domingo, 30 de dezembro de 2012

Pastor Satyro Loureiro: memórias de um pioneiro

Satyro Loureiro (1922-1993), foi sem dúvida alguma, um dos principais líderes da Assembleia de Deus em Santa Catarina e no Brasil. Durante as décadas de 1970 e 1980, exerceu e ocupou vários cargos de destaque dentro da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil e da CPAD. Presidiu as principais igrejas da AD no estado catarinense, em especial a AD em Joinville, a qual administrou por duas vezes. Na primeira vez, no alto dos seus trinta anos (1953-1957) substituiu o missionário norte-americano Vilgil Smith. Na segunda (1979-1990), assumiu a igreja após o falecimento do pastor Liosés Domiciano. Nas duas vezes em que esteve à frente da AD joinvilense - segundo fontes oficiosas - liderou a igreja em momentos de crise, polêmicas e desafios.

Aliás, Satyro passou a vida inteira enfrentando desafios. Orfão de pai, desde muito cedo teve que trabalhar para se sustentar. Nascido na cidade de Jaraguá do Sul, mudou-se para São Francisco do Sul, com o objetivo de trabalhar no comércio. Longe da família, Loureiro entregou-se aos vícios e devassidão. Desiludido e angustiado, pensou várias vezes em suicídio, até que um dia na pequena AD local teve um encontro com Cristo. Agora, além do desafio pela sobrevivência, havia o de permanecer firme em sua fé. Mudou-se meses depois para Joinville, onde iniciou e encerrou sua carreira ministerial.

Para muitos, Satyro foi um líder dinâmico, bom administrador, evangelista amoroso e esmerado ensinador. Amante da leitura e dos bons livros, procurava estar sempre atualizado com o que acontecia ao seu redor. Para outros, os que talvez não foram beneficiados por alguma decisão sua em algum momento do seu ministério, pelo seu estilo centralizador e firme, Loureiro foi no mínimo "maquiavélico". Na verdade, um líder forte como ele jamais foi ou será unanimidade.

Há pouco mais de 5 anos, em visita aos familiares do pastor Satyro, uma de suas filhas compartilhou com o autor dessas linhas, um rascunho de uma autobiografia iniciada por ele, mas jamais concluída. É um rascunho do que viria a ser um livro. Alguns detalhes da sua vida, como o desejo de suicidar-se, foram retirados desse rascunho. Compartilharei alguns trechos para reflexão dos leitores desse blog.

Satyro descreve um pouco sobre sua criação:
Meus pais era tradicionalmente católico romanos. Não tive o privilégio de ser criado em um lar cristão, nem mesmo de sentir o calor do afeto de pai e mãe. Quando tinha pouco mais de seis anos de idade, meu pai faleceu. Tenho vaga lembrança de algumas coisas a seu respeito. Nossa mãe , viúva, com quatro filhos não tinha condições financeiras para suportar o peso da família, por essa razão desde a mais tenra idade vivi entre estranhos, especialmente gente de origem alemã...
Vida pregressa e pensamentos suicidas:
Desde cedo naquela cidade (São Francisco do Sul), me entreguei ao vício a ao pecado, participando de tudo que o mundo oferecia... Desiludido da vida, intimamente planejei suicidar-me, e esse pensamento me acompanhou por muito tempo. Hoje compreendo que só não consumei ao maligno intento porque Deus tinha um plano para a minha vida, por cuja razão não me deixou ir as suicídio.
Processo de conversão. Satyro já se sentia tocado porém combinou juntamente com outros dois amigos o seguinte:
Na ocasião éramos três jovens da mesma idade, um mais corrompido do que o outro, entretanto, os outros dois também sentiram algo e acertamos para nos entregarmos a Jesus no sábado seguinte. Um dos dois, posteriormente, sugeriu a que fossemos ao último baile no sábado e depois aceitássemos Jesus. Eu lhe disse: Não! Nós somos três espíritos de porco, e pode sair uma briga, e qualquer um de nós morrer sem salvação, eu vou me entregar para Jesus.
Sua chamada ministerial. Entre o desejo e o sentimento de incapacidade:
A minha chamada era tão forte que dominava todo o meu ser, nada tinha mais valor algum para mim, só me restava uma coisa: realizar a obra que estava dominando a minha vida... Passados alguns dias o missionário Virgil F. Smith, que era pastor da igreja, me chamou no pavimento da igreja do templo sede - hoje demolido -  e me disse: Satyro, Deus não salvou você, para você comer, beber e vestir, ele tem um plano para a sua vida, você deve dedicar-se inteiramente ao trabalho do Senhor. 
As palavras do missionário, me causaram um impacto muito grande, e eu lhe respondi: Eu não sei pregar o Evangelho, eu não tenho capacidade. Em resposta o missionário me disse: a nossa capacidade vem de Deus, de fato, nenhum de nós é capaz e Deus precisa de pessoas que reconheçam que não tem capacidade.

Por enquanto, ficam apenas esses fragmentos. Em outras postagens, estarei divulgando mais alguns detalhes da vida desse pioneiro. Agradeço aos familiares, principalmente suas filhas, as quais sempre com muito prazer compartilham da história do seu pai. Não esquecendo que sua esposa, irmã Maria ainda vive, e foi de fundamental importância na construção do ministério do pastor Satyro.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A CGADB de 1937 e a "guerra conservadora"

A Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), realizada entre 3 a 17 de outubro de 1937 na cidade de São Paulo, foi um marco na história da denominação no país, pois nela muitos assuntos de extrema importância foram discutidos.
                 
A CGADB deste ano, foi presidida por Paulo Leivas Macalão tendo como seu vice o pastor Cícero Canuto de Lima. Segundo o jornalista e escritor Silas Daniel, autor do livro História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, essa reunião da liderança assembleiana foi histórica, pois muitos dos assuntos ali tratados repercutiram por muitos anos na trajetória da denominação no país.

CGADB de 1937:  lado a lado futuros concorrentes em SP, Macalão e Cícero de Lima


A CGADB de 1937 discutiu o uso do rádio na evangelização, sendo permitido a utilização do mesmo para a evangelização, mas não a sua liberalização para os membros da igreja. Discutiu-se ainda a evangelização dos indígenas, revisão da Harpa Cristã, o uso de cruz nas fachadas dos templos, o ensino teológico para obreiros etc. Houve uma proposta de criação de um hospital evangélico, porém tal iniciativa foi desaprovada, pois se entendia que a missão da igreja era estritamente espiritual, e se havia enfermos, eles deveriam antes de tudo receber oração para serem curados. Seria, na visão dos convencionais, uma contradição à fé pentecostal tal iniciativa.
Outro assunto que merece uma análise mais apurada, foi sobre a abertura de igrejas em estados onde já existissem trabalhos. Daniel informa que "esse assunto foi muito debatido". A resolução da Convenção não proibiu os ministérios assembleianos de atuar em outros estados, mas afirmou que não deveria haver guerra e contenda, e sim união, cooperação e comunicação entre eles.

