sábado, 28 de abril de 2018

A Assembleia de Deus na paisagem dos subúrbios do RJ

Os subúrbios da cidade do Rio de Janeiro com sua população, cores, ritmos musicais e religiosidades, sempre foram alvo das observações dos escritores e jornalistas cariocas. Interessados em sua geografia, formação e crescimento, alguns cronistas do antigo Distrito Federal, procuraram dar visibilidade a essas regiões afastadas do centro da cidade.

Exemplo desse constante interesse, foi a matéria do extinto jornal Última Hora, edição do dia 19 de agosto de 1957. Nela, o repórter Eugênio Lira Filho procurou retratar os subúrbios cariocas em um belo dia de domingo. O roteiro escolhido foi o Engenho Novo, Cascadura, Méier, Madureira e Quintino.




Registrou-se nas páginas do Última Hora, que a população suburbana naquele domingo de sol estava alegre e festiva. A maioria dos jovens correu à praia ou ao futebol, as moças foram à missa e os pais de família aproveitavam as horas de ócio para bater papo, ler jornal e ouvir rádio. Senhoras aceleravam para fazer compras e cuidar do almoço.

Para cada bairro visitado, Lira Filho destacou algumas cenas tristes e pitorescas. O Engenho Novo foi descrito como um local infeliz e sem jardins; no Méier, o táxi era um Cadillac; Cascadura era o paraíso do comércio ambulante, e no Quintino, o jornalista assistiu a uma inusitada sessão de rock ad roll, até então uma novidade musical no Brasil e no mundo.

Madureira com suas Escolas de Samba e forte comércio carecia de melhoramentos em seu mercado principal e na limpeza pública. "O famoso largo de Madureira é um amontoado de detritos: lixo por toda parte" - observou o repórter. A cena da "decrépita carroça da Limpeza Urbana" puxada por "burros magros e trôpegos" era a própria imagem do descaso do poder público em relação ao bairro.




Mas, em meio a intensa movimentação de Madureira, da sujeira das suas ruas e do perigo das linhas férreas atravessando o subúrbio, o repórter notou a presença de um grande templo evangélico, com sua torre imponente e chamativos vitrais. Era a Catedral da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira, inaugurada no dia 1º de maio de 1953.

Talvez Lira Filho, ao perguntar sobre o grande edifício religioso, tenha obtido informações equivocadas. Afirma-se que o templo era da Assembleia de Deus em Madureira, mas ao mesmo tempo diz tratar-se de uma "Igreja Protestante Presbiteriana".

Porém, nas demais referências, a matéria é certeira. Diz o periódico que a Assembleia de Deus congregava "milhares de fiéis não só nos subúrbios - como em todos os bairros do Rio." Observava-se também à obediência aos "hábitos rígidos e o discreto padrão de vida" dos crentes da época. E para completar, o cronista diz que os cultos públicos com "cânticos e sermões, enchiam as tardes dos subúrbios do Rio. Mais forte que o desencanto dos homens - é a Fé em Deus".

Por esse motivo às Assembleias de Deus cresceram, pois estava sempre onde o povo estava. Nas vilas, favelas e subúrbios a fé pentecostal expandia-se e, como na matéria do Última Hora, ficava impossível não notar seus frutos espirituais e materiais.

Fonte:

Ultima Hora, Rio de Janeiro, segunda-feira, 19 de agosto de 1957, p.8/acervo digital da Biblioteca Nacional do RJ, disponível no site http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

domingo, 15 de abril de 2018

Matéria Histórica sobre a AD em São Cristóvão


Está disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma relíquia sobre as Assembleias de Deus no Brasil. No ano de 1945, a equipe da Revista da Semana participou de um culto na Assembleia de Deus em São Cristóvão, no Rio de Janeiro e tentou captar o clima do culto pentecostal na igreja carioca.

Aberto aos internautas, o material serve de reflexão e estudos para os historiadores, sociólogos, teólogos e pesquisadores do pentecostalismo no Brasil. Lembrando sempre, que "este material é detentor do direito autoral, patrimonial e moral, com base nos incisos do art. 7º da Lei n. 9.279 de 1996 (LPI) e artigo 5°, inciso XXIX, da Constituição de 1988. Uso indevido está sujeito a indenizações. Para reproduzi-lo entre em contato com cpdoc@jb.com.br"







Fonte: 

Revista da Semana. Rio de Janeiro, ano XLVI - nº 28 - 14/07/1945. pág.11-17, 50./ acesso no site http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Paulinho Macalão - o herdeiro esquecido

Paulo (Paulinho) Brito Macalão, não nasceu em berço de ouro, mas seu nascimento aconteceu numa época dourada para seus pais; o mítico líder da AD em Madureira, Paulo Leivas Macalão e sua esposa, a missionária Zélia Brito Macalão.

