quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Catedral de Madureira - versões e controvérsias

O imponente templo da AD em Madureira, atualmente é patrimônio histórico da cidade do Rio de Janeiro. Desde o lançamento da pedra fundamental da majestosa construção, até sua inauguração, no dia 1º de maio de 1953, foram cinco anos de intensos esforços por parte de todo ministério.

Se avaliarmos as dimensões da catedral e os detalhes que ornamentam a construção; o período total de cinco anos de constantes trabalhos, pode ser considerado um recorde. Só para lembrar: o templo da AD no Ipiranga (SP), que também possui estilo gótico em sua arquitetura, demorou quase três décadas em construção.

Na história oficial, sempre é destacada a liberalidade dos obreiros e membros, mesmo em um contexto econômico e social delicado. O Brasil lutava contra muitas dificuldades econômicas do pós-guerra, e o perfil social da esmagadora maioria dos membros das ADs, de modo geral, ainda era extremamente humilde.

Um dos sites reproduz as seguintes observações sobre as atitudes dos fiéis: "Muitos irmãos e irmãs, que eram simples trabalhadores e lavadeiras de roupas, 'em meio às muitas provas e tribulações, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade' (2 Co 8.2)".

Coronel Sérgio Marinho e a família Macalão: 1º de maio de 1953

Por outro lado, às críticas eram duras. O templo, luxuoso, ricamente ornamentado e totalmente fora do estilo arquitetônico das demais casas de oração assembleianas (vide caso da AD em São Cristóvão), exigia volumosos recursos financeiros de um povo marcado pelo sofrimento e descaso das autoridades públicas.

Naquela época, Paulo Macalão já mantinha estreitas ligações com políticos polêmicos. É fato, que o pastor de Madureira era amigo do governador de São Paulo, Adhemar de Barros, famoso pelo slogan "rouba, mas faz". Com amigos suspeitos na política, e comandando uma obra exótica para os padrões das ADs, Macalão virou uma vidraça perfeita para à imprensa carioca.

Segundo o jornal Gazetas de Notícias (RJ), o pioneiro pentecostal, aproveitava-se do cargo para explorar "assustadoramente as economias de seus próprios discípulos", numa clara referência ao esforço de arrecadação para o término das obras do templo. 

O periódico ainda atacava o pastor, denunciando suas amizades no mundo da política e o estilo de vida luxuoso que, supostamente, o líder carioca desfrutava, em contraste com a pobreza dos fiéis. Informações essas em parte verdadeiras (afinidades com políticos), e outras (vida luxuosa) nunca confirmadas. 

Assim, às contribuições dos fiéis eram (e são) interpretadas: na história eclesiástica, liberalidade, sacrifício e amor à obra de Deus; na visão secular e de muitos evangélicos, exploração pura e simples dos crentes. Macalão, ainda na década de 1950, vivia seus dias de Edir Macedo, pelo menos em termos de ataque midiático.

Mas, superadas às controvérsias e dificuldades, o templo foi inaugurado no dia 1º de maio de 1953. Desatou à fita inaugural, o Coronel Sérgio Marinho (representando o vice-presidente da República Café Filho). Paulo Macalão não convidou nenhum missionário sueco ou qualquer outra liderança nacional para o ato e sim uma autoridade política. 

Seria somente sinal de autonomia, ou também uma resposta prática às críticas disseminadas contra ele, inclusive algumas por parte do Ministério vizinho? Quem terá essa resposta?

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi. Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

Gazeta de Notícias (RJ), 06/04/1951 - acervo digital da Biblioteca Nacional (RJ).

http://avivamentonosul21.comunidades.net/historia-da-ad-madureira

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Catedral de Madureira - mobilização e milagres

O dia 14 de março de 1948, foi um domingo chuvoso no Rio de Janeiro. Uma forte tromba d'água desabou sobre parte do município, levando muitos ao desespero e trazendo prejuízos aos moradores e comerciantes locais. Pelo menos uma vítima fatal foi contabilizada depois da enxurrada.

Naquela mesma hora (às 16:00), em que a torrencial chuva caia sobre sobre o Rio, o pastor Paulo Leivas Macalão, crentes, banda de música e obreiros de Madureira estavam reunidos em uma cerimônia especial: o lançamento da pedra fundamental do futuro templo sede do Ministério, na Rua Carolina Machado, 174.