É interessante, que o presidente e o vice da CGADB daquele ano seriam, ironicamente, protagonistas durante muitos anos das discórdias e desuniões das ADs no Brasil. Segundo Gedeon Alencar, os dois em vida, polarizaram a conhecida disputa assembleiana "Missão & Madureira". Dentro em poucos meses, Macalão causaria constrangimentos, ao abrir na cidade de São Paulo (com ajuda do seu cunhado Sylvio Brito), onde presidiu a Convenção Nacional, uma igreja filiada ao ministério de Madureira no Rio de Janeiro. Poucos anos depois (1946), Cícero C. de Lima assumiria a AD do Belenzinho, tornando-se forte opositor de Paulo Leivas na capital.

Conforme Alencar, os dois notáveis líderes, vivenciaram uma "guerra de conservadorismo", que se reproduzirá por todo o país. Nas palavras do estudioso, Macalão e Cícero foram:
Consagrados ao pastorado, igualmente com 30 anos e solteiros, depois de idosos, nenhum deles incentivou e deu oportunidade para jovens solteiros no pastorado. Nesse embate, eles simbolizam o que todos os demais pastores, e principalmente os presidentes estabeleceram como modelo: se eternizando nos cargos, pois foram poucos os que optaram pela jubilação; entronizados em suas “cadeiras papais” nos púlpitos, inquestionáveis em suas idiossincrasias, reverenciados por seus seguidores. E apesar de todo esse espectro moral e poder simbólico que exerceram, nenhum dos dois teve um continuum, pois seus sucessores, por razões diversas, alteraram não somente a forma de ser pastores-presidentes, mas o estilo conservador de seus Ministérios.
Esses dois líderes assembleianos, durante muito tempo foram rivais na condução da igreja. Construíram grandes ministérios e, como se viu, imprimiram sua marca na denominação. É impossível contar a história das ADs sem mencioná-los. Morreram no mesmo ano:1982. 

Seus sucessores, se alteraram "a forma de ser pastor presidente", no mínimo perpetuaram o clima de desunião entre os dois ministérios. Manuel Ferreira, hoje bispo e líder máximo do ministério de Madureira segue firme e forte consolidando sua dinastia na igreja. José Wellington Bezerra da Costa, desde 1988  domina de forma soberana a CGADB. Porém, seus sucessivos mandatos, têm causado questionamentos de toda ordem nos últimos anos.

Passados 75 anos dessa convenção fica a seguinte observação: os dois líderes fizeram escola. Mas de certa forma, essa rivalidade contribuiu para o crescimento da AD. Porém, essa mesma rivalidade é a causa maior de sua fragmentação.

Fontes:

ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias Brasileiras de Deus: Teorização, História e Tipologia- 1911-2011. Pontifícia Universidade Católica: São Paulo.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


sábado, 15 de dezembro de 2012

Élida - uma diaconisa na AD em Santa Catarina

O ministério feminino sempre foi um assunto polêmico nas Assembleias de Deus no Brasil. Marcou a primeira Convenção Geral da denominação ocorrida em Natal (RN), em 1930, e continuou a ser motivo de debates e controvérsia em outras reuniões da liderança nacional, principalmente em 1983 e 2001.

Na primeira CGADB em 1930, com a presença de Frida Vingren, a atuação feminina foi aceita, mas com limitações bem específicas. As mulheres poderiam testemunhar, porém, só em casos de exceção seria conveniente atuar como ensinadoras e pregadoras. A decisão de 1930, foi frontalmente contrária a atuação da esposa de Gunnar Vingren na igreja carioca, na qual Frida se destacava como líder pentecostal.

Frida ameaçou a supremacia masculina no ministério, porém, não foi a única. Segundo a própria historiografia oficial, outras mulheres participaram ativamente do início da obra pentecostal no país. Isael de Araújo no Dicionário do Movimento Pentecostal, cita várias jovens e senhoras que participaram com destaque da fundação de igrejas pelo Brasil. Contudo, como muitos estudiosos da história das ADs já sabem, na primeira Convenção Geral, o casal Vingren foi voto vencido e às mulheres foi vedado o acesso ao ministério.

Mas mesmo assim, elas continuaram se destacando em vários momentos da história assembleiana. Uma dessas pioneiras, cuja atuação ficou esquecida por muitos, foi a da jovem Élida Andrioli Vieira, uma das pioneiras da AD no estado de Santa Catarina. Em testemunho ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de fevereiro de 1933), Élida conta o seu testemunho de conversão. Segundo seu relato, viveu 22 anos somente ouvindo falar de Cristo, até que um dia "Deus, que é misericordioso, enviou a Itajaí um dos seus servos, cheio do Espirito Santo, para anunciar a mensagem do céu". Esse servo era André Bernardino da Silva, fundador da AD catarinense. 

Élida e seu esposo Ângelo 
Élida, impressionada com as pregações, converteu-se ao evangelho e passou a colaborar com o crescimento da AD na região litorânea. Segundo o irmão Paulo Vieira Marques, sua mãe, por ser uma jovem comunicativa, destacada e dinâmica nas atividades da igreja, foi separada a diaconisa por Gunnar Vingren em sua visita a Itajaí em 1931. Vingren era totalmente favorável ao ministério feminino, e na igreja de São Cristóvão já havia ordenado Emília Costa para o diaconato. Interessante é que essa separação se fez depois da Convenção Geral de 1930 onde, a contragosto, Gunnar aceitou a resolução que limitava o acesso das mulheres ao ministério.

Quanto à atuação de Élida, o próprio Bernardino é testemunha da sua intensa operosidade da jovem nos primórdios da AD catarinense. Em relato ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de junho de 1932), André comenta que a pioneira esteve 15 dias na localidade de Ilhota com um grupo de crentes. Nesse período, segundo ele, houve batismos com o Espírito Santo, e um batismo em águas efetuado por André logo depois desse período de trabalho. Nas informações dadas pelo pioneiro, percebe-se que Élida foi a responsável direta pela pregação, discipulado e orientação desses novos membros.

Em certo momento, Bernardino relata que após o batismo em águas em Ilhota, ao voltar para casa, ele adoeceu, não podendo atender a Escola Dominical em Itajaí, mas "a irmã Élida foi em meu lugar". Mais uma vez, é destacada a importância e a responsabilidade da jovem obreira. Interessante, que não há menção direta a nenhum outro auxiliar e obreiro; talvez houvessem outros, porém a confiança depositada na cooperadora é evidente.

Élida e netos: consagrada diaconisa por Vingren 

A atuação dessa jovem, e o espaço que ocupou ainda nos primórdios da AD catarinense, com certeza refletia o modelo de trabalho pentecostal que André encontrou ao frequentar na AD em São Cristóvão. Bernardino, como se sabe, cooperou ativamente na igreja onde Frida desenvolvia seu ministério. Talvez, ele simplesmente adotava o modelo implantado no Rio. Afinal de contas, ele testemunhou o dinamismo de Frida na AD carioca.

Bernardino pouco depois deixou a liderança da AD em Santa Catarina, e Élida casou-se com Ângelo Marques Vieira, um jovem senhor viúvo. Constituiu família, mudou-se em 1940 para a cidade de Rio do Sul, e ali muito colaborou no trabalho da AD local. 