Paulinho nasceu no dia 21 de outubro de 1943, na cidade do Rio de Janeiro. Filho único do casal Macalão, o menino veio ao mundo quase uma década depois do casamento dos seus pais em 17 de janeiro de 1934. Em uma época de famílias numerosas, a vinda do rebento foi recebida como a resposta de Deus às insistentes orações da igreja em favor dos seus estimados líderes.

Segundo a narrativa oficial de Madureira, "Paulinho foi crescendo na boa atmosfera de um lar genuinamente cristão". Porém, ao analisar a história, percebe-se, que o rebento dos Macalão viveu em outras "atmosferas", na qual, por força do destino, estava ele inserido.

Ainda criança, Paulinho acompanhou o grandioso esforço da AD de Madureira em erigir seu majestoso templo sede na Rua Carolina Machado. Com 10 anos incompletos, lá estava ele acompanhando seus pais, fardado de branco para a inauguração da grande Catedral. Havia no olhar do menino, o encanto de estar vivendo um momento especial.

Paulinho atualmente e nas Bodas de Prata dos pais: herdeiro esquecido

Às vésperas de completar seus 15 anos de idade, no dia 20 de outubro de 1958, o jovem Macalão foi surpreendido à noite em casa com a banda da AD em Madureira, que para agradar o moço, executou vários hinos e dobrados em sua homenagem. Aliás, Paulo Brito fazia parte da banda da igreja desde a mais tenra idade. 

No dia 17 de janeiro de 1959, Paulinho presenciou as Bodas de Prata dos seus genitores. Diante de vários pastores do Ministério e de outras denominações, o unigênito de Macalão colocou as alianças no casal e agradeceu a todos pela presença no evento. 

Assim, em meio às cerimônias, cultos, bandas de músicas, pregações e a cada vez maior projeção do Ministério fundado por seu pai, o garoto de nome respeitável, tentou-se inserir na obra evangélica. Em 1966, Paulinho foi separado ao diaconato e em 1974, a missionário. Formou-se em teologia pelo Instituto Bíblico Ebenézer e trabalhava na área secular como funcionário público.

Segundo consta nos registros oficiais, o herdeiro de Paulo Macalão era "vocacionado para orar pelos oprimidos". No templo da AD em Madureira no Rio, Paulinho dirigia todas às segundas-feiras um bem frequentado culto de "Oração e Libertação".

Entretanto, nas memórias dos crentes antigos, o filho da missionária Zélia parecia um tanto informal para os costumes da época. Com os cabelos maiores que o normal e de postura mais despojada em relação ao rígido código moral imposto pela denominação, o jovem Macalão chegou a ser no pastorado do pai, 3º vice-presidente da AD em Madureira.

Dizem, que a presença de Paulinho na diretoria, era mais uma exigência da missionária Zélia do que propriamente um desejo de Macalão. Provavelmente, ela queria ver o filho em local de destaque, ou segurá-lo na igreja, uma vez que o perfil do unigênito era da mais total aversão ao sistema ministerial.

Com a morte de Macalão, em 1982, o sogro de Paulinho (o pastor Orosman Dagoberto) assumiu à liderança da AD carioca. Em 1988, Orosman deixou o cargo por motivos de saúde, e assumiu em seu lugar o pastor Luiz Fontes e posteriormente Manoel Ferreira e seu filho Abner. Com a morte de Zélia também 1988, é possível que o processo de esquecimento de Paulinho tenha se acentuado.

Sem muitas ambições ministeriais e órfão, o herdeiro de Macalão não foi páreo para a dinastia dos Ferreira. Um dos filhos de Paulinho, André Lúcio, talvez pudesse fazer frente ao novo establishment, mas foi estrategicamente deslocado do Rio para a cidade de Caldas Novas no interior de Goiás. Afirmam alguns que essa mudança de André foi patrocinada pela liderança da AD goiana com intenções de proteger o neto do fundador do Ministério de Madureira.

Paulo Brito Macalão é visto nas ADs do Rio de Janeiro fundadas pelo ministério do seu pai. Visita Nova Iguaçu, o antigo templo de Bangu e outras. Já foi visto na CPAD e às vezes é reconhecido pelos crentes de longas datas. Está longe do centro de poder eclesiástico; poder esse com quem conviveu durante toda sua vida. 

Não deixa de intrigante, que o herdeiro do mítico líder de Madureira, cuja memória é exaltada em vários eventos, hoje esteja esquecido. Não só isso: Paulinho é membro da família pioneira do pentecostalismo no Rio de Janeiro. Os componentes da família Brito foram de fundamental importância para o desenvolvimento das ADs cariocas. 

Mas, em tempos de nepotismo, Paulinho - contrariando como sempre às expectativas - talvez até deseje (para o bem ou mal) ser esquecido...

Colaboração de Oseias Balsaretti - Curitiba/Paraná

Fontes:

O Semeador, ano XXII, número 164 - outubro/1982

Revista A Seara, ano IV, número I.