionado, em toda a polêmica seria Carlos Brito, jovem advogado e membro da família pioneira das ADs no Rio de Janeiro, cunhado de Macalão e antigo redator do Mensageiro da Paz juntamente com Frida. Posteriormente, Carlos assumiu cargos de destaque na CPAD. Tanto Frida quanto Carlos tiveram ao mesmo tempo seus nomes retirados das edições do jornal em 1931.

Como se percebe, um nome de família conhecida e influente. Talvez seja o motivo principal do escândalo do affair não ser usado nas cartas enviadas a Pethrus. Preferiu-se então, manipular o caso somente com a intenção de prejudicar o casal Vingren e "proteger" o jovem.

É fato, que a controversa história era conhecida dos pioneiros e antigos membros da AD em São Cristóvão no Rio de Janeiro. Os funcionários da CPAD também sempre tiveram ciência do caso e, obviamente por questões institucionais, o assunto era somente comentado nos bastidores da Casa Publicadora.

Ainda mais que as cartas trocadas entre os pioneiros revelam toda uma articulação para afastar Gunnar e sua esposa da liderança da igreja. Os indícios do caso extraconjugal são grandes e da rede de fofocas também. Se todas as correspondências fossem divulgadas na íntegra, com certeza a áurea construída em torno dos missionários suecos seria fortemente abalada.

Mas ao analisar o contexto das informações Vilhena afirmou: "A questão principal, portanto, não é o adultério em si, mas como homens e mulheres são tratados de forma diferenciada na sociedade patriarcal brasileira em que as igrejas cristãs pentecostais estão inseridos". Essa é a lição principal do caso Frida Strandberg.

Para terminar, uma sugestão: deveria a CPAD permitir que os diários, cartas ou qualquer outro registro sobre o período fosse pesquisado sem restrições. Há informações que documentos da família de Frida estão em posse da Casa Publicadora. Por que não divulgar essas relíquias e dar acesso aos preciosos documentos?


Para saber mais: Valéria Vilhena lançará em breve sua tese de doutorado em livro pela Fonte Editorial. Na obra os detalhes desse polêmico caso estarão devidamente contextualizados. É a história de Frida em sua conjuntura social e histórica e de suas lutas na liderança (e como os líderes) das Assembleias de Deus no Brasil.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

VILHENA, Valéria Cristina. Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O caso Frida Vingren - CPAD desmente versão da BBC Brasil

A reportagem produzida pela BBC Brasil e replicada por vários sites de informação no país, inclusive o G1 do Grupo Globo, fez o livro Halleljua Brasilien!, da jornalista sueca Kajsa Norrel, publicado em 2011, sobre a vida e morte da missionária Frida Vingren ficar conhecido do grande público evangélico e secular.

As controversas informações da matéria, geraram uma nova onda de debates sobre o ministério feminino e o triste destino de Frida Vingren, esposa do mítico fundador das Assembleias de Deus no Brasil, Gunnar Vingren; esquecida e morta na Suécia em setembro de 1940.

Por se tratar de uma figura emblemática da história assembleiana e em parte pelo "vazamento" de notas polêmicas, o Mensageiro da Paz (edição de outubro de 2018) trouxe em suas páginas, um texto-resposta escrito pelo jornalista e historiador Isael de Araújo, autor de uma biografia sobre a pioneira publicada pela CPAD em 2014.

Chamada do MP: tentativa de controle da História

O posicionamento oficial da CPAD através do biógrafo de Frida é mais uma tentativa de controlar a narrativa histórica sobre a senhora Vingren, a qual nos últimos anos tem sido alvo de várias pesquisas acadêmicas, que fogem dos conhecidos padrões narrativos da história eclesiástica e institucional.  A iniciativa da CPAD, portanto, tenta blindar a imagem da pioneira diante do grande número de fiéis assembleianos.

Os pontos da matéria da BBC Brasil mais questionados por Araújo foram: o desejo de Frida exercer o ministério pastoral, gerando, assim, perseguição dos líderes brasileiros e o suposto affair da missionária com um obreiro nativo. Tópicos, que no entendimento do jornalista, carecem de confirmações documentais e necessitam ser analisados cientificamente levando em conta o contexto da época.

Araújo afirma que, apesar de Frida ser lembrada como grande ensinadora, evangelista, compositora, musicista, poetisa, redatora esposa e mãe, ela nunca empunhou a "bandeira de militância ao engajamento feminino ao pastorado" ou encorajou as mulheres a desejarem o cargo de pastora. Porém reconhece que ela estimulava as irmãs a participarem mais na obra pentecostal.

Se Frida não desejava ou exercia a liderança de uma das principais igrejas do país no Rio de Janeiro, antiga Capital da República, como entender o trecho da carta de 1931 dos pastores brasileiros a Lewi Pethrus, no qual reclamam dos artigos escritos por Frida no Mensageiro da Paz sobre a conduta ministerial? Na missiva os obreiros avisam: "A velha questão acerca da mulher como dirigente ascende-se de novo, é certo é, se continuar como está, haverá um levante, talvez de um caráter mais melindroso do que o primeiro".

Se não houvesse problemas nesse assunto, a própria resolução da CGADB de 1930 não teria sentido algum quando diz: "...não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8. Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar".

Gedeon Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, transcreve o comunicado de exclusão de um membro da igreja assinado por Frida e mais dois obreiros no jornal Boa Semente em 1930. Não seria a evidência do exercício da sueca no cargo de dirigente (na ausência ou presença do esposo) da congregação carioca?

