domingo, 27 de dezembro de 2015

AD em Teresina - "Fim da História?"

Confirmado! A AD em Teresina iniciará 2016, ano da comemoração dos seus 80 anos, com sua unidade administrativa fragmentada. Conforme adiantado por este blog, a decisão foi aprovada em Assembleia Geral da igreja no dia 25 de novembro, e validada na Convenção de Ministros da AD no Estado do Piaui entre os dias 09 a 12 de dezembro. Segundo a página oficial da AD teresinense no Facebook, na Convenção entre "as várias propostas aprovadas destacamos a criação de 30 novos campos eclesiásticos no Município de Teresina.

Diante de tantos impasses ocorridos nos últimos anos, a decisão do ministério talvez tenha sido o melhor caminho para evitar futuros desgastes. Desde a jubilação do antigo patriarca pastor Paulo Belisário de Carvalho, a igreja da "Cidade Verde" passou por conturbados momentos. Dentro desse contexto de turbulências, pastor Mesquita negociou a autonomia dos setores.

Antiga fachada da AD em Teresina: autonomias confirmadas em 2016

Ao abrir mão da centralidade administrativa, pastor Nestor Mesquita levantou discussões sobre o atual modelo de gestão de grande parte dos ministérios assembleianos. Seria a autonomia das congregações ou setores boa ou ruim para as ADs?

Em sua biografia, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, líder do Ministério do Belenzinho (SP) e presidente da CGADB, explica que o modelo administração de "campos eclesiásticos", onde as congregações permanecem ligadas a uma sede é vantajoso por ser um padrão de "crescimento sustentável". Nesse conceito as congregações maiores ajudam as menores a se desenvolverem.

José Wellington critica "o sistema administrativo de conceder autonomia a uma pequena congregação de 40 ou 50 membros". Para ele, as ADs no Rio de Janeiro ao adotar esse princípio produziu "milhares de igrejas autônomas" com vários pastores-presidentes que permanecem "patinando para o resto da vida, porque o que seus membros contribuem mal dá para o pastor comer".

Contudo, tal sistema administrativo é questionado por muitos líderes e estudiosos das ADs. Um dos maiores críticos é o pastor pastor Geremias do Couto, que se declara "a favor da derrubada de impérios." Segundo o conhecido jornalista: "Bom seria que isso acontecesse em todo o Brasil. Mais igrejas autônomas, menos poder concentrado e mais proclamação do Evangelho."

A crítica é pertinente. Ministérios como Belenzinho, Madureira entre outros, tornaram-se realmente verdadeiros "impérios" com todas as características que o termo representa. Ao contrário do líder da CGADB, pastor Geremias considerou o caso do Rio de Janeiro benéfico para a denominação, pois no Rio "as emancipações dadas por Alcebíades Vasconcelos, em 1959, quando pastor em São Cristóvão, foram a chave para o crescimento das igrejas na capital fluminense."

Historicamente, a formação de grandes ministérios não era o desejo dos pioneiros. Para o historiador Moab César de Imperatriz (MA) "os missionários fundadores da AD no Brasil não desejavam criar grandes impérios religiosos sob o domínio de uma oligarquia". O estudioso afirma que os suecos "desejavam igrejas independentes e se esforçaram muito para concretizar seus ideais, tanto que foram 'expulsos' e esquecidos por muito tempo".

Mas, controvérsias à parte, os membros da AD em Teresina estão assistindo algumas mudanças a contragosto. Não é para menos. Chamados sempre a colaborar nos projetos da liderança (em mutirões e principalmente nas contribuições financeiras), assistem agora sem consulta prévia, ao que parece ser o "fim da história" da AD local.

* Com a colaboração de Geremias do Couto e Moab César Carvalho Costa

Fontes:


ARAÚJO, Isael de. José Wellington - Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Manoel de Mello - entre a AD e O Brasil para Cristo

"Um homem aparentemente comum, baixo, quase gordo e de voz potente" com a capacidade de reunir cerca de 30 mil pessoas na cidade de São Paulo, sendo "a maioria delas doente, à procura de lenitivo para seus males físicos". Assim a Folha da Manhã descreveu o missionário Manoel de Mello da Silva (1929 - 1990) fundador e líder da Igreja O Brasil para Cristo (BPC) em seus dias de glória nos 50.

Natural de Água Preta, cidade da Zona da Mata pernambucana, região conhecida pelas revoltas e guerras do período imperial e, como aponta o hino municipal, "Altiva por ter ilustres filhos", entre eles o mítico missionário pentecostal líder da BPC, considerado pelo estudioso Paul Freston "a sensação religiosa dos anos 50 e 60."

Criado na conservadora AD e membro de uma família de nove irmãos, Manoel se tornou menino-pregador em sua terra natal. Com sete anos de idade ao ouvir uma desconhecida profetizar que "ele edificaria o maior templo evangélico do mundo", convenceu-se de sua predestinação ao sucesso. A lembrança dessa mensagem talvez tenha sido o grande impulso para superar os obstáculos que ainda estariam por vir.

Manoel de Mello: sensação religiosa do anos 50 e 60

Em 1947, como milhares de nordestinos na esperança de uma vida melhor e próspera, mudou-se para São Paulo onde trabalhou na construção civil chegando a ser mestre-de-obras. No campo religioso atuou como diácono na AD paulista que na época era liderada por outro nordestino: Cícero Canuto de Lima. Cícero estava na cidade havia um ano e liderava com rigidez a igreja. O veterano obreiro era um dos representantes máximos do que o sociólogo Gedeon Alencar denominou de tradicionalização assembleiana. Ou seja, eram "contra 'fábricas de pastores' (seminários), o uso do Rádio e TV", e mais: "zelosos da doutrina; conservadores da tradição, preservadores do poder. De seu próprio poder."

Dessa forma, o personalismo do recém chegado pernambucano sob a tutela de Cícero não poderia ir longe. Sobre a saída do fundador da BPC da AD, Freston afirmou que Mello "sentia-se limitado pela metodologia assembleiana". A revista Veja em matéria dos anos 80, fala do desentendimento do missionário com a "hierarquia da denominação quando resolveu ampliar sua autonomia de voo".