O salão de cultos da Rua Borborema já estava pequeno para abrigar o grande número de crentes. A oportunidade para iniciar à construção, veio quando Zélia Macalão viu no jornal o anúncio da venda de um terreno com as dimensões apropriadas para o projeto. Havia ainda um grande atrativo: o lote localizado na Rua Carolina Machado ficava em frente à linha férrea do bairro, ponto estratégico de grande movimentação e visibilidade.

Comprado o terreno, Macalão mobilizou todo o Ministério para o desafio de erguer o templo. Em março de 1948, o lançamento da pedra fundamental, em novembro de 1949, a celebração da festa da cumeeira (costume no qual, quando a estrutura de algum edifício está concluída, é feita uma festa para celebrar a finalização dessa etapa importante da construção).

Festa da cumeeira no templo da AD em Madureira em 1949

Estrategicamente, Macalão aproveitou a proximidade da Convenção Geral, e convidou vários pastores que já estavam no Rio para a festividade. Políticos também se fizeram presentes prestigiando o líder carioca. Todos devem ter se impressionado com o ritmo acelerados dos trabalhos e mobilização dos crentes no projeto de construção.

Nas memórias dos membros, há relatos das grande dificuldades financeiras para a fase de acabamento da obra, mas também, da providência divina. Os vitrais, por exemplo, deveriam ter sido colocados por um vidraceiro francês. Mas a compra e instalação dos vidros eram caras demais. Contudo, um membro da igreja doou sua mão de obra especializada para o serviço.

Para ajudar na colocação dos vidros, o Comandante do Corpo de Bombeiros cedeu à escada da corporação. Andaimes eram montados e desmontados a todo momento para o trabalho do profissional voluntário. Como o vidraceiro só podia trabalhar à noite e a luminosidade era precária, o trabalho foi facilitado por um trem de carga, que ao entardecer ficava parado por muitas horas com os faróis voltados para o santuário. 

Conta-se também, que em busca de água, os irmãos oraram e do porão da igreja jorrou uma fonte. Um milagre necessário para o bom andamento das obras. Não só isso: o amor de muitos crentes que ali trabalharam voluntariamente, oraram e ajudaram de diversas formas para a conclusão das obras.

Mas nem todos viam com bons olhos esse esforço todo. Na versão da história oficial de Madureira, o heroísmo dos seus membros e a providência divina; do outro lado, Macalão sofreria críticas e ataques ao seu ministério. Aguarde!

Fontes:

CABRAL, Davi. Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

Mensageiro da Paz, 1ª quinzena de abril de 1948.

Mensageiro da Paz, 2ª quinzena de janeiro de 1950.

Diário de Notícias (RJ) 06/04/1951 p.8. ano 76. Acervo digital da Biblioteca Nacional.

Obs: muitos dos detalhes da construção do templo, os leitores podem encontrar em vários sites que reproduziram a antiga página virtual da AD em Madureira. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

A Catedral de Madureira - simbolismos e contrastes

Inaugurado com grande festa e pompa no dia 1º de maio de 1953, o templo sede ou a catedral da AD em Madureira, no Rio de Janeiro, segundo o sociólogo Gedeon Alencar, personificava em seu esplendor e imponência, o líder máximo do ministério carioca, o gaúcho Paulo Leivas Macalão.

Alencar, em seu livro Matriz Pentecostal Brasileira, aponta para o simbolismo dos templos da AD em Madureira e o da AD em São Cristóvão. O primeiro com seu estilo gótico, apontava para o conservadorismo de Macalão; o segundo, construído em 1970, com seu prédio de seis andares, dotado de elevador e estacionamento, revelava à modernidade do ministério da Missão.

Citada na extinta publicação Subúrbios em Revista, em 1955, à construção localizada na Rua Carolina Machado, foi descrita como "uma das mais belas obras de arte da Capital da República". A revista ainda informava, que o majestoso templo de Madureira, era uma das maiores e mais belas obras arquitetônicas das Américas e do mundo.


Para o historiador Maxwell Fajardo, enquanto os líderes do Norte/Nordeste enfatizavam o "mito da simplicidade", Macalão por ser de origem social abastada rompia com essas ideias dominantes no meio assembleiano e procurava dar ao Ministério por ele fundado projeção pública e social. Então, as discussões sobre o famoso templo, estavam (e ainda estão) para além dos estilos arquitetônicos. Falam muito da visões ministeriais opostas nas ADs no Brasil.

