sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Samuel Câmara - a igreja equilibrada

Em abril de 1991, o extinto jornal O ASSEMBLEIANO, editado em Joinville, Santa Catarina, pelo jornalista Judson Canto, publicou uma entrevista com o pastor Samuel Câmara. Câmara, na época, com apenas 33 anos de idade, desde 1988 era líder da tradicional e histórica Assembleia de Deus (AD) em Manaus, no Amazonas.

O jovem obreiro, filho e genro de pastores, casado com a talentosa Rebekah, filha dos pioneiros do ensino teológico nas ADs no Brasil, o casal João Kolenda Lemos e Ruth Dorris Lemos; Samuel apresentava-se, naquele momento, como uma nova alternativa e modelo de liderança para a denominação no país. Era um menino entre os patriarcas da CGADB.

Na matéria d'OASSEMBLEIANO, enfatizou-se, que apesar de ter sucedido o veterano pastor Alcebiades Pereira Vasconcelos na presidência da AD em Manaus e na convenção estadual, Samuel imprimia "sua marca pessoal na AD amazonense". Segundo o jornal, o jovem Câmara havia desobrigado a igreja de cumprir as tradições e costumes de santidade assembleianos, algo que seu antecessor já estava fazendo.

O ASSEMBLEIANO: Rebekah e Samuel Câmara em 1991

Conforme informações recebidas por quem acompanhou de perto a transição Vasconcelos/Câmara, não houve uma ruptura drástica com os dogmas assembleianos naquele período. Ao ser indagado se sua liderança da AD em Manuas era uma continuidade ou não da gestão do pastor Alcebiades, Samuel respondeu: "...eu diria que em cinquenta por cento do meu ministério mantenho os ingredientes pastorais daquele que sucedi. Outros cinquenta por cento são uma tentativa de cumprir e responder aos desafios que Deus fez a minha pessoa."

Questionado se a igreja em Manaus era "liberal" e se ele (Samuel) havia "libertado" os membros das conhecidas imposições, até então hegemônicas nas ADs brasileiras, o futuro pastor da Igreja-Mãe respondeu: "Hoje temos no Brasil uma dicotomia, dois pólos, o 'tradicional' e o 'liberal' e os pastores se alegram quando podem dizer que suas igrejas são tradicionais ou liberais. Considero minha formação equilibrada e procuro fundamentá-la na Bíblia Sagrada...".

Em suma: Câmara não considerava-se nem "tradicional" ou "liberal". Acima das questões controversas sobre os usos e costumes, o ex-aluno do Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD) em Pindamonhangaba, apresentava-se apenas como um ensinador da Bíblia, crente na ação do Espírito Santo. "Se vejo excessos, corrijo individualmente. Para mim a igreja é santa e é o Espírito Santo quem a dirige. Eu sou apenas um vigia...".

Na sequência, Samuel afirma: "Somos rotulados de liberais, mas diria que a AD em Manaus é uma igreja equilibrada" - o próprio pastor reconhece, que o rótulo de "liberal" já tinha se espalhado pelo Brasil. Tanto, que o repórter Ildo Campello começou a entrevista nessa linha de questionamentos.

Fato que é, que a AD em Manaus viveu seu momento de igreja "liberal" com o sucessor de Samuel, o pastor Jonatas Câmara. Na liderança da AD amazonense desde 1997, Jonatas implantou métodos heterodoxos de evangelização e discipulado. Uma grande cisão aconteceu nos anos 2000, e o resultado disso foi a criação da Igreja Evangélica Assembleia de Deus Tradicional (IEADTAM), uma ramificação ministerial que carrega no nome a rejeição as "inovações" adotadas pela gestão do Câmara mais novo.

Mas os assuntos da entrevista com o jovem pastor de Manaus não terminam por aqui. Samuel Câmara ainda falou sobre evangelização e a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Percebe-se, em relação a CGADB, um tom crítico sobre a instituição. Assuntos para uma próxima postagem...

Fontes:

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

O ASSEMBLEIANO - o jornal da nova geração: Joinville, 30 de abril de 1991, nº 5/ano I.

Um comentário:

  1. O mais surpreendente é saber que o Pastor Alcebíades não era um defensor ferrenho dos usos e costumes.

    ResponderExcluir