domingo, 11 de dezembro de 2011

Foto Memória: A AD de Joinville nos anos 50

A foto abaixo, foi enviada gentilmente pela irmã Rosani Biscaia. A fotografia mostra em outro ângulo e de maneira mais próxima, uma outra imagem publicada nesse blog em abril de 2011. A imagem enviada pela minha querida colaboradora, permite o reconhecimento de uma maior quantidade de pastores e membros da Assembleia de Deus em Joinville e Santa Catarina. Outra vantagem, é que a foto enviada permite saber o dia, mês e ano exato do registro fotográfico.

Foto postada em abril: fachada do antigo templo sede de Joinville com líderes e membros à frente.


Foto enviada pela irmã Rosani: além da data é possível reconhecer líderes e irmãos da igreja

Os pastores que se podem  reconhecer são: Satyro Loureiro então líder da igreja, missionário J. P. Kolenda, pastores Osmar Cabral, Antônio Lemos, Reinoldo Hass, João Hungur, Antonieto Grangeiro Sobrinho Manoel Germano de Miranda, Liosés Domiciano e Ariel G. de Anunciação.

Caso algum leitor identifique mais pessoas, escreva no espaço reservado aos comentários, que gradualmente se estará modificando o texto para adicionar informações enviadas.

Agradeço a irmã Rosani, neta do pioneiro Manoel Germano de Miranda, que foi primeiro pastor da Assembleia de Deus em Joinville e sobrinha do pastor José João Vieira (hoje jubilado) que também foi um dos pastores da igreja na cidade.

Deus lhe abençoe!




sábado, 5 de novembro de 2011

A Assembleia de Deus e sua fragmentação



A Assembleia de Deus no Brasil, sempre teve ao logo da sua história, problemas para manter sua unidade. Isso fica evidente na sua própria história oficial, ao revelar, que a primeira Convenção Geral, foi convocada por pastores brasileiros para reivindicar maior autonomia na condução dos trabalhos abertos no país. Os suecos, tiveram que abrir mão das principais igrejas abertas até então.

Depois, com o crescimento de algumas igrejas, e as consequentes disputas por poder, alguns líderes começaram a fundar os chamados "ministérios". Isso significava que tal igreja ou "ministério" era na verdade em muitos casos uma cisão dentro da denominação. Assim a Assembleia de Deus, se tornou uma denominação com vários ministérios concorrentes entre si e assim a unidade se tornou impossível.

Vale à pena recordar as palavras do pastor José Pimentel de Carvalho em entrevista ao jornal O Assembleiano em 1987. Perguntado sobre os seus esforços como um dos principais líderes da CGADB para manter a unidade da denominação ele respondeu que:
Hoje eu estou apenas apreciando o cenário e estou verificando que talvez esse fracionamento seja irreversível, isto porque o desvirtuar da unidade começou há muito tempo, por volta de 1940, de modo que convivi com o problema no Rio de Janeiro por 17 anos. Já na época, não houve formas de voltar à unidade e esse desvio avolumou-se.
Passados tantos anos dessa memorável entrevista, as Assembleias de Deus ainda continuam em franco processo de fragmentação. Porém, cada vez mais se acentuam nas igrejas as diferenças teológicas, litúrgicas e ministeriais. Antes, as divisões se davam entre convenções e líderes, mas se percebia uma unidade no perfil das igrejas.

Com o advento da teologia da prosperidade, e o surgimento de novas igrejas e o crescimento da concorrência, é comum cada vez mais o uso de inovações e estratégias para atrair o povo. E dentro dessa perspectiva, observa-se igrejas ou ministérios assembleianos totalmente descaracterizados, ou irreconhecíveis em suas formas litúrgicas e ministeriais.

É por isso que hoje encontramos Assembleias de Deus "à moda antiga", e Assembleias de Deus do "samba do crioulo doido". Infelizmente a Assembleia de Deus do "samba do crioulo doido" é o modelo mais adotado e o que esta em maior sintonia com o mercado evangélico nos últimos dias.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Assembleia de Deus segundo Erico Verissimo

O livro Incidente em Antares (1971) é uma das últimas obras do escritor gaúcho Erico Veríssimo (1905-1975). Escrito durante a vigência do Regime Militar, a história é uma irônica crítica que o autor faz não só ao regime com suas repressões e censuras, mas a toda sociedade brasileira. Ao criar uma cidade fictícia e uma história tão inusitada, o escritor na verdade prepara seus leitores para o desnudamento das hipocrisias e perversidades, a qual estão encobertas sob nomes dignos como moral, tradição e religião.


No romance, como é próprio das histórias de Veríssimo, muitos personagens são estereótipos da realidade, ou uma síntese de situações históricas, as quais o romancista deseja denunciar. Além disso, a obra retrata com muita peculiaridade o clima político existente no Brasil antes do golpe de 1964.

Antares é uma síntese da sociedade brasileira, onde o autor apresenta com ironia e bom humor em alguns momentos, e com dramaticidade em outros, o que se passava na nação antes do golpe político-militar dos anos 60. Entre os muitos personagens representativos da sociedade, uma delas nos chama à atenção pela observação arguta do grande escritor.
Naquela manhã, cerca das sete horas, Acácia entrou no gabinete do prefeito de Antares para fazer a limpeza de rotina. Sofria de elefantíase e movia-se com pesada lentidão dum paquiderme. Costumava trabalhar resmungando todo o tempo para si mesma e para as almas, os anjos e os demônios que sentia permanentemente ao seu redor... Todas as manhãs, tirante a de domingo, antes de começar a limpeza da peça, Acácia costumava ajoelhar-se diante da imagem do Pai dos Pobres e recitar atabalhoadamente uma oração. Em geral um Padre-Nosso. A negra velha era a encarnação dum curioso sincretismo religioso. Macumbeira, mãe-de-santo, devota de São Jorge, ela também ia à missa aos domingos, fazia promessa a Nossa Senhora, e de vez em quando se confessava e comungava. Ultimamente dera para frequentar a Assembléia de Deus, pois lá encontrava a oportunidade, que a encantava, de entoar hinos com os demais crentes. (p. 301-302) Grifou-se.
É interessante como Veríssimo retrata a personagem. Acácia é descrita como uma senhora pobre, de origem simples, com um trabalho humilde, a qual encarna segundo a ótica do autor a extrema religiosidade popular.

Ela é católica, macumbeira e pentecostal ao mesmo tempo. Convém lembrar, que o sincretismo religioso observado pelo escritor foi uma situação histórico-religiosa construída em muitos anos pelos escravos e seus descendentes no período da escravidão. Impossibilitados de praticar seus cultos aos deuses de sua religião, forçados a se cristianizarem, os escravos camuflaram seus deuses e crenças na adoração aos santos católicos. Então a referência ao sincretismo de Acácia é uma constatação de uma realidade histórica vivida em todo o Brasil por milhões de afrodescendentes.

Porém o que chama à atenção é o destaque dado à outra opção religiosa que se apresentava para esta senhora. Diz o romancista "Ultimamente dera para frequentar a Assembléia de Deus, pois lá encontrava a oportunidade, que a encantava, de entoar hinos com os demais crentes".