Muitos anos depois, em entrevista à Folha de SP, Cícero afirmou ele mesmo ter expulsado Manoel de Mello da AD. Na visão do patriarca, Mello (e Davi Miranda) estavam apenas "comercializando e abusando da fé de milhares de crentes, sem a mínima consideração e sem o mínimo respeito para com Deus." A declaração do pastor do Belenzinho feita décadas depois da ruptura, dá ideia do incômodo sofrido pela concorrência das novas vertentes pentecostais surgidas no período.

Nesse contexto, o presidente do Ministério do Belém apenas procedeu como a grande maioria dos líderes das ADs da época. Qualquer sinal de independência por parte de algum subordinado era tratada como rebeldia e o "aventureiro" era sumariamente excluído. As argumentações de Cícero refletiam as convicções teológicas dos pioneiros. Não era a oração em si que curava, mas a fé em Deus, por esse motivo Manoel de Mello não teve a aceitação devida e foi expulso.

Com a saída da AD, Mello aderiu a Cruzada Nacional de Evangelização. Trabalhou com os norte-americanos fundadores da Cruzada, e com o seu testemunho de cura de uma grave enfermidade aliado ao seu talento para pregação, seu ministério literalmente explodiu. "Enquanto o país vencia 50 anos em cinco, um operário nordestino em São Paulo sintetizava o espírito nacionalista e populista, construindo um império religioso autônomo jamais visto até então no Brasil." analisa Paul Freston.

Em pouco tempo, com ousadia, polêmicas e sempre chamando a atenção de políticos, líderes religiosos e da imprensa, Manoel de Mello marcou o mundo evangélico e pentecostal da sua época. Diga-se de passagem em nada se diferenciando de outros destacados pastores, bispos e "apóstolos" da atualidade. Assunto para as próximas postagens.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011. Novos Diálogos: Rio de Janeiro, 2013.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ANTONIAZZI, Alberto. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

*Arquivos digitais da Folha de São Paulo

- Folha da Manhã: quarta-feira, 02 de abril de 1958 - assuntos gerais, p.9.
- Folha de São Paulo: segunda-feira, 18 de janeiro de 1982 - religião, p.15

Veja acervo digital: 07 de outubro de 1981, p.58.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A AD em Teresina - a fragmentação da história

É notório que os principais ministérios das ADs no Norte e Nordeste do Brasil possuem uma história de cisões e turbulências. No Ceará na década de 1960, Luiz Bezerra da Costa "arrancou" para a congregação de Bela Vista (e para si) a autonomia depois de um período de desavenças ferrenhas. 

Em Pernambuco, nos anos 80, a AD em Abreu e Lima conseguiu sua independência tornando-se ministério autônomo. Na Paraíba, a região de Campina Grande também se distingue da AD estadual, e na Bahia já se formaram duas convenções. Idêntico caso há no Amazonas e no Pará berço da denominação do país.

As rupturas ocorridas resultaram das tensões e lutas pelo poder eclesiástico, pois debaixo da "unção divina" os abnegados obreiros refletiram o estilo coronelista da sociedade patriarcal. Com o tempo e o crescimento das igrejas, as cisões institucionais passaram a alavancar projetos próprios ou familiares de poder.


AD em Teresina: uma igreja fragmentada

Com tantas divisões na região, a AD em Teresina não passou incólume. Após a jubilação do seu patriarca pastor Paulo Belisário de Carvalho em 1995, a igreja não teve paz nas sucessões seguintes. Nesses 20 anos, a igreja da capital piauiense passou por alguns solavancos institucionais, e agora ao que tudo indica, caminha para a total fragmentação.

Em 1997, o sucessor do pastor Paulo, o escritor Raimundo de Oliveira foi obrigado a deixar o cargo devido a graves desentendimentos com o ministério local. Assumiu então o pastor José da Silva Neto. Em 2011, cumprindo o estatuto interno uma inédita eleição à presidência da igreja se realizou. O então líder da AD José Neto concorreu ganhando por margem mínima de votos o pleito. Mas o resultado não foi digerido pelo seu oponente José de Ribamar e Silva Filho, o qual sendo supervisor de um distrito, resolveu romper com o ministério local.

Com a morte do pastor José Neto em 2013, novamente a questão sucessória foi colocada em cheque. Temendo uma nova cisão, o ministério da AD em Teresina e a convenção estadual em comum acordo - e desta vez sem eleição - indicou o pastor Nestor Mesquita à presidência, realizando o antigo sonho do veterano obreiro de liderar a igreja na capital.

Com a posse do pastor Mesquita, se garantia o mínimo de estabilidade ministerial. Porém, o destacado líder, no alto dos seus 80 anos de idade estava fadado a ser apenas um líder de transição, simplesmente protelando o problema maior para os anos seguintes. 

Pensando na sucessão (e na família), Nestor resolveu preparar a igreja e o ministério para a posse do filho. Entretanto, negociações foram necessárias, e para resguardar o herdeiro, o atual presidente abriu mão da unidade administrativa da igreja. A partir de 2016, o campo eclesiástico em Teresina será fragmentado e os setores receberão autonomia. Ao filho Irã caberá o setor centro, onde atualmente está a sede.

A divisão provavelmente agradará aos setoriais, mas segundo alguns, poderá resultar em extrema competição por membros e recursos na área eclesiástica de Teresina. A prevista abertura de congregações em campos e bairros alheios possivelmente aumentará as tensões entre os setores. 

E os membros? Pelas informações disponíveis, os fieis estão perplexos testemunhando a pulverização do patrimônio histórico e espiritual construído em décadas de evangelização. Há um clima de pessimismo no ar. Ironicamente, em 2012, foi lançado o livro do pastor Raimundo Leal Neto sobre a história da AD na cidade intitulado Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - Piauí. Talvez em suas próximas edições, o autor tenha que mudar o nome da obra para Uma Igreja Fragmentada...

Fonte:

LEAL NETO, Raimundo. Uma Igreja Edificada - História da Assembleia de Deus em Teresina - PI. Teresina: Halley, 2012.

domingo, 15 de novembro de 2015

Os mitos e suas idiossincrasias

Alguns pastores assembleianos entraram para a história da denominação pela capacidade de administração e expansionismo dos seus ministérios. Tornaram-se mitos e referenciais de gerações de crentes pelo Brasil.

Conforme o sociólogo Gedeon Alencar, esses pioneiros, os quais ainda na juventude foram separados ao pastorado se eternizaram nos cargos e na liderança das igrejas. Permaneceram "entronizados em suas 'cadeiras papais' nos púlpitos, inquestionáveis em suas idiossincrasias*, reverenciados por seus seguidores." E de tal forma mitificados que, suas biografias tornaram-se verdadeiros panegíricos.