Talvez, o que poderia ser melhor analisado na questão da esposa de Frida são as circunstâncias históricas da época ou, como enfatiza Araújo, analisar o contexto histórico. Um dos maiores erros dos historiadores é o anacronismo, ou seja, atribuir valores do presente aos fatos do passado. Sendo assim, as posturas dos opositores em relação à missionária não seriam tão destoantes dos princípios da sociedade das primeiras décadas do século XX, marcada pelo forte patriarcalismo de suas relações sociais.

Ao refletir sobre isso e tentar recolocar devidamente os personagens e seus dramas na estrutura social e histórica da época, evita-se, assim, uma narrativa maniqueísta do tipo "o bem contra o mal". Mas as fontes mostram isso; o casal Vingren lutou sim pelo reconhecimento do ministério pastoral das mulheres no Brasil.

Contudo, o pentecostalismo moderno, originalmente aberto para a ascensão de negros e mulheres no ministério, não encontrou em sua implantação no Brasil e posteriormente nos EUA, respaldo na sociedade vigente. Foi engessado pelas mentalidades e cultura do seu tempo.

Entretanto, o ponto mais delicado da matéria da BBC Brasil é o suposto affair de Frida com um obreiro brasileiro; um segredo guardado anteriormente a sete chaves e só agora conhecido do grande público para desconforto dos guardiões da narrativa histórica da CPAD. Seria só um boato "infundado" como diz Araújo?

É o tema da próxima postagem!

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

Gunnar, Frida e Nyström - tempos conturbados

O missionário Gunnar Vingren, juntamente com seu companheiro Daniel Berg chegaram ao Brasil, especificamente em Belém do Pará, no dia 19 de novembro de 1910. Sete meses depois, no dia 18 de junho de 1911, os suecos iniciaram o trabalho da Missão da Fé Apostólica, depois modificado para Assembleia de Deus (AD).

A história é conhecida: a igreja formada apenas por alguns membros excluídos da Igreja Batista em Belém, sob a liderança de Vingren e Berg cresce e se expande por todo o país. Paralelamente, o apoio da Igreja Filadélfia, em Estocolmo foi fundamental. Lewi Pethrus, amigo de infância de Daniel Berg e grande líder do movimento pentecostal na Suécia, enviou missionários ao Brasil para consolidar a grande obra de evangelização. Entre eles, o casal Samuel e Lina Nyström.

Família Vingren: o amargo regresso em 1932

Os Nyström chegaram ao Brasil em agosto de 1916. Samuel era um obreiro de extrema competência e foi pioneiro na abertura de vários trabalhos na região norte. No ano seguinte, chegou ao país a missionária Frida Strandberg, para se casar com Gunnar Vingren. O casamento foi realizado em Belém pelo próprio Nyström, no dia 16 de outubro de 1917.

Com as contantes enfermidades de Gunnar, Frida desponta na liderança do trabalho na região. Em 1919, foi criado o jornal Boa Semente, e a senhora Vingren assumiu o jornal como sua principal redatora. Nesse tempo, as tensões entre Frida e Samuel se agravam ao ponto de Nyström, sempre que possível, criticar a missionária em cartas a Pethrus.

Em 1924, a transferência do casal Vingren para o Rio, pode ter sido providencial para acalmar os ânimos. Ao chegar na cidade, em 1924, implantaram a AD na Capital da República. Em pouco tempo, não só o antigo Distrito Federal, mas todo o estado fluminense receberam congregações pentecostais.

Em meio as controvérsias algo transparece nas pesquisas acadêmicas: o modelo de igreja que os Vingren estavam estabelecendo no Rio. Na Cidade Maravilhosa, o ministério feminino era incentivado e Frida Vingren liderava a igreja nas constantes ausências do marido; ou como insinua Gedeon Alencar: na presença dele também.

No Rio, os Vingren fundam em 1929, outro jornal intitulado Som Alegre e editam em junho de 1931, o Saltério Pentecostal, oficialmente "para suprir a escassez de Harpa Cristã". Mais do que simples alternativas para carências editoriais, o novo periódico e hinário apontavam para a ruptura entre o modelo de igreja dos Vingren com as congregações estabelecidas no norte/nordeste.

Não por acaso, a convocação dos pastores brasileiros para a primeira Convenção Geral em 1930, fale de "crise". E, posteriormente, na carta dos líderes nativos a Pethrus em abril de 1931, as reclamações sobre Frida como editora do recém criado Mensageiro da Paz sejam fortes.

Em meio a tudo isso, para agravar as coisas, as acusações morais contra Frida desestabilizam totalmente o casal. Os Vingren se vêem forçados a voltar em 1932. Gunnar, antes de partir, convida o missionário John Sohreim para assumir seu lugar na AD em São Cristóvão, mas ordens vindas da Suécia conferem a Samuel Nyström, que apoiado pelos pastores brasileiros, o direito de ser o pastor da igreja carioca.

Em agosto de 1932, a família Vingren volta à Suécia. Menos de um ano depois, em junho de 1933 Gunnar morre precocemente em sua terra natal. Frida falece em 1940, depois de amargar o ostracismo e internações.

Atualmente, os modelos de igreja e ministério dentro das ADs ainda se chocam e produzem seus expurgos, cisões e novas convenções. Nada novo debaixo do céu...