Com a saída de Vingren da liderança da AD nacional, e a aplicação da resolução da CGADB de 1930, o ministério feminino ficou relegado ao esquecimento. Élida ainda continuou cooperando na igreja, porém, sua separação à diaconisa e as responsabilidades que tinha nos primórdios da obra foram esquecidas, pois novos líderes se levantaram e a história da AD catarinense passou a ser contada pela ótica masculina.

Mas a pioneira não parou de se envolver nos trabalhos da igreja. Anos depois, mesmo tendo perdido a visão, continuou a cooperar em recitais, cânticos e programações nas datas festivas. Resignou-se humildemente em servir a Deus, sem buscar status ou posição na denominação que ajudou a construir em seus primórdios. Faleceu aos 82 anos, depois de participar de um culto onde cantou três hinos da Harpa Cristã. Um belo exemplo de vida!

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MARQUES, Paulo Vieira. Joinville: 06 de dez. 2012. Entrevista concedida a Mario Sérgio de Santana.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de junho de 1932.

Mensageiro da Paz. Rio de Janeiro. 2ª quinzena de fevereiro de 1933.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Foto Memória: delegação brasileira em Seul - Coreia do Sul

A Conferência Mundial Pentecostal é um grande acontecimento do mundo evangélico. Realizada de três em três anos, a conferência reúne líderes pentecostais de todo mundo numa série de palestras e grandiosos cultos com renomados pregadores.


Nessa foto, há o registro da participação de alguns pastores brasileiros presentes na Conferência Mundial Pentecostal realizada em Seul na Coreia do Sul em 1973. Identifica-se alguns pioneiros da AD no Brasil como N. Lawrence Olson, Alcebiades Pereira Vasconcelos, Liosés Domiciano (na época pastor da AD em Joinville), Paulo Leivas Macalão e sua esposa Zélia B. Macalão entre outros.

No alto, uma bandeira do Brasil identificando a nacionalidade da caravana de líderes. Isael de Araújo no Dicionário do Movimento Pentecostal informa, que no final dos anos 70 e início dos anos 80, o pastor Lawrence Olson liderava algumas dessas caravanas.

É um interessante registro, de uma liderança que deixou suas marcas na AD brasileira. O tempo, implacável como é, se encarregou de consumir esses senhores e senhoras, mas é através de uma imagem como essa, que muitos deles continuam vivos na história.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Manoel Germano de Miranda: um simples pioneiro

Manoel Germano de Miranda era um simples cozinheiro de um barco de pesca quando aceitou à Cristo como Salvador. Chamou-lhe certo dia a atenção, quando um grupo de crentes pentecostais, na recém fundada Assembleia de Deus em Itajaí, foram perseguidos violentamente por um sacerdote católico. Impressionado com tudo o que viu, se dirigiu a igreja e aceitou a fé pentecostal.

Tempos depois, Miranda testemunharia ao Mensageiro da Paz (2ª quinzena de novembro de 1937) sobre sua conversão. No texto ele relata que "vivia em trevas, andando em pecado, cheio de vícios, escravo do mal, sem paz para mim e nem para o meu lar". Afirma ainda, que "vagava como um barco sem rumo" até que ouviu a pregação do evangelho, examinou uma velha Bíblia católica, e através da leitura da mesma teve uma revelação divina levando-o a conversão.

Logo em seguida começou a cooperar no trabalho, substituindo o pioneiro André Bernardino em suas viagens. Meses depois, Miranda se sente chamado para pregar o evangelho na cidade de Joinville. Através de um sonho, Deus lhe mostra a cidade, a qual nunca havia estado. Relutante, Miranda obedece, e chegando em Joinville se emprega na antiga estrada de ferro, e começa a dirigir os cultos na casa de um senhora crente chamada Ana Salvador. Assim, pregando, evangelizando e realizando cultos nas casas o trabalho cresceu e se expandiu.

Há uma controvérsia sobre a vinda de Manoel Miranda para Joinville. Segundo relatos da família, o jovem Miranda fundou a Assembleia de Deus em Joinville, obedecendo tão somente a um sonho, a orientação divina. Foi Deus que diretamente lhe enviou para a cidade. Mas conforme relatos da família de André Bernardino, fundador da AD em Santa Catarina, Miranda teria sido orientado pelo próprio André para vir a cidade e auxiliar a obra.

Pelo que se percebe na história oficial e nos relatos registrados dos antigo crentes de Joinville, possivelmente Miranda deve ter vindo por orientação de Bernardino. O núcleo de crentes que havia em Joinville tinha se convertido em Itajaí, e aqui não havia nenhum obreiro para atender os cultos. É improvável que em algum momento, Bernardino não tenha orientado o jovem obreiro. Segundo depoimento da esposa de André Bernardino por ocasião do Cinquentenário da AD em Joinville, Miranda "era um crente novo" e "nem sabia pregar, mas o que ele sabia, fazia". 

Assim, com seu jeito simples, extrovertido e com muito esforço, Manoel evangelizou toda a região de Joinville, inclusive as cidades vizinhas. Aos poucos, conforme a denominação ia se organizando, Miranda passou a ser reconhecido em seu ministério, até que em 1942 foi separado ao pastorado. É bom destacar, que Miranda nunca teve autonomia sobre o trabalho pentecostal na cidade, pois sempre foi supervisionado de perto, ou por André Bernardino ou Alberto Widmer. Com a vinda do missionário Virgil Smith para Joinville, Manoel é transferido para a cidade de Mafra.

A vinda de Smith foi estratégica para o desenvolvimento da denominação em Joinville e em Santa Catarina. Os missionários norte-americanos organizaram e estruturaram a igreja, deram-lhe impulso e bases para maior crescimento. Mas Marcílio de Miranda, filho do pioneiro, conta que seu pai se sentiu deixado de lado. Havia ele iniciado o trabalho, visitado, evangelizado, ganho famílias inteiras, e com a mudança se sentiu desprestigiado. Em alguns momentos pensou até em deixar, se transferir para outra denominação.

Smith era um homem culto, administrador e um teólogo destacado. Isso por certo agradou as famílias mais abastadas e delas teve apoio. Talvez isso tenha desagradado Manoel Miranda. Por outro lado, seu filho conta ainda que seu pai era muito querido, na sua simplicidade, nas suas palavras era motivo de diversão por parte de alguns membros. Há em tudo isso uma ponta de ciúmes, um desejo incontido de reconhecimento por um trabalho por ele atendido durante muito anos. Mas a AD catarinense vivia novos tempo sob a tutela dos norte-americanos, e as mudanças eram necessárias.

Manoel Germano de Miranda, faleceu na cidade onde iniciou sua fé e na qual pastoreava a AD em 1962: Itajaí. Conta seu filho, que nos seus últimos dias, já doente, cultivava ele um orquidário em sua casa. Interessante faceta de um senhor que no principio de seu ministério não sabia pregar, considerado simples demais, mas que revelava no trato com as flores uma sensibilidade grandiosa. Sensibilidade essa aproveitada do trato com as ovelhas que cuidou. 

Num tempo em que as ovelhas são simplesmente tratadas como consumidores, ou massa de manobra, o exemplo de Miranda não deixa de impressionar. Simplicidade, sensibilidade e sacrifício são palavras e sentimentos esquecidos por muitos que se dizem ministros na igreja de Deus.