Mas, como destacou Marina Correia, o que importa nas narrativas oficiais é a "santidade ministerial". Segundo a autora da obra Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder, "os pastores são escolhidos por Deus, suas palavras são ungidas pelo Espírito Santo, começaram na obra de Deus com muito sacrifício", e nessa espinhosa caminhada "Deus preparou uma igreja santa" seguindo sempre um caminho santo e sem divergências. E quando ocorre alguma divisão "foi e será sempre por vontade de Deus" completa a conhecida estudiosa das ADs.

Nesse afã perde-se o lado humano e peculiar desses homens tão marcantes. Fica então a incógnita: como falavam, agiam ou se portavam diante de situações cotidianas ou de extrema pressão? Quais as lembranças da família e dos membros mais próximos?

Contudo, algumas obras (graças a Deus) por vezes deixam escapar traços e situações que humanizam os mitos e apóstolos da história assembleiana. Caso contrário teríamos a falsa impressão que esses senhores seriam mais santos que os reis, profetas e apóstolos da Bíblia.

Vejamos então alguns casos:

O jornalista Jason Tércio descreve o físico e estilo de liderança de Paulo Macalão:

Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos. 
Considerações do escritor Jacó Rodrigues Santiago sobre o pastor mineiro José Alves Pimentel:

José Alves Pimentel, foi um grande líder das Assembleias de Deus no Brasil. Homem íntegro, de muito respeito, severo às vezes, mas era também um pastor que tinha grande amor pelas suas ovelhas. Não era chegado ao luxo e as ostentações. Mas a simplicidade era a sua principal característica. 
A mesma boca que às vezes gritava até mesmo do meio da rua: "está excluído!", também proferia: "coitadinho do irmão, vamos ajudá-lo". Sempre entusiasmado com a obra de Deus, quando algo lhe chamava a atenção, logo exclamava: "Êta ferramenta!"
Sobre José Teixeira Rêgo é Isael de Araújo que nos informa:
A descrição que José Wellington faz hoje do seu primeiro pastor é a de um homem muito enérgico, radical e franco. Um tanto ríspido. Não usava meias palavras quando queria dizer a verdade para toda a igreja ou apenas um crente. Mesmo que fosse do púlpito e em qualquer culto. Se ele achava por bem, dizia tudo.

Segundo o dicionário é a constituição individual, em virtude da qual cada indivíduo sofre diferentemente os efeitos da mesma causa. Detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado. Em suma: é o jeito de ser, os cacoetes e as "neuras" que carregamos.


Fonte:

ARAÚJO, Isael de. José Wellington: Biografia. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.


CORREA, Marina Aparecida Oliveira dos Santos. Assembleia de Deus: Ministérios, carisma e exercício de poder. São Paulo: Fonte Editorial, 2013.

SANTIAGO, Jacó Rodrigues. A Assembleia de Deus no Vale do Aço 1948-2008. Ipatinga: Gráfica Tibel, 2008.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.   

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

A construção do templo da AD em Tubarão - um marco de fé

"Assim edificamos o muro; porque o coração do povo se inclinava a trabalhar". Ne 4.6

Com esse versículo bíblico, o saudoso pastor Antonieto Grangeiro Sobrinho, um dos pioneiros do movimento pentecostal no Brasil, iniciou seu texto sobre a construção do templo da Assembleia de Deus em Tubarão (SC). Obra que exigiu um grande esforço de todos os fieis da igreja, no já distante ano de 1950.

A AD em Tubarão estava em atividade desde 1938, e se constituía em ponto estratégico de evangelização da região sul de Santa Catarina. Segundo o depoimento do pioneiro ao Mensageiro da Paz, a comunidade assembleiana sentia falta de um espaço adequado para a celebração dos seus cultos, mas "a princípio parecia impossível conseguirmos construí-lo, faltava-nos coragem para iniciar a obra". O motivo para tal descrença era a falta de recursos financeiros. 

Mesmo com pouco dinheiro em caixa, os alicerces do templo foram lançados, mas a expectativa de construção seria de no mínimo três anos. No dia 06 de março de 1950, aproveitando o horário de verão, corajosamente "os irmãos lançaram-se à obra, trabalhando das cinco da manhã as 8 da noite, incluindo o pastor da igreja". Naquele tempo, entre tantas atribuições, um pastor tinha que "pegar no pesado" também. A postura era outra, o sentido de missão e sacrifício pela causa era maior. 


Inauguração do templo da AD em Tubarão: desafio de fé

Também conhecida como "Cidade Azul", Tubarão contava naquela época com aproximadamente 55 mil habitantes. A igreja, além de pequena, era composta em sua maioria por pessoas simples e pobres. Como se percebe, a pregação ufanista da teologia da prosperidade ainda não era nem de longe conhecida ou pregada. Os crentes daquela época estavam longe das quimeras vendidas e propagadas por alguns "televangelistas" modernos.

Ao invés disso, o que se lê é o reconhecimento das agruras e da falta de recursos. Portanto, a participação efetiva dos membros e do próprio pastor da igreja na obra era mais que necessária. E o milagre surgia na medida em que o sonho dos fieis tomava forma. Um templo erguido naqueles dias, mesmo com todas as dificuldades era a realização e orgulho de toda igreja.

Por essa razão, transparecendo grande contentamento, Antonieto informou: 
O que aconteceu depois foi maravilhoso: O Senhor despertou o Seu povo, enquanto uns oravam pelo trabalho da construção os que podiam auxiliavam e os outros contribuíam liberalmente, porque todos trabalhavam para a causa de Cristo e para honra do nosso Deus.
Com o grande envolvimento de todos os membros, as expectativas sobre o tempo de trabalho foram superadas, e os três anos vencidos em pouco menos de 8 meses. No dia 28 de outubro do mesmo ano, a nova casa de oração estava pronta para ser inaugurada.

Alegremente, o pioneiro relata que naquele dia a pacata cidade "teve um movimento e vibração diferentes; vagões lotados de crentes chegavam à estação; caminhões e outros veículos vinham de várias direções trazendo o povo que vinha assistir à dedicação da casa". Pode-se imaginar a agitação e o entusiamo do povo pentecostal naquele grandioso dia. Afinal o sonhado templo era agora uma realidade.