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980) - Assis, 2015.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

CGADB 1964 - entre o glamour e tensões

Entre os dias 16 a 21 de novembro de 1964, a Assembleia de Deus na cidade de Curitiba recebeu a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). O país vivia os primeiros meses do Regime Militar (1964-1985) e o pastor José Pimentel de Carvalho (1916-2011) estava somente há dois anos na liderança da igreja curitibana.

Silas Daniel, no livro da História da CGADB, destacou que a organização do evento naquele ano havia superado todas as demais até então realizadas. Isso só foi possível com a mobilização de toda a igreja e a formação de comissões e departamentos para receber os obreiros vindos de todo o país.

Além das comissões de relações públicas, hospedagem e tesouraria, a AD curitibana ofereceu aos convencionais lavanderia, departamento de correios e passagens, barbearia, engraxates e local para atendimento médico. O departamento de Assistência Social prestava informações através de alto-falantes instalados para essa finalidade.

Panorama de um dos cultos da CGADB de 1964 em Curitiba

O cuidado das flores e sua renovação ficou a cargo de algumas irmãs destacadas para tal serviço. Cartazes com citações bíblicas ficaram sob a responsabilidade dos jovens. Outro detalhe revelador do cuidado da igreja hospedeira com os visitantes: o tradicional cafezinho e chimarrão foram servidos a todo momento para animar as conversas dos nobres ministros evangélicos.

Para atender e acomodar os mais de 400 pastores e evangelistas, a igreja construiu um novo refeitório e ampliou a cozinha do templo central. A capacidade de acomodação do templo também foi ampliada com a construção de uma galeria e a antiga residência do pastor foi liberada para dormitório com a edificação de uma nova casa pastoral.

Deve ter sido um alívio para muitos convencionais as obras feitas em Curitiba. Afinal, as convenções precedentes eram caracterizadas pela extrema simplicidade de suas acomodações. Na primeira CGADB ocorrida em Natal, no Rio Grande do Norte, os pastores ficaram acomodados em "situações precárias, devido às dificuldades vivenciadas pela capital potiguar naquela época" - informa Silas Daniel em seu livro.

Na biografia do pastor Carlos Padilha consta que praticamente nas Convenções Gerais anteriores "ninguém ficava hospedado em hotel", mas em casas de conhecidos ou dormiam nos bancos da própria igreja hospedeira, "inclusive alguns membros da mesa diretora". Maior conforto era destinado ao presidente da CGADB, o qual era acomodado na casa do pastor-presidente da igreja local.

A organização e as homenagens com direito a desfile das bandeiras estaduais, declamações, coral e hino de saudação aos obreiros de todo o Brasil, emocionaram os pastores. A CGADB em Curitiba foi considerada um marco e exemplo para as convenções futuras.

Mas, em contraste com toda a beleza do evento, os bastidores foram problemáticos. As tensões ministeriais no Ceará, Brasília e Campina Grande, na Paraíba, estavam no auge. Do começo ao fim das reuniões plenárias, as discussões foram acaloradas e até o pastor Paulo Macalão teve seus momentos de impaciência.

Com o tempo, as Convenções Gerais ficaram cada vez mais grandiosas e caras; e os arranjos políticos e eclesiásticos, complexos e tensos. De um lado, o glamour das celebrações e homenagens; do outro, os inconfessáveis interesses de bastidores.

Na cobertura midiática dos eventos, os jornalistas da CPAD desdobravam-se para narrar de forma conciliadora o inconciliável. Basta ver as matérias do Mensageiro da Paz...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

Revista A Seara - março/abril de 1965, nº 43 - Rio de Janeiro: CPAD.

sábado, 3 de novembro de 2018

O general Macalão, positivismo e o Ministério de Madureira

No livro Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Zélia Brito conta da chamada ministerial do pastor Paulo e da constante resistência do pai do líder de Madureira, o General João Maria Macalão em aceitar a mudança de planos do filho. O caçula da família gaúcha, deveria, conforme a vontade do seu genitor, seguir a carreira militar.

Segundo Zélia, enquanto o jovem Paulo ainda estava no processo de conhecimento do evangelho, o General João Maria o confrontava com os livros de Darwin. Esse tipo de enfrentamento era típica para um militar de origem positivista, formado na Escola Militar do Rio Grande do Sul nos últimos anos do Império Brasileiro e no período da implantação da República.

O positivismo, corrente filosófica francesa que teve início no começo do século XIX, defendia o conhecimento científico como única forma de saber verdadeiro. Todas as outras formas do conhecimento humano não comprovadas cientificamente eram consideradas crendices e vãs superstições.

No Rio Grande do Sul, o positivismo tinha um grande farol: Júlio de Castilhos (1860-1903), político e antigo governador do Estado. Castilhos tinha como meio de divulgação dos ideais positivistas A Federação, o "alcorão partidário" dos republicanos gaúchos, do qual João Maria era assinante. E é através do jornal, que as afinidades do pai do pastor Paulo com os políticos e militares positivistas podem ser percebidas.

Fragmento A Federação de 1893

Macalão lutou na Revolução Federalista ao lado do então governador Júlio de Castilhos. O conflito, uma verdadeira guerra civil, foi marcado por disputas sangrentas e degolas. Na época, A Federação noticiou detalhes da primeira vitória dos legalistas em maio de 1893, junto ao arroio Inhanduí, em Alegrete, município sul-rio-grandense. O desempenho do tenente João Maria (e de outros oficiais) é descrito em linguagem heroica. Segundo o "alcorão partidário", o tenente Macalão dirigiu a artilharia contra os inimigos com "indômita coragem e sangue frio".