Fontes:

Boletim Informativo - Assembleia de Deus ano: VI nº 144 outubro de 1982.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de novembro ano:VII, nº 22 - Rio de Janeiro, 1937.

Miranda, Marcílio. 20 de agosto de 2008. Entrevista concedida a Claiton Ivan Pommerening e Mario Sérgio de Santana.


POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Celina Albuquerque: uma revisão da história assembleiana

Celina Martins Albuquerque, é sem dúvida um dos nomes mais famosos da história das Assembleias de Deus no Brasil. Reconhecida como umas das pioneiras da AD, ela também foi destacada por muito tempo como a primeira crente no país a ser batizada com o Espírito Santo. Pode-se afirmar que durante quase 80 anos ou mais de sua história, as publicações oficiais da denominação eram firmes e contundentes na afirmação, de que essa senhora, falecida em 1966 aos 90 anos, cuja foto ilustra diversas publicações da CPAD, seria a primeira pessoa no Brasil a receber a experiência pentecostal, cuja maior evidência é o falar em novas línguas.

Porém, ao ler com atenção o livro comemorativo do centenário assembleiano publicado pela CPAD, o discurso no qual se diz que Celina Albuquerque é a primeira crente da igreja batista a receber o Batismo com o Espírito Santo é abandonado. O relato, no qual se exaltava a senhora Albuquerque como pioneira dessa experiência no Brasil é sutilmente modificado. Segundo a nova versão, Celina seria a primeira "crente da igreja batista" em Belém a receber o batismo e não mais a primeira "crente no Brasil". Mas o que teria feito a CPAD mudar seu discurso histórico? 

Celina Albuquerque: uma das pioneiras da AD no Brasil

Informações de que a experiência pentecostal foi vivida por outras pessoas alguns anos antes de Celina começaram a ser divulgadas. Relatos, como a do pastor Paulo Malaquias do Rio Grande do Sul em 1907, e Pedro Graudin em Santa Catarina em 1909, ficaram conhecidos pelo Brasil. Segundo as informações obtidas e confirmadas, Celina não teria a primazia no Brasil nessa experiência, e sim Malaquias, seguido de Graudin ambos da região sul do país.

Porém, a aceitação desses senhores como pioneiros do batismo pentecostal também não se deu sem resistências. A menção de Malaquias e Graudin no livro síntese da história da AD publicado em 1997 é acompanhada do registro de um trecho do diário de Gunnar Vingren, onde exatamente em uma viagem ao sul do Brasil, ele encontra um grupo que vivencia experiências místicas estranhas. Não se nega a informação, mas não se legitima os fatos como autenticamente pentecostais.

Coincidentemente, tanto Paulo Malaquias como Pedro Graudin (assim como Celina de Albuquerque) pertenciam a igreja batista. A experiência de Malaquias, o qual foi pastor assembleiano no RS, foi testemunhada no Mensageiro da Paz em 1947, mas durante muito tempo ignorada pela historiografia oficial. O caso de Graudin, foi resgatado pelo escritor Ismael dos Santos em uma obra histórica sobre a AD de Santa Catarina no ano de 1995, onde se lê que o mesmo se tornou sogro do fundador da AD no estado catarinense.

Talvez a crescente divulgação desses fatos, tenha levado a CPAD a admitir o pioneirismo desses senhores no pentecostalismo brasileiro. Mas também a mudança dos rumos políticos da CGADB tenham sido determinantes para essa aceitação tardia. O pastor da igreja da AD de Belém do Pará, é forte oponente do atual presidente da Convenção Geral. Admitir essa modificação na história assembleiana, é o mesmo que desprivilegiar a igreja mãe em Belém. É uma mudança sutil, porém reveladora do clima político da CGADB nos últimos anos.

Fontes

ARAÚJO, Isael de. 100 Acontecimentos que marcaram a história das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

30 anos sem Paulo Leivas Macalão

No dia 26 de agosto de 2012, completou 30 anos do falecimento do pastor Paulo Leivas Macalão, um dos maiores (e polêmicos)  líderes das Assembleias de Deus no Brasil. A data foi relembrada pelo Ministério de Madureira através de redes sociais, onde fotos e textos foram compartilhados para marcar as três décadas de ausência de seu fundador e antigo líder máximo.

Macalão e esposa: incompreendido e segundo Vingen muito independente

Naquele agosto de 1982, o Ministério de Madureira sofreu duas grandes perdas. Vinte um dias antes da morte do pastor Paulo Macalão, seu vice-presidente e amigo, pastor Alípio da Silva faleceu. Pastor Alípio era o braço direito de Macalão e ao que tudo indica, seu eventual sucessor no ministério. Dentro dessa situação, o Ministério de Madureira elegeu o pastor da AD do Brás, Lupércio Vergniano para a presidência. Manuel Ferreira, hoje presidente vitalício do ministério já estava em ascensão naquela época. Foram esses senhores (e pelo que se percebe), junto com a viúva de Macalão a missionária Zélia Brito Macalão,  deram continuidade aos projetos da igreja.

Passados 30 anos de sua morte, sua obra ainda é motivo de diversas analises e reflexões. Macalão foi um pioneiro do pentecostalismo sem dúvida alguma, mas também foi pioneiro na formação da primeira cisão ministerial da denominação e inspirou muitos outros a fazerem o mesmo. Ainda em vida, a palavra mais usada pelos textos oficiais para justificar a iniciativa de Paulo Leivas de formar um ministério à parte do suecos foi incompreensão. Sim, Macalão foi um incompreendido, um jovem que ao entrar em choque com os líderes escandinavos se deslocou para os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro, para ali formar seu próprio rebanho. E esse rebanho cresceu muito, sempre inspirado na veia nacionalista e autoritária de seu líder. A AD passou então em muitas regiões do Brasil a ser conhecida como Missão, em alusão aos trabalhos fundados ou dirigidos pelos suecos, e Madureira, a AD verdadeiramente nacional.

Após a saída do Ministério de Madureira da CGADB, a literatura da CPAD ainda continua a reconhecer Paulo Leivas como grande líder, porém sempre é destacado um trecho do diário de Vingren onde ele registra uma interessante observação sobre Macalão: "ele é muito independente". Outras faces do "Apóstolo do século XX" são reveladas nas edições posteriores, sob um ângulo nem sempre favorável, legitimando assim a cisão ocorrida em 1989 como algo inevitável, pois o germe da divisão estaria nas ações expansionistas e polêmicas do fundador de Madureira. Assim, após 30 do seu falecimento, sua memória cada vez mais é exaltada por Madureira, mas por outro lado é questionada nem sempre de forma sutil pelas AD's ligadas a Missão. 

Outro ponto que envolve a figura de Macalão em mistério seria a sua provável filiação a maçonaria. Antigos líderes e membros afirmam essa ligação, mas não há evidências claras de que isso tenha ocorrido. Sua amizade com o Reverendo Isaías de Souza Maciel, ministro evangélico, o qual chegou a ser grão-mestre na maçonaria é destacada para afirmar essa hipótese. Gedeon Alencar registra em seu livro, que o questionamento de um pastor pertencer ou não a maçonaria foi ventilado na CGADB de 1966, e ainda, segundo alguns entrevistados para sua tese, uma comissão teria realizado um solenidade em sua homenagem. Mas esse é um caso onde não há confirmações ou desmentidos convincentes.