Antes da inauguração, a multidão reunida na praça participou de um culto evangelístico. Depois seguiu em desfile "cantando, até o templo, onde o trânsito ficou interrompido, por causa da massa de povo." Contando com a presença de várias autoridades, pastor Grangeiro após breve saudação entregou a direção ao missionário JP Kolenda que cortou a fita simbólica "declarando aberto o templo", pregou e fez a dedicação do templo.

Na sequência, as autoridades observaram em suas prédicas, as ações da denominação na cidade e "a união e a alegria do povo de Deus", e todos apreciaram uma belo recital foi feito por duas meninas. A alegre festividade durou até o dia 29, quando novamente foi realizada uma nova reunião na praça e à noite outro culto no novo templo.

Para concluir, pastor Antonieto Grangeiro informa que "nos dois cultos que se realizaram, nove pessoas aceitaram a Jesus por seu Salvador". Foi a coroação dos esforços dos antigos crentes de Tubarão. Uma história memorável de pioneirismo com muitas e importantes lições para os nossos dias.

Fonte:

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1951, p.7.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Onde a luta se travar

Defendida em julho de 2015, a tese de doutorado Onde a luta se travar: a expansão das Assembleias de Deus no Brasil urbano (1946-1980), do historiador e professor Maxwell Pinheiro Fajardo é uma pesquisa intensa e criteriosa sobre a maior denominação pentecostal no Brasil. Igreja onde o autor é membro e obreiro na região de Perus em São Paulo.

Partindo de algumas reflexões do período do mestrado, que versava sobre as relações entre pentecostalismo e periferia urbana, Maxweel, sob a orientação do Prof. Dr. Milton Carlos Costa da Universidade Estadual Paulista (UNESP), iniciou o desafio de pesquisar (mesmo com bibliografia escassa) e entender as razões do crescimento das ADs.

Maxwell aponta que nos círculos acadêmicos, os pentecostais começaram a ser alvo de estudos a partir da década de 60, e as teorias apontavam para o fato das igrejas pentecostais crescerem "à medida que ofereciam respostas adequadas" as necessidades de ajustamento social do migrantes, os quais, vindos das áreas rurais se confrontavam com os valores e estilo de vida das cidades em expansão.

Maxwell: pesquisador e evangelista da AD em Perus (SP)*

Ainda segundo o historiador, os trabalhos defendidos e publicados nesse período "têm em comum o fato de relacionarem o crescimento do pentecostalismo no contexto industrial urbano" à necessidade de ajustamento social das populações que chegavam às metrópoles. Mas como as ADs cresceram muito mais que outras igrejas pentecostais no mesmo período, se todas estavam sujeitas as mesmas condições sociais?

Para essa problemática, o jovem professor partiu da "hipótese de que o crescimento assembleiano no mundo urbano deve ser entendido não apenas à luz das transformações sociais externas, mas também a partir da dinâmica interna de organização da Igreja." Para isso é necessário também compreender "a forma sui generis como as Assembleias de Deus conseguiram agregar suas diferentes cisões internas em torno de uma mesma plataforma denominacional sem que isto representasse a desestruturação ou o esfacelamento da Igreja, em um processo de esgarçamento institucional não observável em qualquer outra igreja pentecostal brasileira".

Findando a pesquisa veio a banca examinadora formada pelos professores doutores Milton Carlos Costa (orientador da pesquisa), Karina Bellotti (Universidade Federal do Paraná), Dario Paulo Barrera Rivera (Universidade Metodista), Edin Sued Abumanssur (PUC-SP) e Áureo Busetto (UNESP). A defesa teve mais de 5 horas de duração, tempo em que foram respondidas as arguições da seleta banca e feitos debates sobre vários aspectos do texto. O trabalho foi aprovado por unanimidade. 

O título do trabalho teve como inspiração o refrão de um dos hinos mais conhecidos da Harpa Cristã, hinário até hoje utilizado em ADs de todo o país e expressa o espirito expansionista e militante observado na história da denominação, bem como os conflitos vivenciados em seu interior. 

O texto foi dividido em cinco capítulos: no primeiro deles é feito um panorama da história das Assembleias de Deus no Brasil, com ênfase no seu processo de fragmentação em Ministérios, chamado na pesquisa de “esgarçamento institucional”. No segundo capítulo é apresentada uma proposta de periodização da história das ADs em quatro eras, simbolizadas em cinco de seus líderes: Era Vingren (1911-1932); Era Nyström (1932-1946); Era Canuto/Macalão (1946-1980) e Era Wellington (1980 a seguir). Neste capítulo também foi feita a análise histórica do aparato institucional da denominação (Convenção Geral, Jornal, Editora, Revistas de EBD e Hinário). 

O terceiro capítulo foi dedicado ao tema da expansão da Igreja no espaço urbano. A Região Metropolitana de São Paulo foi escolhida como estudo de caso. Assim, neste capítulo é feito um levantamento histórico dos ministérios mais antigos da cidade, bem como do mapeamento da presença de suas principais igrejas na cidade. 

No quarto capítulo é analisado o processo de criação da tradição litúrgica das Assembleias de Deus (seu “culto típico”), bem como de sua hierarquia ministerial (como surgiram e se estruturam os cargos de cooperador, diácono, presbítero, evangelista e pastor). O quinto capítulo é dedicado ao imaginário assembleiano construído durante o período de maior crescimento da igreja. Neste capítulo discutimos a história social dos usos e costumes assembleianos. 

A tese, embora não seja o primeiro trabalho acadêmico sobre a história das ADs, é a primeira pesquisa de doutorado específica sobre a denominação na área de História. Agora, depois tantos trabalhos, Maxwell poderá curtir um pouco mais a esposa Hetiene e o filho Théo. O rebento nasceu durante o processo de pesquisa e agora mais um enorme desafio o pesquisador possui: o de ser pai.

* Foto de Alex Fajardo irmão do Maxwell e seu grande incentivador

Tese disponível no link abaixo:

http://www.athena.biblioteca.unesp.br/exlibris/bd/cathedra/14-10-2015/000851874.pdf

domingo, 18 de outubro de 2015

Geremias do Couto - testemunha ocular da História

Parafraseando o slogan de um extinto noticiário televisivo, Geremias do Couto é "testemunha ocular da história". Seus artigos no conhecidíssimo blog Uma Voz Que Não Se Cala é de uma repercussão enorme nas redes sociais. Afinal, pastor Couto analisa e critica um mundo que conhece como poucos: o establishment assembleiano.