Algumas considerações podem ser feitas a partir desse texto, o qual de certa forma revela não só as impressões do autor sobre o movimento pentecostal representado na Assembleia de Deus, como a própria constituição do pentecostalismo naquele momento.

Em primeiro lugar encontra-se a constatação da expansão geográfica da Assembleia de Deus. Antares como já se observou é uma cidade fictícia, onde os personagens e situações são representações da sociedade brasileira. Mas, mesmo na ficção a Assembleia de Deus aparece como representante do movimento pentecostal.

Nesse caso se tem a constatação real e irônica da frase que diz "onde houver Coca-Cola e uma agência de correio ali há uma Assembleia de Deus". Mesmo na imaginária cidade de Antares a igreja tem o seu espaço garantido. Ou seja, a simples menção da igreja, revela que o escritor percebia como a denominação já estava espalhada por vários municípios gaúchos e brasileiros.

Em segundo lugar é o nível social de seus membros ou frequentadores. Acácia é uma senhora doente, de emprego e ganhos humildes, pouca escolaridade e de uma credulidade extrema. A observação do romancista somente comprova o que a história do pentecostalismo já ressalta. A grande parcela de membros das igrejas pentecostais são na sua maioria pessoas de menor renda, escolaridade e consequentemente de menor acesso as oportunidades de crescimento social. 

E por último se verifica a forma de protestantismo popular e participativo apresentado por Veríssimo. Longe do elitismo de algumas igrejas históricas, na Assembleia ela podia cantar com os demais crentes. Ao invés de ser uma mera expectadora, Acácia se sentia uma protagonista do culto evangélico.

É interessantíssima a observação, pois resgata a lembrança de que o pentecostalismo cresceu como um movimento religioso de leigos, com pouca diferenciação social entre seus membros e líderes. Hoje, obviamente em algumas igrejas, principalmente nos centros urbanos mais desenvolvidos percebem-se as diferenciações sociais onde o membro comum não encontra mais espaço na liturgia, sendo um mero expectador do culto evangélico.

Com as transformações sociais ocorridas desde a publicação do romance, muita coisa mudou dentro da Assembleia de Deus. Permanências da representação que o escritor fez ainda são visíveis; porém transformações também ocorreram e são perceptíveis aos estudiosos do pentecostalismo.

Caso estivesse hoje presente em nosso meio, qual seria a representação da Assembleia de Deus que o grande escritor faria? Identificaria seus membros com as classes mais humildes da população? E os cultos? Seriam ainda participativos, ou aos fieis seria dado simplesmente a oportunidade de contribuir com seus dízimos e ofertas? Perceberia o renomado escritor, a influência da famigerada teologia da prosperidade nas pregações e cânticos?

A resposta é um belo exercício de imaginação.

Fontes:

FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais; sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares - 49. ed.-São Paulo: Globo, 1997.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus em Santa Catarina: o pioneiro André Bernardino

André Bernardino da Silva fundou a Assembleia de Deus em Santa Catarina no dia 15 de março de 1931 na cidade portuária de Itajaí. Segundo as fontes disponíveis, organizou a AD ainda no mesmo ano em Blumenau, e em São Francisco do Sul. Em 1933 foi atuante na fundação das igreja de Guaramirim e Joinville. No dia 3 de janeiro de 1932, em visita a Itajaí, o missionário Gunnar Vingren separa Bernardino a pastor, mas faz a seguinte observação: "Não deveria consagrá-lo ao ministério. Você ainda tem muito pouco tempo de conversão e é solteiro, mas devido a falta de obreiros vou separá-lo para o pastorado". Por 12 anos, André Bernardino trabalha na fundação e na organização de igrejas da AD no estado catarinense. Ao ser entrevistado para a Revista do Jubileu de Ouro das Assembleias de Deus de Santa Catarina e Sudoeste do Paraná, André afirma que seu substituto no trabalho foi o missionário Albert Widmer.

Numa primeira e superficial leitura dos registros históricos, fica a impressão de que Widmer foi o substituto natural de Bernardino, o qual após trabalhar mais de uma década em terras catarinenses se retira para outras searas. Mas algumas contradições na historiografia oficial e as memórias de quem conviveu com o pioneiro, indicam que Bernardino ao se despedir de SC, já há muito tempo havia sido suplantado por Albert Widmer na liderança da AD catarinense.

Não se sabe exatamente o ano em que Albert Widmer chegou à Santa Catarina, mas se observa que não muito depois da fundação das primeiras igrejas ele já estava atuando. Em suas memórias, Daniel Graudin da Silva (filho de André Bernardino), relata que Widmer não pertencia a AD e sim a outro ministério pentecostal. Seu pai teria o convidado para ingressar na AD e logo depois, Widmer teria suplantado seu pai na liderança do trabalho.

A versão do filho de Bernardino contradiz a historiografia oficial, quando se observa que Widmer já colaborava com o Mensageiro da Paz no ano de 1935 com traduções de artigos; indicando assim sua filiação à denominação. Mas registros comprovam que Widmer separou ainda no início da década obreiros ao diaconato e ao presbitério em Blumenau, comprovando que o suíço já liderava a AD nessa época. Também diverge muito a versão apresentada pelo familiar de André sobre a saída de Albert do Brasil. Segundo a historiografia oficial, o missionário teria entregado o trabalho a J. P. Kolenda por problemas financeiros gerados pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Widmer era sustentado por ofertas vindas de igrejas da Inglaterra. Na versão apresentada por Daniel da Silva, o suíço teria saído por motivos menos nobres.

Para quem esta acostumado com a historiografia oficial da AD, a versão da família de Bernardino soa um tanto estranha se comparada com as informações conhecidas e divulgadas há tantos anos pela denominação. Mas não é novidade, que muitos escândalos e cismas nos ministérios da AD, são camuflados e revestidos de uma linguagem e escrita heroica, visando sempre a edificação dos fiéis.

O fato é que ao deixar Santa Catarina, Bernadino não era mais líder há muito tempo do trabalho pentecostal no Estado. Também é certo, que ao sair, André já não estava mais em comunhão com a igreja, e assim permaneceu por muitos anos, pois no ano de sua saída (1943), foi publicada uma declaração assinada pelos principais líderes da AD em SC, informando que o pioneiro havia sido desligado do ministério das AD. Ou seja, o pioneiro não foi substituído por Widmer e sim suplantado por ele na liderança, e ao deixar o Estado já estava fora da denominação que fundou anos antes. Talvez por esses motivos, a literatura oficial da CPAD considera J. P. Kolenda o primeiro líder oficial da AD em terras catarinenses.

Ainda, segundo as fontes disponíveis, Bernardino fundou várias igrejas no interior de São Paulo, e na década de 1960 encontrava-se em Brasília (DF). Na nova capital, André participa de uma polêmica divisão em uma congregação da AD do ministério de madureira. Um grupo de obreiros queria colocá-lo como líder substituto do pastor local do qual discordavam. Bernardino, juntamente com o grupo descontente é desligado da comunhão da igreja e meses depois passa a congregar na AD ligada ao ministério de São Cristóvão (RJ).

