sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Billy Graham e o debate na CGADB de 1975

O mundo cristão chora a morte do pastor batista William Franklin "Billy" Graham Jr (1918-2018). Desde 1948, Billy realizava suas cruzadas pelo globo. Estádios, parques e outros locais públicos eram usados para os eventos evangelísticos de massa. Dados apontam, que o reverendo Graham alcançou uma audiência direta de quase 210 milhões de pessoas em 185 países. 

No Brasil, Graham pelo menos quarto vezes vezes pregando. A primeira vez foi em junho de 1960, no Rio de Janeiro, no 14º Congresso da Aliança Batista Mundial. O evento, realizado no Maracanãzinho, (outras fontes afirmam ser o Maracanã) reuniu milhares de crentes para ouvir "o maior pregador evangélico dos tempos modernos" para ouvir o sermão "Cristo crucificado" - divulgou o jornal O Globo na época

Dois anos depois, em setembro de 1962, o reverendo norte-americano realizou na cidade de São Paulo sua primeira Cruzada no país, lotando o estádio do Pacaembu. Em 1974, novamente, o Rio de Janeiro recebeu o famoso pregador para a sua mais conhecida e lembrada passagem pelo país, onde o maior estádio do mundo naquele momento, o Maracanã, lotou para sua grande Cruzada Evangelística. Quatro anos depois, em 1979, Graham retornaria ao país para pregar no evento interdenominacional Geração 79, em São Paulo.

Graham no Maracanã em 1974: citado na CGADB de 1975

Com certeza, suas pregações e cruzadas foram eventos marcantes na evangelização pátria. Porém, ironicamente, à Cruzada de 1974, no Rio, gerou discussões acaloradas na Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, em Santo André, São Paulo - segundo Silas Daniel em seu livro História da CGADB.

A grande questão em debate, que envolveu o nome de Graham foi "a influência da televisão e dos pregadores internacionais", e consequentemente, o receio dos líderes, que os crentes começassem a adquirir aparelhos de televisão para assistirem às mensagens dos famosos televangelistas da América do Norte.

Quem expressou esse temor, foi justamente o líder da igreja hospedeira da CGADB, o pastor Joaquim Marcelino da Silva. E, ao falar sobre o assunto, citou justamente Billy Graham, "que havia vindo ao Brasil recentemente e, uma vez por ano, transmitia para vários países, inclusive o Brasil, um programa evangelístico pela televisão." Ainda na visão do veterano obreiro, à Cruzada de Graham trouxe "prejuízos espirituais" aos crentes.

Depois das observações do pastor Marcelino, convencionais rebateram as argumentações do líder de Santo André. Alípio da Silva, Marinésio Soares e Paulo Macalão procuraram destacar o grande trabalho do evangelista norte-americano em prol do Reino de Deus. Principalmente Macalão, que na Cruzada de Graham participou do Conselho Consultivo do evento.

Macalão sabiamente frisou que: "a preocupação não deveria recair sobre o televangelista, mas sobre a televisão". Não era a primeira nem a última vez, que o uso da televisão seria debatido, mas naquela Convenção, especificamente, à mídia televisiva e outras "modernidades" seriam combatidas através da famosa resolução de Santo André.

O tempo passou, e atualmente ninguém questiona o legado de Billy Graham. Inclusive, seu Ministério serve de grande exemplo para os nossos denodados líderes assembleianos como bem destacou o pastor Daladier Lima em seu blog Reflexões sobre quase tudo. Fica a dica!

Fontes:

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

Acervo digital O Estado de SP e O Globo

http://www.daladierlima.com/o-que-billy-graham-ensinou-ao-mundo-evangelico-e-bem-poucos-aprenderam/

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Aggiornamento do Pentecostalismo

Defendida por Moab César Carvalho Costa, no dia 16 de novembro de 2017, a tese de doutorado em História, O Aggiornamento do Pentecostalismo: as Assembleias de Deus no Brasil e na cidade de Imperatriz-MA (1980-2010), é mais uma excelente contribuição acadêmica para melhor entender as transformações ocorridas nos últimos anos na maior igreja pentecostal do Brasil.