Na época, o belo e grandioso templo de Madureira, não contrastava somente com as expectativas estéticas dos templos da AD no norte do país. O Ministério mais próximo ao de Macalão no Rio, o de São Cristóvão, no mesmo período, possuía um edifício que ficava muito distante do projeto arquitetônico do pastor gaúcho.

No ano de 1945, à equipe da Revista da Semana, antiga publicação do Rio, visitava às dependências da AD em São Cristóvão. A reportagem descreveu o antigo templo do ministério carioca como um "sobrado cinza", idêntico "a muitos prédios do bairro". Internamente, notaram os jornalistas do periódico que "O templo é simples, de paredes nuas, sem requintes de arte ou florões de luxo."

Não dá para evitar comparações históricas e estéticas com Madureira, quando o jornalista registra o seguinte: "Não se nota aqui aquela grandiosidade constrangedora nos abate e nos oprime quando visitamos as velhas catedrais. Tudo é singelo e natural." Nada no templo em São Cristóvão em 1945, pelo menos na arquitetura, lembra o de Madureira em 1953, a não ser pela identificação: Assembleia de Deus.

Em Madureira, os vitrais, cujos desenhos lembram o Dia de Pentecoste com suas línguas de fogo reproduzidas nos vidros vermelhos; as flores estampadas no teto e paredes; e o piso com desenhos caprichados, era (e é ainda) a pompa e o fausto. Na AD em São Cristóvão, as paredes nuas, sem imagens coloridas, tudo era simples e claro. "O templo é amplo, mas sua estrutura arquitetônica, como todo o mobiliário, não apresenta retoques de luxo" - observou a Revista da Semana.

O contraste entre as sedes dos Ministérios era evidente. Mais uma vez, Macalão demonstrava seu perfil diferenciado nas ADs e, é claro, que tamanho luxo e imponência gerou muitas críticas dos opositores de Macalão. Por outro lado, na história assembleiana há relatos de verdadeiros milagres ocorridos durante o tempo da construção. 

Narrativas que serão relembradas na próxima postagem.

Fontes:

ALENCAR, Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus 1911-2011, Rio de Janeiro: Ed. Novos Diálogos, 2013.

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

CABRAL, Davi. Assembleia de Deus: A outra face da história. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Betel, 2002.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Editora Prismas, 2017.

Revista da Semana. Rio de Janeiro, ano XLVI - nº 28 - 14/07/1945. pág.11-17, 50.

SUBÚRBIOS EM REVISTA. Rio de Janeiro. Ano VII. nº 78. Set.1955.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Plano Divino através do séculos - clássico do pentecostalismo

Em um tempo em que o ensino teológico formal era uma aberração nas ADs, o missionário norte-americano Nels Lawrence Olson publicou, em 1956, o livro O Plano Divino Através dos Séculos, o qual, tornou-se uma grande fonte de pesquisa, e posteriormente, livro-texto em vários seminários e institutos bíblicos.

Clássico da literatura teológica pentecostal, O Plano Divino Através dos Séculos, ultrapassou a 25ª edição e vendeu mais de 100 mil cópias. Na obra, Olson faz uma descrição detalhada da ação de Deus através dos tempos, seguindo a linha da escola de pensamento teológica conhecida como dispensacionalismo. 

Acompanhando o livro, havia um mapa ilustrado que servia de apoio didático para a ministração dos estudos sobre as dispensações. Num tempo de índices alarmantes de analfabetismo, o mapa era um poderoso instrumento para a compreensão das teorias expostas por Olson em suas mensagens e estudos. Muitos obreiros, seguindo o exemplo do missionário, realizavam estudos com o auxílio do mapa nas congregações.


Pastor Nirton do Santos ensinando o Plano Divino Através dos Séculos

Assim, a teologia da dispensações foi popularizada por todo o Brasil dentro das ADs. Mas vale ressaltar, que esse modelo interpretativo da Bíblia também era pregado por Samuel Nyström e JP Kolenda em suas preleções. O estudo das dispensações também era popular nos EUA nessa época, e por muitas anos dominou o cenário teológico nas ADs e outras denominações pentecostais.