No fim de sua vida, volta para o estado do Rio de Janeiro, vindo a falecer no dia 8 de agosto de 1992 na cidade de Macaé.

Obras consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MAFRA, Carlos. Capítulos que movem nossas vidas. Blumenau: Nova Letra, 2009.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

Revista do Jubileu de Ouro das Assembleia de Deus  em Santa Catarina e Sudoeste do Paraná (1981)

Entrevista concedida por Daniel Graudin da Silva no dia 10 de setembro de 2008.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus em Santa Catarina: contradições historiográficas

O ano de 2011, marca não somente as celebrações do centenário das Assembleias de Deus no Brasil, mas também, os 80 anos de fundação da igreja no Estado de Santa Catarina.

Foi na cidade portuária de Itajaí, que o jovem André Bernardino da Silva, realizou no dia 15 de março de 1931 o primeiro culto da denominação em terras catarinenses. Bernardino, havia se convertido no ano anterior na cidade do Rio de Janeiro, após ser curado de tuberculose através da oração dos pioneiros Gunnar Vingren e Paulo Leivas Macalão. Restabelecido da enfermidade, o jovem André passou a colaborar na AD de São Cristóvão com seus talentos musicais e recebendo instruções dos missionários. Depois de alguns meses, retornou a Itajaí, e nessa cidade iniciou o trabalho pentecostal da Assembleia de Deus.

Simples é contar o início da denominação, mas difícil é conciliar a historiografia disponível sobre os primeiros anos da igreja e o papel dos seus primeiros líderes. André Bernardino foi sem dúvida o pioneiro que fundou a primeira AD no Estado em Itajaí e nas cidades próximas. Porém, ao que tudo indica, Bernardino não consegue manter sua liderança à frente da denominação, e outro obreiro aparece nos registros como sucessor de André: Albert Widmer.

Widmer, ainda com a presença de Bernardino no Estado catarinense, desempenha o papel de líder do trabalho pentecostal. Suíço de origem metodista, Albert Widmer é enviado ao Brasil sendo sustentado pelas igrejas da Inglaterra. Segundo Isael de Araújo no seu Dicionário do Movimento Pentecostal, ele teria percorrido o Brasil, tendo passado pelo estados do Amazonas, Pernambuco, Bahia e São Paulo. Ainda segundo Araújo, aparecem registros de artigos traduzidos pelo missionário para o Mensageiro da Paz no ano de 1935. Em 1936, Widmer teria se transferido de São Paulo para Santa Catarina, mais especificamente para a cidade de Itajaí, local onde a AD através de André Bernardino, recém tinha aberto uma congregação.

É nesse ponto que a bibliografia disponível sobre esse pioneiro se contradiz. Pois se Araújo aponta o ano de 1936 como referência ou marco da chegada e Widmer a Santa Catarina, o escritor Carlos Mafra, com base em uma entrevista com o filho de André Bernadino, afirma que em 1934, após uma conversa de Bernardino com o suíço, este teria se transferido para a AD. Segundo as memórias e a versão do filho de Bernardino, Widmer não pertencia a denominação assembleiana, e sim a um outro trabalho pentecostal muito próximo a igreja da AD. Depois de alguns meses, na versão escrita por Mafra, Widmer assume a igreja de Itajaí e André Bernardino transfere-se para a cidade de Blumenau.

Já outro escritor, Ismael dos Santos, data a chegada do missionário suíço no final dos anos 30 sendo o mesmo procedente do Rio Grande do Sul. Segundo esse autor, Widmer se estabeleceu nesse tempo na cidade de Florianópolis, de onde semanalmente atendia as congregações da AD. Mas contraditoriamente, aponta a presença do mesmo em 1936 como fundador da igreja de Imbituba, e em outra parte do seu livro, relata que ainda no início dos anos 30, Widmer separa em 1932 Antônio Lemos para o diaconato e Ananias Castellain para o presbitério de Blumenau.

Mesmo com as versões discordantes, o fato é que Albert Widmer (segundo os autores consultados) aparece como o líder da denominação ao fim da década de 30 em Santa Catarina. Mafra apresenta em seu livro uma cópia do certificado de Presbítero regional de um dos primeiros obreiros, com a assinatura de Widmer como presidente da igreja no estado, como forma de comprovar que nesse tempo, é o suíço que responde pela liderança da denominação. Há também, uma unanimidade dos autores em reconhecer, que foi Widmer que convidou J. P. Kolenda para assumir seu lugar na liderança da denominação em Santa Catarina. Outra informação unânime, é que Widmer teria se transferido para o Paraguai após a chegada de Kolenda ao estado. O motivo de sua saída teriam sido problemas financeiros ocasionados com a deflagração da Segunda Guerra Mundial, na qual a Inglaterra (de onde provinha seus recursos) estava envolvida.

E André Bernardino? Qual o papel desse pioneiro nesse contexto? Esse é assunto para a próxima postagem.

Obras consultadas:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MAFRA, Carlos. Capítulos que movem nossas vidas. Blumenau: Nova Letra, 2009.

SANTOS, Ismael. Raízes da nossa fé: A história das Igrejas Evangélicas Assembleias de Deus em Santa Catarina e no Sudoeste do Paraná. Blumenau: Letra Viva, 1996.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os 80 anos da Assembleia de Deus no O Assembleiano



"Há 80 anos, no dia 18 de junho de 1911, nascia o maior e mais tradicional movimento pentecostal do Brasil: a Assembléia de Deus." Com essas palavras, o jornal O Assembleiano iniciava sua reportagem especial sobre os 80 das Assembleias de Deus no Brasil.

Escrita por Judson Canto e Ildo Campêlo (in memoriam), a matéria aprofundava questões históricas e sociológicas da denominação, e trazia um panorama geral das festividades ocorridas em junho de 1991, na cidade de Belém do Pará. Além disso, o texto descrevia à evolução administrativa e, principalmente, a contextualização da igreja; contextualização essa descrita como "gradativa e irreversível".

Há também na reportagem, várias observações de líderes e pioneiros sobre o delicado momento que às ADs atravessavam depois de oito décadas de fundação. Alguns com maior pessimismo, como o pastor Satyro Loureiro de Joinville, que observou: "ao lado do crescimento do trabalho no campo espiritual, houve também grande desenvolvimento cultural e financeiro, que possivelmente tenha determinado certos limites no aperfeiçoamento da igreja". 

O pastor José Pimentel de Carvalho de Curitiba, por sua vez, declarou que na igreja estava "... havendo algumas modificações, alguns avanços em direção ao modernismo e ao mundanismo...", contudo, se declarava otimista com a denominação, ainda que "... pequenos grupos estão declinando, voltando a prática de coisas inconvenientes como vaidades e mundanismo, mas a genuína Assembleia de Deus está viva, poderosa e continua sua marcha".