Anos depois, em 1907, João Maria participou de um almoço com importantes líderes políticos e militares gaúchos em consideração ao general Salvador Pinheiro Machado. Entre discursos e felicitações feitas em homenagem a célebres políticos, "o devotado republicano, ilustre capitão João Maria Macalão" teve a honra de brindar ao "imortal Floriano Peixoto", mais conhecido na história como "Marechal de Ferro".

Pôde-se averiguar em tudo isso, que o futuro general galgava postos e respeito num ambiente de grandes líderes positivistas. Posteriormente, participou da Revolução de 1930, no mesmo ano em que seu filho caçula era separado ao pastorado por Lewi Pethrus, no Rio de Janeiro. Possivelmente, na casa do jovem Paulo, muitas discussões giravam sobre o futuro da República brasileira.

Uma das principais características do positivismo na esfera política, era a defesa de um governo forte e centralizador, capaz de modernizar a sociedade e educar os cidadãos. Isso poderia se dar com ou sem democracia. A Era Vargas (1930-1945) reproduziu a filosofia defendida por Castilhos, ao enfraquecer o legislativo, as oligarquias estaduais e monopolizar no executivo as principais ações para o desenvolvimento da nação.

É dentro desse contexto, de transformações políticas e sociais e de muita proximidade com o poder que o jovem obreiro Paulo Leivas inicia seu ministério. Ao longo dos anos, o Ministério de Madureira vai absorver as mesmas características políticas do seu tempo: a centralização.

É nesse contexto, como bem observou o sociólogo Gedeon Alencar, que as ADs vão construir seu modelo ministerial. Macalão segue essa linha intensamente e vai ser criticado por isso, e chamado ironicamente de "papa". E o gigantismo de seu Ministério e expansão vai ser a razão de intensos debates na Convenção Geral.

Fragmento do A Noite de 07 de agosto de 1933

Mas, voltando ao general João Maria, tudo indica que ao final da vida o militar se rendeu ao evangelho. Quando o inaugurou no dia 1º de janeiro o templo da AD em Bangu, o general parabenizou-o, levando o pastor Paulo as lágrimas. Meses depois, no dia 06 de agosto de 1933, aos 66 anos de idade, o general João Maria Macalão faleceu. Suas últimas palavras teriam sido; "Deus escreve direito por linhas tortas".

Dos três filhos, Fernando, o mais velho, tornou-se diretor de uma grande empresa do Rio de Janeiro; Maria teve um casamento respeitável; e Paulo, que deveria ser militar, aventurou-se em ser soldado de Cristo. Linda história!

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

SILVA, André Luiz. História da Assembleia de Deus em Bangu – 2006 – Edição do Autor.

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

NETO, Lira. Getúlio : dos anos de formação à conquista do poder (1882-1930), São Paulo : Companhia das Letras, 2012.

A Federação - Órgão do Partido Republicano disponível em http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

O site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro o acesso é gratuito e o sistema de buscas é prático.

domingo, 14 de outubro de 2018

João Maria Macalão - o general revolucionário

Um traço da vida e obra do fundador do Ministério de Madureira, Paulo Leivas Macalão (1903-1982) é sua origem social abastada, numa época em que o pentecostalismo estava identificado com as classes sociais mais humildes e desprezadas pelo poder público.

Macalão nasceu em Santana do Livramento, município do Rio Grande do Sul fronteiriço com o Uruguai, quando seu pai João Maria Macalão, na época capitão do Exército Brasileiro, servia no 7º Regimento de Cavalaria (RC) da região. A mãe, Georgina Leivas Macalão, era uma jovem conhecida dos círculos sociais mais abastados de Pelotas, "onde a todos encantava com a virtuosidade do piano".

João e Georgina casaram-se em Pelotas e tiveram três filhos: Fernando, Maria Isidora e Paulo. Os nomes dos rebentos foram escolhidos para homenagear santos católicos. No caso de Paulo, a história mostrou que o nome foi apropriado e profético, pois assim como Paulo, o Apóstolo dos gentios, o caçula da família se destacou na evangelização de muitos povos.

Infelizmente, o menino Paulo cedo perdeu a mãe. Georgina, doente e depressiva, faleceu quando seu caçula tinha apenas 5 anos de idade. O pai então, na impossibilidade de cuidar dos filhos ainda pequenos, resolveu enviá-los ao Rio de Janeiro para ficarem aos cuidados de um tio materno. A transferência das crianças gaúchas deve ter se dado por volta de 1908.

Longe dos filhos no Rio Grande do Sul, João Maria foi promovido de capitão a major "por merecimento" em março de 1911. Zélia Brito, no livro Traços da vida de Paulo Leivas Macalão comenta que seu esposo relembrava das constantes lutas e perseguições do pai a contrabandistas na região de Santana do Livramento.

O Paiz, de 21 de março de 1913

De fato, os jornais da época relatam que em abril de 1912, o major Macalão liderando "uma força de 50 praças" se juntou a outros soldados para perseguir cerca de 200 contrabandistas perigosos e bem armados. Pelo bom trabalho do major, o Ministro da Fazenda sugeriu ao Ministro da Guerra elogios ao oficial (e sua tropa) por se portar "briosamente" em combate.