Dentre tantos questionamentos sobre os estudos do Plano Divino, duas questões controversas podem se destacar: uma relacionada ao mundo espiritual e outra de sentido legal (da lei). Na questão mística, Olson defende a distinção entre anjos caídos e demônios. Para ele, os anjos caídos possuíam "corpo espiritual", enquanto que os demônios não. Por esse motivo, nos relatos bíblicos os demônios sempre buscam corpos para habitar.

Na área legal, o famoso missionário defendia à pena de morte, ou simplesmente não adaptou o texto que retratava a realidade estadunidense para a brasileira, pois no Brasil, desde à implantação da República, à pena capital nunca foi utilizada oficialmente. 

A defesa do instrumento jurídico é analisada nas condições da aliança divina com o homem depois do Dilúvio, na chamada Dispensação do Governo Humano, o autor destaca a ordem divina "Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu" (Gn 9.6).

Na sequência, há críticas sobre determinadas pressões de cristãos para o fim da pena capital. Essa atitude (de tentar abolir a pena de morte) seria de "crentes mal informados", pois Deus só trata com misericórdia àqueles que aceitam sua graça. Aos que rejeitam à graça e vivem na prática dos crimes é a aplicação severa da lei. Somente "o medo da morte" é o "freio" do homem sem Deus - conclui Nels Olson.

Mesmo com o sucesso do livro e suas várias reedições, essas idéias não chegaram a influenciar tanto nas pregações dos obreiros nativos. Sabe-se, por exemplo, que nas prisões há um intenso trabalho de evangelização por parte das igrejas. Caso a pena de morte fosse aplicada com rigor, menos convertidos fariam parte das congregações nos presídios.

Após seis décadas de sua primeira publicação, O Plano Divino Através dos Séculos ainda é referência para muitos ensinadores. Outra questão também pode ser refletida ao relembrar a obra: a influência contante dos autores norte-americanos no pentecostalismo no Brasil. Basta pesquisar os catálogos das editoras nacionais.

Com a palavra os entendidos da área...

Fontes:

ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.

DANIEL, Silas, História da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Os principais líderes, debates e resoluções do órgão que moldou a face do movimento pentecostal brasileiro, Rio de janeiro: CPAD, 2004.

OLSON, Nels Lawrence. O Plano Divino através dos séculos. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.

revista.faculdadeunida.com.br/index.php/unitas/article/download/429/361

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O serviço das irmãs nas igrejas

O serviço das irmãs nas igrejas - esse foi o título de um texto publicado no jornal Boa Semente em outubro de 1929, em Belém do Pará. O artigo na verdade, era um resumo de um livro chamado Linhas de direção do despertamento pentecostal. Não há maiores informações sobre a obra, somente que o tal livro era de uma "convenção pentecostal em Berlim".

Samuel Nyström era o responsável pelo periódico, e o objetivo da publicação era claro: defender sua posição contrária ao ministério feminino na igreja, pois no Rio de Janeiro, o pioneiro Gunnar Vingren pensava justamente o oposto do conterrâneo sueco. O assunto dividia (e ainda divide) os líderes das ADs, e as divergências se arrastaram durante meses.

No livro da História da CGADB (CPAD:2004), Silas Daniel informa sobre as trocas de cartas entre Nyström e Gunnar Vingren discutindo essa questão. As correspondências foram trocadas em setembro de 1929. Em outubro, o Boa Semente repercutindo as desavenças entre os pioneiros publicou o texto sobre o trabalho das irmãs na igreja. Em novembro, Nyström e Vingren se encontraram no Rio de Janeiro para tratar do caso, mas não chegaram a um acordo. Samuel, ainda em novembro, acompanhado de Daniel Berg e Simom Lundgren, tentou impor seu ponto de vista a Gunnar, porém, sem sucesso.

O resultado de tantas idas e vindas já é conhecido. A Convenção Geral de 1930, tentou colocar as irmãs em seu devido lugar. Mas Frida Vingren continuou seu ministério no Rio, até que em 1932 voltaram à Suécia.

Para conhecimento e reflexão do tema, segue o fragmento do Boa Semente com o texto O serviço das irmãs nas igrejas. Como de vez em quando o tema volta à baila, ainda mais com a criação da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), é bom ler e reler o documento publicado num momento tenso da história das ADs no Brasil.