Porém, a grande maioria dos entrevistados, explicitava otimismo em relação ao trabalho pentecostal. Revelavam em suas palavras, características positivas das Assembleias de Deus. Deixo aqui para o leitor do blog, algumas frases, opiniões e análises, garimpadas pela equipe do jornal O Assembleiano durante a celebração de 80 anos das Assembleias de Deus no Brasil.

"Deus tem promovido este movimento, que já alcançou todo o Brasil e já ultrapassa fronteiras, porque, regra geral, os movimentos evangélicos começam a decrescer quando alcançam 50 anos, ao passo que o nosso continua avançando". (Pastor Túlio Barros Ferreira - Assembleia de Deus de São Cristóvão - RJ)

"Oitenta anos de Assembleia de Deus impressiona qualquer historiador". (Pastor Delfim Brunelli - Assembleia de Deus Casa Verde - SP)

"Hoje louvamos ao Senhor porque encontramos entre nós gente de todas as atividades profissionais, como na minha igreja, que tem médicos, advogados, engenheiros e militares graduados. Já não somos mais aquele pessoal que só trabalhava com favelados e gente da construção civil". (Pastor José Ezequiel - Assembleia de Deus de Taubaté - SP)

"Nossos pioneiros foram guiados por Deus e andavam dentro dos parâmetros da Palavra de Deus na evangelização, no ensino e na construção de igrejas. A igreja é uma dinâmica, e nessa dinâmica, os pioneiros souberam aproveitar as oportunidades do ponto de vista cultural e sociológico. Os pioneiros investiram grandemente na construção de congregações, isto é, não esperavam que o povo fosse a igreja, mas levavam a igreja ao povo, fazendo um verdadeiro trabalho de penetração nos recantos brasileiros. Este foi um dos fatores mais importantes para o crescimento da Assembleias de Deus nessas oito décadas debaixo da unção de Espírito Santo". (Pastor João Kolenda Lemos ex-diretor do Instituto Bíblico de Pindamonhangaba - SP)

"Se eles (os pioneiros Daniel Berg e Gunnar Vingren) observassem esta festa ficariam admirados... e felizes". (Pastor Armando Chaves Cohen)

"Esses 80 anos têm um grande significado. Entendemos que é o resultado de um trabalho fecundo realizado em todo território nacional, e a nossa vinda aqui em Belém foi simplesmente para rememorar e fazer o nosso coração vibrar mais uma vez com a obra maravilhosa que Deus iniciou através daqueles dois servos Seus e que espalhada está em todo Brasil". (Pastor José Wellington Bezerra da Costa - presidente do Ministério do Belenzinho em SP e da CGADB)

"Se meu pai estivesse aqui hoje, pensaria que era um sonho este tamanho desenvolvimento da trabalho iniciado por ele e Daniel Berg. Ele não sabia qual seria o fruto desta obra, depois dos tempos que iriam passar, pois não podia imaginar a grandeza do trabalho, porque ele foi enviado por deus, pelo Deis Vivo, que sabia das necessidades do Brasil". (Bertil Vingren - filho do pioneiro Gunnar Vingren)

Fonte: O Assembleiano- Joinville edição junho/julho de 1991 -p.5-6

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A escrita da história assembleiana: algumas reflexões

Nos últimos anos a Assembleia de Deus, ou os responsáveis por escrever sua história tem procurado, através da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), servir o grande número de fieis dessa denominação, com livros históricos, nos quais a saga dos pioneiros pentecostais é revalorizada.

Nada mais natural, pois na medida em que se aproxima o centenário das Assembleias de Deus, o interesse pela história da denominação aumenta. A institucionalização da igreja e o "aburguesamento" dos membros e ministério da AD também contribui para isso. Como afirmou o sociólogo Paul Freston quando há um processo de ascensão social por parte da denominação, e ela passa a ser uma "igreja erudita", a preocupação com o controle de sua história aumenta.

Alguns livros lançados pela CPAD nos últimos anos, tem sido de grande contribuição para estudiosos e pesquisadores do movimento pentecostal. É óbvio que por se tratar de uma "história oficial", as obras editadas pela CPAD, devem ser lidas com certo espírito crítico, pois nesses livros se encontram os fatos que líderes da denominação no presente momento autorizaram a ser divulgado. Com toda certeza, muitos outros fatos históricos (ou versões) ficaram de fora, e o leitor terá tão somente uma visão parcial dos acontecimentos.

Mas algumas considerações devem ser feitas sobre a atual historiografia assembleiana.

Os livros históricos da CPAD procuram realmente informar melhor o seu público sobre a história assembleiana, trazer conhecimentos relevantes da denominação, ou será que simplesmente a editora esta procurando trazer à tona conhecimentos já divulgados por teses e estudos de historiadores e sociólogos não comprometidos com o status quo da denominação?

É impressionante a similaridade de informações que se encontram nas obras da CPAD com as de outros trabalhos já anteriormente publicados. O pior é que um desses livros, é na verdade em grande parte, uma compilação de vários outros livros já editados e estão reunidos nessa obra. Evidente que lá ao final dos textos estão as fontes, mas se o leitor acompanhar atentamente, verificará que em vez de se parafrasear, ou sintetizar com suas próprias palavras os textos, o autor (ou compilador) coloca na íntegra textos e capítulos inteiros de outros obras. Quem já escreveu um simples artigo acadêmico, conhece as regras básicas da escrita que deve vir à publico. Será que isso é ignorado na referida editora?

Seriam também os livros da Casa Publicadora uma resposta ao que os estudiosos do movimento pentecostal já estão popularizando entre os interessados no assunto? Não deveria a CPAD e seus "historiadores" estar na vanguarda da história pentecostal, ao invés de sempre publicar obras com informações já divulgadas por estudiosos das ciências sociais? Dá uma certa impressão que a editora está como se diz "correndo atrás".

Outro fator é a falta de historiadores escrevendo a história das Assembleias de Deus. O que se observa é que um grupo de jornalistas, funcionários da editora, é que tem recolhido, selecionado e escrito sobre a AD. Não que um jornalista não possa fazer história, mas é preocupante que todo o material recolhido esteja a serviço de um pequeno grupo. A denominação precisa ter seus próprios historiadores, com domínio de conceitos históricos e que façam a produção de obras mais contextualizadas. História, não é só informar, não é só curiosidade, mas é contextualizar, problematizar, levar a outras indagações e pesquisas, as quais resultem em mais conhecimentos e problemáticas.

Outra coisa preocupante, é a disponibilidade do acervo da CPAD. Percebe-se que a editora convoca seus membros a contribuírem para seu memorial com fotos e documentos, mas o mesmo não ficará disponível para os mesmos. Recentemente um de seus jornalistas "historiadores" ao ser indagado por este que vos escreve, sobre a disponibilidade do acervo, e sobre sua socialização para pesquisadores que estão fora da cidade do Rio de Janeiro, disse que não há condições de se digitalizar os documentos, pois não há funcionários e recursos suficientes para isso.