A certeza de tudo isso é que, passados 30 anos de sua morte, a vida e obra de Paulo Leivas Macalão ainda merecem um estudo mais aprofundado. Poucas informações sobre ele se levantaram nesse período além das que já estão dadas pela historiografia oficial. Macalão ainda é uma incógnita para muitos pentecostais, um personagem mítico esperando por ser desvendado.

Fontes:


ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

sábado, 25 de agosto de 2012

Os Escolhidos - fragmentos da história assembleiana

O livro Os Escolhidos: a saga dos evangélicos na construção de Brasília do jornalista Jason Tércio é uma obra que trás relatos surpreendentes sobre a história das Assembleias de Deus no Brasil. O objetivo do autor, é fazer um relato da evangelização e instalação dos vários segmentos evangélicos no período da formação da nova Capital Federal. Nas páginas de Os Escolhidos, se encontram diversas informações do trabalho pioneiro de batistas, presbiteranos, metodistas e, principalmente, assembleianos na grande obra do governo JK.

Filho de um pioneiro assembleiano (seu pai Venâncio Rodrigues do Santos foi pastor e escritor na AD) Tércio, numa linguagem acessível e objetiva, conta as aventuras e desventuras dos primeiros evangélicos em Brasília. Por ser filho de assembleianos, ele "retrata um mundo que lhe é muito familiar", segundo as palavras de Joanyr de Oliveira que prefaciou o livro. Tendo essa familiaridade como aliada, o jornalista revela histórias não contadas pela historiografia oficial da denominação, e lança luz sobre muitos acontecimentos de bastidores.

Brasília foi projetada para ser a meta-síntese da administração JK, e o símbolo máximo do seu slogan "50 anos em 5". Trabalhadores de todo o Brasil se aventuraram na construção de uma utopia no Planalto Central brasileiro, de uma cidade que representasse o futuro de desenvolvimento, otimismo e capacidade de superação do Brasil e seu povo. Ironicamente, ali na futura Capital, as AD's conseguiram sintetizar seus quase 50 anos em 5. Como fizeram isso? Tércio detalha as divergências e negociações dos ministérios assembleianos rivais, as administrações personalistas dos seus pioneiros, a fragmentação ministerial numa cidade sonhada para unir e não para dividir. Tudo isso está relatado em Os Escolhidos.

Para os leitores dessas linhas, transcrevo alguns trechos significativos. Muitas outras informações se encontram no livro, mas deixo aqui um pequeno apanhado sobre os líderes e ministérios da AD. Dados que a história oficial não divulga, mas que vale a pena compartilhar.

Sobre Paulo Leivas Macalão: Tércio descreve seu físico e estilo de liderança. 
Baixo, corpulento, era um dos principais líderes da Assembléia de Deus no Brasil, tendo expandido seu trabalho evangélico com proverbial rigidez. Obreiros de seu ministério que demonstrassem personalismo e um mínimo de independência eram severamente repreendidos, às vezes punidos com transferência para outra igreja ou simplesmente excluídos. Se ele não simpatizasse com alguém ou percebesse que o crente pretendia apenas usar sua influência, Macalão o neutralizava com um gesto simples, porém bastante eficaz - cumprimentava com as pontas dos dedos.
Os acordos de limites de jurisdição eclesiástica: o livro relata os acordos informais feitos entre os líderes para depois serem desrespeitados.
No acampamento da construtora Castor, na Granja do torto, os trabalhadores crentes continuavam fazendo cultos num barraco erguido por eles. Discutiam a necessidade de fundar mais um templo da Assembléia de Deus. Havia, porém, uma barreira: acordo recém firmado entre Madureira e outros ministérios assembleianos estabelecera limites territoriais - onde existisse  igreja de Madureira não haveria outro ministério, e vice-versa. No escritório da igreja de São Cristóvão, Rio, o pastor-presidente, Alcebíades Vasconcelos, seu vice, Túlio Barros Ferreira, e Paulo Macalão tinham se reunido, com um mapa do Brasil sobre a mesa, delimitando sua respectivas áreas de atuação.
Criação de ministérios autônomos: a nova Capital despertava um ímpeto de independência nos novos obreiros que ali ministravam. Percebia-se um grande potencial de crescimento. Esse foi o caso do pastor Francisco Miranda.
Assim Miranda criou uma igreja autônoma, presidida por ele, sem vínculo com sede em São Cristóvão... A independência unilateral foi proclamada na noite de 15 de janeiro, sexta-feira, durante um culto, transformado em assembléia extraordinária, para tratar, segundo Miranda informou, de assuntos administrativos urgentes... Os auxiliares de Miranda logo passaram a considerar seu método administrativo muito personalista e centralizador. Nas conversas informais após os cultos, brotava a discórdia, prenunciando uma tempestade. 
Fonte:

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Estevam Ângelo de Souza: um conceito de ministério

No dia 14 de fevereiro de 1996, encerrava-se a carreira ministerial de um dos mais proeminentes líderes das Assembleias de Deus no Brasil e no Nordeste. Nessa fatídica data, morria vítima de uma acidente automobilístico, o pastor Estevam Ângelo de Souza. Foram 49 anos de ministério pastoral, e quase quatro décadas como pastor da igreja em São Luís no Maranhão.

Nascido no interior do Maranhão, Estevam se converteu aos 21 anos de idade e logo se tornou evangelista itinerante. Evangelizou o Piauí durante dois anos, sem ter campo definido ou ajuda financeira. Segundo seus próprios relatos, percorria mais de 300 quilômetros a pé o vasto sertão piauiense, evangelizando e visitando os poucos crentes espalhados pela região. 

Levando sempre uma maca nas costas e tendo o chapéu de palha como "moradia", Estevam iniciou assim de forma rudimentar seu ministério, que aos poucos se desenvolveu e se consolidou como o mais influente na AD do Maranhão.

Quando assumiu o pastorado da AD na capital São Luís, o Maranhão passava por duas transições. A primeira era política, quando o Estado deixava para trás a época vitorinista (nome dado a hegemonia de Vitorino Freire na política estadual) e se ajustava a ascensão do clã Sarney na condução da política. A outra era urbana, pois nesse período a população maranhense se urbanizava e conflitos agrários intensificavam-se no interior com a participação de crentes pentecostais no processo.

Pastor Estevam: ministério sinônimo de sacrifício 


Assim, Estevam Ângelo de Souza conviveu com agudas transformações sociais, políticas e econômicas do seu tempo. Viveu os desafios e as tensões que o cargo lhe oferecia. Na década de 70 permitiu que o então governador José Sarney subisse ao púlpito da igreja, mas por outro lado não permitia que outros políticos adentrassem na igreja e utilizassem a sua imagem para proveito próprio. 

Essa relação dúbia com a política talvez se explique pelas perseguições ferozes ocorridas no começo do pentecostalismo no nordeste, onde apedrejamentos e perseguições eram comuns. Obter o favor de autoridades era um grande passo na proteção necessária para se pregar o evangelho, mas por outro lado o púlpito poderia se tornar palanque privilegiado para alguns.