Nascido em berço evangélico, seu pai Joaquim do Couto foi pastor da Assembleia de Deus em Teresópolis por mais de 40 anos. Ainda moço ingressou no Instituto Bíblico de Pindamonhangaba e começou a atuar na igreja dirigida por seu genitor. Colaborou na Cruzada Bernhard Johnson e em 1977 começou a trabalhar na CPAD, de onde saiu para o campo missionário nos EUA.

De retorno ao Brasil em 1982, volta a trabalhar na CPAD, onde atuou como chefe do Departamento de Jornalismo e gerente de Publicações. Participou intensamente de projetos internos da publicadora e da cobertura jornalística de algumas Convenções Gerais. Essa condição de jornalista da CPAD, o fez observador privilegiado dos bastidores do poder, principalmente as Convenções mais disputadas entre os Ministérios da Missão e Madureira nos anos 80.

 Geremias com o missionário Nels Taranger: memórias a contar

Saiu da Casa Publicadora em 1996, mas continuou escrevendo lições para EBD, e participando de conferências e simpósios. Mas o imbróglio sobre a publicação da Bíblia Dake por parte editora assembleiana, e seu posicionamento contrário com postagens questionadoras sobre o papel das instituições conflitantes (CPAD e Conselho de Doutrina), o fizeram tomar a decisão de não participar da Décima Oitava Conferência da EBD em Americana - SP. Era a ruptura anunciada publicamente.

Posteriormente renunciou ao Conselho Político da CGADB. Em carta dirigida ao presidente da Convenção e divulgada em seu blog declarou: "percebo que o Conselho Político perdeu o foco", não via ele estímulo para a participação cidadã consciente e "de transformação social em todos os segmentos da sociedade." No documento, divulga que a resolução aprovada na Assembleia Geral Ordinária em Belo Horizonte (MG), recomendava que "ministros titulares" não deveriam "se candidatarem a cargos eletivos". Resoluções que foram solenemente ignoradas por alguns ministros, inclusive o pastor Paulo Freire da Costa, líder da AD em Campinas e filho do próprio presidente da CGADB.

Nesse mesmo período de questionamentos e renúncia, pastor Couto trabalhou intensamente entre 2007 a 2009, no Projeto Minha Esperança coordenando em São Paulo os trabalhos de grande alcance evangelístico. Organizou ainda em maio de 2010, o Festival Esperança em BH a presença e pregações de Franklin Graham.

Ainda em seu blog, Geremias lançou a proposta da Terceira Via à presidência da CGADB, já desgastada com a polarização entre José Wellington e Samuel Câmara. Repercutiu e respondeu a polêmica entre dois celebrados teólogos sobre a questão "Cristo é 100% Deus e 100% Homem".

Ultimamente causou surpresa para muitos ao se declarar calvinista convicto. Com fortes argumentos teológicos e históricos defendeu sua tese, e foi alvo de contestações. Recebeu até uma indireta: "melhor sair da Assembleia de Deus" relembrando os anos de 1930, quando um grupo deixou a denominação por questões doutrinárias envolvendo a doutrina da predestinação. 

Em 2014, candidatou-se a vaga da Câmara Federal pelo Partido da República (PR). Fez uma campanha simples e modesta, procurando sempre ser coerente com suas posições político-eclesiásticas. Num país onde os recursos financeiros são mais que decisivos na busca por votos, obteve 3.529 votos em 69 dos 93 municípios. Segundo ele próprio, saiu "das urnas de cabeça erguida".

Hoje, pastor Geremias atende a vários convites para ministrar pelo Brasil. Trabalha muito para lançar livros teológicos necessários à Igreja atual. Dono de uma memória privilegiada pensa em registrar suas recordações em livro. Revelaria "histórias" interessantes e omitidas das narrativas oficiais. Como "testemunha ocular da história" deverá dar a sua versão sobre muitos pontos polêmicos e até obscuros da historiografia assembleiana.

Os historiadores da AD e do pentecostalismo serão eternamente gratos...

Fontes:

geremiasdocouto.blogspot.com.br 

www.teologiapentecostal.com

sábado, 3 de outubro de 2015

A memorável apresentação do Coral e Orquestra Avivamento

A II Convenção Regional das Assembleias de Deus do Distrito Federal ocorrida entre os dias 17 a 21 de julho de 1966, foi sem dúvida memorável. Fruto de um acordo entre os líderes dos Ministérios representados na "Capital da Esperança", o conclave procurava de alguma forma unir os trabalhos das ADs no centro político do país.

Para presidir a Mesa Diretora foi eleito Paulo Leivas Macalão tendo o pastor Armando Chaves Cohen como vice. Segundo matéria do Mensageiro da Paz, assuntos "do maior interesse" das ADs em Brasília "estiveram em pauta". Entre eles a Conferência Mundial Pentecostal, a qual seria realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1967.

Para abrilhantar o evento, Paulo Macalão trouxe do Rio de Janeiro, o Coral e Orquestra Avivamento. Antes de se apresentar na igreja, o coral e a orquestra juntamente com alguns obreiros compareceu na extinta TV Nacional no domingo dia 17, onde "apresentou vários hinos de louvor a Deus" regido sempre com muita competência pelo maestro Zênio de Alencar, o qual foi um dos pioneiros em unir em apresentações corais e orquestras.

O Coral e Orquestra Avivamento, segundo o historiador da AD em Madureira André Silva foi formado em 18 de agosto de 1934, por iniciativa do próprio pastor Macalão. Detalha ainda o escritor que "naquela época, o pastor Paulo com seu violino e uma pequena orquestra formada por 2 violas (irmã Amélia Florêncio e Antonio Alves dos Santos) 1 trombone (irmão Balbino) e 1 bombardino (irmão Manoel Moraes), deu o nome do Grupo Musical Avivamento e depois de algum tempo para Conjunto Musical Avivamento. Provavelmente por isso, o notável apreço do líder de Madureira por esse grupo.

Maestro Zênio e Coral Avivamento: apresentação na TV

Três anos antes o Conjunto Musical lançou seu primeiro disco compacto intitulado "Vozes do Avivamento" através do selo Alvorada Espiritual. O jornal Correio da Manhã ao anunciar o lançamento do LP na igreja da AD em Madureira destacou que "Trata-se de um empreendimento digno de nossa simpatia e incentivo e desejamos aos organizadores da nova marca pleno êxito."