Isso quer dizer que todo material ou documento histórico enviado a editora será recolhido, e não poderá ser divulgado. Ora se todos são chamados para conceder material histórico, todos devem ter o mais rapidamente acesso a esse mesmo material. Lógico que a CPAD deve ter sua equipe, e sempre haverá um grupo seleto para escrever a "história oficial" da denominação, sempre do ponto de vista de quem esta no comando. Mas é necessário se rever alguns conceitos, caso contrário a Casa Publicadora corre o risco de sempre estar "correndo atrás", ou seja, estar continuamente publicando informações que já estão popularizadas no meio acadêmico

Essas provocações são feitas, não com o intuito de depreciar algum livro da referida editora, mas com a intenção de suscitar um debate sobre a escrita da história assembleiana. É preciso refletir sobre a produção histórica feita pelos seus responsáveis e a qualidade historiográfica de seus livros.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Foto Memória: Assembleia de Deus em Joinville

A foto abaixo mostra o templo e um bom número de membros da Assembleia de Deus em Joinville. A frente pode-se distinguir entre tantos pastor Satyro Loureiro então líder da igreja, missionário J. P. Kolenda, pastores Antônio Lemos, Manoel Germano de Miranda.

Não se tem a data exata dessa fotografia, mas provavelmente esse registro foi feito entre 1954 e 1957, quando Satyro Loureiro presidiu a igreja, substituindo o missionário norte-americano Vilgil Smith. Em 1957 Loureiro é transferido voltando a presidir a AD de Joinville 22 anos depois, quando em 1979, após o falecimento do pastor Liosés Domiciano, ele reassume a igreja ficando em seu comando até o ano de 1990.


Salta aos olhos, para quem conhece esse local, é a transformação urbana de Joinville nesses anos que passaram. A avenida Getúlio Vargas, local onde esses irmãos se colocaram para esse registro fotográfico, está (como não poderia deixar de ser) totalmente modificada hoje em dia.

O antigo templo sede da AD joinvilense que aparece nessa foto, o qual foi inaugurado em 1943 também já não existe. Demolido em 1984 na segunda gestão do pastor Satyro, deu lugar ao atual todo revestido de mármore e granito.

Uma curiosidade nessa foto é a observação de uma corneta no alto do templo. Segundo os crentes mais antigos, era por ela que as pessoas que passavam nas imediações da igreja ouviam os cultos no seu interior.

sábado, 16 de abril de 2011

Frida Vingren: um ministério contestado e polêmico

Frida Maria Strandberg Vingren (1891-1940) é uma das biografias mais polêmicas (e porque não perturbadora) da história das Assembleias de Deus no Brasil. Missionária sueca, enfermeira, poetisa, compositora, musicista, redatora, pesquisadora, pregadora e ensinadora pentecostal, era também esposa do pioneiro assembleiano Gunnar Vingren.

Frida: nas palavras do filho Ivar ela foi incompreendida

A todos esses predicados, poderia também estar incluído o de pastora. Frida, poderia ter sido reconhecida há muitos anos, como a primeira pastora das Assembleias de Deus no Brasil. Na biografia do esposo encontram-se a aceitação por parte do pioneiro do ministério feminino, inclusive com a separação de uma diaconisa na igreja de São Cristóvão no Rio de Janeiro. A própria história assembleiana é clara quanto ao desempenho da senhora Vingren. Na ausência (ou na presença) de Gunnar Vingren, Frida dirigia, pregava e ensinava na igreja.

Porém os líderes assembleianos dos primeiros anos não aceitaram o ministério feminino. Na primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) o assunto foi discutido. Frida foi a única mulher a participar ativamente das reuniões convencionais. As divergências entre os próprios missionários suecos sobre o assunto era antiga. Silas Daniel (2004) escreve que Samuel Nyström era contrário ao ministério feminino, tendo inclusive, atritos com Vingren nessa questão. Provavelmente a atuação de Frida já era alvo de contestações e polêmicas, sendo na CGADB de 30 um dos pontos de discórdia dos obreiros.

Prevaleceu a decisão de não reconhecer e nem admitir mulheres no ministério pentecostal assembleiano. Com as constantes revisões históricas e pesquisas acadêmicas feitas nos últimos anos, o ministério de Frida Vingren tem sido de certa forma "resgatado". Quais seriam os objetivos desse "resgate" histórico? Talvez o desejo de legitimar as transformações que a denominação esta vivenciando, onde cada vez mais as mulheres estão sendo reconhecidas no ministério. Ou quem sabe é uma justificativa histórica, uma forma de explicar o porque da  AD ser uma denominação grandiosa, com tantas mulheres em seu meio, mas com as decisões nas mãos dos homens. Ou as duas coisas e outras ao mesmo tempo. O certo é que essa revalorização do ministério da senhora Vingren servirá para muitos propósitos.

E como se diz nas igrejas "para não ficar só nas minhas palavras", deixo alguns fragmentos dessa polêmica. São pequenos trechos disponíveis que ajudam a entender o contexto dessa controvérsia.


"A minha esposa, com os obreiros da igreja, têm levado a responsabilidade pela obra" 
(Palavras de Gunnar Vingren registrado no seu diário publicado pela CPAD)


"... pois não é o homem, nem tampouco a mulher que faz o ministério, mas é o dom. Isto é um fato simples e claro. E qualquer que tenha recebido um dom um dom torna-se responsável diante do Senhor. A mulher recebendo-o entra assim no ministério da palavra, e pode então pregar e ensinar, conforme adireção do Espírito Santo".

(Trecho de um artigo publicado no jornal O Som Alegre em janeiro de 1930 por Frida, numa clara alusão as polêmicas e contestações sobre o ministério feminino na Assembleia de Deus no Brasil)

"As irmãs têm todo o direito de participar da obra evangélica, testificando de Jesus e a sua salvação, e também ensinando quando for necessário. Mas não se considera que uma irmã tenha função de pastor de uma igreja ou de ensinadora, salvo em casos excepcionais mencionados em Mateus 12. 3-8 (uma referência ao princípio de necessidade). Isso deve acontecer somente quando não existam na igreja irmãos capacitados para pastorear ou ensinar"

(Decisão da Convenção Geral reunida na cidade de Natal (RN) em setembro de 1930, ou seja, oito meses após o artigo de Frida publicado no O Som Alegre)

"tinha o dom de ensinar e pregar como ninguém, e por essa razão sofreu muita perseguição"."Foi incompreendida e demasiadamente criticada".

(Palavras de Ivar Vingren, filho de Gunnar e Frida Vingren, nas quais se percebe ressentimentos por parte da família pioneira)

Fontes

ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

MESQUITA, Antônio Pereira de. Mensageiro da Paz - Os artigos que marcaram a história e a teologia do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. volume 1 p.43

domingo, 3 de abril de 2011

Minha Assembleia de Deus

O pastor Joanyr de Oliveira, falecido em em dezembro de 2009, foi um dos grandes nomes da literatura assembleiana. Jornalista, poeta, advogado, compositor e escritor, foi ex-diretor da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) e ex-membro da liderança da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Sua biografia é marcada por relevantes serviços prestados a AD, e por sustentar durante anos, ideias avançadas demais para a geração de obreiros com quem conviveu. Joanyr, antes de tudo era um intelectual, uma mente inconformada, um crítico do sistema eclesiástico, alguém que almejava algo a mais para si e para sua igreja.