Durante o tempo que pastoreou a igreja, exerceu um estilo personalista e centralizador da administração eclesiástica da AD estadual. Foi durante muito tempo, presidente, motorista e datilógrafo da igreja, sendo ajudado por fiéis e filhos no desempenho de suas funções. Viajou pelo Brasil e o mundo pregando e ensinando as doutrinas pentecostais; escreveu artigos, livros e foi comentarista das lições da escola dominical da CPAD. Muitos membros da AD foram edificados por seus ensinos, principalmente sobre os dons espirituais e seu uso na igreja.

A vida e obra do pastor Estevam pode servir de base para algumas reflexões. Talvez a mais necessária nos dias de hoje era a sua visão de ministério; visão essa que para muitos se transformou extremamente de alguns anos pra cá. Em entrevista concedida ao Mensageiro da Paz de outubro de 1992, pastor Estevam, ao recordar os primórdios do seu ministério, das longas caminhadas e privações, recordou que "Naquele tempo, ministério era sinônimo de sacrifício." 

Essa preocupação, ele deixou evidente ainda mais em um longo texto escrito para o MP em janeiro de 1989 onde constatou que "Já vemos muitos púlpitos sem mensagem e muitas pregações sem conteúdo bíblico e espiritual. Aí estão os que exercem o ministério como meio de ganhar a vida e não de ganhar almas."

Pastor Estevam era um obreiro que percebia a transição que a AD passava naquele momento. Seus textos refletem muito as preocupações doutrinárias, éticas e políticas da denominação que ele ajudou a consolidar no Brasil. E a questão ministerial era, pelo que se percebe, um ponto crucial para ele. Para um homem com uma trajetória de vida marcada pela extrema dificuldade, certamente o uso do ministério para ostentação de riqueza, poder e fama não eram facilmente digeridos. Para ele "seria vergonha um pastor morrer rico."

Mas infelizmente suas preocupações cada vez mais se confirmam. Entrevistas em que televangelistas ostentam e esbanjam abertamente, e sem qualquer pudor seus ganhos milionários são recebidos por alguns como algo normal. 

A teologia da prosperidade é adaptada, reciclada e pregada em algumas igrejas, com o único intuito de legitimar fortunas e comportamentos nada evangélicos de seus líderes. Ministério hoje é lucro, abundância, poder, manipulação, show, espetáculo, política, grandes negócios e muito mais. Mas sinônimo de sacrifício... só quem sabe para um remanescente fiel.

Fontes consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

HALO, Pekelman. Stéfano dos Anjos, do Piauí ao Maranhão, da pobreza ao reino ditoso. Artigo, em seu formato original, foi escrito em janeiro de 2006. Foi porém revisto e ampliado em virtude de sua apresentação no X Simpósio da ABHR – Assis, São Paulo.

MOTA, Elba. Modelos e limites de um estudo biográfico: a trajetória do pastor Estevam Ângelo de Souza. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD.  Ano 58, n. 1.225, jan. 1989.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro: CPAD.  Ano 62, n. 1.267, out. 1992.

sábado, 7 de julho de 2012

A Assembleia de Deus em Joinville: um pouco de sua história

Recentemente divulgados, os números do censo do IBGE revelaram a expansão das Assembleias de Deus no Brasil. Com um crescimento de 46%, saltando de 8,5 milhões de membros para 12,3 milhões, a denominação com sua diversidade de ministérios e convenções é o maior grupo evangélico no país. 

É bom lembrar que esse crescimento se dá num momento de disputas de poder interno e de fragmentações, as quais permitem que suas ramificações espalhadas pelo Brasil se portem como rivais uma das outras. Talvez, esteja ai um dos maiores motivos do crescimento assembleiano.

Os números divulgados pelo IBGE também revelam, que a Assembleia de Deus em Joinville, conta atualmente com mais de 55 mil membros, ou seja, a denominação atinge 10% da população da maior cidade de Santa Catarina. Sua história é o reflexo da própria história da denominação no país, pois as transformações ocorridas com a igreja na "Cidade dos Príncipes" foram simultâneas em outras ADs no Brasil.


Organizada em 1933, à partir de um núcleo de poucos fiéis, a AD em Joinville sobreviveu a muitas perseguições e obstáculos. Segundo os registros de sua historiografia, por volta de 1941 a igreja já contava com aproximadamente cem membros, e por estar localizada numa região de contínua expansão comercial e industrial, já se destacava como uma das principais (ou a principal) igrejas do estado catarinense. No mínimo era essa a percepção que Albert Widmer, um dos pioneiros pentecostais no estado, deixava transparecer no seu texto ao Mensageiro da Paz quando diz que:

Joinville, a mais importante cidade onde as indústrias estão em atividade, dia e noite, e o povo ordeiro procura a paz e o trabalho, não podia ficar sem a visitação da mensagem pentecostal. Em menos de 2 anos, levantou-se aqui uma igreja forte e próspera. De tempos em tempos, realizamos batismos nas águas, e o número de membros esta constantemente aumentando, tornando-se, assim, a maior igreja evangélica do Estado (Mensageiro da Paz, 1938)

No ano de 1941, ao assumir a igreja, o missionário Vilgil Smith organiza departamentos, abre congregações e lidera a construção do primeiro templo da AD em Joinville. Nessa mesma época algumas empresas estavam surgindo na cidade, gerando vários postos de trabalho e atraindo pessoas de outras regiões do estado catarinense para a cidade: Fundição Tupy (1938), Companhia Hansen Industrial (1941) e Indústria de Refrigeração Consul (1950). 

Assim, por contar com esses fatores socioeconômicos, a denominação vai se expandindo e se torna ponto de apoio para o crescimento da AD por todo norte e nordeste de Santa Catarina. Essa evolução da igreja é confirmada no relato do pioneiro João Bernardino da Silva em um relatório do trabalho pentecostal para o Mensageiro da Paz no ano de 1945 quando diz: "Joinville esta cooperando com a evangelização do grande campo norte de Santa Catarina... A igreja de Joinville coopera espiritual e materialmente com três obreiros do interior que estão levando com energia e fervor o trabalho as principais cidades..."

Porém, é a partir do fim da década de 1960 e principalmente nos anos de 1970 e 80, que a AD joinvilense terá um acentuado crescimento numérico e material. O período de forte industrialização brasileira, que envolverá a cidade de forma direta através da produção de sua principais empresas, gera uma necessidade de mão de obra, que será buscada intensamente dentro e fora da cidade. Joinville nesse momento de sua história, se torna o principal destino de várias pessoas que buscam melhorias de vida, pois a crise no campo e a intensa propaganda das empresas em busca de trabalhadores, leva a cidade a dobrar sua população em poucos anos.

Nesse contexto, a AD na cidade duplica o número de congregações e aumenta consideravelmente o número de membros. No ano do seu cinquentenário (1983), a AD na cidade conta com cerca de 47 congregações e 12 mil membros. Dessas 47 congregações, mais da metade delas foram abertas entre nos anos de 1969 e 1983 ano do jubileu de ouro da igreja. Algumas congregações são fruto direto da onda de imigração ocorrida na cidade, outras tem seus templos ampliados para dar abrigo a novos fiéis que chegam em busca de apoio e auxílio espiritual.