A apresentação memorável do grupo na emissora ficou a cargo do pastor e poeta Joanyr de Oliveira, e conforme as informações do Mensageiro da Paz "As pessoas que assistiam do auditório se comoveram com a mensagem de evangelização apresentada por intermédio da música e houve lágrimas". Vale lembrar que o grupo, além de executar hinos sacros tinha também em seu repertório músicas mais populares.

Aproveitando o momento de enlevo espiritual, Joanyr convidou a todos (auditório e telespectadores) para o culto que seria realizado à noite na igreja. Cerca de 50 pessoas atenderam o convite, e "algumas aceitaram Jesus como Salvador". O resultado da apresentação foi que "milhares de pessoas tomaram conhecimento do trabalho das Assembleias de Deus, através desse programa".

Interessante foi o fato de que ainda na década de 1960, a televisão ainda ser objeto de repúdio da esmagadora maioria dos líderes e membros da AD. Mesmo sendo considerado ainda um aparelho temerário para os crentes, é notável o senso de oportunidade evangelística das lideranças em Brasília. Por essa razão a apresentação do Grupo Musical Avivamento fez história.

Fontes:

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de setembro de 1966.

Correio da Manhã, 13 de outubro de 1963, 4º caderno, p.6. Acervo Digital da Biblioteca Nacional. http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital

Colaborações de André Silva (RJ) e maestro Jessé Sadoc (RJ)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Assembleias de Deus e a polêmica do divórcio

Circula pela internet as novas determinações da Convenção Nacional da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira (CONAMAD) sobre o divórcio. Considerando o histórico das ADs sobre o assunto, as resoluções tomadas dão uma enorme abertura para que membros e líderes do ministério fundado por Paulo Leivas Macalão possam livremente se divorciar.

Se antes o divórcio só era permitido em casos de infidelidade conjugal, no documento a separação é consentida devido a "abuso físico e/ou psicológico" e "abandono emocional e espiritual do relacionamento" tornando assim "insuportável a conivência matrimonial, se tornando imperiosa a dissolução do matrimônio". Pastores e membros estão liberados para novos casamentos. Um ponto chama a atenção no texto: "Nenhum membro, ministro ou dirigente da Conamad, poderá ser afastado de sua função em decorrência do divórcio ou nova nupcia". 

Instituído no Brasil em 1977, a lei do divórcio causou polêmicas a acalorados debates na sociedade brasileira de forte influência católica. A lei, vista como um avanço do Direito em um Estado Laico permitia a dissolução de uma instituição, que do ponto de vista religioso era seria indissolúvel: o casamento.

O primeiro debate convencional sobre o tema foi na CGADB realizada na cidade de Belo Horizonte em 1981. Segundo o escritor Silas Daniel, a questão do divórcio foi o "debate mais concorrido da Convenção". Discutido exaustivamente pelos pastores, ao que tudo indica não houve consenso. Um convencional (o qual não é revelado o nome) defendeu o divórcio para membros e obreiros da igreja. Por sua vez, pastor Luiz Fontes discordou alegando que o obreiro não deveria se casar novamente após o divórcio.

A resolução convencional publicada no Mensageiro da Paz em maio daquele ano foi que o divórcio só seria consentido para casos de "infidelidade conjugal devidamente comprovada", admitindo-se novo matrimônio. Porém a resolução destaca que isso só seria possível "esgotados todos os recursos para reconciliação". Também foi determinado que, caso o obreiro viesse a contrair novas núpcias enquanto o ex-cônjuge estivesse vivo, o mesmo perderia sua "condição ministerial". Todavia, o ministro poderia em tal situação recorrer da medida.

Documentos de 1991 e 2015: abertura para o divórcio
Em 1995, quando o assunto novamente voltou à baila na CGADB, foram acrescentados além do adultério, os casos de crimes hediondos como motivos para o divórcio. Tráfico e consumo de drogas, terrorismo, homicídio qualificado ou doloso (quando a intenção de matar) e desvios sexuais seriam fortes justificativas para dissolução do casamento.

Em 1989 e em 1991, o Ministério de Madureira divulgou orientações semelhantes da CGADB de 1981. Sempre procurando mostrar rigidez e seriedade em torno de um assunto tão controverso, o documento de 1991 é enfático em esclarecer que "A partir desta data" - 09 de abril de 1991 - "nenhum membro na condição de divorciado poderá ser consagrado ou exercer qualquer cargo ministerial".

Assim a liberação do divórcio por parte da CONAMAD causou surpresa? Talvez. É de conhecimento público que um dos seus principais líderes está em processo de dissolução do seu casamento. As novas regras, ao que parece são feitas sob medida para membros da cúpula ministerial. O termo "abandono emocional e espiritual do relacionamento" utilizado no documento é elástico e permite uma infinidade de interpretações para uma variedade de situações.

Mas como a história possui suas ironias, vale lembrar que no concorrido debate de 1981, Paulo Leivas Macalão em sua derradeira Convenção Geral foi enfaticamente contra o divórcio. Leu inclusive o texto de I Coríntios 7. 10-11 para deixar claro seu ponto de vista:
Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: Que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher.
Paulo Macalão com essa decisão dos seus supostos discípulos - como se diz popularmente - deve estar se revirando no túmulo...

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz, maio de 1981, p.6.

Colaboração do pastor ANDRÉ SILVA ex-ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

domingo, 6 de setembro de 2015

AD em Madureira e seu conservadorismo

*Por André Silva

Quando o assunto é usos e costumes, uma igreja é lembrada por seu passado de extremo rigor no assunto: a Assembleia de Deus do Ministério de Madureira. Conhecida por ser uma igreja de oração, sinais e prodígios e de crescimento vertiginoso, Madureira também era famosa pela exclusão de membros, e a cobrança exacerbada dos usos e costumes tidos por muito tempo como doutrina primaz.

Há diversas informações de fatos que marcaram o período de extremismo, onde o conceito do pastor Paulo Leivas Macalão a respeito de usos e costumes era lei. Conservador, Macalão colocou de forma oficial as regras para manter inalterados os costumes nas Assembleias de Deus.