Em 1913, João foi transferido do 7º RC de Livramento para o 1º RC em Itaqui. A transferência de Macalão causou "ótima impressão", pois segundo o jornal O Paiz, João Maria era um "oficial inteligente e de notável preparo profissional". Por suas qualidades e competência, em 1914, foi condecorado por seus trabalhos e, em 1916, foi promovido a tenente-coronel.

Zélia informa, ainda, que João Maria anos depois voltou ao Rio para "comandar o Batalhão de Guardas" no bairro de São Cristóvão. A residência escolhida pelo militar junto à Intendência da Guerra em São Cristóvão era muito próxima da casa da família Brito, local de cultos e orações frequentados por Paulo Leivas em seu processo de conversão.

Diário Carioca, 12 de novembro de 1930

Morando na antiga Capital da República, João Maria foi participante da Revolução de 1930, e da ascensão do conterrâneo Getúlio Vargas ao poder. Tanto que a imprensa da época registrou a participação (e o preparo) do "General" Macalão no "Churrasco da Vitória", onde um "grupo seleto de gaúchos antigos devotados à causa revolucionária" promoveu um encontro festivo na casa de um famoso jornalista. Os militares "devotados à causa revolucionária" também poderiam ser chamados de conspiradores, mas como o movimento de 30 terminou vitorioso, a narrativa histórica lhes foi favorável.

Tempos depois, em fevereiro de 1932, o revolucionário João Maria foi reformado (aposentado). Segundo o regulamento do Exército, ao passar para a reserva, o oficial recebe automaticamente uma promoção. Assim de coronel, Macalão foi promovido a General de Brigada.

JB, 20 de fevereiro de 1932
É possível que o coronel revolucionário, por seu trânsito entre os mais graduados militares, já fosse chamado de general não oficialmente. Afinal, seria o generalato a próxima e previsível promoção do militar gaúcho. Na notícia do "Churrasco da Vitória" ele também é intitulado de general.

Enquanto João Maria vivia momentos históricos no Batalhão da Guarda, suas atenções também se voltavam para o filho caçula. Paulo, que deveria seguir carreira militar, cada vez mais estava voltado para outras causas. Da estranha seita evangélica próxima à sua casa em São Cristóvão, o jovem agora se embrenhava pelos subúrbios do Rio. Mal sabia ele, que o caçula da família faria história.

Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

MACALÃO, Zélia Brito. Traços da vida de Paulo Leivas Macalão, Rio de Janeiro: CPAD, 1986.

Os demais fragmentos dos jornais Diário Carioca, O Paiz, Jornal do Brasil e outros, foram acessados no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O acesso é gratuito e o sistema de buscas é prático. 

http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Versões da história das ADs - contradições

O objetivo dessa postagem é comparar algumas narrativas assembleianas com documentos, pesquisas e informações disponíveis, os quais, servem de contraponto à dita "História Oficial" das Assembleias de Deus. Existe, na história e em sua narrativa, na grande maioria das vezes, uma enorme distância entre o fato e a versão dele. As versões da história eclesiástica, em geral, têm o objetivo de edificar os crentes e apontar exemplos a serem seguidos.

Como escreveu o pastor e poeta Joanyr de Oliveira, a "historiografia oficial, seja religiosa, seja política, é sempre míope em avançado grau - quando não ostensivamente estrábica, em boa parte não é senão uma grande farsa. Quantos pseudos santos e heróis nos forja, sem o mínimo pudor... Sim, a história dos vencedores - a que prevalece - é sempre tendenciosa, desonesta". Então vamos a algumas versões e contradições da história.


CGADB de 1930: clima de tensão nas ADs

"Não havia nenhuma intenção dos obreiros nacionais em dividir o Movimento Pentecostal. Eles desejavam mais autonomia, e instaram para que não fossem mal compreendidos e para que a obra no Brasil continuasse unida." (Silas Daniel no livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 2004)

Não é o que dá a entender a carta enviada pelos pastores brasileiros ao sueco Lewi Pethrus datada de 21 de abril de 1931. Na carta, eles reclamam da postura de Frida Vingren como redatora do Mensageiro da Paz e em determinado ponto do texto, os pioneiros avisam: "é certo é, se continuar como está, haverá um levante, talvez de um caráter mais melindroso do que o primeiro." O que se pode deduzir da missiva é que se os obreiros nativos não demonstraram a intenção de dividir a denominação, algo próximo disso estava para acontecer.



Frida: ia "além do prudente e útil"

"A sua impetuosidade, algumas vezes, levou-a além do que era prudente e útil, naqueles momentos; porém, depois, reconhecendo isto, lamentava que tal sucedesse." (Samuel Nyström no Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de 1941)

O texto em que Nyström relata a morte de Frida Vingren é emblemático. Hoje, sabemos pelas pesquisas históricas que ele foi forte opositor do ministério feminino. Articulou-se com os pastores brasileiros para impedir o projeto de igreja do casal Vingren no Rio de Janeiro. Ao escrever sobre a sua conterrânea, Samuel reconhece seus talentos, capacidade, cultura, zelo e dedicação da missionária. Porém, Frida, em sua "impetuosidade", ia além do que "era prudente e útil", ou seja, não se enquadrava no ideal de mulher crente por eles defendido. Seria mais "prudente e útil" ela ter sido uma "Amélia" assembleiana: boa, recatada e do lar.