Nesse instante, a AD já é uma igreja respeitada. Os tempos de perseguição e de marginalização vão sendo superados para dar lugar a integração social e a crescente participação política na sociedade. A consciência de que seu espaço social deve ser ampliado, leva sua liderança ainda na década de 80, além da abertura de novas congregações, da construção do novo e moderno templo sede, a participação direta na política partidária com um candidato saído diretamente se seu rol de membros.

Assim, a AD em Joinville chega aos 55 mil membros e quase 80 anos de fundação com rápidas transformações sociais e políticas. Dos cem membros perseguidos dos seus primeiros anos, passando pelos 12 mil que experimentaram uma série de mudanças socioeconômicas, divisões e a inserção na política partidária, a AD chega aos dias de hoje com um patrimônio material e numérico vistoso, cobiçado e representativo da sociedade na qual esta inserida.

Fontes:

GUEDES, Sandra P. L. de Camargo; GORDON, Eleide Abril. Hospital Público é assim mesmo! Joinville: Univille, 2004.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de janeiro. 1º quinzena de março 1938.

MENSAGEIRO DA PAZ. Rio de Janeiro. 1º quinzena de julho 1945.

POMMERENING, Claiton Ivan (Org.). O Reino entre príncipes e princesas: 75 anos de história da Assembléia de Deus em Joinville. Joinville: REFIDIM, 2008.

TERNES, Apolinário. História de Joinville: uma abordagem crítica. 2. ed. Joinville: Meyer, 1984.

VIEIRA, Adelor F. (Org.). 1983 - ano do cinqüentenário da Igreja Evangélica Assembléia de Deus Joinville - SC. Joinville: Manchester.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Assembléia de Deus de Perus e a cisão Madureira /CGADB


Por Maxwell Fajardo *

O Ministério de Perus é atualmente um dos ramos da Assembléia de Deus que mais tem aberto congregações em diferentes locais do país. O Ministério conta atualmente com cerca de 1100 congregações espalhadas por 23 estados do Brasil e mais 17 outros países.

Com sede no bairro de Perus, periferia de São Paulo, o Ministério completará em 2012 seu 66º aniversário de fundação. Apesar do grande número de congregações e abrangência no território nacional, o Ministério de Perus nunca recebeu grande atenção na historiografia oficial assembleiana, embora o nome de seu fundador, Benjamin Felipe Rodrigues tenha aparecido com veemência durante os debates convencionais da 1ª Assembléia Geral Extraordinária da CGADB em 1989, quando os pastores e evangelistas do Ministério de Madureira foram desligados da Convenção Geral.

O Pr. Benjamin assumiu a igreja na região de Perus em 1950. Na época de sua chegada, a igreja resumia-se a um pequeno salão onde se reuniam não mais que duas dezenas de pessoas. O trabalho era uma congregação do Campo de Madureira em São Caetano do Sul.

Pr. Benjamim (à esquerda): líder da AD ministério de Perus


A partir da atuação de Benjamin a igreja expandiu-se no bairro e novas congregações foram abertas, recebendo por parte do Ministério de Madureira a autonomia de campo em 1959. Além de estender-se pelo bairro, a expansão do Campo de Perus alcançou as cidades vizinhas de Franco da Rocha, Francisco Morato, Mairiporã, Caieiras e Campo Limpo Paulista, não demorando chegar a cidades do interior de São Paulo e outros estados, começando pelo Paraná e Mato Grosso do Sul.

Na década de 1980 o Campo de Perus entrou nos debates convencionais da CGADB a partir de mais um dos já antigos debates sobre a “invasão de campos eclesiásticos”. O debate começou a partir da abertura de uma congregação por parte do Campo de Perus na cidade de Cuiabá, região onde atualmente está um dos maiores templos do Ministério do Belém no Brasil. A abertura da igreja em Cuiabá veio como uma gota d’água nas já tumultuadas relações do Ministério de Madureira com a CGADB, motivando inclusive a convocação da 1ª Assembléia Geral Extraordinária da Entidade, quando o Pr. Benjamin foi descredenciado dos quadros da Convenção (Daniel, 2004: 527).

O Ministério de Madureira demonstrou solidariedade ao Pr. Benjamin, provocando a reação da Mesa Diretora com o desligamento dos ministros de Madureira do quadros da Convenção, provocando a primeira grande cisão na história da Assembléia de Deus brasileira.

Mesmo após a cisão, Pr. Benjamin não parou de abrir novas igrejas em diferentes cidades brasileiras. Presidiu o Campo de Perus até 2002, quando faleceu após uma longa luta contra diversos problemas de saúde. Foi substituído por seu vice-presidente, Pr. Elias Cardoso, que permanece até hoje à frente da igreja.

O Campo de Perus continuou ligado ao Ministério de Madureira até 2006, quando, criou sua própria Convenção, passando a denominar-se Ministério de Perus.

* Maxwell Fajardo é Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Doutorando em História pela UNESP. Professor de história na rede pública municipal de São Paulo. Ministro do Evangelho e professor da Escola Bíblica Dominical na Igreja Assembléia de Deus.

Referências: 
                             
DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Jaeiro: CPAD, 2004

FAJARDO, Maxwell Pinheiro. Pentecostais, migração e redes religiosas na periferia de São Paulo: um estudo do bairro de Perus. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião. Universidade Metodista de São Paulo: São Bernardo do Campo, 2011

Conselho Nacional de Missões da Assembléia de Deus Ministério de Perus: http://www.conampe.com.br . Acesso em 1º Maio de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

Antonio Torres Galvão - um assembleiano no poder

Antonio Torres Galvão, se destaca na história assembleiana por diversos motivos. Foi um dos pioneiros da Assembleia de Deus no nordeste brasileiro, pastor, escritor, pregador e compositor evangélico. Mas o que o torna singular em sua biografia foi sua militância política e sindical numa época em que poucos pentecostais se aventuravam nessas plagas.

Segundo Araújo (2007), Torres Galvão era um político considerado progressista, com fortes preocupações sociais e, como líder que era, organizou o Sindicato de Fiação e Tecelagem em Paulista - PE. Enfrentou a poderosa família Lundgren proprietária das Casa Pernambucanas, defendendo interesses dos funcionários pertencentes a essas empresas. 

Autodidata, trabalhou como juiz do trabalho e intérprete de funcionários estrangeiros que trabalhavam na região de Pernambuco. Conseguiu reconhecimento e representação para se eleger deputado estadual em 1946, sendo reeleito em 1950 com a maior votação para o cargo no estado Pernambucano. Diante do clima de perseguição que afetava os crentes pentecostais, sua eleição foi vista com resposta de Deus as orações dos fieis.

Com a morte do governador Agamenon Magalhães, Torres Galvão sendo já presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, assume o governo num mandato de 110 dias até a posse do novo chefe do executivo estadual. Na condição de governador se recusou a acompanhar procissões, e de participar de festas consideradas pagãs ou carnavais, não aceitando a alegação de que sua participação era necessária, pois isso era para muitos um "dever social inerente ao cargo". Faleceu em 1954 vítima de um infarte, poucos meses antes de concluir seu mandato, morrendo com ele também as pretensões de ser prefeito da cidade de Paulista.