O Ministério de Madureira se manteve conservador na área de usos e costumes, tendo por longo tempo regras rígidas para os membros. As mulheres eram proibidas de usar cabelos soltos e de cortá-los. Saias curtas, decotes, pinturas, roupas justas, maquiagem e jóias também eram condenadas. os membros não podiam usar adereços, no máximo a aliança de noivado ou casamento. Aos homens era proibido o uso de barba ou cabelos longos, bem como o uso de bermudas e de lazeres como ir à praia, cinema, futebol e teatro.

AD Madureira: Extremismo em usos e costumes
A televisão era terminantemente proibida. O pastor Paulo Leivas Macalão declarou certa vez:
Desde as minhas visitas a outros países, tenho notado que os melhores programas são os imorais, esses aparelhos têm trazido uma contribuição negativa para a vida da igreja, tanto no aspecto espiritual com também no aspecto físico de cada crente, eu não possuo nem desejo possuir televisão em minha casa, todo cuidado devemos ter para que os crentes permaneçam afastados desse meio de comunicação.
A Igreja em Madureira, além dos usos e costumes tradicionais assembleianos, também designou o uso de meias grossa e manga longa para as mulheres. Aos homens era determinado o uso do chapéu e terno. Era proibido bater palmas nos cultos e ao adentrar no culto de membros (alusão ao antigo culto de doutrina), o mesmo deveria apresentar o cartão de membro, o qual era extremamente valorizado, e só participavam da Santa Ceia os crentes em comunhão.

Macalão em entrevista ao Mensageiro da Paz (novembro de 1979), o declarou: "o mundo, portanto evolui para o pecado. A igreja deve evoluir para a santidade". Assim, o rigor das proibições eram vistos como uma busca pela “santidade” pessoal perante a sociedade, dentro dos padrões exigidos pelas Assembleias de Deus.

Tal rigor levou os principais ministérios da AD do Rio de Janeiro na década de 1960, a passar por atritos entre sua lideranças. O Ministério de Madureira e de São Cristóvão rivalizavam devido a questão dos usos e costumes. Madureira afirmava que era a igreja original brasileira, enquanto tachava de liberal a Assembleia de Deus em São Cristóvão - denominada respectivamente de “Igreja da Missão” – assim as igrejas fundadas e lideradas pelos suecos.

A Assembleia de Deus de Madureira passou a não aceitar os membros de São Cristóvão e considerava aquelas igrejas como “desviadas”. Macalão pregava em Madureira aos brados que os crentes da Assembleia de Deus da “Missão” não estavam em santidade como deveriam, porque lá eles não andavam como “os verdadeiros crentes das Assembleias de Deus”. “Eles estão andando como mundanos” enfatizava ele.

Já o pastor Túlio Barros Ferreira (líder de São Cristóvão) sempre defendia a sua posição: “Eu diria que a Assembleia de Deus em São Cristóvão é a igreja original. Ela deu realmente origem a todas as igrejas das Assembleias de Deus do Rio de Janeiro”.

Para amenizar os conflitos foram realizados nos dias 31 de janeiro e 14 de fevereiro de 1971 dois cultos de confraternização, respectivamente, na Assembleia de Deus de Madureira e na Assembleia de Deus em São Cristóvão.

Em Madureira, no início do culto, o pastor Paulo Macalão passou a direção do trabalho ao pastor Túlio Barros Ferreira, que pregou a mensagem oficial da noite, falando dos esforços ininterruptos que o inimigo de nossas almas, Satanás, tem empregado para tentar dividir as Assembleias de Deus no Brasil; mostrou que o Leão da Tribo de Judá, nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, interferira em favor do seu povo, fazendo brotar nos corações o espírito conciliatório, e envergonhando o inimigo. 

O pastor Túlio Barros salientou que não existe mais a Assembléia de Deus do Ministério de Madureira e a Assembleia de Deus do Ministério de São Cristóvão, e sim uma só igreja. Nesta atmosfera saturada pelo Espírito Santo, o culto foi encerrado.

Semelhantemente, o Espírito de Deus pairava entre as centenas de irmãos que se reuniram na Assembleia de Deus em São Cristóvão, no culto de retribuição à visita feita a Madureira. Nesse culto ficou patente que a única finalidade das Assembleias de Deus no Brasil é arrancar as almas das garras de Satanás, para fazerem parte de um Reino que tem sua sede no Céu, onde não há divisões.

Em 1971, na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, realizado em Niterói (RJ) - Na sessão convencional da manhã, do dia 20/01, os convencionais apreciaram as pazes dos pastores Túlio Barros e Paulo Macalão, que antes com o desentendimento não se saudavam nem com a “ Paz do Senhor”.

Nota do editor do blog: nessa questão da saudação qualquer semelhança com alguma região do Brasil é mera coincidência...

ANDRÉ SILVA foi ministro do Evangelho pela CONAMAD. Historiador e pesquisador da História do Ministério de Madureira. Autor do livro História da Assembleia de Deus em Bangu. Colaborador com o material histórico da Bíblia do Centenário das Assembleias de Deus e livro histórico do Cinquentenário da CONEMAD-RJ, ambos lançados pela Editora Betel.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Usos e Costumes - um pouco mais da história

Sobre a origem dos usos e costumes dentro das Assembleias de Deus as opiniões são divergentes. Alguns creditam sua gênese somente aos missionários pioneiros. Outros aos obreiros brasileiros, os quais refletiam nos ensinamentos seus conceitos de santidade apoiados na cultura da época.

Silas Daniel no História da CGADB, ao comentar sobre a polêmica resolução do presbitério da AD em São Cristóvão sobre o assunto, aponta Gunnar Vingern e Otto Nelson como "os missionários suecos mais rígidos em termos de vestimentas".

Membros da AD Florianópolis: "vestes santas"
Outros autores apontam os próprios pastores nativos, que perpetuaram certos costumes influenciados pela tradição católica. Altair Germano em seu blog cita Robson Calvalcanti, o qual em seu livro A Igreja, o país e o mundo: desafios a uma fé engajada comenta "sobre questões culturais, e de forma mais específica, sobre a maneira das mulheres 'Assembleianas' se vestirem":
Por que as mulheres da Assembleia de Deus no Brasil se vestem assim, quando em outros países do mundo, até mesmo da América Latina, não o fazem? É um costume da Assembleia de Deus no Brasil. Aí, você vai descobrir que essa denominação não começa no sul, mas no norte e no Nordeste, na zona rural. Converteram-se pessoas que vinham da Igreja Católica, da religião popular. E quem viveu no interior do Nordeste, nos anos de 40-60, percebe que a beata católica tinha como características não se pintar, usar cabelos longos presos e roupas longas. Tal costume, então, dessa denominação é, na verdade, uma absorção da cultura católica popular, que depois se tornou doutrina.
Para o pastor e teólogo Jesiel Padilha foram os líderes nativos e não os escandinavos os responsáveis por tamanha rigidez. Segundo o escritor as "exigências de comportamento das mulheres em relação a cabelo, roupas, sapatos foram intensificados por esses líderes". 