AD em SP antes das "circustâncias" impostas

"A partir de 1938 as circunstâncias impuseram a existência de Assembleias de Deus independentes, com orientação e responsabilidades próprias." (Emílio Conde no livro História das Assembleias de Deus no Brasil, CPAD, 1961)

Foi o "apóstolo da imprensa pentecostal brasileira", Emílio Conde, o autor desse eufemismo usado para justificar a existência de dois Ministérios da AD na Pauliceia. A tal "circunstância" foi que Paulo Macalão resolveu abrir uma congregação ligada ao Ministério de Madureira. Conta-se que Macalão teve uma "visão" onde contemplou um salão com uma placa de aluguel. Convocou então seu cunhado Sylvio Brito para ser o dirigente da nova filial. Porém, Brito era o pastor da AD fundada pela Missão Sueca em 1927. Pode-se imaginar o desconforto entre as lideranças pela iniciativa. Era Madureira fincando seus tentáculos na grande metrópole paulista...

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Ministério de Madureira - O Império contra-ataca

*Por André Silva

No dia 2 de junho de 1993, numa sexta-feira, a Assembleia de Deus em Bangu (RJ), transformou o culto em Assembleia Geral Extraordinária (AGE). Membros e ministros do campo foram surpreendidos, quando o pastor Ades Antonio dos Santos, presidente da igreja, anunciou que a partir daquela data a igreja estaria se desligando da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil - Ministério de Madureira (CONAMAD) e se vinculando a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). 

Na mesma noite, o pastor Ades informou sobre “uma suposta perseguição” do pastor Manoel Ferreira, que tentava persuadi-lo a jubilar-se fora da data estabelecida pela igreja e, juntamente com a liderança de Madureira, tentava intimidá-lo para deixar a presidência de Bangu. 

O pastor Ades dos Santos chegou a procurar a 34ª Delegacia Policial, em Bangu, para prestar queixa contra o “Pr. Dr. Manoel Ferreira” (hoje Bispo Primaz) sobre o crime de perseguição, atentado contra sua vida e família. Declarou ainda em depoimento ter sofrido ameaças, agressões e até tentativa de sequestro. O assunto foi palco de reportagem do jornal carioca O Dia, diário de grande circulação da cidade do Rio de Janeiro.

Pressionado, Ades solicitou o apoio do pastor presbiteriano Caio Fábio D’Araújo Filho, fundador e presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB). A AEVB era, na época, rival do Conselho Nacional de Pastores do Brasil (CNPB), fundado por Ferreira em 1993. Caio Fábio declarou-se jubiloso com a atitude do ministério em Bangu e prestou toda solidariedade ao pastor Ades, a fim de que os ministros filiassem a AEVB. Em um vídeo na Internet, Caio Fábio confirma os acontecimentos com o pastor Ades Antonio dos Santos e o pastor Manoel Ferreira.

AD em Bangu e pastor Ades

Persuadidos de que nada os impediria mudar o regime jurídico da igreja, o “golpe” foi oficializado em 6 de junho, com a leitura do estatuto separatista na igreja e o anúncio da criação da Convenção de Igrejas Assembleias de Deus na Zona Oeste (CIADEZO). Tal fato causou surpresa, tristeza e choro em Bangu.

Nessa reunião, Caio Fábio, presidente da AEVB, enviou seu representante, o pastor da Igreja Congregacional do Brasil, Marcos Batista. A finalidade específica do encontro, foi para que todos os ministros do campo da Assembleia de Deus em Bangu participassem das decisões recentemente tomadas. Nessa noite, foi anunciada a vinculação a CGADB. 

Dezenas de obreiros do campo estavam reunidos para a decisão tomada. Ali também estava, o pastor Gilberto Malafaia como representante da CGADB, expressando ao Ministério as vantagens da filiação a CGADB.

No dia 21 de junho, na CPAD, membros da CGADB hipotecaram solidariedade ao pastor Ades. Na ocasião, o pastor Sebastião Rodrigues de Souza, na época, presidente da Convenção e seu primeiro vice-presidente, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, reconheceram oficialmente a recém-criada CIADEZO. Foi comunicado também ao pastor Ades dos Santos que ele e seus ministros já poderiam participar com voz e votos na Assembleia Geral Ordinária da CGADB a realizar-se na 2ª quinzena de janeiro de 1995.

Em 22 de junho de 1994, uma nova AGE foi realizada para efetuar mudanças no nome da Convenção criada para associar igrejas, mas apenas ministros. O nome anterior, CIADEZO, poderia gerar dúvidas sobre jurisdição. A CEADER e a CONFRADERJ não viam com bons olhos o nascimento de mais uma convenção carioca ligada a CGADB, sem contar outras de caráter regional originárias de outros estados, a exemplo da CADEESO e da CIEADESPEL.

O pastor Gilberto Malafaia, como porta voz da Convenção Geral, sugeriu que fosse mudado o nome de CIADEZO para Convenção de Ministros Evangélicos das Assembleias de Deus da Zona Oeste (COMADEZO). Para garantir a legalidade da instituição, o registro foi feito no dia 19 de julho de 1994, sob o CNPJ 00.148.848/0001-62, na Rua Ribeiro de Andrade, nº 65, no templo antigo em Bangu, considerada igreja mãe de outras que a seguiram, da mesma ordem da AD em Bangu.