É muito comum, os crentes mais antigos comentarem sobre as mudanças na denominação. A expressão "naquele tempo era (ou não era) assim" é corriqueira entre os nostálgicos irmãos. Moab, através de apurada pesquisa bibliográfica e de campo, mais o levantamento de diversos dados e fontes históricas, tenta responder o porquê das recentes alterações nas ADs.

Para essa tarefa, Costa usa o termo italiano aggiornamento ou aggiornare, que significa “atualização”. Esta foi a palavra de orientação do Concílio Vaticano II (1962-1965), convocado pelo Papa João XXIII. O objetivo era claro: a cúpula da Igreja Católica precisava criar condições para que a igreja voltasse a crescer em número e influência, não perdesse mais fiéis e mantivesse a hegemonia no campo religioso.


Segundo o autor:
O termo aggiornamento  do pentecostalismo, utilizado nesta pesquisa, difere em alguns aspectos do realizado pela Igreja Católica, e é aqui empregado como uma atualização e renovação de crenças e práticas das igrejas pentecostais clássicas, principalmente das ADs, com objetivos específicos de acomodação à sociedade de consumidores, bem como de manutenção e crescimento da influência no campo religioso brasileiro em virtude da possibilidade de atrair e fidelizar novos prosélitos – indivíduos dotados de maior autonomia e de maior possibilidade de trânsito religioso proporcionado pela pulverização do campo religioso brasileiro a partir da chegada das igrejas neopentecostais. (p.24-25)

Para melhor compreensão dessas ideias, Costa faz a seguinte periodização: de 1911 a 1980, quando o controle dos padrões comportamentais das ADs sobre os seus membros era rígido, e a identidade assembleiana, sólida. Nesse momento, o Brasil estava em processo de grandes transformações: a população migrava do campo para a cidade, mas os valores e mentalidades ainda permaneciam tradicionais, assim como nas igrejas. É o momento da consolidação do ethos sueco-nordestino nas ADs.

Moab ao centro e os membros da banca (16/11/2018)

Na segunda fase: de 1980 a 2010, às mudanças na sociedade brasileira são intensas, resultante da crescente urbanização e globalização cultural e econômica. No campo religioso, a concorrência se acelera com o aparecimento das igrejas neopentecostais com suas práticas e mensagens voltadas para o aqui e agora. Essa combinação, faz do novo crente mais do que um adorador, e sim, um consumidor. Cresce e se desenvolve, a instituição religiosa que oferece os melhores serviços religiosos e satisfação para a alma.

É nesse contexto, que as ADs forçosamente se adaptam ao novo cenário religioso e econômico. Os antigos padrões de santidade e culto dão lugar aos novos modelos litúrgicos. Alguns denominam essas transformações de contextualização, outros de mundanismo. Moab intitula de aggiornamento, que nada mais é que o desmonte do ethos sueco-nordestino mantido por décadas na denominação.

Moab César Carvalho Costa pertence à AD em Imperatriz (MA) desde 1990, e muito das transformações ocorridas nas ADs ele mesmo vivenciou como membro e obreiro. Dos estudos da sua própria igreja local, Moab expandiu suas análises para os Ministérios nacionais.

A tese, é um amplo retrato da transição histórica das AD nas últimas décadas. Leitura obrigatória e instigante em todos os sentidos. 

Tese disponível

https://drive.google.com/file/d/1nMUxh2MoAJ1YnaDC4klPJHTH3cDSU9Xl/view

https://drive.google.com/file/d/1nMUxh2MoAJ1YnaDC4klPJHTH3cDSU9Xl/view e apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS, como requisito parcial para obtenção do Título de Doutor em História. São Leopoldo 2017.