Não só isso, a "cartilha do que poderia ser usado, ou não, onde o crente poderia circular ou se poderia participar ou frequentar algum recinto seria o tema principal das plenárias convencionais".

Pastor Jesiel no seu livro biográfico Carlos Padilha: combati o bom combate traz algumas pérolas sobre as questões de usos e costumes nas ADs:
Na década de 1960 era inadmissível uma filha de um Pastor brasileiro, mesmo que tivesse dez anos cortar o cabelo. Se isso ocorresse a contraventora era disciplinada e impedida de participar dos conjuntos vocais e outras atividades. A franja era chamada de chifre do bode, inclusive na década de oitenta era comentado em cultos de doutrina corriqueiramente. (p.26)
A bateria era o bicho papão para muitos pastores. A resistência dos presidentes contra a bateria foi muito mais forte. Só na década de 90 é que foi liberada. Muitos pastores diziam que a bateria era o trono de Satanás e nela o camarada pintava e bordava balançando o corpo freneticamente e batendo em todas as direções. Diziam até que a pessoa estava endemoninhada. (p.91)
Ainda segundo o pastor Padilha na década de 1960 se presenciou "a onda do sectarismo religioso e do radicalismo, onde tudo era pecado - assistir televisão, cuspir, beber Coca-Cola, usar tênis e jeans e outras proibições esdrúxulas". Ironicamente, o autor chama esse período de "onda do talibã religioso" nas igrejas pentecostais.

Após tantas controvérsias sobre o tema, muitos membros das ADs ainda observam os usos e costumes deixados pelos pioneiros. Alguns praticam parcialmente, enquanto outros abandonaram completamente as antigas normas. A denominação com certeza em diversos lugares não superou o tema e nem abandonou seus antigos princípios. 

Fontes:

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

PADILHA, Jesiel. Carlos Padilha: combati o bom combate. Duque de Caxias, RJ: CLER - Centro de Literatura Evangélica Renascer, 2015.

http://www.altairgermano.net/2009/04/usos-e-costumes-assembleianos.html

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Usos e Costumes nas ADs

Usos e costumes nas Assembleias de Deus. Eis um assunto controverso e polêmico. Acreditou-se por muito tempo na preservação dos costumes por longo período. Segundo Isael de Araújo no Dicionário do Movimento Pentecostal os "usos e costumes estiveram profundamente arraigados à própria imagem que os pentecostais faziam de si mesmos". Para o autor "os usos e costumes formam [ou formavam] a identidade estética" dos pentecostais brasileiros.

As novas gerações de assembleianos desconhecem praticamente a lista de restrições dadas e cobradas dos crentes antigos. Alguns até fantasiam a igreja antiga como uma comunidade mais "santa", onde servir a Deus "era melhor". Mas antigamente as coisas eram melhores? Não há uma resposta exata. Cada geração de crentes experimenta coisas boas e ruins, vantagens e desvantagens em seu tempo. Mas vale lembrar que, a sociedade em si também era mais conservadora e despojada de luxos e consumismo. Ou seja, muitos dos costumes foram herdados da própria sociedade na qual estava inserida a igreja, e conservados na instituição enquanto o "mundo" exterior se transformava.

Crentes de Madureira em 1953: usos e costumes em alta

Memórias das Assembleias de Deus selecionou alguns relatos sobre os costumes antigos. Lógico que os usos e costumes dependiam da região e ministério no qual o crente estava localizado. Mas vamos a uma pequena amostra das "doutrinas ferozes" como dizia o pastor Epaminondas.

Ela [a igreja] exigia, por exemplo que os homens usassem chapéu e as mulheres usassem meia. Eles colocavam um porteiro na porta: 'Dá licença, irmã'. Se a irmã não tivesse meia, podia voltar (...) Isso criou muito embaraço para a igreja". (Pastor Ducler de Oliveira em entrevista a Ricardo Mariano) 
A Assembleia de Deus do Brás, por exemplo, na época tinham uma doutrina rigorosa. Tinham que usar chapéu, usar gravata. A mulher não podia andar de sapato aberto, tinha que usar fechado, manga no braço até embaixo... (Kalil Luta membro da AD do Belezinho e político em entrevista a Ricardo Mariano) 
Algumas características  acentuadas do Ministério de Madureira que divergiam das igrejas da Missão é que eles iam longe demais na questão de usos e costumes bem mais do que a Missão. Eles faziam restrições até absurdas como, por exemplo, não tomar banho de sabonete para não ficar cheirando perfume, que isso era vaidade, desodorante nem pensar. Você não podia usar roupa que tivesse qualquer traço vermelho ou gravata vermelha também. Era absurdo, porque estava brincando com o sangue de Jesus. (Pastor Valter Brunelli em entrevista a Ricardo Mariano)
Se algum crente bebesse guaraná ou qualquer outro refrigerante, eu o excluía. Para mim, as mulheres deveriam andar com as mangas dos vestidos fechadas até o punho, e as saias bem abaixo dos joelhos. Os cabelos até podiam ser trançados, mas sem qualquer enfeite. Sapatos, só de salto baixo, e não podiam usar cinto. Os homens deviam vir ao culto de terno e gravata(Epaminondas José das Neves em entrevista ao jornal O Assembleiano - out/nov de 1991) 

Ainda segundo o pastor Epaminondas, um dia na cidade paranaense de Ibiporã encontrou os pastores Artur Montanha, Satyro Loureiro e João Ungur tomando refrigerante num bar. Ficou escandalizado e pensou "Esses catarinas não são crentes, não têm doutrina".

Segundo depoimento de crentes do Rio de Janeiro, Paulo Macalão não permitia os membros de Madureira tomar refrigerante. Quando havia algum aniversário ou confraternização, os irmãos saboreavam suco de caju.

Por enquanto é só. Em outra postagem mais casos serão relembrados. Em determinados locais do Brasil alguns costumes prevalecem. E as polêmicas em torno deles também...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1999.