Decidido e aconselhado por alguns obreiros da diretoria, o pastor Ades continuava convencido de que nada o impediria mudar o regime jurídico da igreja, filiando-se diretamente à CGADB. Durante o curso desse tempo, em várias reuniões, foi sugerido a procura de um jurista de renome para examinar se era possível definitivamente desligar-se da CONAMAD. Foram apresentados ao jurista todos os estatutos: o de Bangu e o da CONAMAD. Pedido 15 dias para o estudo da matéria e posterior resposta, veio a negativa – o advogado afirmara que não havia como se separar do Ministério de Madureira.

Nova tentativa sobre o assunto foi consultar o pastor e advogado Luis Francisco Fontes. O pastor Fontes tinha sido presidente da AD em Madureira, mas não permaneceu muito tempo no cargo, em virtude de uma manobra do pastor Manoel Ferreira que o tirou da presidência. O grupo saiu da audiência com o pastor Luis Fontes tarde da noite com a resposta: “Nada feito, se vocês quiserem separar-se poderão fazê-lo; basta que hajam como eu agi. Procurem um galpão e ocupem!” – aconselhou o pastor Luis Fontes.

Uma comissão de pastores de Madureira, juntamente com Manoel Ferreira, compareceram em uma das reuniões em Bangu esclarecendo que a criação da COMADEZO foi a ousadia de “mergulhar de cabeça em águas turvas na imprudência”. Ferreira não perdeu tempo: providenciou medidas com base no “Estatuto Padrão” elaborado pelo pastor Paulo Leivas Macalão. O documento era a garantia da impossibilidade de uma igreja filiada a Madureira separar-se totalmente do Ministério.

Vários obreiros e ministros da AD em Bangu, demostravam insatisfação ao regime de ingerência nos negócios da igreja e a ideia do vínculo patrimonial do campo de Bangu com a CONAMAD, e ficaram revoltados com a atitude do Ministério de Madureira de retirar da igreja o seu presidente.

A reunião tornou-se então tumultuada com troca de acusações e tentativas de agressões. Ferreira teve que pedir calma ao colegiado de ministros. Alguns em forma de gritos de ordem ou em cartazes, entoavam: “Fora Madureira”, protestando contra o autoritarismo do Ministério de Madureira em Bangu. Alguns obreiros, inclusive precisaram ser contidos por outros para evitar uma sequência de agressões. Os ânimos de alguns se alteraram, criando um tumulto e o pastor Manoel Ferreira foi agredido e jogado ao chão.

Na ocasião, pastores de Madureira estavam armados, sendo que a polêmica revoltou a todos e houve perplexidade entre os membros. A Polícia foi chamada para acalmar os ânimos. O problema, segundo os envolvidos, seria a permanência do pastor Ades à frente da igreja, o que seria contra a vontade da cúpula de Madureira. 

O pastor Manoel Ferreira, presidente do Ministério de Madureira, obrigou-se a ignorar quaisquer acordos que pudessem haver entre as partes, e o resultado foi parar na 2ª Vara Cível em Bangu, numa ação de manutenção e posse de ambas as partes. O pastor Ades entrou com uma ação preventiva para assegurar o direito de posse da Igreja em Bangu. Já Madureira buscou recuperar a posse legítima de seu imóvel como rege o “Estatuto Padrão”.

Nos dias 8 e 9 de julho, a recém criada COMADEZO, promoveu o I Congresso em clima de sessão convencional com as modificações decorrentes da saída da AD em Bangu da CONAMAD. Autonomias foram dadas a 23 igrejas e o posicionamento dos favoráveis foram defendidos em favor da CGADB. Com o objetivo de estimular o crescimento da Convenção, a mesa diretora criada examinou a relação de novos ministros evangélicos, apresentados pela igreja matriz e suas congregações, bem como os demais obreiros oriundos das novas igrejas emancipadas no dia 9 de julho, consagrando 55 evangelistas e 29 pastores.

Pressionado pela ação jurídica de manutenção e posse, o pastor Ades Antonio dos Santos não resistiu e acabou cedendo, entregando definitivamente a presidência da AD em Bangu ao pastor Manoel Ferreira, presidente da CONAMAD. Ferreira, no dia 2 de outubro, tomou posse como presidente do campo da Assembleia de Deus em Bangu, depois que o pastor Ades ter aceito se jubilar incondicionalmente.

E no dia 04 de outubro de 1994, o pastor Ades foi apresentar-se juntamente com a sua esposa ao plenário convencional e a Mesa Diretora, na AD em Madureira, com um pedido de reintegração, onde teve que se retratarem pessoalmente com o pastor Manoel Ferreira; só então foi reintegrado ao quadro de ministros da CONAMAD e teve sua jubilação garantida. 

Já no dia 7 de outubro de 1994, tomavam posse como interventores na presidência do campo da AD em Bangu, por determinação e procuração do presidente da CONAMAD, os pastores: David Cabral (presidente), Gedeir Ricardo da Silva (vice-presidente) e mais pastores como auxiliares: Antonio Paulo Antunes (Tuninho), Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes Abreu. E no dia 10 de outubro, o juiz da 2ª Vara Cível em Bangu homologou o acordo entre Madureira e Bangu, passando a direção da AD em Bangu e todo seu campo para a CONAMAD.