Reportagem de A Seara: destaque para Torres Galvão

Mesmo com toda essa biografia, Torres Galvão é praticamente ignorado na historiografia assembleiana até a década de 1980. Emílio Conde (1960) sequer o menciona; Abraão de Almeida cita-o simplesmente como pioneiro da AD em Pernambuco. Freston (1994) levanta a hipótese que talvez sua participação em sindicatos e sua reconhecida tendência à esquerda tenham feito os autores e a lideranças na época a ignorá-lo. Curiosamente, Torres Galvão foi destaque na revista assembleiana A Seara de 1957. A revista tinha como objetivos destacar a presença e o crescimento de pentecostais nas diversas áreas da sociedade, e Galvão é homenageado postumamente, sendo citado como exemplo para os fieis por sua perseverança nos estudos e na atuação política. Mesmo com todo esse destaque, três anos depois em seu livro, Conde o ignora.

Porém, com a crescente atuação política da denominação à partir de meados dos anos 80, sua biografia cada vez mais tem sido destacada e revalorizada, para legitimar outas candidaturas e projetos políticos-eclesiásticos. Muitos assembleianos que antes mantinham uma postura apolítica e até viam a política como algo totalmente secular, de repente são apresentados há um pioneiro, pregador e pastor pentecostal, que atingiu em sua época, uma posição relevante na sociedade pernambucana. São coisas para se pensar...


ALMEIDA, Abraão de, et alii. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CONDE, Emílio. História das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 1960.

FRESTON, Paul. Evangélicos na Política Brasileira: história ambígua e desafio ético. Curitiba: Encontrão Editora, 1994.

Mensageiro da Paz. número 2, ano 47, 1977: CPAD (suplemento especial)

Revista A Seara  nov/dez de 1957: CPAD

sábado, 3 de março de 2012

Frida Vingren: desabafos no Mensageiro da Paz

A memória da pioneira Frida Vingren, ultimamente tem sido alvo nos últimos anos de várias discussões e polêmicas. Esquecida pela historiografia oficial das Assembleias de Deus, sua atuação, direção e ministério à frente da nascente igreja pentecostal, tem sido de certa forma "resgatado", tanto pelos historiadores assembleianos, como pelos estudiosos não ligados à denominação.

Gedeon Alencar levanta algumas hipóteses sobre a atuação dessa senhora no início do trabalho pentecostal no Brasil. Para ele, com Gunnar Vingren quase sempre doente e enfermo, era ela quem dirigia a igreja na cidade do Rio de Janeiro; tanto na ausência como na presença do esposo. Ela pregava, dirigia, cantava, tocava, escrevia, ou seja, exercia inúmeras funções na igreja. Porém, Frida e seu estilo de liderança, não foram aceitos pelos líderes da AD no Brasil, os quais na primeira Convenção Geral decidiram que:
As irmãs têm todo o direito de participar da obra evangélica, testificando de Jesus e a sua salvação, e também ensinando quando for necessário. Mas não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8 (uma referência ao princípio de necessidade). Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar.
A decisão da Convenção ocorreu em setembro de 1930. Cinco meses depois, Frida Vingren escreve um vigoroso artigo no Mensageiro da Paz. Poderia ser simplesmente mais um texto, dos vários que ela escreveu ao periódico assembleiano. Porém esse artigo, escrito pouco tempo depois da primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, expõe muito do que a história oficial não revela. Com o título de Deus mobilizando suas tropas, a senhora Vingren desabafa, crítica e expõe claramente sua posição em relação a decisão da Convenção de pastores. O texto começa, com a argumentação de que Deus está mobilizando seu povo para a batalha espiritual, e precisa de todos os materiais e instrumentos para realizar sua obra aqui na terra. E é no desenvolvimento da escrita, que Frida expõe o seguinte:
Despertemo-nos, para atender o chamado do Rei, alistando-nos nas suas fileiras. As irmãs das "assembleias de Deus", que igualmente, como os irmãos têm recebido o Espírito Santo, e portanto, possuem a mesma responsabilidade de levar a mensagem aos pecadores precisam convencer-se que precisam fazer mais do que tratar dos deveres domésticos. Sim, podem também, quando chamadas pelo Espírito Santo, sair e anunciar o Evangelho. Em todas as partes do mundo, e especialmente no trabalho pentecostal, as irmãs tomam grande parte na evangelização. Na Suécia, país pequeno com cerca de 7 milhões de habitantes, existem um grande número de irmãs evangelistas, que saem por toda parte anunciando o Evangelho, entrando em lugares novos e trabalhando exclusivamente no Evangelho. Dirigem cultos, testificam e falam da palavra do Senhor, aonde há uma porta aberta. (Os que estiveram na convenção em Natal e ouviram o pastor Lewi Pethrus falar desse assunto sabem que é verdade). Por qual razão, as irmãs brasileiras hão de ficar atrasadas? Será, que o campo não chega, ou que Deus não quer? Creio que não. Será falta de coragem? Na "parada das tropas" a qual teve lugar aqui no Rio, depois da revolução, tomou também parte, um batalhão de moças do estado de Minas Gerais, as quais tinham se alistado para a luta. (MP 1º de fevereiro de 1931 p.6)
Frida, publicamente contesta a resolução da Convenção Geral. Revela informações atribuídas a Lewi Pethrus de que as mulheres na Suécia tinham liberdade de pregar, evangelizar e trabalhar em caráter exclusivo na obra pentecostal, enquanto que a resolução da CGADB dizia que as irmãs poderiam testificar e ensinar, mas somente poderiam de fato exercer o ministério em casos excepcionais. 

Nota-se o argumento de Frida já desenvolvido por ela em outro artigo publicado no Boa Semente (periódico antecessor do Mensageiro da Paz), no qual ela fala sobre a presença do Espírito Santo na vida do fiel, e capacitador tanto de homens como de mulheres ao ministério da palavra. Para ela, ministério não era questão de gênero, de ser homem ou mulher, mas dom do Espírito Santo a sua igreja.

E para reforçar seus argumentos, Frida recorre a um evento do qual ela foi testemunha ocular: a Revolução de 1930. Sendo moradora da então Capital Federal, ela testemunhou a chegada das tropas revolucionárias, e entre essas tropas ela viu com entusiasmo um "batalhão de moças do estado de Minas Gerais, as quais tinham se alistado para a luta". É nesse fato secular, que Frida apóia seus argumentos, para que as mulheres pentecostais fossem além de suas obrigações domésticas. Interessante é que ainda na década de 30 as mulheres conquistam seu direito de voto e participação política no Brasil.

Percebe-se assim,  no texto da pioneira, aquilo que a história oficial não revela, ou seja, um inconformismo, um sentimento de indignação pelo fato das mulheres das ADs no Brasil serem relegadas a um segundo plano na prática ministerial do pentecostalismo daquela época.


Fontes

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

Mensageiro da Paz. 1º de fevereiro de 1931. Ano 1 - nº3, p.6