Joanyr: para a cúpula assembleiana ele  era um "rapaz perigoso"

Em 1994 o Mensageiro da Paz, publicou um artigo de autoria de Oliveira intitulado "Minha Assembleia de Deus". O texto é um verdadeiro exercício utópico, sentimento esse comum em seres humanos que como Joanyr; homem de olhar crítico e espírito inquieto, buscava sempre transformações e melhorias, e que não gostava de se acomodar ao status quo de um determinado sistema. Sentimento esse comum em cidadãos aos quais  o direito de pensar ainda é um bem precioso, e a crítica é benéfica para se construir um mundo melhor (nesse caso uma igreja melhor).

Nas linhas do texto, percebe-se um pouco de suas memórias, principalmente quando ele fala  em institutos bíblicos e apoio a mocidade. É bom lembrar que em seu tempo, por defender a criação de institutos formais de ensino teológico e da realização de congressos de mocidade, Joanyr foi considerado por alguns líderes assembleianos um "rapaz perigoso". Por defender a formação teológica e cultural, ele sempre foi hostilizado, ou ignorado. Jason Tércio em seu livro Os escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília, informa que nas idas de Paulo Macalão à nova capital federal, freqüentemente o fundador do ministério de Madureira visitava Joanyr. Ao receber tão ilustre e importante visita Oliveira "aproveitava a ocasião para falar sobre a necessidade de investir em educação teológica. Mas ao sugerir essa discussão, Joanyr pregava no deserto"

Nota-se também certa dose de pessimismo em relação a realidade assembleiana, e uma nostalgia de um tempo que ficou para trás. Talvez a maior lição que o escritor tenta nos passar com toda sua experiência na denominação, é a contínua perda da simplicidade do evangelho. O processo de aburguesamento dos seus membros e principalmente do ministério, tendem aos desvios éticos e a própria negação dos ensinos de Cristo.

 Acompanhe alguns trechos do artigo.

Minha Assembleia de Deus não é (nunca foi) aquela que condena os institutos bíblicos, tachando-os de "fábrica de pastores"; entendo que em seminários não se "faz" pastor. Ele é vocacionado por Deus...

Minha Assembleia de Deus não teme a mocidade, não obstrui o caminho dos mais jovens, antes o apoia, os encoraja, os estimula, os aconselha com paciência, ajudando-os no caminho de sua vocação ministerial...

Minha Assembleia de Deus não tolera a adoção de privilégios em favor dos ricos, brancos, cultos e "importantes", contra os simples e humildes, lembrada que Jesus teve especial carinho pelos pequeninos, pelos mais pobres, pelos explorados e deserdados da terra...

Minha Assembleia de Deus estimula os crentes à leitura, além da Bíblia, de bons livros, revistas e jornais... porque não podemos viver desinformados e ignorantes do que acontece ao nosso redor...

Minha Assembleia de Deus, pelo temor que tem do Senhor, não acaricia os pecados dos seus maiores contribuintes, "nem dos seus ilustres", mas ama a todos com igual amor e a todos trata com paciência até os limites do biblicamente admissível...

Para minha Assembleia de Deus, os filhos do pastor e os filhos da mais apagada das famílias da igreja têm os mesmos deveres de santidade e obediência, e as mesmas oportunidades, dependendo tudo do seu comportamento perante a sociedade e da dedicação à obra de Deus.

Fontes:
ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

MESQUITA, Antônio Pereira de. Mensageiro da Paz - Os artigos que marcaram a história e a teologia do Movimento Pentecostal no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

TÉRCIO, Jason. Os Escolhidos - a saga dos evangélicos em Brasília. Brasília: Coronário, 1997.

sábado, 19 de março de 2011

Cem anos da Assembleia de Deus: uma roda viva

Na falta de um assunto ou texto para postar, resolvi colocar esse vídeo. Roda Viva de Chico Buarque é uma música que poderia expressar bem o momento atual das Assembleias de Deus no Brasil. Para algumas pessoas, meia palavra basta, quanto mais uma letra como essa...


terça-feira, 8 de março de 2011

Nos Bastidores do Reino: uma reflexão sobre o movimento pentecostal




Reli recentemente o livro Nos Bastidores do Reino: a vida secreta na Igreja Universal do Reino de Deus (Geração Editorial), de autoria do ex-pastor da IURD Mario Justino. A obra, como o nome já esclarece, é o relato de um ex-líder da denominação, que resolveu tornar público suas experiências ministeriais na Igreja Universal. 

Muito mais do que isso, o livro é um retrato do que já estava se tornando a Universal e, consequentemente, as demais igrejas pentecostais brasileiras. Nos relatos de Justino, em diversos momentos, o leitor encontra semelhanças com outras denominações. É possível identificar métodos hoje usados em larga escala nas Assembleias de Deus, Quadrangular, Internacional da Graça, etc.

É interessante, como narra suas decepções com o chamado "sistema eclesiástico". Na medida, em que Mário Justino conta suas ascensão e queda ministerial, muitos leitores da obra podem se identificar com ele. Pois, muitas de suas desventuras, foram ou são vividas por milhares de pessoas, que como ele, se entregam ao ministério e depois percebem que foram traídas ou se traíram na caminhada de fé.

Nas palavras de Marcelo Rubens Paiva no prefácio de Nos Bastidores do Reino , à leitura do livro "é um evento de transformação". Resolvi deixar algumas linhas da obra, para aguçar a curiosidade de alguns leitores do blog. Leia as considerações de Mário Justino sobre alguns temas.

Sobre as pregações

Muitos pastores, por timidez diante do público ou por serem contra a total falta de transparência do roteiro do dinheiro, simplesmente não se esforçavam para levantar ofertas. Esses pastores formavam a ala conservadora da Igreja e sempre eram mandados embora na primeira oportunidade. Bem-feito para eles: em vez de pedir altas ofertas e fazer macaquices no púlpito para entreter o povo, optavam por pregar tolices como salvação da alma ou tópicos que a ninguém importavam, como a segunda vinda de Cristo ou o dia do Juízo Final. Ladainhas.

Política

O ano de 1982 marcou o período em que a Igreja começou a se politizar... Isso soou como uma espécie de, digamos, quebra de campanha, pois a pregação de Macedo até o início dos anos 80 era de que a igreja nunca se envolvesse diretamente com a política, que para ele era "coisas do diabo". Mudou o diabo ou mudamos nós?

Vida dentro da denominação e alienação social

E além do mais, como seria minha vida lá fora sem profissão definida e com uma família para sustentar? O meu mundo cabia dentro dos limites da Igreja e para mim era como se não existisse vida fora dela... Vivia sem a menor noção de realidade. Estive ausente quando as ruas viraram um mar humano clamando por eleições diretas e mesmo fatos como a morte de Tancredo Neves e o Plano Cruzado me passaram desapercebidos. Como começar de novo num mundo que continuou caminhando quando eu parei?

