quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Frida Vingren - e o suposto affair

Um dos pontos mais discutidos da matéria da BBC Brasil sobre Frida foi o suposto affair da missionária com um obreiro brasileiro. Isael de Araújo, biógrafo da senhora Vingren, afirma no Mensageiro da Paz (edição de outubro de 2018), que o affair tratar-se "apenas de um boato" sem comprovação. O tal "boato" apareceu em cartas da época e não há confirmação alguma do fato em si.

Para reforçar seu argumento, Isael diz que na reportagem da BBC, a jornalista Kajsa Norrel "não consegue confirmar com segurança" a história, pois há "inconsistência" em seu conteúdo, ou seja, falta base documental para corroborar o rumor do romance.



Mas, na mesma matéria, Norrel afirmou crer na veracidade do affair, pois "entrevistou um dos filhos de Frida e algumas de suas netas enquanto escrevia o livro e que identificou o assunto em cartas enviadas à Suécia por pessoas que não eram hostis a ela'".

Gedeon Alencar em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, comenta que para os pastores mais antigos, o suposto caso extraconjugal da missionária seria o motivo para a campanha dos obreiros brasileiros e suecos contra ela. Alencar, porém, observa que na carta enviada a Pethrus em 1932, não há menção ao deslize e, portanto, tudo parece uma orquestração para derrubá-lá.

Por sua vez, Valéria Vilhena em sua dissertação de mestrado sobre Frida Strandberg detalha que o affair foi descoberto por Paulo Macalão. Vilhena (citando Kajsa) escreve que Macalão: "ao abrir a porta do quarto do rapaz que morava na casa da família Vingren, vê Frida em trajes íntimos junto ao rapaz".

O rapaz, de nome não mencionado, em toda a polêmica seria Carlos Brito, jovem advogado e membro da família pioneira das ADs no Rio de Janeiro, cunhado de Macalão e antigo redator do Mensageiro da Paz juntamente com Frida. Posteriormente, Carlos assumiu cargos de destaque na CPAD. Tanto Frida quanto Carlos tiveram ao mesmo tempo seus nomes retirados das edições do jornal em 1931.

Como se percebe, um nome de família conhecida e influente. Talvez seja o motivo principal do escândalo do affair não ser usado nas cartas enviadas a Pethrus. Preferiu-se então, manipular o caso somente com a intenção de prejudicar o casal Vingren e "proteger" o jovem.

É fato, que a controversa história era conhecida dos pioneiros e antigos membros da AD em São Cristóvão no Rio de Janeiro. Os funcionários da CPAD também sempre tiveram ciência do caso e, obviamente por questões institucionais, o assunto era somente comentado nos bastidores da Casa Publicadora.

Ainda mais que as cartas trocadas entre os pioneiros revelam toda uma articulação para afastar Gunnar e sua esposa da liderança da igreja. Os indícios do caso extraconjugal são grandes e da rede de fofocas também. Se todas as correspondências fossem divulgadas na íntegra, com certeza a áurea construída em torno dos missionários suecos seria fortemente abalada.

Mas ao analisar o contexto das informações Vilhena afirmou: "A questão principal, portanto, não é o adultério em si, mas como homens e mulheres são tratados de forma diferenciada na sociedade patriarcal brasileira em que as igrejas cristãs pentecostais estão inseridos". Essa é a lição principal do caso Frida Strandberg.

Para terminar, uma sugestão: deveria a CPAD permitir que os diários, cartas ou qualquer outro registro sobre o período fosse pesquisado sem restrições. Há informações que documentos da família de Frida estão em posse da Casa Publicadora. Por que não divulgar essas relíquias e dar acesso aos preciosos documentos?


Para saber mais: Valéria Vilhena lançará em breve sua dissertação de mestrado em livro pela Fonte Editorial. Na obra os detalhes desse polêmico caso estarão devidamente contextualizados. É a história de Frida em sua conjuntura social e histórica e de suas lutas na liderança (e como os líderes) das Assembleias de Deus no Brasil.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael de. Frida Vingren: uma biografia da mulher de Deus, esposa de Gunnar Vingren, pioneiro das Assembleias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2014.

ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.

VILHENA, Valéria Cristina. Um olhar de Gênero Sobre a Trajetória de Vida de Frida Maria Strandberg (1891 -1940). Tese (Doutorado em Educação, Artes e História Cultural) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-44731827

4 comentários:

  1. Meu modesto comentário é apenas este: triste, com essa sombra de dúvidas sobre o caráter de pessoas que foram nossos "espelhos". Porém, se isso é verdade, ainda assim não me coloco como juiz para julgar essas pessoas. Não dá nem prá imaginar o sofrimento que essa mulher passou, com os filhos pequenos para cuidar, o marido sempre em viagem ou doente, as responsabilidades de uma missionária numa obra em início, como foi o caso do Rio de Janeiro, de 1924 a 1932. Fora isso, ter que conviver com a inveja de alguns que não viam e não aceitavam a liderança de uma mulher inteligente e corajosa, que vivia além de seu tempo. E até porque, provas físicas que comprovam esse "affair" acho que nunca existiu, apenas boatos, ou menções em cartas, baseadas em suposições. Contudo, devo parabenizá-lo, mais uma vez pela brilhante matéria.

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  2. Pessoalmente não acredito que houve o fato citado porém acredito que houve SIM, uma perseguição machista contra a Irma Frida Vingren que pelos registros históricos da Denominação, NUNCA QUIS ser "Pastora" ate porque nem tem respaldo bíblico isso.

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