A Junta Interventora da CONAMAD, entendeu então, que o pastor Ades estava sendo objeto de manobras por partes de ministros interessados na divisão da igreja. Segundo a Junta Interventora, os mesmos participavam de reuniões na igreja em Madureira e levavam informações distorcidas para Bangu. Em reunião fechada, os membros da Junta Interventora fizeram audiências com alguns ministros de oposição, que tentaram justificar suas atitudes. Quatro pastores e dois evangelistas, classificados como mentores diretos da “COMADEZO”, tiveram suas atitudes consideradas desrespeitosas e ofensivas a CONAMAD.

No dia em 30 de novembro de 1994, a Junta Administrativa da CONAMAD, constituída pelos pastores Davi Cabral, Presidente; Gedeir Ricardo, Antonio Antunes de Paula, Daniel Fonseca Malafaia e Josias Nunes de Abreu, empossou o pastor Neuton Pereira Abreu, procedente da cidade de Gurupi (TO) e presidente da Convenção Regional de Tocantins como o novo presidente do Campo de Bangu. A Assembleia foi presidida pelo pastor Davi Cabral, presidente da Junta Administrativa e o ato de posse conduzido pelo pastor Gedeir Ricardo da Silva, também membro da Junta. Estiveram prestigiando a Assembleia, os pastores Eduardo Sampaio de Oliveira (DF), Napoleão Quintão (RJ), Graciliano Gomes (RJ), Hamilton Santos (RJ), Leocádio Brás (RJ), José Pedro Teixeira (RJ) e João Arnaldo (RJ). 

Dissolvida os atos COMADEZO, a liderança do Ministério de Madureira retirou as autonomias das igrejas emancipadas, que retornaram à condição de congregação. Obreiros foram destituídos dos seus cargos e as ordenações não foram reconhecidas pela CONAMAD. Além das divergências e cismas, um grande número de ministros e obreiros descontentes com a postura de Madureira, saíram da igreja sem intenção de voltar. 

Foi o caso do evangelista Rubens Jorge Seabra de Aquino, que dirigia um trabalho de consagração às quintas-feiras e vigílias bem fervorosas; seu ministério era marcado pela Palavra pregada com sinais notórios do poder de Deus e com um grupo dissidentes que se desvincularam da Igreja em Bangu, fundaram na localidade, a “Igreja Apostólica Assembleia de Deus Ministério Creia”, que começou a ganhar força e com o passar dos tempos tornou-se uma potência evangelística.

Alguns pastores entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio devido ao compromisso de fidelidade com a CONAMAD, a fim de não participarem de qualquer tipo de rebelião ou tumulto. Outros pastores acabaram brigando com a respeito das destituições de ordenações e autonomias de suas igrejas. Com sérias oposições, a igreja se dividiu em vários grupos, filiais e congregações da AD em Bangu se desligaram do campo e do Ministério de Madureira. 

A briga judicial pela reintegração de posse dos templos iria, se arrastar por anos. Com isto, a igreja em Bangu perdeu o seu direito de propriedade das igrejas em: Estrada da Posse (Santíssimo), Jardim Novo Realengo, Malvinas (Vila Kennedy), Padre Miguel, Chaperó (Itaguaí), Praia do Anil (Magé) e outras,s cuja filiação é desconhecida, mas acabaram se transformando em raízes de outros ministérios com seus membros, obreiros, ministros, e muitos deles se vincularam a CGADB. 

No final de 1994, a CONAMAD analisando os pedidos de emancipação, concedeu definitivamente autonomia administrativa as igrejas em Canrobert da Costa, Coqueiros, Olímpia Esteves, Rio da Prata, Terra Brasil, Vila Aliança, Vila Vintém e Santíssimo, passando à categoria de igrejas matrizes vinculadas ao Ministério de Madureira e filiada diretamente a AD em Bangu, cujo pastor dirigente estaria naquele ato intitulado “pastor presidente” e subordinado ao campo de Bangu.

Com o decorrer do tempo, alguns ministros da AD em Bangu, taxados de “inimigos de Madureira”, idealizadores da “COMADEZO”, os mesmos que promoveram rebelião, insultos, tumultos, questionando a liderança da CONAMAD, eram vistos em eventos na igreja em Madureira, ao lado do pastor Manoel Ferreira. Se eram para conseguir regalias no Ministério de Madureira, por certo receberam prestígios e cargos de pastor presidente; talvez como uma forma de “calarem a boca”. 

Porém, os pastores que entregaram pacificamente a igreja e todo o seu patrimônio, acabaram no anonimato, alguns idosos fragilizados com a saúde precária, abandonados em seus lares sem receberem visitas; e outros foram deixados à sua própria sorte, sem visita, sem assistência, sem direito a uma prebenda ministerial. A única coisa que lhes foi oferecida era a isenção da anuidade da CONAMAD, porque assim seria mais fácil jogar a questão debaixo do tapete. 

Alguns tiveram que lutar por uma ajuda financeira. Mesmo assim, sofreram por se sentirem esquecidos. Outros humildemente preferiram o silêncio e compartilhar algumas fotos da época que suas vidas eram marcadas e comprometidas com o Reino e a fidelidade nas AD do Ministério de Madureira.

*O pastor ANDRÉ SILVA ex-ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

Fontes:

Folha Cristã, nº 38 – junho/julho 1994

Folha Cristã, nº 40 –novembro/dezembro 1994

O Semeador, nº 290 – dezembro/1994 - página 4

Relatório da Junta Interventora da AD em Bangu, datado em 26/10/1994

Entrevistas com os pastores da AD Bangu, RJ que participaram das reuniões da COMADEZO

Ata da Assembleia de Deus em Bangu/ano 1993 e 1994.