Era vergonhosa a cena: eu numa fila de emprego, aos 23 anos, competindo com candidatos cuja idade variava de catorze a dezessete anos. Mas vergonhoso mesmo foi quando, ao chegar a minha vez de ser entrevistado, a mocinha da mesa, sabendo que eu estava procurando meu primeiro emprego, deu uma gargalhada e se saiu com essa:

- Nossa, meu filho! Onde você esteve nestes últimos anos, em Marte?

Os moleques na fila adoraram.

domingo, 6 de março de 2011

Tibério Vacariano e Pastor Pimentel: dinossauros em extinção


O escritor, Érico Verissimo (1905-1975), gostava de retratar em seus romances os vícios, as transformações e a decadência da sociedade conservadora gaúcha e brasileira. Seu último romance, Incidente em Antares, é um exemplo disso. Tendo como base um acontecimento fantástico (a volta dos mortos vivos) na pequena cidade fictícia de Antares, o escritor denuncia os mais variados abusos feitos em nome da moral e dos bons costumes, bem como a hipocrisia reinante entre os "donos do poder".

Um dos personagens mais emblemáticos é do grande latifundiário e coronel Tibério Vacariano. Rico, prepotente, e influente na política e na economia da região, Tibério é apresentado no romance como o mais legítimo representante do coronelismo político do Rio Grande do Sul. Era ele quem dava as cartas na política e controlava os destinos do município. Porém, ao envelhecer, seu poder vai gradualmente se tornando obsoleto e sua enorme influência vai aos poucos se diluindo. 

Ao morrer, o coronel Vacariano é homenageado por toda sociedade antarense. Como era de se esperar, não faltou oradores para enaltecer o honroso defunto. Um deles afirmou que "desaparecia um lídimo representante duma estirpe de bravos que, durante mais de um século, havia ajudado a manter as fronteiras não só geográficas como também tradicionais e morais do Rio Grande do Sul".

Porém, como nem tudo é perfeito, um jovem novato na cidade pediu a palavra, e com eloquência "teve o desplante" para os presentes na última homenagem ao estancieiro, de "comparar o defunto a um dinossauro". E para desagrado de muitos, ainda completou dizendo, "os grandes répteis" da vida pública nacional estavam em franco processo de extinção, pois a sociedade brasileira estava agora em uma "era geológica mais avançada". 

Alguns blogueiros e leitores devem estar se perguntando: mas o que esse romance, e especificamente esse personagem, tem com o falecimento do Pastor José Pimentel de Carvalho, ocorrido no dia 24 de fevereiro de 2011? 

Para começar, como o velho Tibério Vacariano, Pastor Pimentel em várias homenagens foi apresentado como um legítimo representante de uma época, um pioneiro que desbravou fronteiras e ajudou a mantê-las por muito tempo. Como um verdadeiro coronel, Pimentel de Carvalho dominou a cena eclesiástica com alguns outros líderes de sua época, e durante muitos anos ajudou a moldar a Assembleia de Deus. 

Sua morte também revela, tal como a de Vacariano, que a geração de Pimentel de Carvalho está em extinção. Talvez a comparação seja de desagrado para alguns, mas Pimentel, tal qual um dinossauro, só será lembrado por seus vestígios, pois ministerialmente e doutrinariamente, a Assembleia de Deus parece entrar (ou já entrou) em uma nova era. 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Os pentecostais de Trindade: um caso esquecido

Uma das últimas polêmicas envolvendo a Assembleia de Deus no Brasil, foi o caso da igreja de São José dos Campos (SP). Os que acompanharam cada capítulo dessa novela, perceberam como alguns líderes tratam a igreja: um mero negócio.

A igreja dessa cidade paulista pertencia ao Ministério do Belenzinho, o pastor titular da igreja desligou-se e ficou por anos presidindo de forma autônoma a congregação. Recentemente ele entregou os trabalhos a outro ministério situado no norte do Brasil, causando ainda mais polêmica na fratricida luta pela liderança da Convenção Geral. Passado alguns meses, o tal pastor resolve retomar na justiça a igreja. Pesadas acusações de ambos os lados foram levantadas, brigas dentro e fora da igreja foram testemunhadas por todos (inclusive pela imprensa), e tudo se resolveu através dos tribunais.

Casos como esse não são novidades no meio assembleiano. No passado já ocorreram fatos semelhantes, porém não foram divulgados e ficaram restritos ao bairro ou cidade do acontecimento. Hoje com a internet, a popularização de certas polêmicas e divisões ficam mais conhecidas. Mesmo que na história oficial da denominação não haja uma vírgula sobre fatos como esse, ele todavia será conhecido, discutido, comentado e propagado para várias regiões do Brasil.

Mas gostaria de lembrar dois acontecimentos semelhantes a esse ocorrido em São José dos Campos. Um deles se encontra no Dicionário do Movimento Pentecostal. Segundo Araújo o ministério da Assembleia de Deus em Vila dos Remédios em Osasco (SP) surgiu de uma reação dos membros da igreja com a possível saída do pastor João Tentiliano, o qual após vários desentendimentos com seu supervisor missionário Thomas R. Hoover, resolve juntamente com a congregação fundar um ministério autônomo. O boato de que Hoover estaria vendendo a igreja ao Ministério do Belenzinho foi o grande motivo da reação dos membros para abandonar a igreja, pois o terreno e o templo haviam sido comprados e construídos pelos próprios crentes da igreja. Numa atitude de grande coragem, parte da congregação iniciou um novo trabalho sob a liderança do pastor Tentiliano. Esse fato ocorreu no ano de 1965.

Outro acontecimento interessante, aconteceu no ano de 1978 numa pequena vila de pescadores no litoral do estado do Rio de Janeiro, num povoado localizado no município de Parati chamado de Trindade. Ali os moradores, em sua grande maioria de crentes da Assembleia de Deus e da Brasil para Cristo, estavam naquelas terras como posseiros há mais de 50 anos. A prefeitura de Parati nesse tempo, vendeu as terras para um poderosa empresa, a qual queria transformar a região em pólo turístico.

Resistentes, os posseiros não queriam entregar suas terras, devido a proximidade do mar para a pesca, ou por nela cultivarem suas plantações domésticas. A grande empresa porém, com ameaças e todo um aparato de repressão convenceu muitos deles a venderem suas propriedades. E para surpresa dos próprios crentes da cidade, os pastores, os quais nunca moraram no povoado venderam os templos construídos pelos próprios membros.


Parati: palco de uma manifestação de fé inusitada

Indignados, esquecidos e magoados, os fieis organizaram uma passeata em Parati reivindicando seus direitos e seus templos. Com faixas, cartazes e cantando hinos, os crentes manifestaram seu descontentamento. Nas palavras de Rolim "Era uma forma de dizer: estamos vivos e desejamos ficar em nossas terras." (ROLIM 1985: 88)

O acontecimento de Trindade chamou à atenção de vários jornais, que noticiaram a inusitada manifestação dos pentecostais, de um vilarejo remoto dos estado Fluminense. Até mesmo a revista semanal Veja, em uma reportagem especial sobre o crescimento dos pentecostais no Brasil, repercutiu o caso de Trindade. Segundo a revista "A fé pentecostal dos pescadores de Trindade - lugarejo plantado num deslumbrante pedaço do litoral fluminense, perto de Parati - sobreviveu até à traição de seus pastores."

Mesmo com todos esses reveses, os crentes construíram um novo templo e permaneceram firmes na sua fé. Nas palavras de uma fiel "... ficamos na religião, porque foi formada por nossos pais e não pelos pastores." (Veja 7 outubro de 1981 p.63)

Esses dois acontecimentos, são uma prova da resistência dos membros sobre os mandos e desmandos de certas lideranças, as quais se dizem representantes de Deus e do povo por eles dirigido. Muitos outros casos como esses ocorreram e ainda vão ocorrer, pois cada vez mais os membros são vistos simplesmente como massa de manobra, ou como consumidores de produtos evangélicos, ou ainda, como contribuintes para manutenção de uma elite eclesiástica. Elite essa cada vez mais divorciada dos anseios do povo de Deus. Elite essa cada vez mais voltada para si mesma, fazendo dos fieis e da fé uma simples mercadoria.

É por esse razão, que casos como o de Trindade ficam relegados ao esquecimento. Não interessa esse tipo específico de manifestação de fé, pois caso o exemplo seja seguido, pode-se alterar profundamente o modo como os negócios eclesiásticos são feitos.

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

ROLIM, Francisco Cartaxo. Pentecostais no Brasil - uma interpretação sócio-religiosa. Rio de Janeiro: Vozes, 1979.

Revista Veja 7 outubro de 1981. (arquivo digitalizado disponível no site http://veja.abril.com.br/)

sábado, 8 de janeiro de 2011

Tancredo Neves - o impeachment divino

Tancredo de Almeida Neves (1910-1985) foi um homem de intensa vida política. Mineiro de São João del-Rei, construiu sólida carreira política em seus 75 anos de existência. Eleito vereador, deputado estadual e federal, senador e governador de Minas Gerais, destacou-se ainda como ministro de Estado no governo Vargas, e primeiro-ministro na fracassada experiência parlamentarista do governo de João Goulart. 

Com o enfraquecimento do Regime Militar em meados do anos 80, Tancredo renunciou ao cargo de governador de Minas, e com apoio do PMDB e da Frente Liberal (dissidência do PDS partido do governo), elegeu-se via indireta presidente do Brasil. Porém, as vésperas da posse, vitimado por uma diverticulite, não assumiu o cargo máximo da política brasileira, morrendo no dia 21 de abril do mesmo ano.

Por estar liderando a transição do autoritarismo militar para o regime democrático, Tancredo encarnava as esperanças de democracia e desenvolvimento socioeconômico para o Brasil. Sua morte, em meio ao processo de mudanças denominado de "Nova República", trouxe grande frustração e tristeza para o povo, que tanto apostava em sua larga experiência para tirar o país da crise. 

Para a memória popular, à imagem de Tancredo Neves é a do herói trágico, abatido em pleno voo por uma dessas desgraças que acontecem por fatalidade do destino. Seus dias de internação, cirurgias e consequente morte foram divulgadas pela mídia como um calvário, um suplício, no qual a figura do político cedeu lugar à imagem de um santo. O insucesso de seu sucessor José Sarney no governo, reforçou a impressão popular de que com Tancredo no comando da nação tudo seria melhor.


Tancredo: vítima de um impeachment divino?
Isso para o imaginário popular. Pois para os assembleianos, Tancredo teria sofrido um impeachment divino. Mas quais seriam os motivos, para que o presidente eleito sofresse um impedimento celestial? 

Acreditava-se na época que, ao assumir o governo, Tancredo iria tonar novamente a Igreja Católica Romana, a denominação oficial do país. Outra razão para que seu processo de impeachment celestial fosse deflagrado, seria o fato de Tancredo Neves ter desafiado ninguém menos que Deus.

Tancredo Neves era muito religioso. Sua família era extremamente católica, e ele mesmo acompanhava procissões e missas. Pouco depois de ser eleito pelo Colégio Eleitoral viajou ao exterior e foi recebido pelo Papa João Paulo II em Roma. A revista Veja (16 de março de 1985) destacou a religiosidade do presidente, e chegou a afirmar que ele seria o chefe de estado brasileiro mais ligado à Igreja Romana após D. Pedro II. 

Por ser extremamente ligado ao catolicismo, sua internação às vésperas da posse, e consequente morte, foi interpretada pelos evangélicos como um livramento divino. Dentro dessa ótica, a efetivação de José Sarney no cargo de presidente teria sido uma "providência divina", pois tudo indicava que uma vez no cargo, Tancredo confirmaria o Catolicismo como a religião oficial do Brasil.

Mas, a questão mais séria para muitos foi o fato de Tancredo Neves ter desafiado a Deus. Isso aconteceu quando, no processo de viabilização de sua candidatura, o futuro presidente, ao contar os votos da oposição e da dissidência do partido governista disse que: "Se eu tivesse setenta votos do PDS não precisaria da ajuda nem de Deus." 

Meses depois de sua morte, o Mensageiro da Paz (novembro de 1985) em uma reportagem intitulada "Nem Deus conseguirá afundar este navio", matéria na qual o MP destacava as celebridades que um dia desafiaram a Deus e tiveram um fim trágico (ex: Titanic e John Lennon), pinçou a frase de Tancredo publicada na revista Veja (16 de março de 1985), colocando o político mineiro como mais um derrotado por seu orgulho e soberba contra o Criador.

A matéria do MP repercutiu muito pelas Assembleias de Deus no Brasil, e ajudou a criar a versão oposta àquela divulgada pela mídia sobre a imagem de Tancredo. Para a maioria da população Tancredo era o mártir da liberdade, mas para os assembleianos ele era o homem que desafiou Deus.

Para terminar esse artigo fica aqui algumas reflexões. Tancredo de fato era um católico praticante, mas também era um político consumado. Ou seja, com seu largo conhecimento da política e da leis constitucionais, oficializaria a Igreja Católica depois de quase cem anos da separação entre igreja e estado? Ignoraria ele, ou permitiria que os evangélicos ficassem sem direito de culto e liberdade religiosa já no fim do século XX? Faria ele o Brasil recuar praticamente ao século XIX em termos de direitos individuais e religiosos?

Sobre a frase interpretada como um desafio a Deus, não teria ele usado uma figura de linguagem, sendo na verdade sua intenção destacar que com alguns votos da dissidência do partido do governo e do PMDB ele fatalmente seria eleito presidente da República? Como tomar literalmente essa frase de Tancredo como blasfêmia, se ele próprio era um homem de profundo sentimento religioso? 

Caso Tancredo tenha desafiado a Deus e sido punido por isso, como se explica que muitos pregadores e teólogos da prosperidade hoje estarem vivos? Pois em matéria de tomar o nome de Deus em vão esses senhores são os maiores especialistas.

Já se passaram 30 anos, mas a imagem do político mineiro no contexto assembleiano ainda é marcada por essa controvérsia. Passou para o folclore pentecostal e sua história extraoficial.